Pai e Filha

pai e filha 1Asas do Desejo (1987), de Wim Wenders, conta uma bela história de renúncia da imortalidade pela graça e desgraça de ser, existir e amar no mundo, viver a sua própria história, com todos os inevitáveis altos e baixos. Nos créditos finais, o diretor dedica o seu filme a alguns cineastas que ele se refere como “former angels”, dentre estes Yasujiro (Ozu).

Ozu pertence a uma categoria rara de artistas. E, mesmo dentre estes, não há ninguém que possua a curiosidade franca, a empatia, o gosto e o amor que o autor de Late Spring tem pela vida, pelo ser (humano), pelo mundo.

pai e filha 2A poesia de Ozu é a poesia de um encanto, como o encanto no olhar de uma criança que vai descobrindo a vida, o ser, o mundo. Mas não o subestimemos. Yasujiro não é ingênuo, e, por trás do singelo drama familiar em Late Spring, agita-se um conflito social entre gerações (no qual, curiosamente, a jovem Noriko representa valores tradicionais; e o seu pai, valores progressistas – o mundo “caduco”, já dizia o poeta Drummond).

Além disso, as fissuras abertas pela 2a Guerra Mundial ainda se fazem fortemente presentes na memória (estamos aqui em 1949), e o cineasta faz questão de pontuar seu filme com diversos signos avassaladores da ocupação norte-americana.

pai e filha 3O cinema de Ozu é de uma realização profundamente litúrgica; porém, desprovida de qualquer elemento hierárquico-institucional, ou metafísico (ao contrário do outro “former angel” Andrei Tarkovski). É um cinema de reverência ao ser humano. A posição baixa e fixa da câmera ao contemplar os gestos e as interações das pessoas atesta essa veneração.

A arte de Yasujiro Ozu nos torna melhores. Torna o mundo melhor. Não por alguma idealização reacionário-romântica. Mas porque nos faz querer ser melhores e melhorarmos o mundo ao redor. O potencial transformador está dado. Os filmes de Ozu são testemunho.

Columbus

hero_Columbus-2017Em Meu Tio (“Mon Oncle”, 1958), o grande Jacques Tati edifica uma decupagem de precisão exata, plano a plano. O acabamento é uma sutil, porém aderente, camada de ironia com a qual o cineasta busca erodir a falácia do Modernismo: na arquitetura, na decoração. As gags concentram-se em escancarar a desconfortável e constrangedora incompatibilidade entre o frio design do século XX e o corpo-ser humano.

Em Columbus (idem, EUA, 2017, dir.: Kogonada), o jovem Jin (John Cho) conta para a ainda mais jovem Casey (Haley Lu Richardson) que o seu pai, um renomado arquiteto e professor, acredita em um “modernismo com alma”. E Kogonada, em sua estreia na direção, recorre a uma decupagem precisamente calculada para extrair – como leite de pedra – alguma alma a partir da arquitetura modernista.

columbus-architectural-stills_dezeen_2364_col_2-852x461E consegue. Logicamente, o rigor da fotografia e da montagem aqui não será o de Tati, mas o de Ozu. A câmera na altura de uma pessoa sentada sobre os joelhos à maneira oriental (cinema-reverência); os enquadramentos dentro do plano: um jogo de correspondências entre linhas, ângulos em 90º, molduras, representando o próprio estilo moderno presente nas edificações que igualmente enquadram a história.

História bastante sensível (mais uma vez, Ozu) que é a do não-amor entre Jin e Casey. Ele está passando, a contragosto, uma temporada na pequena cidade de Columbus (Indiana, EUA; considerada “Meca” da arquitetura), para acompanhar a progressão do estado de saúde do pai, com o qual não possui boas relações. Ela trabalha na biblioteca da cidade e cuida da mãe, usuária de crack em recuperação.

columbus-architectural-stills_dezeen_2364_col_0-852x461Ele abandonou a graduação. Ela possui grande talento para a arquitetura, mas se recusa a abandonar a mãe em Columbus para estudar em alguma universidade. O filme acompanha, com rica sensibilidade, os passeios e conversas deste quase-casal, conforme vão se conhecendo e se conectando mais a fundo, emoldurados pelas impressionantes obras arquitetônicas da cidade.

O cinema já foi considerado a maior das artes, por ser entendido como a síntese entre todas elas. E, de fato, há filmes-pinturas, filmes-sinfonias, filmes-poemas. Mas um… filme arquitetônico? Entre o desenho calculado na prancheta e o desenho calculado no set (e na ilha de edição), Kogonada preenche de sensível intencionalidade o estruturalismo e o funcionalismo que inovaram e envenenaram a arte (qualquer que seja) moderna.