Destacamento Blood

da 5 bloods 1Destacamento Blood (“Da 5 Bloods”, EUA, 2020) é Spike Lee desmascarando, uma vez mais, as falácias neoliberais do “fim da história”. O cineasta norte-americano, seguramente um dos maiores em atividade no mundo e presidente do júri no festival de Cannes este ano, não se deixa engambelar – nem ao seu espectador – pela marcha do tempo vazio e homogêneo da História, conforme contada pelos vencedores (Walter Benjamin).

Lee provoca, o tempo todo (em duas horas e meia de exibição), rupturas nesse discurso e resgata pessoas, momentos e movimentos de resistência, expondo as inegáveis tensões que mal amarram os “fatos” e nos lembrando de que o tempo histórico não é dado; é construído a partir dos fragmentos heterogêneos de luta e de busca por visibilidade daqueles (guerreiros negros) que são convenientemente esquecidos pelas narrativas oficiais.

Desde Crispus Attucks, reputado primeiro norte-americano a morrer na insurreição de independência (o Massacre de Boston, em 1770), até Milton L. Olive III, cuja autoimolação lhe garantiu a primeira Medalha de Honra dada na Guerra do Vietnã a um soldado afrodescendente – aliás, o tensionamento dos discursos já se faz presente em diversas falas de personagens vietnamitas, ao se referirem à “Guerra Americana”.

da 5 bloods 3Por trás da fachada de paraíso turístico da República Socialista do Vietnã no século XXI, inclusive para visitantes norte-americanos, com seus tours pelos cenários de guerra no campo e fast-foods na cidade, agita-se um não-disfarçado orgulho pela vitória contra a maior potência militar do planeta, ao mesmo tempo que um ressentimento pelos crimes de guerra cometidos pelas forças invasoras.

Spike Lee não deixa jamais de destacar esses detalhes tão importantes, sabotando conscienciosamente a homogeneidade do “progresso” histórico, jogando luz, aqui e ali, sobre tensões e contradições que não permitem que o espectador permaneça numa posição de conforto em momento algum. Mesmo a história anterior da Indochina, enquanto colônia francesa mal “liberada”, é evocada e sacudida de cabeça para baixo.

Voltando ao herói Milton L. Olive III, um dos membros do Destacamento “Blood” reclama da demora em que se lhe faça uma cinebiografia, e temos aqui uma das operações mais constantes no discurso disruptivo de Spike Lee: contra o próprio Cinema – o hegemônico. Da 5 Bloods tem uma dimensão de quase paródia dos filmes de guerra épicos, heroicos, edificantes e, afinal, irreais. Nosso José de Alencar diria: folhetins para os rapazes.

da 5 bloods 4Desde a casa noturna, em Ho Chi Minh, (in)convenientemente chamada Apocalypse Now, passando pela hilária inserção da Cavalgada das Valkírias em uma cena carregada do mais moroso anti-clímax, até as piadas feitas pelos “Bloods” com as narrativas de retorno ao Vietnã para libertar prisioneiros de guerra e tentar “vencer” uma guerra há muito perdida: Rambo II e filmes com Chuck Norris (cujo nome ninguém recorda – mais uma gag).

O próprio enredo e a maneira como se desenrola já promove uma bagunça desses códigos todos: um grupo de amigos veteranos, todos afrodescendentes, volta aos antigos campos de batalha para resgatar um tesouro semi-esquecido e os restos mortais de um antigo companheiro de armas e líder inspirador, Stormin’ Norman (Chadwick Boseman). Logicamente, a “missão” não sairá conforme o planejado.

Spike Lee não reconhece a espetacularização cinematográfica da guerra, de uma guerra genocida contra a população afro-americana, e nega ao seu espectador qualquer possibilidade de tal experiência, manejando como ninguém os recursos à sua disposição, enquanto metteur en scène. Por exemplo, em todos os flashbacks de batalhas, vemos os “Bloods” com a mesma idade que têm no presente.

da 5 bloods 2Para além do estranhamento instantâneo, isso, de uma maneira brechtiana, impede que o espectador se perca no mero vivencial das cenas, ajudando-o a manter o distanciamento necessário à reflexão conscientizadora desse mesmo passado rememorado (o que nos remete, mais uma vez, a Benjamin: Stormin’ Norman é quem abriu os olhos dos seus companheiros para as questões raciais do período).

No entanto, a escolha que mais chama a atenção, dentro dessa proposta, é a de exibir todas as cenas da guerra no aspect ratio dos velhos aparelhos televisores (4:3). O diretor de Faça A Coisa Certa não encenará a Guerra Americana no widescreen espetacular de Apocalipse Now. O suporte emulado é o do jornalismo televisivo que fez com que a população dos EUA visse o que realmente era a guerra e se opusesse a ela, abreviando a sua duração.

É assim, escovando a história e o cinema a contrapelo, que Spike Lee traz um grande filme a este mundo tão fora dos eixos neste 2020. Quiçá já é um dos melhores do ano. Vidas negras importam.