Sertânia

sertânia 1Sertânia é uma epopeia lírica: a travessia da alma, como em Dante. Ou simplesmente travessia, como em Guimarães Rosa, sem maiores complementos. Já disse o autor de Grande Sertão: Veredas: o sertão é do tamanho do mundo; o sertão está em toda parte; e o sertão também é dentro da gente.

A mitopoética de Sertânia costura com perícia e precisão rara, como em uma mandala (imagem simbólica da totalidade do ser: o self), todos os pontos de diversas paisagens: a local (particular) e a estrangeira (universal?); os (des)caminhos da geografia exterior (objetiva) e da geografia interior (subjetiva).

sertânia 2Constrói uma ponte entre o mundo físico e o metafísico: da festa do boi ao limbo das almas esperando a travessia no Rio e a morada dos mortos; os salões dos coronéis e o povo retirante morrendo de fome em praça pública; a caatinga fechada e a metrópole paulistana, não menos fechada.

A tomada de consciência (de classe) por parte do protagonista / eu-lírico e a consciência em fluxo-fuga, enquanto a morte se aproxima: “eu só queria voltar para casa”. Casa não há. Talvez, do outro lado do rio cujas águas é bom beber para “esquecer”, no mundo inferior (Hades).

sertânia 3O herói (herói?) de Sertânia, jagunço Antão “Jararaca”, será tentado no deserto (caatinga), tal qual seu homônimo Santo Antão, o anacoreta. Mas aqui, ele será tentado pelo demônio da sua própria consciência-fluxo, em cadência alucionatório-psicodélica. E Sertânia não é nenhuma hagiografia.

A iluminação “estourada” que domina a fotografia do filme pode ser interpretada como sugestiva desse tom psicotrópico, assim como o excesso de “claridade” no tratamento do fotograma, que deixa escurecidas as pontas dos objetos nas imagens, extremidades “necrosadas”, o que nos leva ao Fogo de Santo Antão.

sertânia 4Fogo de Santo Antão: a aterrorizante doença medieval que causava delírios demoníacos e uma morte lenta, a partir da auto-mumificação e desmembramento dos dedos das mãos e pés, que caíam sozinhos um a um, necrosados. O mal era causado pelo fungo “ergot”, a partir do qual seria posteriormente sintetizado o LSD.

Sertânia é uma epopeia. É uma canção lírica. Um visão mística. E uma bad trip.

(O filme está disponível no 4º Festival Ecrã de Experimentações Audiovisuais, online e gratuito, até 30/08.)

https://www.festivalecra.com.br/