Joias Brutas

uncut gems 2Um dos elementos definidores da tragédia ou da comédia clássicas é a absoluta inconsciência do protagonista a respeito do sentido completo (total, abrangente) das suas ações. Daí os seus “erros” e a irremediável insistência neles, o que provocará, no espectador, o sentimento propriamente trágico (a compaixão) ou cômico (o riso). O horizonte perceptivo / cognitivo desse tipo de (anti-)herói é sempre vergonhosamente (para nós) mais restrito do que o nosso, enquanto espectadores.

Assim, o sentido real (objetivo) das suas ações, do seu caráter (do “herói” e das suas decisões) e do seu mundo se encontra desbloqueado e acessível somente para o espectador – a partir de uma intencionalidade autoral evidente, explícita ou implícita, por parte do dramaturgo (ou roteirista / cineasta). Para tanto, é claro, precisamos manter algum distanciamento “crítico”: a identificação plena com o personagem e a adesão irrestrita às suas escolhas só fazem por desbaratar a dimensão trágica ou cômica.

A força de Joias Brutas (“Uncut Gems, EUA, 2019, dir.: Benny e Josh Safdie) e do próprio cinema dos irmãos Safdie, conforme igualmente demonstrada no seu longa anterior, Bom Comportamento (“Good Time”, 2017), vem justamente desses elementos estruturantes que dotam de sentido a dramaturgia mais clássica, para cuja expressão aqui concorre o melhor virtuosismo cinematográfico: uma tensão, na montagem e na trilha sonora, que deixa o espectador no limiar da síncope que imaginamos para o protagonista, a todo momento.

uncut gems 3Howard Ratner (Adam Sandler) é um personagem carismaticamente abominável: mais do que o seu verdadeiro caráter (asqueroso, sob quaisquer valores), é particularmente repugnante a imagem que ele faz de si próprio, pois não parece ser daquele típico malandro, cujo cinismo se faz de máscara para conquistar e influenciar; o negociante de joias parece realmente acreditar no sentido “elevado” de suas recorrentes trapalhadas e lamenta desesperadamente, como um Jó burlesco, os invariáveis efeitos negativos delas.

Os irmãos Safdie, logicamente, brincam muito com isso e tensionam ao máximo as possibilidades de identificação e adesão dos espectadores para com esse marmanjo infantiloide, manipulador, mentiroso, mesquinho aos extremos e impecavelmente autoindulgente. Sabemos o destino que esse lowlife merece; mesmo assim, torcemos por ele a cada passo, sempre esperando que seja o “último”, que ele não seja realmente “mau”, que apenas precise agir dessa maneira para conseguir o score final e voltar a ser o bom cidadão e pai de família.

Mas Howard Ratner é de caráter irremissivelmente vicioso. E não demonstra ter a menor consciência disso, em momento algum. Auto-consciência, auto-correção e redenção estão muito, mas muito além do alcance dele, e é daí que vem a sua dimensão, não trágica, mas cômica, no sentido das comédias satíricas greco-romanas, ou das farsas medievais. Mas esse é um sentido a ser dado pelo espectador que, repetimos, não se identificar totalmente com esse idiota (no sentido etimológico do termo).

uncut gems 1Com o distanciamento necessário, o espectador será capaz de dotar até mesmo de sentidos alegóricos a história de Ratner: Uncut Gems poderia ser um cautionary tale, ou uma versão judaica dos autos do teatro católico medieval (o perigo de se cair em adoração pelos “bezerros de ouro”). Em uma chave dramática, o cinema clássico já enveredou por esses caminhos em O Tesouro de Sierra Madre (EUA, 1948, John Huston). De qualquer maneira, a gema bruta do título não é apenas um mcguffin.

A abissal desproporção entre a imensidão da verdade moral (o sentido completo, apreensível apenas pelo espectador) do caráter de Howard e da sua história, e a percepção digamos umbilical que o mesmo protagonista tem de si e de todas as coisas ao redor é o que, no fundo, estrutura e tensiona todas as cenas, mais do que o próprio espectador percebe na superfície: as já referidas montagem e trilha sonora, que, na realidade, operam como reforço sensorial da tensão de ordem alegórica que compõe a alma do filme.

Sem nunca abrir mão do humor sutil, mas cruel e profundamente corrosivo, os irmãos Safdie deixam patente essa oposição já na abertura, que nos faz “viajar” (travelling) adentrando a pedra opal bruta, em sua miríade de cores psicodélicas que se transformam, em seguida, no próprio cosmo (jogando com a expressão popular, segundo a qual se pode ver o universo dentro de uma opal) para, finalmente, metamorfosear-se no canal retal de Howard, por onde a câmera sairá “de marcha ré”. A lição está dada, logo de cara (ou de bunda).