State Funeral

Toda e qualquer imagem cinematográfica é uma construção histórica e social, uma produção invariavelmente ideologizada. Não dá mais para crer, acriticamente, na ontologia da imagem de André Bazin. 

Alguém poderia argumentar, defendendo o mestre francês, que o discurso cinematográfico utiliza como instrumento uma máquina que nos aproximaria relativamente do que seria a realidade em si, em comparação ao discurso literário ou pictórico, por exemplo. O discurso do cinema seria menos depurado, digamos assim, a partir dos dados “brutos” captados pela câmera.

Mas a “captação” promovida pela câmera não nos remeterá a alguma “realidade” verdadeira, pura. Apenas desvelará outros construtos histórico-sociais, outras produções discursivo-ideológicas. Isso já contribui bastante para a grandeza do Cinema.

E o mais surpreendente e fascinante é quando a câmera capta, irremediavelmente, dados que remetem a discursos diametralmente OPOSTOS à intencionalidade que guiou a produção daquelas mesmas imagens em primeiro lugar. Isto causa um efeito particularmente interessante (e potencialmente devastador) no documentário, quando às vezes pequenos detalhes dentro de algumas imagens DESMENTEM o filme como um todo, desmontam todo o seu esforço persuasivo, escancaram tensões e põem em choque diferentes forças políticas, visões de mundo inconciliáveis.

Sergei Loznitsa não precisa dizer mais nada, não precisa tecer comentário algum. O documento histórico em formato audiovisual fala por si só.

Em State Funeral, o cineasta ucraniano Sergei Loznitsa faz um aproveitamento genial deste aspecto malandro do cinema. Este longo filme (mais de duas horas de duração) é composto exclusivamente por imagens de arquivo que documentam em película, oficialmente, o funeral do ditador soviético Joseph Stalin.

A esmagadora maioria dessas imagens mostram as multidões que ouvem em auto-falantes públicos os anúncios oficiais da morte do Grande Irmão, ou assistem aos pronunciamentos dos chefões do Partido na Praça Vermelha em Moscou, ou ainda se aglomeram em filas quilométricas para ver o cadáver em exibição.

Não precisa ser explicitada a intencionalidade, por parte do Partido, em querer que essas imagens expressem a terrível dor da “perda” que acomete o povo soviético, assim como acomete os seus líderes (e aparece explícita nos emocionados discursos elegíacos deles).

No entanto, o que vemos na tela (e esta é a intenção evidente de Loznitsa: o filme termina com um posfácio que aponta os crimes genocidas de Stalin) é que pouquíssimos indivíduos, dentro de todas as multidões filmadas, demonstram, em seus gestos ou expressões faciais, qualquer sinal de emoções causadas por luto. São raríssimas as exceções.

A maioria das pessoas simples do povo que aparecem na tela estão com uma cara de:

1. Só vim aqui porque pegaria mal se não viesse (a mesma cara que todos nós fazemos em tantos eventos e cerimônias sociais);

2. Estou aqui porque está todo mundo aqui, é claro (a importância de ver e ser visto);

3. Estou aqui porque este é o “rolê” de hoje, melhor do que ficar em casa.

Lembrei aqui do circo midiático que se armou no julgamento dos Nardoni e da multidão que ficava plantada na porta do fórum só para curtir o rolê.

Sergei Loznitsa não precisa dizer mais nada, não precisa tecer comentário algum. O documento histórico em formato audiovisual fala por si só.