Never, Rarely, Sometimes, Always

NEVER RARELY SOMETIMES ALWAYSEm primeiro plano, vemos mãos (femininas) que levantam a blusa de um ventre (igualmente feminino), passam gentilmente em sua superfície um pouco de gel e encostam o aparelho de ultrassonografia. Esse ventre está cheio de hematomas bastante escuros, provocados por pancadas cuja violência já tínhamos testemunhado explicitamente em cena anterior. Não há qualquer diálogo ou trilha sonora. Somente a intensidade expressiva do gesto.

Esse momento único de cinema puro (palavra sempre perigosa de usar, mas uso-a mesmo assim), em que a realidade nua e bruta assoma aos nossos olhos com o gigantismo avassalador do close-up, sem nos dar qualquer opção de desviar a atenção (apenas fechar os olhos mesmo), é a grande força de Never, Rarely, Sometimes, Always (EUA / Reino Unido, 2020, dir.: Eliza Hittman).

Never, Rarely, Sometimes, Always 2Força classicizante, e não é à toa que o filme venceu, em Sundance este ano, o prêmio de “Neorrealismo” (U.S. Dramatic Special Jury Award). Ganhou também o Urso de Prata em Berlim (Grande Prêmio do Júri). É o terceiro longa-metragem da cineasta Eliza Hittman e o estudo de personagem empreendido aqui tem ressonâncias significativamente potencializadas pelo olhar feminino da diretora e roteirista.

A proximidade do ponto de vista faz com que a história acompanhe a situação de violência contra a mulher, gravidez indesejada na adolescência e aborto antes com o olhar atento do testemunho e a disposição do ouvir com atenção a vivência alheia (a empatia), do que com a rigidez (e intolerância) do julgamento moral sumário ou das teses prontas – estas últimas fazem do inferno o paraíso das “boas” intenções.

Never, Rarely, Sometimes, Always 1A câmera-olho de Hittman apenas acompanha a jovem protagonista na difícil jornada, em demonstração solidária da sua presença reconfortante, assim como a (única) amiga dela quase sempre em cena. E isso já é tudo. Não precisa de mais nada. Apenas o testemunho silencioso – a voz é a da personagem, sempre, a única que interessa (a própria trilha sonora é quase inexistente, e quando aparece, são poucas notas para leve ambiência).

A imagem fixa no rosto de Autumn (Sidney Flanigan), durante a quase totalidade da difícil entrevista na clínica de aborto, é como se disesse, fraternal: “eu estou aqui, com você, tá?” E a panorâmica ao longo do corpo da jovem, deitada na mesa cirúrgica para o procedimento, terminando por revelar que todos na sala – médica, assistentes e enfermeiras – são mulheres, compõe uma cena de um neorrealismo intenso, sensível, significativo.

Enfim, seria fácil desprezar Never, Rarely, Sometimes, Always como um filme-tique da estética indie norte-americana. Ou como um filme “de mulheres” (consequentemente, “para mulheres”). Basta lembrar a condescendência com que Adoráveis Mulheres da Greta Gerwig foi recebido por parte considerável – e prestigiada – do público crítico masculino nos próprios EUA. Mas não faça isso. Apenas. Sejamos melhores.

Jojo Rabbit

Educação e Emancipação

“A exigência que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação. De tal modo ela precede quaisquer outras que creio não ser possível nem necessário justificá-la. (…) Qualquer debate acerca de metas educacionais carece de significado e importância frente a essa meta: que Auschwitz não se repita. Ela foi a barbárie contra a qual se dirige toda a educação. Fala-se da ameaça de uma regressão à barbárie. Mas não se trata de uma ameaça, pois Auschwitz foi a regressão; a barbárie continuará existindo enquanto persistirem no que têm de fundamental as condições que geram esta regressão.” Theodor Adorno, Educação após Auschwitz

jojo rabbit 1A divisão maniqueísta entre os bons e os maus é muito tentadora, à esquerda ou à direita, não importa o ponto do espectro ideológico no qual se encaixe o “juiz”. Reparem que eu não estou falando, aqui, da luta entre o bem e o mal. Escolhi propositalmente os adjetivos bons e maus, porque definir os conceitos é mais simples (ainda que muito complicado, em si) do que categorizar as pessoas – ainda mais crianças – segundo esses mesmos conceitos, desprezando fatores históricos e sociais.

É um consenso bom e verdadeiro afirmar que o nazismo é o mal (não correrei o risco de dizer “foi”). Mas o perigo, como já foi apontado por muitos pensadores de prestígio (Adorno, Harendt), é colocarmos a barbárie nazi-fascista dentro daquela confortável caixinha rotulada como surtos sádicos de pessoas naturalmente maldosas ou incuravelmente psicóticas: “Hitler é um louco, quem o segue é louco também etc.”.

Não que esses fatores não possam entrar em jogo, mas o fato é que a barbárie aconteceu – do jeito e na extensão em que aconteceu – com a nefasta contribuição de motivadores histórico-sociais, para além dos psicanálitico-morais. Esses dados e essa dimensão de análise não podem, em absoluto, ser negligenciados, sob pena de corrermos sério risco de que tudo aconteça de novo – ainda que sob nomes e formas ligeiramente diferentes.

jojo rabbit 4Muitos desses elementos históricos e sociais são profundamente particulares, no sentido em que o nazismo e o holocausto não poderiam ter ocorrido em outro tempo ou outro lugar que não fossem a Alemanha da República de Weimar. Mas outros são de ordem mais abrangente (não correrei o risco de dizer “universal”) e poderiam sim se repetir em contextos diversos que compartilhem das mesmas condições favoráveis básicas.

E nunca é demais enfatizar a dimensão “pedagógica” da barbárie, da cultura que leva à barbárie, o “poder cego de todos os coletivos”, no dizer de Adorno. Hoje se fala bastante em uma necropolítica, mas é perfeitamente possível falarmos também, associada a esta, em uma necropedagogia. Todo ódio é ódio ensinado, torna-se ódio aprendido. E tudo o que é possível aprender, será igualmente possível desaprender.

Os determinismos fatalistas do final do século XIX já caíram por terra faz tempo (não sem antes ajudarem a conduzir o mundo à catástrofe). E é aqui que Jojo Rabbit (EUA / Nova Zelândia / República Tcheca, 2019, dir.: Taika Waititi) contribui de modo exemplar para uma atual e necessária reflexão não somente sobre a barbárie, mas principalmente sobre as condições que a geram e nutrem.

jojo rabbit 3O filme de Waititi pode ser muito duramente criticado sob diversos pontos de vista. É indiscutivelmente legítimo nos perguntarmos qual é o limite de tom com que possamos representar a barbárie – especialmente quando este se aproxima da sátira –, ou se não a devemos representar visualmente de forma alguma, pura e simplesmente – escolha feita por Shoah (1985, Claude Lanzmann).

Mas têm circulado, infelizmente, opiniões bastante rasas e defendidas com tosca virulência, resumidas na frase-feita de que “não existe nazista bonzinho”. É difícil imaginar uma nivelação mais pueril e estéril – descartadas as boas intenções – para um debate ainda urgente (veja-se o câncer do neonazismo crescendo novamente a olhos vistos, por todo o planeta, na sociedade civil, no meio político e nas instituições).

É claro que não existe nazista “bonzinho”. Mas acreditar que tenha sido essa a intenção discursiva de Taika Waititi é de uma obtusidade constrangedora, ainda mais quando demonstrada por supostos conhecedores de cinema. Repito: pode-se reclamar do tom, satírico ou edificante, desta quase parábola – apesar de a parte final do filme produzir algum eco de Alemanha, Ano Zero (1948, Roberto Rossellini).

jojo rabbit 6Mas o fato é que Jojo Rabbit promove uma desconstrução impiedosamente sarcástica da ideologia nazista, incinerando os seus menores elementos constitutivos, particularmente aqueles mais ligados à educação para a barbárie, representada no filme pelo “camping” de treinamento da juventude hitlerista. É ali que nos lembramos das verdades já apontadas pelo filósofo frankfurtiano Adorno, no ensaio “Educação após Auschwitz” – indispensável.

É nesta primeira parte corrosiva que o longa de Waititi demonstra a sua maior força política, antes que mude largamente de tom, passando a se orientar pelo drama na linha de O Menino do Pijama Listrado (2008, Mark Herman). E a própria figura imaginária do “führer”, interpretada por um caricato Waititi (que está longe de servir como exemplo de “raça ariana”), contribui enormemente para esse efeito.

A barbárie é um negócio muito sério. Mas o humor sempre foi uma das mais violentamente eficazes armas para se desmascarar e desmoralizar homúnculos com taras autoritárias: basta ver como eles, até hoje, não conseguem suportar serem alvo da menor piada que seja, em todos os lugares. Charles Chaplin foi, talvez, o primeiro a perceber isso, tomando de volta o bigodinho que Hitler lhe roubara (conforme o clássico insight de André Bazin).

jojo rabbit 2Em Jojo, “Adolf” se torna amigo imaginário do jovem protagonista e lhe dá vários “conselhos” do tipo que esperaríamos, muito logicamente, do autor de Mein Kampf. No entanto, o roteirista Taika Waititi não deixa de nos lembrar, muito consciensiosamente, que a figura se trata tão somente do produto da psique de uma criança vivendo em um ambiente de totalitarismo e de guerra.

Assim, é muito significativo para a economia discursiva do filme (a destruição satírica do ideário nacional-socialista) que “Adolf” ofereça para Jojo conselhos muito bonitos de transformação de fraqueza em força, de “covardia” em coragem e de auto-superação, quando o menino é violentamente excluído do seu grupo hitlerista por não conseguir corresponder ao fanatismo e sadismo cegos que se exigem do gado hitlerista.

Vocês acham, sinceramente, que o próprio Adolf cometeria essa terrível incoerência? Ainda mais depois do acidente que Jojo sofre (sabemos muito bem o que o regime fazia com pessoas portadoras de “deficiência” física). Desse modo, o fato de Waititi colocar na boca do próprio “führer” palavras que simbolizam a mais pura moral do escravo que Nietzsche abominava é uma das mais provocativas ridicularizações que se poderia fazer à barbárie. A de ontem e a de hoje.

Joias Brutas

uncut gems 2Um dos elementos definidores da tragédia ou da comédia clássicas é a absoluta inconsciência do protagonista a respeito do sentido completo (total, abrangente) das suas ações. Daí os seus “erros” e a irremediável insistência neles, o que provocará, no espectador, o sentimento propriamente trágico (a compaixão) ou cômico (o riso). O horizonte perceptivo / cognitivo desse tipo de (anti-)herói é sempre vergonhosamente (para nós) mais restrito do que o nosso, enquanto espectadores.

Assim, o sentido real (objetivo) das suas ações, do seu caráter (do “herói” e das suas decisões) e do seu mundo se encontra desbloqueado e acessível somente para o espectador – a partir de uma intencionalidade autoral evidente, explícita ou implícita, por parte do dramaturgo (ou roteirista / cineasta). Para tanto, é claro, precisamos manter algum distanciamento “crítico”: a identificação plena com o personagem e a adesão irrestrita às suas escolhas só fazem por desbaratar a dimensão trágica ou cômica.

A força de Joias Brutas (“Uncut Gems, EUA, 2019, dir.: Benny e Josh Safdie) e do próprio cinema dos irmãos Safdie, conforme igualmente demonstrada no seu longa anterior, Bom Comportamento (“Good Time”, 2017), vem justamente desses elementos estruturantes que dotam de sentido a dramaturgia mais clássica, para cuja expressão aqui concorre o melhor virtuosismo cinematográfico: uma tensão, na montagem e na trilha sonora, que deixa o espectador no limiar da síncope que imaginamos para o protagonista, a todo momento.

uncut gems 3Howard Ratner (Adam Sandler) é um personagem carismaticamente abominável: mais do que o seu verdadeiro caráter (asqueroso, sob quaisquer valores), é particularmente repugnante a imagem que ele faz de si próprio, pois não parece ser daquele típico malandro, cujo cinismo se faz de máscara para conquistar e influenciar; o negociante de joias parece realmente acreditar no sentido “elevado” de suas recorrentes trapalhadas e lamenta desesperadamente, como um Jó burlesco, os invariáveis efeitos negativos delas.

Os irmãos Safdie, logicamente, brincam muito com isso e tensionam ao máximo as possibilidades de identificação e adesão dos espectadores para com esse marmanjo infantiloide, manipulador, mentiroso, mesquinho aos extremos e impecavelmente autoindulgente. Sabemos o destino que esse lowlife merece; mesmo assim, torcemos por ele a cada passo, sempre esperando que seja o “último”, que ele não seja realmente “mau”, que apenas precise agir dessa maneira para conseguir o score final e voltar a ser o bom cidadão e pai de família.

Mas Howard Ratner é de caráter irremissivelmente vicioso. E não demonstra ter a menor consciência disso, em momento algum. Auto-consciência, auto-correção e redenção estão muito, mas muito além do alcance dele, e é daí que vem a sua dimensão, não trágica, mas cômica, no sentido das comédias satíricas greco-romanas, ou das farsas medievais. Mas esse é um sentido a ser dado pelo espectador que, repetimos, não se identificar totalmente com esse idiota (no sentido etimológico do termo).

uncut gems 1Com o distanciamento necessário, o espectador será capaz de dotar até mesmo de sentidos alegóricos a história de Ratner: Uncut Gems poderia ser um cautionary tale, ou uma versão judaica dos autos do teatro católico medieval (o perigo de se cair em adoração pelos “bezerros de ouro”). Em uma chave dramática, o cinema clássico já enveredou por esses caminhos em O Tesouro de Sierra Madre (EUA, 1948, John Huston). De qualquer maneira, a gema bruta do título não é apenas um mcguffin.

A abissal desproporção entre a imensidão da verdade moral (o sentido completo, apreensível apenas pelo espectador) do caráter de Howard e da sua história, e a percepção digamos umbilical que o mesmo protagonista tem de si e de todas as coisas ao redor é o que, no fundo, estrutura e tensiona todas as cenas, mais do que o próprio espectador percebe na superfície: as já referidas montagem e trilha sonora, que, na realidade, operam como reforço sensorial da tensão de ordem alegórica que compõe a alma do filme.

Sem nunca abrir mão do humor sutil, mas cruel e profundamente corrosivo, os irmãos Safdie deixam patente essa oposição já na abertura, que nos faz “viajar” (travelling) adentrando a pedra opal bruta, em sua miríade de cores psicodélicas que se transformam, em seguida, no próprio cosmo (jogando com a expressão popular, segundo a qual se pode ver o universo dentro de uma opal) para, finalmente, metamorfosear-se no canal retal de Howard, por onde a câmera sairá “de marcha ré”. A lição está dada, logo de cara (ou de bunda).

Melhores filmes de 2019

Não foi uma escolha fácil (na verdade, nunca é): tivemos muitas produções de intenso fôlego artístico neste ano, principalmente no cinema nacional, que viu em 2019 um dos melhores anos da sua história (esperamos que não seja o último). Os grandes filmes brasileiros, hoje, não ficam devendo coisa alguma aos grandes filmes estrangeiros.

Uma brevíssima explicação metodológica: incluí apenas filmes lançados oficialmente por aqui, ou que ainda não têm data prevista de estreia em Pindorama: não vou mais deixar passar experiências fundamentais como A Ghost Story (2017), ou Sorry To Bother You (2018), longamente ignorados pela mão “invisível” do mercado distribuidor neste país.

Segue:

  1. The Souvenir (EUA / Reino Unido, 2019, dir.: Joanna Hogg)

the souvenir

Profundamente intimista, lírico. A câmera assume o olhar da protagonista com intensidade raramente vista, cuja história (trágica) de (primeiro) amor se desenvolve em um crescendo repleto de elipses sutis, cujos significados o próprio espectador deverá construir ao viver junto com os personagens uma tragédia anunciada.

  1. A Vida Invisível (Brasil / Alemanha, 2019, dir.: Karim Aïnouz)

a vida invisivel 2

Escrevi sobre ele aqui.

  1. Atlantique (França / Senegal / Bélgica, 2019, dir.: Mati Diop)

atlantique 2

Escrevi sobre ele aqui.

  1. For Sama (Reino Unido / Síria, 2019, dir.: Waad al-Kateab, Edward Watts)

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Filme mais perturbador deste ano, porque é a própria realidade documentada, escancarada, explícita. A barbárie e o horror mais abjetos: crianças mortas, crianças trucidadas. Por isso mesmo, é uma necessária lição de humanidade, de sensibilidade, de luta e de resistência, contra todo o racismo, a xenofobia e a intolerância religiosa dominantes em 2019.

  1. Bacurau (Brasil / França, 2019, dir.: Kleber Mendonça Filho, Juliano Dornelles)

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Escrevi sobre ele aqui.

  1. Honeyland (Macedônia, 2019, dir.: Tamara Kotevska, Ljubomir Stefanov)

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Documentário e ficção umbilicalmente ligados e alimentados, com grande lirismo e poesia (as analogias visuais, algumas evidentes, outras sutis) pela grande mãe nutridora do Cinema: a realidade. Uma aula de fotogenia e do poder encantatório do cinematógrafo como registro da vida, em si mesma.

  1. Divino Amor (Brasil / Uruguai / Dinamarca / Noruega / Chile / Suécia, 2019, dir.: Gabriel Mascaro)

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A ficção especulativo-distópica que merecemos, neste Brasil de 2019 dominado pelas milícias evangelo-fascistas, narrada pelas mãos de um dos maiores cineastas-poetas da atualidade: Gabriel Mascaro (Boi Neon, 2015; Ventos de Agosto, 2014). O grande hype ignorou solenemente, mas é um dos melhores filmes brasileiros desta safra de ouro.

  1. Monos (Colômbia / Argentina / Países Baixos / Alemanha / Suécia / Uruguai / EUA / Suíça / Dinamarca, 2019, dir.: Alejandro Landes)

monos

Um poema visual em que a amplidão das paisagens dos Andes à Floresta Amazônica contrasta com a angústia e o horror dos corações trevosos dos senhores das moscas. São crianças que fazem coisas horríveis, mas são crianças não obstante. Esse difícil contraste foi magistralmente conduzido por esta pérola de Alejandro Landes.

  1. Se A Rua Beale Falasse (If Beale Street Could Talk) (EUA, 2018, dir.: Barry Jenkins)

Beale Street 1

Escrevi sobre ele aqui.

  1. The Last Black Man in San Francisco (EUA, 2019, dir.: Joe Talbot)

the last black man

Este filme-poema profundamente lírico serve de lição a todos os hipócritas (ou maliciosos mesmo) que relincham em defesa da “propriedade privada”. Se esses safados fossem minimamente honestos, gritariam contra o crime da gentrificação tanto quanto urram contra as supostas ameaças “comunistas”.

  1. Temporada (Brasil, 2018, dir.: André Novais Oliveira)

temporada

Um olhar sensível, empático e de modo algum condescendente (coisa raríssima) direcionado às classes proletárias brasileiras. André Novais Oliveira não cai no perigo da História Única, dos determinismos viciados dos filmes de tese supostamente sociológica, verdadeira praga secular do nosso cinema e da nossa literatura.

  1. Longa Jornada Noite Adentro (Long Day’s Journey Into Night) (China / França, 2018, dir.: Bi Gan)

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Um caldo de influências: David Lynch, Apichatpong Weerasethakul, Orson Welles, Wong Kar-Wai, trabalhadas com equilíbrio e sabedoria, sem desatentar da autoria experimental (particularmente, o uso do 3D). Um dos melhores exemplos, este ano, de uma das grandes vocações (se não a maior) do Cinema: a experiência sensorial.

  1. Ash is Purest White (China / França / Japão, 2018, dir.: Zhangke Jia)

ash is purest

Um filme bonito, no que diz respeito às grandes verdades humanas: o amor. Um filme cruel, no que diz respeito às grandes verdades desumanas: o desprezo, a ingratidão, a toxicidade de gênero). Um filme de protagonista feminina forte. Precisamos de mais, de muitos mais filmes assim. Ainda é pouco.

  1. Nós (Us) (EUA / China, 2019, dir.: Jordan Peele)

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Jordan Peele, mais uma vez, manejando e remodelando magistralmente os códigos do gênero do horror para trazer à superfície – esbofeteando o espectador – o que os donos do poder se esforçam tanto em esconder: o racismo e as desigualdades sociais (a invisibilidade e o ódio de classe puro e simples).

  1. High Life (Reino Unido / França / Alemanha / Polônia, 2018, dir.: Claire Denis)

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Escrevi sobre ele aqui.

  1. Greta (Brasil, 2019, dir.: Armando Praça)

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Escrevi sobre ele aqui.

  1. The Farewell (EUA / China, 2019, dir.: Lulu Wang)

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Para além da emoção e sensibilidade com que é conduzida a narrativa, o paradoxo da epígrafe: “Based on an actual lie” (baseado em uma mentira real, em livre tradução) instaura um inescapável questionamento dos acontecimentos representados da primeira à última cena (na verdade, depois desta, em uma breve inserção não-diegética durante os créditos finais), forçando o espectador a questionar a pertinência de suas reações emocionais de uma maneira mais sistemática e aprofundada do que faz Parasita (Bong Joon-ho). Particularmente, tais reações se referem à escolha bem difícil entre manter uma esperança sem muitas possibilidades de concretização, ou conformar-se de vez à realidade cruel dos fatos.

  1. Estou Me Guardando Para Quando O Carnaval Chegar (Brasil, 2019, dir.: Marcelo Gomes)

Estou Me Guardando Para Quando O Carnaval Chegar 4

Escrevi sobre ele aqui.

  1. Varda by Agnès (França, 2019, dir.: Agnès Varda)

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Uma aula de cinema por uma das maiores cineastas (independentemente de gênero) de todos os tempos, que nos deixou recentemente. Toda a rara sensibilidade, humanidade, inspiração poética e, sobretudo, curiosidade de uma das inventoras do filme-ensaio, gênero cinematográfico que vem despertando bastante atenção teórica hoje em dia.

  1. Parasita (Parasite) (Coreia do Sul, 2019, dir.: Joon-ho Bong)

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Escrevi sobre ele aqui.

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Menções honrosas (sem ranqueamento):

Pássaros de Verão (Pájaros de Verano: Colômbia / Dinamarca / México / Alemanha / Suíça / França, 2018, dir.: Cristina Gallego, Ciro Guerra); Sinônimos (Synonymes: França / Israel / Alemanha, 2019, dir.: Nadav Lapid); Em Trânsito (Transit: Alemanha / França, 2018, dir.: Christian Petzold); As Golpistas (Hustlers: EUA, 2019, dir.: Lorene Scafaria); The Nightingale (EUA / Austrália / Canadá, 2018, dir.: Jennifer Kent); Fora de Série (Booksmart: EUA, 2019, dir.: Olivia Wilde); Luce (EUA, 2019, dir.: Julius Onah); O Irlandês (The Irishman: EUA, 2019, dir.: Martin Scorsese); Um Lindo Dia na Vizinhança (A Beautiful Day in The Neighborhood: China / EUA, 2019, dir.: Marielle Heller); Poderia Me Perdoar? (Can You Ever Forgive Me?: EUA, 2018, dir.: Marielle Heller); Assunto de Família (Shoplifters: Japão, 2018, dir.: Hirozaku Koreeda); Sócrates (Brasil, 2018, dir.: Alexandre Moratto); Peterloo (Reino Unido, 2018, dir.: Mike Leigh); História de Um Casamento (Marriage Story: Reino Unido / EUA, 2019, dir.: Noah Baumbach); Dragged Across Concrete (EUA / Canadá, 2018, dir.: S. Craig Zahler).

Isso aí, galera! Ano que vem tem mais!

High Life

high life 1A cineasta francesa Claire Denis transita com rara desenvoltura entre o abjeto (Bastardos, 2013) e o sublime (35 Doses de Rum, 2008); às vezes, dentro de um mesmo filme (Desejo e Obsessão, 2001). Este último é o caso de High Life (2018, ainda sem previsão de estreia oficial no Brasil). Primeira produção em língua inglesa da diretora, e também seu primeiro longa (nitidamente) de gênero, trata-se de uma ficção científico-especulativa nos moldes do Tarkovski de Solaris (1972), ou de Stalker (1979).

Isto significa, antes de mais nada, que os aspectos mais ligados às ciências exatas (ou naturais) serão reduzidos ao mínimo necessário para efeitos diegéticos, quando muito: a cenografia, por exemplo, seria constrangedoramente tosca se não soubéssemos que o caráter especulativo desse gênero de ficção está mais preocupado em representar e discutir questões de engenharia social, estrutura da psique ou sistemas filosóficos do que engenharia aeroespacial, estrutura da matéria, sistemas de informação etc.

high life 2O desprezo pela verossimilhança física, revelando que o filme opera em outros campos, aparece com um quase atrevimento ao vermos que objetos (e corpos) “caem” para baixo no vácuo do espaço presumivelmente sem gravidade. No entanto, Claire Denis ainda preserva a teoria da relatividade temporal de Einstein, em acelerações próximas à velocidade da luz: provavelmente, por causa das suas implicações psicológico-filosóficas, a levarmos em conta um diálogo que ocorrerá em determinado ponto do filme.

High Life se passa dentro de uma espaçonave-arca “maldita” da espécie humana. Sabemos tão somente que uma “agência” tomou condenados (homens e mulheres) à prisão perpétua ou à morte e os convidou para uma missão – ao que tudo indica – suicida: aproximar-se perigosamente do buraco negro relativamente mais próximo da Terra e coletar dados que permitirão (suposta e futuramente) que se faça aproveitamento da energia massiva que circunda esses corpos celestes.

high life 3O foco narrativo está em Monte (Robert Pattinson), e o filme começa quando toda a tripulação já se encontra morta (por radiação e outras causas que serão esclarecidas ao longo do longa), exceto pelo próprio Monte e por um bebê nascido durante a missão. Duas temporalidades repletas de elipses passarão a se alternar, compondo o restante de High Life: o presente de Monte e da garotinha em crescimento (até que ela atinja a adolescência), e o passado em que o resto da tribulação ainda respirava (mas ia tombando, sistematicamente).

Como um sistema estelar binário, com dois halos brilhantes se confundindo em sugestões quase eróticas, o abjeto e o sublime descreverão movimentos orbitais em torno um do outro, cadenciando o filme. Talvez seja melhor dizer sublimação: a tentativa de prover de sentido (positivo) a experiência-limite do cárcere e da lenta viagem rumo à morte, dentro da nave. Enquanto os outros prisioneiros-astronautas se destroem em disputas mesquinhas, vícios e violência sexual, Monte escolhe um sereno celibato.

high life 5E o corpo-fetiche do galã Robert Pattinson é, aqui, tão despido de estética e de qualquer aspecto que estimule o desejo quanto o design (externo e interno) da espaçonave-caixão; assim como o corpo do igualmente galã André Benjamin (interpretando Tcherny). Por contraste, a personagem de Juliette Binoche (Dibs) esbanja sensualidade e protagonizará uma cena absolutamente delirante de masturbação, evocando a fantasmagoria psicodélica de Sob A Pele (“Under The  Skin”, 2013, de Jonathan Glazer).

Contudo, a abjeção: Dibs também é uma criminosa condenada – matara os filhos e o marido; como médica, ela se dedicará misteriosa e obsessivamente a tentar inseminação artifical das mulheres a bordo (sublimação / compensação?), colhendo a “semente” dos elementos masculinos, que a trocam de bom grado por uma dose do psicotrópico à disposição, ainda que sejam mínimas as chances de uma criança sobreviver à forte radiação que bombardeia a nave que vai se aproximando do buraco negro.

high life 6A fotografia e a trilha sonora completam a atmosfera meditativa ou hipnótica (qual seja a inclinação do espectador), própria desse formato de sci-fi desde Kubrick e Tarkovski. Mas prefiro evitar a aproximação com dramas “cósmicos” atuais e com fama de “inteligentes”, como Interestelar (2014, de Christopher Nolan); pois Claire Denis não se deixa consumir pelas ambições temáticas e por um senso auto-indulgente de importância, o que faz – afinal – a graça de High Life, mesmo que não tenha muito de novo para adicionar ao gênero.

10 pérolas para conferir na Netflix Brasil

Se você está procurando coisas novas e diferentes para ver na Netflix, pois já viu ou não quer ver aqueles mesmos filmes / séries de que TODO MUNDO fala, aí vão algumas dicas (todas elas estavam presentes no catálogo da Netflix Brasil em janeiro de 2018). A ordem NÃO é de preferência / qualidade:

  1. Nocturama (França / Alemanha / Bélgica, 2016, dir.: Bertrand Bonello)

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Já escrevi sobre este filme no blog, aqui.

  1. I don’t feel at home in this world anymore (EUA, 2017, dir.: Macon Blair)

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Para quem gosta do cinema indie dos EUA, este filme original da Netflix é um prato cheio. Vem com todos os ingredientes, muito bem misturados e temperados: um título longo e curioso; personagens disfuncionais; violência; humor negro; alguma dose de fofura (amizade e bons sentimentos); trilha sonora de rock / pop alternativo. A história é a de uma garota depressiva (Melaney Lynskey) que se alia a um vizinho de comportamento um tanto quanto instável (Elijah Wood) para fazer justiça com as próprias mãos, após ter sua casa invadida e furtada. Ganhou o grande prêmio do júri no Festival de Sundance, ano passado.

  1. Wormwood (EUA, 2017, dir.: Errol Morris)

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Esta minissérie em 6 capítulos, produção original da Netflix, é dirigida pelo engajado e premiado documentarista Errol Morris, de Sob A Névoa da Guerra (2003). O diretor, aqui, promove uma conexão muito orgânica entre documentário (entrevistas, imagens de arquivo) e cinema narrativo – geralmente ficcional (reconstituições dramáticas de cenas, com uma mise en scène impecável) para contar uma história / demonstrar uma tese que é uma mistura de drama shakespeariano (Hamlet) com o julgamento histórico de Martinho Lutero.

Ambas as referências pontuam em vários momentos o andamento dos episódios, reforçando a sua própria pertinência alegórica. Trata-se de um filho que investiga, com a obsessão de uma vida inteira, a morte misteriosa do pai, cientista que trabalhava em projetos ultra-secretos da CIA em plena Guerra Fria.

  1. Black Sails (EUA / África do Sul, 2014-2017, criada por Robert Levine e Jonathan E. Steinberg)

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Produção original do canal Starz, Black Sails é a narrativa audiovisual sobre piratas definitiva no século XXI. É para gente grande, esqueça Piratas do Caribe. Misturando personagens reais, lendários e fictícios, esta série prende o espectador como poucas, com uma dose exata de suspense, reviravoltas e mistérios solucionados. Sem contar o drama: sentimental, histórico, político e social. E a ação épica (é claro!). Mas vamos destacar o político-social: dos 38 episódios de suas 4 temporadas, 27 deles foram escritos ou co-escritos por roteiristas mulheres. A representatividade dentro da história é coisa rara de se ver: alta representatividade (personagens) feminina, LGBT, afrodescendente.

Tudo muito orgânico, integrado à narrativa – sem parecer forçado, didático, militante ou panfletário. A história é um prequel (adulto) para o clássico literário (juvenil) “A Ilha do Tesouro”, de Robert L. Stevenson: acompanha as aventuras do Capitão Flint e sua parceria com o pirata Long John Silver, enquanto tentam construir uma reputação nos mares violentíssiomos do Caribe do começo do século XVII. Por fim, não se assuste com o nome de Michael Bay entre os produtores; Black Sails não tem absolutamente NADA a ver com as coisas nas quais Bay mete a mão.

  1. Bone Tomahawk (“Rastro de Maldade”, EUA Reino Unido, 2015, dir.: S. Craig Zahler)

 

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Esqueça aqueles cineastas hipsters e sua mania de fazer homenagens “vintage”. Aqui, nós temos um honesto, simples e genuinamente inspirado retorno aos viscerais e ultra-violentos filmes da era do exploitation (anos 50-70, principalmente), sob o gênero do western. Filme B, de verdade, sem frescuras ou firulas, com baixíssimo orçamento. Kurt Russell interpreta um xerife que, junto de mais três homens (os quais estão longe de corresponder ao padrão de herói do Velho Oeste), tenta resgatar a esposa de um deles, sequestrada por uma misteriosa tribo de nativos canibais. É o filme de estreia do diretor S. Craig Zahler, que, em 2017, nos presenteou com mais uma pérola digna das velhas grindhouses: “Brawl in Cell Block 99”.

  1. The Bad Batch (“Amores Canibais”, EUA, 2016, dir.: Ana Lily Amirpour)

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Na entrega dos Globos de Ouro deste ano, Natalie Portman denunciou a baixa representatividade das mulheres cineastas: todos os indicados para melhor diretor eram homens. A comprovação da injustiça de que falou a atriz está neste drama / ficção científica inventivo, rico em drama e poderoso em efeitos de humanidade. Em um futuro pós-apocalíptico, o que restou de civilização se esconde por trás de muros, cercas e um governo totalitário. Os cidadãos que “não prestam” (os bad batch = “lotes avariados”) são expulsos para o deserto que domina do lado de fora, habitado aqui e ali por grupos canibais (mais uma vez, presentes nesta lista). Vem, então, uma história de amizade (amor?) entre uma exilada (Suki Waterhouse) e um antropófago (Jason Momoa). Atenção para a participação de Keanu Reeves, como um líder mafioso / religioso.

  1. Chuck Norris vs. Comunism (Reino Unido / Romênia / Alemanha, 2015, dir.: Ilinca Calugareanu)

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Este documentário saborosíssimo, repleto de boas cenas dramáticas de reconstituição (no estilo de Wormwood, já comentado nesta lista), procura demonstrar a influência subversiva dos filmes B de ação norte-americanos dos anos 80 (particularmente aqueles produzidos pelo lendário Canon Group) no enfraquecimento e eventual queda da ditadura comunista na Romênia, no final da década de 80. Pirateados e contrabandeados em VHS, com dublagem precária e divertidíssima (naquela criatividade que só a carência de recursos materiais pode trazer à tona), esses filmes clandestinos chegavam às mãos de todos e eram apreciados por todos – até pelo filho do ditador, praticamente o único que desconhecia a “rede”.

  1. Branco Sai, Preto Fica (Brasil, 2014, dir.: Adirley Queirós)

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Ficção científica brasileira – cinema de gênero feito neste país é coisa raríssima, ainda mais feito com competência e pouco orçamento. Filme independente, que cutuca feridas raciais / sociais abertas. Elementos de documentário. Fotografia belíssima – principalmente em contra-luz. Na década de 80, a polícia invade uma festa na periferia de Brasília (a cidade-satélite de Ceilândia), aos gritos de “branco sai, preto fica”. Dois rapazes negros acabam baleados. Um viajante do tempo (igualmente negro) aparece para investigar o que realmente aconteceu, pois em sua era os documentos sobre o fato são escassos, e comprovar o que todo mundo sabe, mas ninguém quer admitir.

  1. The Meyerowitz Stories (New and Selected) (“Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe”, EUA, 2017, dir.: Noah Baumbach)

The Meyerowitz Stories ainda não estreou nos cinemas

O diretor e roteirista de A Lula e A Baleia (2005) e Frances Ha (2012) molda aqui mais uma pequena joia do cinema independente norte-americano – produção original Netflix. Três meios-irmãos (Adam Sandler, Ben Stiller e Elisabeth Marvel) se reúnem para discutir os rumos da vida e da obra do pai (Dustin Hoffman), um escultor em decadência. Evidentemente, muitas questões neuróticas de família surgirão, todas trabalhadas com fino humor e sensibilidade. Atenção para a curiosíssima briga de mão entre Sandler e Stiller.

  1. Atari: Game Over (EUA, 2014, dir.: Zak Penn)

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Inacreditável documentário que conta a história de como um único jogo (ET: O Extra-terreste, lançado em 1982) quase destruiu não só o fabricante dos consoles (Atari) mas toda a incipiente indústria de videogames. Investigação de uma lenda urbana: a companhia teria sepultado, em um aterro sanitário, cerca de 3 milhões de cartuchos do jogo em questão, encalhados. Este filme e o de número 7 nesta lista levarão às lágrimas quem viveu os anos 80 na idade certa.