Poética do Cinema: a metáfora

o balão vermelho - albert lamorisse

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Deixo com vocês o vídeo sobre a metáfora cinematográfica, com alguns complementos em texto que não foram incluídos na gravação. Bom proveito! Cuidem-se e cuidem uns dos outros!

Sergei Eisenstein e outros teóricos vanguardistas se apegavam bastante à ideia de metáfora no cinema como analogia entre planos, principalmente se um deles (a imagem metafórica propriamente dita) for não-diegético; isso cai como uma luva para as propostas políticas do cinema eisensteniano. Mas, para fora do círculo dos formalistas, essa definição mais engessada nunca recebeu muita atenção.

No geral, os teóricos e estudiosos do cinema não se preocupam em definir metáfora de maneira muito particular para a sétima arte. Quando precisam falar de metáfora nos filmes, acabam recorrendo mais aos velhos conceitos da literatura (estética) e da retórica (argumentação): assim, metáfora seria apenas “dizer algo para significar outra coisa” (com um termo necessariamente em sentido figurado).

Isso soa muito genérico para quem quer realmente analisar filmes. Contudo, mais recentemente (anos 1990 em diante), têm surgido alguns estudos mais específicos, com definições mais detalhadas e aprofundadas. Por exemplo, Charles Forceville fala em 4 tipos de metáforas nos filmes:

1. contextual: o sentido é dado apenas no contexto visual do que é mostrado na tela (o galinheiro como campo de concentração em “Fuga das Galinhas”);

2. híbrida: quando uma coisa se transforma, literalmente, em outra (o deus-máquina Moloch em “Metrópolis”);

3. símile: uma imagem justaposta à outra, sem manipulação (a analogia tradicional entre planos);

4. técnica: uma imagem relacionada à outra através da mesma técnica de representação (ângulo ou movimento de câmera, filtro de cor, técnica de edição etc.).

Segundo o mesmo autor, também é possível classificar as metáforas fílmicas em monomodais (utilizando uma só mídia, por exemplo, a imagem visual), ou multimodais (combinando diferentes mídias: imagem e som, por exemplo).

Outra possibilidade, ainda, é:

1. metáfora criativa / por semelhança: uma coisa concreta significando uma coisa abstrata (por exemplo, as viagens nos “road movies” significando as “jornadas” da vida e da alma: “coming of age” etc.);

2. metáfora primária / por correlação: uma coisa concreta significando outra coisa concreta (o olho de Janet Leigh sobreposto ao ralo da banheira em “Psicose”).

Enfim, há outras ideias igualmente interessantes para quem quiser se aprofundar. Hoje em dia, a metáfora no cinema é estudada principalmente pelos teóricos cognitivistas, como Charles Forceville e Nöel Carroll. Para eles metáfora não é apenas uma “figura” de linguagem, mas todo um verdadeiro modo de pensamento e compreensão.

Uma Vida Oculta

a hidden life 2Após A Árvore da Vida (“The Tree of Life”, 2011), verdadeira obra-prima, a delicada poesia de Terrence Malick vinha se deteriorando no contato com o ar insalubre da banalidade. Amor Pleno (“To The Wonder”, 2012) e Cavaleiro de Copas (“Knight of Cups”, 2015) traziam o risco de que o peculiar estilo do diretor, que vinha sendo pacientemente depurado em longas-metragens bastante esparçados desde 1973, acabasse em um molde de cacoetes sem maior pertinência do que a poesia de salão.

Mas eis que Uma Vida Oculta (“A Hidden Life”, 2019) promove uma bem-vinda – e esperamos duradoura – correção de curso. Aqui, a solenidade metafísica da direção de Malick encontra um fundo muito significativo na história real do austríaco Franz Jägerstätter, católico sensível que se recusou a servir no exército do Terceiro Reich, pagando com a própria vida pela objeção de consciência. Beatificado pelo papa Bento XVI em 2007, o seu martírio é contado por Malick no tom edificante da hagiografia.

a hidden life 3Todas as marcas estilísticas do cineasta contribuem para esse efeito: a fotografia em lente grande-angular que destaca a grandeza sublime dos espaços naturais (Jägerstätter era um pequeno agricultor dos Alpes), os movimentos fluidos de câmera que registram em tom memorialista o caráter idílico do cotidiano familiar (antes que a catástrofe se abata sobre todos), a voz em off que narra, descreve e comenta os acontecimentos (extraída de cartas trocadas entre o protagonista e sua esposa, estando este preso à espera de julgamento).

Ademais, é de extrema urgência que essa história seja relembrada em 2020, quando sofremos, uma vez mais, a ameaça de metástase da barbárie (ainda que esta receba, hoje, outros nomes e faça outras vítimas, para além da ascensão do neonazismo propriamente dito, no Brasil e no exterior). Quando muitos usam o nome do cristianismo para defender e praticar as piores ignomínias, é preciso recordar o episcopado austríaco, que, às vésperas da anexação, saudou o nacional-socialismo como libertador da “ameaça bolchevique”.

a hidden lifeO espantalho “vermelho” leva, ontem e hoje, muita gente pia a abraçar o próprio capeta, sem maiores crises de consciência. E é preciso recordar, sobretudo, a objeção de consciência do beato Franz Jägerstätter, ao assistir – compulsoriamente – a filmes de propaganda nazista (jamais esquecer o papel das mídias, especialmente as audiovisuais, na marcha da barbárie) e compreender que os “heróis” não são os invasores, saqueadores e genocidas (sob o discurso de estarem “defendendo” a própria pátria, raça, família).

Heróis são os outros, que de fato defendem suas terras, famílias, vidas, contra o “poder cego de todos os coletivos” (Adorno). A extrema inversão de valores que acusa o fanatismo totalitário é combustível dramático para as grandes histórias de martírio no cinema, desde A Paixão de Joana D’Arc (1928), de Carl Th. Dreyer, até este mais recente Malick. E, como toda grande obra de arte, alcançam verdadeira epifania quando revelam sentidos e grandeza para além de si mesmas, mesmo que jamais mudem “o curso da guerra”.