A Vida Invisível

Invisibilidade ofuscante

(Texto sem spoilers)

a vida invisivel 1Dizer que A Vida Invisível é um filme de disjunções, de desencontros, de pólos irremediavelmente opostos seria uma banalidade. O que realmente tensiona esta grande realização de Karim Aïnouz e provoca um efeito muito inquietante que se dilata na subjetividade do espectador por longo tempo depois poderia somente ser definido – talvez – no formato de oxímoros: uma proximidade distante, um distanciamento próximo.

A angústia provocada por tais vínculos paradoxais tem o seu epicentro localizado num advérbio: quase, estabelecendo uma relação de intensidade que tensiona os elos de espaço e tempo colocados pelo roteiro e pela mise en scène (o plano-sequência do restaurante é Cinema de primeira grandeza como raramente se vê e merece ser dissecado em todas as escolas de audiovisual).

a vida invisivel 2As produções de arte mais conscientes costumam apresentar múltiplas camadas de significação, que ressoam umas nas outras, amplificando-se mutuamente em uma polifonia que almeja alcançar os recônditos mais entranhados da intimidade do receptor (leitor, espectador, ouvinte), caracterizando o melhor da experiência artística. N’A Vida Invisível (de Eurídice Gusmão – segundo o título original) não será diferente.

A dialética do quase amarra aqui dois termos: o psicológico / intimista (na grande tradição literária moderna de Virgínia Woolf, Clarice Lispector, Helena Morley) e o social / crítico (as narrativas neorrealistas de classe e, mais contemporaneamente, as histórias identitárias de gênero, etnia, nacionalidade etc.). As vidas das irmãs Eurídice e de Guida, se nos revelam algo, é o quanto é difícil pertencer ao gênero feminino neste mundo. Ser mulher.

a vida invisivel 3E o que é particularmente cruel neste filme de Aïnouz (penso, aqui, na linha do cinema da crueldade de Bazin), a partir da construção narrativa e da experiência do espectador, não é tanto que as mulheres estejam absolutamente apartadas de qualquer posição social em que possam existir com liberdade e autonomia (fato histórico-social abjeto, mas banal – com todo o risco, advindo daí, de baixarmos a guarda de nossa empatia e indignação).

O que se expressa com contundência quase sádica são as histórias e vivências particulares dessas duas mulheres que chegam quase a tocar – ou mesmo tocar brevemente – seu próprio ser e existência devidamente autoapropriados, apenas para serem arrancadas de si (e uma da outra) e puxadas de volta à obliteração patriarcal com uma violência e urgência que são as marcas vergonhosas da nossa desumanidade. Sim, nós, homens.

a vida invisivel 5Ainda dentro dessa lógica do quase, que estrutura o filme desde o começo (a cena de introdução: Eurídice e Guida que quase se perdem uma da outra na Floresta da Tijuca), o reconhecimento (anagnórise aristotélica) que se opera no final da história é a chave de ouro trágica que define o conjunto e assenta as camadas sedimentares de sentido. Não sem deixar fortíssimas ressonâncias emocionais a serem processadas pelo público.

Dizer que A Vida Invisível move-se pelas fórmulas consagradas do melodrama familiar e histórico de extrato hollywoodiano – e que, por isso mesmo, vem recebendo premiações internacionais e é alvo de campanha pelo Oscar – seria outra banalidade. A transparência de sua mise en scène apenas reforça o princípio constitutivo paradoxal do tão longe, tão perto, principalmente no que se refere à edição.

a vida invisivel 4Executando a forma mais clássica da montagem invisível, Karim Aïnouz cria o potente e aflitivo efeito de engendrar pontes retesadas entre planos e sequências abismais: veja-se o corte seco que secciona e conecta, tão repentinamente, o segundo e o terceiro ato do filme. Graças a tais dinâmicas entre o quase, a invisibilidade e o desaparecimento (fala de Dircinha no segundo ato), o Cinema – e as mulheres – se revelam com toda a força em A Vida Invisível.