Dente de Leite

babyteeth 2Os grandes significados residem, às vezes, nos pequenos detalhes. O título desta singela estreia em longas-metragens da diretora australiana Shannon Murphy não está no singular (o que passou despercebido pelo tradutor brasileiro: “Dente de Leite” foi exibido na 43a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e ganhou o prêmio de melhor ficção na competição de novos diretores).

O plural baby teeth (dentes de leite) traz à história ressonâncias alegóricas para além da dimensão rigorosamente individual, singular e privada em que o filme se nos apresenta, com atmosfera praticamente claustrofóbica, a partir de uma família quase hermeticamente nuclear e idiossincrática ao ponto do constrangimento (atributo típico, aliás, de um cinema dito indie).

babyteeth 3A imagem da praia, com a vastidão oceânica do céu e a vastidão cósmica do oceano, é um motivo estruturador que também contribui para a proposta de alcance mais elevado do filme, o que se revela explicitamente na fala da jovem protagonista, desejosa em “fazer parte” do céu. Nesse mesmo momento, quase sentimos o nascimento da consciência, em seus pais, daquela dor cósmica que perfaz a beleza e o horror da condição do ser-estar no mundo, com os Outros (principalmente com os entes queridos).

É a própria consciência do trágico, impondo limites e resultados inesperados ao desejo e à ação. Mas aqui, ao invés de deuses caprichosos que subjugam o ser, temos uma natureza implacável, surda a sacrifícios. A morte é inquestionável. Dentes de leite (sim, todos eles, no plural) caem, mais cedo ou mais tarde – podem demorar, mas ainda assim são irremediavelmente efêmeros.

babyteeth 1O trágico e o alegórico compõem a alma deste longa, roteirizado por Rita Kalnejais a partir, não por acaso, de uma peça teatral sua. Como no teatro, ação e personagens são rigorosamente centrípetos. Mas os sentidos que emanam são centrífugos. Enfim, dentes de leite são transitórios. Morrem, mas abrem espaço aos “permanentes”. Esse aspecto da significação (mais um pequeno grande detalhe) o filme deixa sugestiva e encantadoramente em aberto. Como a vida.

Jallikattu

Um mergulho vertiginoso e psicodélico no coração das trevas onde homens e ruminantes se encontram (e se igualam)

jallikattu 1Estes dias recebi um videozinho bizarro via WhatsApp: em uma academia de musculação, dois brutamontes ajudavam um ao outro nos exercícios, estimulando-se mutuamente com gritos semi-histéricos de ordem e autoafirmação. A compleição muscular de ambos excedia em muito o limite de qualquer noção de belo e tocava perigosamente as fronteiras do saudável. Poucas vezes, vi uma demonstração tão tragicômica da construção social dominante que se edificou em cima da imagem psicológica de um hormônio (testosterona).

Jallikattu (Índia, 2019) são noventa e cinco minutos dessa mesma – insaciável – demonstração; felizmente, de um ponto de vista satírico. O filme teve première internacional no Festival de Toronto deste ano e foi muito bem recebido (mas não esteve na Mostra de SP): o diretor, Lijo Jose Pellissery, vem sendo aclamado pelo experimentalismo e humor negro dos seus longas. O nome do meio, indefectivelmente lusitano, revela a origem do cineasta: sul da Índia (Jallikattu é falado em malaiala, idioma do estado de Kerala).

jallikattu 2O título faz referência a uma festa popular-tradicional da região que lembra a corrida de touros em Pamplona (Espanha), pela extrema violência e pelo espetáculo grotesco de masculinidade tóxica. Mas o roteiro adapta o conto Maoist, do escritor S. Hareesh, sobre um búfalo (e uma vaca, na narrativa original) que escapa do cutelo de um açougueiro e provoca caos, destruição e morte em uma pequena comunidade rural, que se mobiliza inteira para recaptuar o animal. O próprio escritor co-assina a adaptação.

Não tive acesso à obra literária e morro aqui de curiosidade a respeito dos possíveis (e simbólicos) significados desse título, tendo em vista que o sul da Índia é território em que germinou bem a ideologia maoista. Quanto ao filme de Pellissery, as implicações alegóricas possuem a sutileza das estocadas que o ruminante fugidio distribui entre os seus algozes. Jallikattu vai descrevendo, em ritmo alucinante, a descaída da civilização no lamaçal da mais pura selvageria.

jallikattu 4Não que tal civilização já fosse muito “evoluída” em primeiro lugar: as tensões de classe na comunidade pobre retratada têm a fúria latente de um touro prestes a escapulir. O protagonismo é da própria coletividade, como nas melhores narrativas do realismo socialista, mas dois personagens vão se destacar: Kuttachan (Sabumon Abdusamad) e Antony (Antony Varghese), ambos empregados do açougueiro local, Kalan Varkey (Chemban Vinod Jose), rivais na profissão e na disputa pelo amor da mesma mulher, Sophie (Santhy Balachandran).

Os dois homens lutarão um com o outro até a morte nas muitas e frustradas tentativas de laçar o búfalo – e reivindicar para si o “heroísmo” do ato, sob olhar complacente das autoridades – acostumadas a receber fatias bastante generosas de carne por parte do açougueiro. Da sua parte, o ruminante também contribui para a desagregação social ao invadir e destruir uma agência bancária (sob comentário irônico de um local, na esperança de que sua hipoteca seja cancelada), dentre outros logradouros.

jallikattu 3Praticamente todos os homens do vilarejo se engajam cegamente na caçada ao animal, oferecendo ao espectador uma impressionante representação visual do efeito “manada” aplicado às turbas ensandecidas, pela câmera de Pellissery, em planos que evocam – em alguns momentos – a alegoria social dos filmes de zumbis: atenção às imagens em que a abjeção chega ao paroxismo grotesco-ridículo de um Pieter Bruegel ou um Hieronymus Bosch, se estes fossem storyboard artists de Guerra Mundial Z (2013).

Os raros momentos civilizados dessa “missão” – em que todos colaboram na construção de uma roldana para içar o búfalo que caíra em um poço, ou em que os feridos são carregados por várias mãos para fora da zona de combate – descambam logo em gritos, xingamentos e pancadaria generalizada, ou ainda em correria e pânico (na recorrente fuga do animal, que sempre encontra meios de driblar os “heróis”). Um plano bastante enfático resume a ideia: as pegadas de um homem e do ruminante, lado a lado, na lama.

jallikattu 5O filme todo é inequivocamente pedagógico em suas sugestões metafóricas; mesmo o final potencialmente ambíguo apontará para possibilidades de significados claros e precisos, à escolha do espectador. O cineasta e o escritor querem apontar para a fragilidade das relações humanas e sociais (Hareesh declarou que o conto nasceu da sua experiência, na infância, ao testemunhar a festa do Jallikattu); a crítica, por sua vez, tem focalizado bastante na identificação de dados típicos da masculinidade tóxica.

Mas o valor maior deste filme, para além do didatismo com que se expressam suas alegorias, manifesta-se na montagem. Jallikattu gira no ritmo sincopado de uma dança / transe coletivo, ritualístico, sem pausa alguma para que o espectador respire e organize o turbilhão de dados sensoriais, emotivos, racionais dentro do qual é arremessado logo de cara: o abrir de olhos dos moradores do vilarejo ao despertarem com o nascer do sol, na cadência de um tic-tac não-diegético que se ouvirá como “refrão” ao longo de toda a exibição.

jallikattu 6Conforme vai avançando em crescendo o esfacelamento derrisório de personagens, racionalidades e sociabilidades, uma atmosfera alucinógena / psicodélica vem se juntar ao ritmo (sempre no limite da tensão) com que é conduzida a história, ao ponto da overdose – com a qual o filme termina repentinamente, atirando e largando o espectador em uma paisagem audiovisual tão imersiva quanto infernal, da qual ele(a) demorará a voltar por suas próprias forças. Jallikattu ressoa em nossa mente e em nossos sentidos por muito tempo.

Os Sobreviventes

os sobreviventes 2Os Sobreviventes (“Los Sobrevivientes”, Cuba, 1979) mobiliza o realismo de Jean Renoir (A Regra do Jogo, 1939) e o surrealismo de Luis Buñuel (O Anjo Exterminador, 1962) para atacar impiedosamente o ridículo e o absurdo do reacionarismo burguês. Não há elementos propriamente fantásticos neste oitavo longa-metragem ficcional de Tomás Gutiérrez Alea, nome maior do cinema cubano, mas a atmosfera que vai se compondo ao longo da exibição atinge paroxismos de estranhamento que são a alma do surreal buñueliano.

Vemos, aqui, um retorno do cineasta ao modo da sua peculiar comédia de humor macabro, que foi apresentada originalmente em A Morte de Um Burocrata (1966), e é executada pelo diretor com a diligência com que se demonstra uma teoria: por sinal, Alea também se expressa como pensador do cinema no livro Dialética do Espectador (1983), defendendo o despertar de consciências e a produção de engajamentos, a partir de recursos que provoquem incômodo no espectador e levem-no a mudar de postura perante a realidade social.

os sobreviventes 3A história é a de uma família quatrocentona de grandes posses, comandada pelo patriarca Sebastián Orozco, que se recusa a aceitar a revolução de 1959 e decide se encastelar em sua propriedade rural, junto dos criados e agregados, estocando alimentos e esperando o “vendaval” passar – de preferência, com ajuda estadunidense. Os anos vão passando, as velhas gerações vão morrendo, as novas vão nascendo, e os Orozco vão se grudando às paredes e móveis do velho casarão como mofo preto, compartilhando da mesma decrepitude.

Pelo menos, esse é o efeito criado, mantido e intensificado pela mise en scène de Alea, com mão de maestro. Os empregados vão se rebelando e abandonando o latifúndio, não sem levar com eles alguns bens valiosos (automóvel, prataria etc.). O padre agregado, sabiamente, também vai embora em determinado momento, não sem antes passar a batina e a “consagração” para o membro “casto” da família – sem maiores cerimônias, na pressa de quem precisa pular fora do barco antes que afunde de vez.

os sobreviventes 4Aliás, boa parte da cafonice das caricaturas vivas que são as pessoas dessa família se manifesta no fundamentalismo do seu sempiterno discurso religioso de feição tradicionalista, em negação absoluta da realidade mais básica da história, da sociedade, do cotidiano. Mas as preces feitas em tom farisaico não impedirão que a fome, afinal, passe a tomar conta da fazenda e dos seus fantasmáticos habitantes – também podem-se identificar neles as características putrefatas dos mortos-vivos de Romero.

A fome acabará por conduzir os outrora gloriosos Orozco aos baixios da auto / antropofagia, completando o quadro alegórico de uma elite que se pretende sobrevivente à marcha teleológica da História rumo à revolução e à abolição das classes sociais. Nesta paródia de velhos retratos comissionados de família ou pinturas acadêmicas de paisagens bucólicas, chama a atenção o fato de que, em nenhum momento, coloca-se como presente a ameaça – sempre temida pelos Orozco – da chegada dos revolucionários aos portões de seu recanto.

os sobreviventes 5A família é vítima da própria paranoia, da própria alienação, exclusivamente. Uma das cenas mais hilárias toma lugar quando todos estão sentados à mesa de jantar, sem ter coisa alguma para comer, e o membro jovem do clã – com o atrevimento característico da idade – incita todos a começarem a trabalhar, pois sem produção não há alimento etc.; ao que sua mãe retruca que prefere morrer, repreendendo-o rispidamente pela fala “comunista” à mesa, com o rigor da boa educação dedicada às pessoas “decentes” e “de bem”.

Qualquer semelhança com o fundamentalismo, a cafonice e o negacionismo da extrema-direita contemporânea (no Brasil, Chile ou Bolívia) não será mera coincidência. Outro momento antológico dos “sobreviventes” é a caça que decidem empreender ao gato da casa – para terem o mínimo com que se alimentar –, realizada com toda a pompa, circunstância, figurino e ritualística dignos dos eventos de esporte / lazer aristocráticos, ao som (não-diegético) da Cavalgada das Valquírias, de Wagner.

os sobreviventes 1É curioso que, no mesmo ano (1979), Francis Ford Coppola estava lançando o seu Apocalipse Now, com um uso antológico da mesma música, de ironia igualmente macabra. Tudo somado, Os Sobreviventes impressiona pela mistura entre os registros farsesco / burlesco e o gótico / macabro, harmonizados com sugestões de estranhamento surrealista, a serviço de uma alegoria político-social que, a despeito de ser historicamente localizada (a Cuba revolucionária), ainda tem muito a dizer para o nosso tempo e lugar.

O Nó do Diabo

o nó do diabo 2O cinema brasileiro tem uma longa história de expressões alegóricas da nossa realidade social tão particular. Desde o Cinema Novo: alegorias da revolução, veja-se Deus e O Diabo na Terra do Sol, do Glauber (1964); passando pelo Cinema Marginal e o Tropicalista: alegorias da repressão e do subdesenvolvimento, vejam-se O Bandido da Luz Vermelha, do Sganzerla (1968) e Brasil Ano 2000, de Walter Lima Jr. (1969); além, é claro, da  transição entre os dois momentos / movimentos: Terra em Transe, também de Glauber Rocha (1967); até chegar às tensões de classe alegorizadas no cinema da retomada de O Invasor, de Beto Brant (2002).

E esse discurso alegórico de fundo político-social sempre flertou com fórmulas de gênero, posto que com intenções algumas vezes vezes satíricas / paródicas. A nossa “incompetência criativa em copiar”, na epifânica expressão de Paulo Emílio, é o que sempre definiu o alcance e o limite da produção nacional. Mas o desenvolvimento das condições materiais, das políticas públicas e a consequente expansão – de filmes e de público – após a Retomada (1994) permitiram que se começasse a brincar de cinema de gênero mais a sério e sistematicamente no Brasil, atingindo o (talvez) ápice nos dois Tropa de Elite (2007 e 2010), de José Padilha.

o nó do diabo 3Agora, por fatores que ainda precisam ser mais investigados, temos visto um boom de filmes de horror / terror com fortes intencionalidades de comentário social. Talvez inspirados pela marcha tenebrosa dos acontecimentos políticos no país desde o golpe branco de 2016 (Gabriela Amaral Almeida declarou que fez O Animal Cordial, em 2017, sob forte raiva do processo de “impeachment” da presidente Dilma Rousseff), ou pelo despertar internacional do cinema de terror reflexivo e engajado do “elevated horror” (Ari Aster, Robert Eggers, Jordan Peele), o fato é que vêm brotando em território brasileiro longas-metragens cada vez mais assustadores e ambiciosos.

Assim, entusiasmado pelas qualidades de A Noite Amarela e, principalmente, intrigado pelo potencial não-realizado nesse filme, fui atrás da produção anterior – e filme de estreia – do diretor Ramon Porto Mota: O Nó do Diabo (2017). Na verdade, é uma obra colaborativa da produtora / coletivo Vermelho Profundo: dividida em cinco segmentos / episódios escritos por Mota e dirigidos por ele mesmo (1ª e 5ª partes) e por outros cineastas amigos (Gabriel Martins, Ian Abé e Jhésus Tribuzi), a fita traça uma semi-história fantasmagórica da escravidão e do racismo estruturais neste país. Apesar de algumas e compreensíveis inconsistências aqui e ali, o resultado geral é muito bom.

o nó do diabo 6Os segmentos giram em torno de uma casa grande de fazenda e seu decrépito proprietário, Sr. Vieira (Fernando Teixeira), em cinco momentos históricos diferentes. No 1º momento (2018), o casarão – igualmente decrépito – encontra-se vazio e ameaçado de ocupação por uma comunidade suburbana (favela) que já chegou quase aos seus portões. O Sr. Vieira contrata, então, um (ex-?)policial para afugentar os “invasores”, sob um discurso descaradamente racista, mesmo que seja com a força das armas de fogo. Enquanto vigia, o jagunço se refestela em programas de rádio reacionários / sensacionalistas que só fazem por propagar aquele discurso de ódio e incitação à violência que hoje são oficiais neste país.

No 2º momento (1987), vemos um casal de trabalhadores negros pedir (e conseguir) emprego na casa, já bastante decadente, mas cujos entornos ainda são plenamente rurais. Logo perceberão que não são mais trabalhadores espoliados, mas sim escravos propriamente ditos. O 3º momento (1921), apesar da inversão temporal, traz uma intensificação angustiante do trabalho análogo à escravidão exercido por pessoas afrodescendentes. O 4º e o 5º momento (1871 e 1818, respectivamente) se passam, logicamente, durante o período escravocrata e trazem, de maneira bastante enfática (especialmente o último) a ideia de resistência e de luta representada pelos quilombos.

o nó do diabo 4As sugestões alegóricas são montadas sobre dois eixos, principalmente: 1. a permanência temporal da casa e do seu proprietário; 2. o encadeamento dos tempos históricos em sentido inverso. No primeiro, há uma diferenciação interna e significativa: a casa se mantém, mas com estigmas claros de aviltamento, seja proposital (os pichos que o jagunço tenta apagar inutilmente, como um Sísifo pós-moderno), seja natural (envelhecimento causado pelo tempo e pelas intempéries). Já o caquético latifundiário, por sua vez, tem a aparência imutável de uma múmia amaldiçoada, preservada em puro ódio racial. Os seus gestos e discurso ajudam a completar, muito coerentemente, a figura.

Juntos, propriedade e proprietário – devidamente reificados, particularmente este último – podem representar a homogeneidade da História (Walter Benjamin), conforme narrada do ponto de vista dos “vencedores” na teleologia de um “progresso” positivista que, por trás de aparentes ou parciais avanços, esconde a manutenção da barbárie (apesar da nostalgia ressentida do proprietário, nos tempos modernos, ao relembrar a época em que os negros “sabiam se colocar no seu lugar”, o racismo e formas de trabalho análogas à escravidão são tão permanentes quanto a Casa Grande e o seu dono). Tempo homogêneo esse que se esforça, sem descanso, por apagar a existência e a memória do contraditório.

Credito: Vermelho Profundo/Divulgacao. Filme O no do diabo.A História oficial caminha “para a frente”, mas não se livra de causar a impressão de que não caminha, de que se mantém estática, conservada. Por isso, a decisão de Ramon Porto Mota em acorrentar os diversos tempos históricos na direção contrária ao normal ganha a força da expressão (palavra de ordem) benjaminiana: “escovar a História a contrapelo”. Assim, ao longo de dois séculos (2018-1818), rompe-se com a cadeia lógico-causal positivista dos acontecimentos, propondo uma outra relação entre estes, a partir de outras vivências, outros lugares históricos, outros pontos de vista. O que se busca são associações: a empatia do pensamento analógico.

Destacam-se momentos únicos, espalhados na extensão da escala temporal, que compartilhem de uma equivalência significativa – são momentos de resistência, de luta, em que a potência fantasmática de uma outra memória se anuncia, para assombro dos grileiros e latifundiários da História. Esses momentos (re)lembrados operam como gatilhos que despertam e disparam as consciências dos povos espoliados, conclamando-os à ação que interrompe a marcha avassaladora do tempo homogêneo. Essa possibilidade de ação está dormente no 1º episódio, em 2018 (quando os latifúndios do ódio parecem ser inelutavelmente vencedores).

o nó do diabo 7Mas é a partir daí que se orientará o discurso propositivo do filme, concluindo com o anúncio da revolta em 1818 (que vale, neste final, como uma incitação revolucionária para os dias de hoje), como que querendo dizer: no passado, já enfrentamos as mesmas coisas, e resistimos; resgatemos essa memória como inspiração e energia para uma nova luta; joguemos areia na máquina da História. Tal é o teor da estrutura e da proposta alegórica de O Nó do Diabo, que é manifesta aqui em um enredo, personagens e decupagem nitidamente diretivos, sem qualquer ambiguidade para além do estritamente necessário a uma leitura simbólica determinada e unívoca.

O defeito é aquele típico das efabulações alegóricas medievais, que motivou críticos e teóricos a rejeitarem quase em bloco o valor literário da alegoria, até a reabilitação empreendida por Walter Benjamin, em uma época (década de 1930) que sofria uma escalada da barbárie equivalente ao que vemos hoje em dia. Tal defeito é um desequilíbrio: o significado alegórico que acaba tendo maior valor, na estrutura da obra, que o referente imediato desta, mero corpo possuído pela alegoria. Os personagens e histórias contadas nos cinco episódios têm pouco peso dramatúrgico em si, servindo apenas de funções ou veículos para a comunicação de uma ideia por trás.

o nó do diabo 1É a mesma limitação que encontramos em A Noite Amarela; porém, comprometendo menos o conjunto do filme (talvez porque os conteúdos da mensagem, em O Nó do Diabo, sejam menos abstratos e difusos: trata-se de questões sociais e históricas bastante concretas e localizadas). De qualquer maneira, Ramon Porto Mota parece ter muitas e interessantes coisas ainda a dizer, e plenas condições de fazê-lo. No podcast Saco de Ossos, ele disse que seu próximo projeto é uma mistura de Deus e O Diabo na Terra do Sol e Army of Darkness. Ficaremos ansiosos no aguardo.

A Noite Amarela

a noite amarela 1Antes de mais nada, é louvável a atmosfera de horror / estranhamento alcançada em cada plano de A Noite Amarela (Brasil, 2019), misturando elementos do macabro e do surreal, dentre os quais a trilha e efeitos sonoros são dotados de uma propriedade evocativa de gelar a alma. Ainda mais louvável é a aplicação dessa atmosfera dark a um cenário caracteristicamente tropical / paradisíaco: praias, coqueiros, aquela brisa de verão que quase sentimos na pele.

Cor local, terror local. Tropicalismo gótico? O bramido oceânico das ondas quebrando na praia, submergidas na escuridão total ou quase total, traz sugestões de um horror cósmico (Lovecraft) que poderiam ser um pouco mais exploradas neste segundo longa de Ramon Porto Mota (o primeiro é o também terrorífico O Nó do Diabo, de 2018). Mas aqui chegamos, justamente, nas suas frustrantes limitações.

A030_C019_0812P9A premissa do filme é estimulante: a complicada teoria das “fotografias quânticas” (real, a partir de uma cientista brasileira) pode dar muitos frutos a uma imaginação fertilizada por clássicos do horror, da ficção científica ou mesmo do cinema experimental (alguém pensou no David Lynch de Twin Peaks?). Mas também é necessária uma aplicação ao trabalho do roteiro, com bastante paciência e cuidado.

Aplicação essa que A Noite Amarela fica devendo. A atmosfera narrativa é muito bem construída, plano a plano, como já dissemos. Mas fica em falta a própria narrativa. Pelo menos, uma narrativa minimamente consistente. É claro que nem tudo precisa ser explícito e linear. Muitos e importantes efeitos são atingidos através de elipses, sugestões, com embaralhamentos imprevisíveis de tempos, espaços e personagens, tanto por causa da premissa “quântica” da história. Não se trata de defender, por princípio, métodos de representação tradicionais.

a noite amarela 3Mas mesmo a falta de lógica há de ter alguma lógica, critério, coerência dentro da incoerência. Bem ou mal, esperamos que a narrativa (já que é uma narrativa, não é mesmo?) entregue o que prometa, mesmo que a promessa seja pouca e louca, para que o espectador mergulhe efetivamente na “verdade” da representação (supondo que esta seja mais do que um esboço e mesmo que questionadora dos próprios pressupostos: a verdade da mentira) e na verdade dos personagens (supondo que estes devam ser mais do que funções ou papéis: pessoas, ainda que dotadas de atributos distantes da “normalidade” e do previsível, segundo categorias narrativas conservadoras).

Há pontas que, ao ficarem soltas, sem resolução, sequer um progresso suficiente, causam impressão antes de uma carência de coesão (e coerência) do que de um pretenso experimentalismo / vanguardismo parcamente metafórico e iconoclasta de métodos. O que sobra é aquele efeito péssimo de a realização ficar aquém das intenções. A Noite Amarela demora demais a entrar nos eixos e, quando começa a entrar, perde-se um tempo tenebroso em um longo flashback sem muita função narrativa, lírica, dramática ou argumentativa reais, com personagens mais mal-construídos do que desconstruídos.

a noite amarela 4Daí, o filme parece querer “correr” para terminar logo, (mal) resolvendo tudo de modo sumário (não é sugestivo / elíptico; é sumário mesmo). A impressão que fica não está muito distante daquela das temporadas finais de Lost (2004-2010). O conjunto acaba confuso, subdesenvolvido, frustrante, apesar da premissa até ótima. Mas, retomando outro elemento da mecânica quântica, em algum universo possível existirá umA Noite Amarela que tenha conseguido sair uma obra-prima. Valeu.

Abe

abe 1Abe (Brasil / EUA, 2019) é um saboroso feel good movie: aqueles filmes feitos para a gente se sentir bem, apesar de todos os problemas individuais e coletivos. Forte candidato a clássico da Sessão da Tarde daqui a alguns anos. O seu franco otimismo e pragmatismo em relação a temas graves (preconceitos étnicos / culturais / religiosos, a partir dos conflitos entre Israel e Palestina) pode carregar algo de Frank Capra.

Mas o imenso e acidentado terreno em que se move guarda características muito peculiares ao século XXI, e o diretor e co-roteirista Fernando Grostein Andrade (do seminal documentário, para o bem e para o mal, Quebrando O Tabu – 2011) poderia facilmente ser acusado de, mais do que ingenuidade, certa leviandade no tom e no trato. A história é a do jovem herói americano à lá Karatê Kid.

abe 2Abe (Noah Schnapp, o Will de Stranger Things) é um pré-adolescente de ascendência judaico-israelense e muçulmano-palestina que nutre uma paixão obsessiva pela culinária. Como todo bom millenial, mantém um diário constante nas redes sociais e cultiva com grande facilidade um autodidatismo via web. Mas é terrivelmente pressionado pelos avós, maternos e paternos, a “escolher” uma identidade étnico-religiosa.

O pai, por sua vez, tenta coagir o menino a manter-se “laico” (american brooklyn, como o próprio Abe se define), enquanto a mãe tenta equilibrar todas as forças em jogo. O jovem aspirante a chef, então, começa a bater asas para um pouco mais longe de casa e conhece o chef brasileiro Chico (Seu Jorge), radicado em Nova York e fazendo sucesso, a quem perseguirá para tentar fazê-lo seu mentor.

abe 3Naturalmente, complicações e conflitos surgirão, mas sempre mantendo o tom do drama leve misturado à comédia sensível. E com o indefectível final feliz, conciliador. Pode ser interessante pensar em Abe como uma versão infantil ou feel good de Sinônimos (ambos exibidos nesta última Mostra de cinema de SP): nos dois longas temos jovens que se debatem para livrar-se das amarras da identidade e da ascendência.

Mas aqui, o que realmente pode incomodar é o tom um tanto quanto forçosamente conciliatório. Para além da necessária defesa da tolerância e da integração pacifista, sentimos aqui aquela postura tipicamente “isentona” da teoria dos “dois demônios”: os dois lados cometeriam exageros, toda radicalização é perigosa, toda “polarização” é execrável e deve ser exemplarmente higienizada.

Abe - PosterPosicionamento esse que parece ser oficial da organização que se tornou o “Quebrando O Tabu” (basta pensar na desconcertante conversa “amiga” entre os deputados Marcelo Freixo e Janaína Paschoal). E é dentro desse fator de negligência dos elementos históricos, políticos e efetivamente sociológicos que Abe acaba reproduzindo – ainda que sem perceber, ou segundo a “melhor” das intenções – o velho mito racista do magical negro.

Também está presente o arquétipo do velho sábio, que podemos identificar na relação entre Abe e Chico. A figura deste é investida de algum empoderamento (não vemos aqui a autoabnegação e auto-sacrifício do “magical negro” tradicional; pelo contrário até: Chico age como um professor / mestre implacável, promovendo com dureza um choque de realidade ao menino branco e de classe média).

Mesmo assim, não conseguimos sacudir das franjas do nosso pensamento certa impressão de que se conta, mais uma vez, aquela mesma história de um personagem negro que está lá tão somente para servir de escada para a escalada e o irreprimível brilho do homem branco. Pessoalmente, não me agradam leituras fílmicas “armadas” até os dentes; por outro lado, não tem mais cabimento (simples assim) aquela ingenuidade e “pureza” à lá Frank Capra.

Sinônimos

Synonymes-Film-2019Sinônimos (2019, França / Israel / Alemanha) oferece ao espectador a experiência de mastigar um pedaço de carne crua, de algum animal recém-eviscerado. É um filme de digestão difícil, agressiva. No entanto, isso não evidencia uma inquestionável qualidade – apesar do Urso de Ouro recebido no Festival de Berlim este ano. A olhares não facilmente encantados, o filme do diretor israelense Nadav Lapid (realizador de Policeman – 2011; e The Kindergarten Teacher – 2014) poderá incomodar com a mão pesada do seu caráter discursivo: a vontade de impor uma tese, nem que seja pela força do grito.

Mas compreende-se a intencionalidade, tendo em vista que se trata de uma história autobiográfica centrada nas sempre difíceis questões de identidade étnica / nacional / religiosa, tanto mais que estejam relacionadas à imigração. Especificamente: um jovem que deseja livrar-se por completo de sua origem judaico-israelense, arremessando-se violentamente para dentro da sociedade (e identidade) franco-europeia, a qual se mostra receptiva como uma sereia a cantar para a incauta tripulação do Odisseu: com requisitos, limites e interesses inegociáveis, além – é claro – de consequências imprevistas.

sinonimos 3A crueza (crueldade) do roteiro manifesta-se na ausência quase total de dispositivos que permitam qualquer condescendência ou identificação mais aprofundadas com o protagonista. O jovem Yoav (Tom Mercier) está longe de ser apenas vítima da “sociedade”, automaticamente digna de nossa simpatia e apoio. Tampouco é louvável o casal de amigos / amantes franceses que o “acolhem”. Depreende-se, a partir de entrevistas dadas pelo diretor, que o propósito bastante pessoal deste filme foi o de “exorcizar” o próprio passado, junto das escolhas impensadas e extremistas que seriam típicas da juventude.

O formato igualmente “cru” da fotografia (16mm / digital) contribui também para o efeito de soco-na-boca-do-estômago de Sinônimos. De Israel, Lapid esculhamba o militarismo e a masculinidade tóxica: o “clube da luta” organizado por brutamontes do serviço secreto dá o tom. Da França, o cineasta debocha daquele tradicional-modernoso estereótipo do casal jovem e descolado, que leva um “terceiro elemento” para dentro da relação: caricatura impiedosa da jouie de vivre parisiense já bastante explorada, de Truffaut (Jules et Jim – 1962) a Bertolucci (Os Sonhadores – 2003).

sinonimos 1A denúncia social feita em tom naturalista e sem concessões, a partir de protagonistas de ação profundamente contraditória entre o crime e a revolta visceral (mal podem ser chamados de anti-heróis), pareceu matizar as principais premiações cinematográficas europeias este ano: além de Sinônimos (Urso de Ouro em Berlim), tivemos Parasita (Palma de Ouro em Cannes) e Coringa (Leão de Ouro em Veneza). O filme de Nadav Lapid está sendo exibido na 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, com estreia prometida no circuito comercial já para o próximo 21 de novembro.

Greta

greta 1O filme Greta (Brasil, 2019), longa de estreia de Armando França, é uma necessária atualização dramática da comédia teatral intitulada Greta Garbo, quem diria, acabou no Irajá!, escrita por Fernando Mello e sucesso nos palcos dos anos 1970, apesar da mutilação imposta pela censura. Necessária porque o deboche, nesta história de amor, solidão e identidade LGBT, feitio das narrativas transgressoras dos anos de chumbo (marginais ou de exploitation / pornochanchadas), não casa bem com os fatos e as consciências contemporâneas (o Brasil é o país que mais assassina pessoas trans).

A curtição e o desbunde ainda podem ser (e são) posturas iconoclastas de enfrentamento e resistência. Mas o cinema brasileiro dos últimos 20 anos já amadureceu e ultrapassou – graças a Deus! – aquele Naturalismo caricato e misantropo de diretores como Cláudio Assis (Baixio das Bestas, 2006) e Heitor Dhalia (O Cheiro do Ralo, 2006). Naturalismo esse que já contaminava a peça de Mello: o apartamento do protagonista Pedro é descrito como “o barroquismo da cafonice”. A patrulha do politicamente incorreto pode chiar, mas as vidas LGBT não são mais somente objetos de teses positivistas / deterministas.

greta 2No filme de França, não há nada de cafona. E o barroco da fotografia fortemente contrastada de Ivo Lopes Araújo está tão somente a serviço (dos extremos) do drama que se tensiona no claustro de espaços pequenos, fechados e escuros: a existência e o amor LGBT ainda não conquistaram seu lugar ao sol. Na cultura marginal de 70, a curtição sempre encontrava seu limite intransponível na perspectiva do dilaceramento corporal representado pela tortura institucionalizada: o abjeto que sempre azedava a aventura randômica, sem qualquer teleologia, que era o “zanzar” da vida dos personagens subversivos.

Em Greta, a “curtição” é amarga e carregada de dúvidas, inseguranças e questionamentos existenciais: o dilaceramento que se aproxima implacavelmente é o do próprio tempo, cujo grande tributo é a corrupção da carne. Não é à toa que o hospital em que trabalha Pedro mais parece um depósito pútrido de gente moribunda – sua amiga Daniela, que se recusa a desvanecer-se naquele ambiente abjeto. E seu próprio amado, Jean, em condições quase decrépitas, é resgatado por ele do centro cirúrgico como de um necrotério. Na comédia de Fernando Mello, a relação do casal protagonista era de exploração e abuso evidente.

greta 3Aqui, o que impera é a desconfiança e o medo: Pedro talvez não consiga viver sozinho seus últimos anos (ele é septuagenário), é o que lhe arremessa em desafio sua melhor (única) amiga, Daniela, ao pedir-lhe eutanásia. O “rapaz” Jean é um assassino procurado pela polícia, que Pedro acolhe em sua casa e coração, não sem o afinal declarado receio de que aquele se aproveite dele e eventualmente dê cabo de sua vida. Atos de repulsa serão cometidos com base nessa… paranoia? Há algo, aqui, que lembra a semi-história (alegórica) de amor entre um homem e uma pantera em Uma Paixão no Deserto, de Balzac.

Enfim, Greta é um filme claustrofóbico – praticamente todos os planos são fechados – que nos prende, sem muita opção, ao ser-no-mundo desses personagens marginais (marginalizados), inclusive nas visivelmente incômodas (basta olhar ao redor, estando em uma sala de cinema) cenas de sexo homossexual. E esta é a sua melhor e mais necessária qualidade, nos tempos de barbárie proto-fascista escancarada em que vivemos. A peça de Fernando Mello sofreu a censura da ditadura militar. O filme de Armando França faz parte da categoria que está na mira da Ancine aparelhada deste atual governo federal e sua política em não apoiar filmes com temática LGBT.

Serão derrotados. Mais uma vez.   

United Skates

united skates 2United Skates (2018), mais do que um documentário, é um manifesto. Mais do que um documento, é um monumento erigido à cultura da patinação que é elemento intrínseco da identidade afro-estadudinense, sofrendo, como tal, a mesma perseguição histórica. As produtoras e diretoras Tina Brown e Dyana Winkler acompanharam pessoas, famílias e estabelecimentos durante anos, registrando a vivência apaixonada – individual e coletiva – da patinação / dança / arte sobre rodas.

Mas também há o registro do doloroso processo de decadência comercial e inevitável desaparecimento dos históricos (e enormes) salões de patinação espalhados por todos os EUA, causados pela asquerosa mistura entre especulação imobiliária selvagem e segregacionismo racista. O grande capital não se interessa por espaços públicos, espaços estruturadores de uma vida em comunidade; e o poder político não quer tamanha concentração de uma população supostamente perigosa em um espaço não-controlado.

unitedskates-1024x576Até a implementação efetiva dos direitos civis (anos 60), os rinks de patinação eram totalmente segregados. Quando foram forçados, por lei, a promover integração, saíram-se com uma artimanha malandra: festas “temáticas” em noites específicas direcionadas aos frequentadores afro-estadudinenses: as adult nights, soul nights etc. Implicitamente, comunicava-se que os negros não poderiam frequentar a pista nos outros dias e horários. Mas o tiro saiu – mais uma vez – pela culatra.

As adult nights foram grandes responsáveis pelo desenvolvimento de toda uma cultura black: muitos artistas do hip-hop e do r&b se revelaram para a fama apresentando-se para pistas lotadas de dançarinos e dançarinas sobre rodas. Mesmo assim, o ódio não descansará. Duas das mais fortes e incômodas cenas deste filme: uma fotografia de arquivo que mostra manifestantes brancos, com a suástica nazista em braceletes e cartazes, espalhando ódio na frente de rinks de patinação frequentados por negros (ainda durante a época da segregação).

united skates 1E uma longa sequência, com a câmera escondida, mostrando a principal família que o filme acompanha (da matriarca Phelicia Wright) ao tentar – em vão – entrar em uma pista frequentada por brancos (após o fechamento das pistas administradas por afro-descendentes na região): cartazes afixados na janela da bilheteria proibindo gêneros de música black, assim como patins e acessórios comumente usados por patinadores / dançarinos negros (com rodinhas menores, sem freio no “dedão” etc.).

Mas nem tudo são derrotas, e o documentário procura manter um tom afirmativo, propositivo e esperançoso. Toda forma de repressão cultural costuma se mostrar – inevitavelmente – infrutífera, a História o mostra bem. As identidades e sua expressão não podem permanecer silenciadas e sempre retornam de um jeito ou de outro. United Skates é uma produção do canal de TV por assinatura HBO e está disponível, para o público brasileiro, no serviço de streaming da emissora.

High Life

high life 1A cineasta francesa Claire Denis transita com rara desenvoltura entre o abjeto (Bastardos, 2013) e o sublime (35 Doses de Rum, 2008); às vezes, dentro de um mesmo filme (Desejo e Obsessão, 2001). Este último é o caso de High Life (2018, ainda sem previsão de estreia oficial no Brasil). Primeira produção em língua inglesa da diretora, e também seu primeiro longa (nitidamente) de gênero, trata-se de uma ficção científico-especulativa nos moldes do Tarkovski de Solaris (1972), ou de Stalker (1979).

Isto significa, antes de mais nada, que os aspectos mais ligados às ciências exatas (ou naturais) serão reduzidos ao mínimo necessário para efeitos diegéticos, quando muito: a cenografia, por exemplo, seria constrangedoramente tosca se não soubéssemos que o caráter especulativo desse gênero de ficção está mais preocupado em representar e discutir questões de engenharia social, estrutura da psique ou sistemas filosóficos do que engenharia aeroespacial, estrutura da matéria, sistemas de informação etc.

high life 2O desprezo pela verossimilhança física, revelando que o filme opera em outros campos, aparece com um quase atrevimento ao vermos que objetos (e corpos) “caem” para baixo no vácuo do espaço presumivelmente sem gravidade. No entanto, Claire Denis ainda preserva a teoria da relatividade temporal de Einstein, em acelerações próximas à velocidade da luz: provavelmente, por causa das suas implicações psicológico-filosóficas, a levarmos em conta um diálogo que ocorrerá em determinado ponto do filme.

High Life se passa dentro de uma espaçonave-arca “maldita” da espécie humana. Sabemos tão somente que uma “agência” tomou condenados (homens e mulheres) à prisão perpétua ou à morte e os convidou para uma missão – ao que tudo indica – suicida: aproximar-se perigosamente do buraco negro relativamente mais próximo da Terra e coletar dados que permitirão (suposta e futuramente) que se faça aproveitamento da energia massiva que circunda esses corpos celestes.

high life 3O foco narrativo está em Monte (Robert Pattinson), e o filme começa quando toda a tripulação já se encontra morta (por radiação e outras causas que serão esclarecidas ao longo do longa), exceto pelo próprio Monte e por um bebê nascido durante a missão. Duas temporalidades repletas de elipses passarão a se alternar, compondo o restante de High Life: o presente de Monte e da garotinha em crescimento (até que ela atinja a adolescência), e o passado em que o resto da tribulação ainda respirava (mas ia tombando, sistematicamente).

Como um sistema estelar binário, com dois halos brilhantes se confundindo em sugestões quase eróticas, o abjeto e o sublime descreverão movimentos orbitais em torno um do outro, cadenciando o filme. Talvez seja melhor dizer sublimação: a tentativa de prover de sentido (positivo) a experiência-limite do cárcere e da lenta viagem rumo à morte, dentro da nave. Enquanto os outros prisioneiros-astronautas se destroem em disputas mesquinhas, vícios e violência sexual, Monte escolhe um sereno celibato.

high life 5E o corpo-fetiche do galã Robert Pattinson é, aqui, tão despido de estética e de qualquer aspecto que estimule o desejo quanto o design (externo e interno) da espaçonave-caixão; assim como o corpo do igualmente galã André Benjamin (interpretando Tcherny). Por contraste, a personagem de Juliette Binoche (Dibs) esbanja sensualidade e protagonizará uma cena absolutamente delirante de masturbação, evocando a fantasmagoria psicodélica de Sob A Pele (“Under The  Skin”, 2013, de Jonathan Glazer).

Contudo, a abjeção: Dibs também é uma criminosa condenada – matara os filhos e o marido; como médica, ela se dedicará misteriosa e obsessivamente a tentar inseminação artifical das mulheres a bordo (sublimação / compensação?), colhendo a “semente” dos elementos masculinos, que a trocam de bom grado por uma dose do psicotrópico à disposição, ainda que sejam mínimas as chances de uma criança sobreviver à forte radiação que bombardeia a nave que vai se aproximando do buraco negro.

high life 6A fotografia e a trilha sonora completam a atmosfera meditativa ou hipnótica (qual seja a inclinação do espectador), própria desse formato de sci-fi desde Kubrick e Tarkovski. Mas prefiro evitar a aproximação com dramas “cósmicos” atuais e com fama de “inteligentes”, como Interestelar (2014, de Christopher Nolan); pois Claire Denis não se deixa consumir pelas ambições temáticas e por um senso auto-indulgente de importância, o que faz – afinal – a graça de High Life, mesmo que não tenha muito de novo para adicionar ao gênero.