Never, Rarely, Sometimes, Always

NEVER RARELY SOMETIMES ALWAYSEm primeiro plano, vemos mãos (femininas) que levantam a blusa de um ventre (igualmente feminino), passam gentilmente em sua superfície um pouco de gel e encostam o aparelho de ultrassonografia. Esse ventre está cheio de hematomas bastante escuros, provocados por pancadas cuja violência já tínhamos testemunhado explicitamente em cena anterior. Não há qualquer diálogo ou trilha sonora. Somente a intensidade expressiva do gesto.

Esse momento único de cinema puro (palavra sempre perigosa de usar, mas uso-a mesmo assim), em que a realidade nua e bruta assoma aos nossos olhos com o gigantismo avassalador do close-up, sem nos dar qualquer opção de desviar a atenção (apenas fechar os olhos mesmo), é a grande força de Never, Rarely, Sometimes, Always (EUA / Reino Unido, 2020, dir.: Eliza Hittman).

Never, Rarely, Sometimes, Always 2Força classicizante, e não é à toa que o filme venceu, em Sundance este ano, o prêmio de “Neorrealismo” (U.S. Dramatic Special Jury Award). Ganhou também o Urso de Prata em Berlim (Grande Prêmio do Júri). É o terceiro longa-metragem da cineasta Eliza Hittman e o estudo de personagem empreendido aqui tem ressonâncias significativamente potencializadas pelo olhar feminino da diretora e roteirista.

A proximidade do ponto de vista faz com que a história acompanhe a situação de violência contra a mulher, gravidez indesejada na adolescência e aborto antes com o olhar atento do testemunho e a disposição do ouvir com atenção a vivência alheia (a empatia), do que com a rigidez (e intolerância) do julgamento moral sumário ou das teses prontas – estas últimas fazem do inferno o paraíso das “boas” intenções.

Never, Rarely, Sometimes, Always 1A câmera-olho de Hittman apenas acompanha a jovem protagonista na difícil jornada, em demonstração solidária da sua presença reconfortante, assim como a (única) amiga dela quase sempre em cena. E isso já é tudo. Não precisa de mais nada. Apenas o testemunho silencioso – a voz é a da personagem, sempre, a única que interessa (a própria trilha sonora é quase inexistente, e quando aparece, são poucas notas para leve ambiência).

A imagem fixa no rosto de Autumn (Sidney Flanigan), durante a quase totalidade da difícil entrevista na clínica de aborto, é como se disesse, fraternal: “eu estou aqui, com você, tá?” E a panorâmica ao longo do corpo da jovem, deitada na mesa cirúrgica para o procedimento, terminando por revelar que todos na sala – médica, assistentes e enfermeiras – são mulheres, compõe uma cena de um neorrealismo intenso, sensível, significativo.

Enfim, seria fácil desprezar Never, Rarely, Sometimes, Always como um filme-tique da estética indie norte-americana. Ou como um filme “de mulheres” (consequentemente, “para mulheres”). Basta lembrar a condescendência com que Adoráveis Mulheres da Greta Gerwig foi recebido por parte considerável – e prestigiada – do público crítico masculino nos próprios EUA. Mas não faça isso. Apenas. Sejamos melhores.

United Skates

united skates 2United Skates (2018), mais do que um documentário, é um manifesto. Mais do que um documento, é um monumento erigido à cultura da patinação que é elemento intrínseco da identidade afro-estadudinense, sofrendo, como tal, a mesma perseguição histórica. As produtoras e diretoras Tina Brown e Dyana Winkler acompanharam pessoas, famílias e estabelecimentos durante anos, registrando a vivência apaixonada – individual e coletiva – da patinação / dança / arte sobre rodas.

Mas também há o registro do doloroso processo de decadência comercial e inevitável desaparecimento dos históricos (e enormes) salões de patinação espalhados por todos os EUA, causados pela asquerosa mistura entre especulação imobiliária selvagem e segregacionismo racista. O grande capital não se interessa por espaços públicos, espaços estruturadores de uma vida em comunidade; e o poder político não quer tamanha concentração de uma população supostamente perigosa em um espaço não-controlado.

unitedskates-1024x576Até a implementação efetiva dos direitos civis (anos 60), os rinks de patinação eram totalmente segregados. Quando foram forçados, por lei, a promover integração, saíram-se com uma artimanha malandra: festas “temáticas” em noites específicas direcionadas aos frequentadores afro-estadudinenses: as adult nights, soul nights etc. Implicitamente, comunicava-se que os negros não poderiam frequentar a pista nos outros dias e horários. Mas o tiro saiu – mais uma vez – pela culatra.

As adult nights foram grandes responsáveis pelo desenvolvimento de toda uma cultura black: muitos artistas do hip-hop e do r&b se revelaram para a fama apresentando-se para pistas lotadas de dançarinos e dançarinas sobre rodas. Mesmo assim, o ódio não descansará. Duas das mais fortes e incômodas cenas deste filme: uma fotografia de arquivo que mostra manifestantes brancos, com a suástica nazista em braceletes e cartazes, espalhando ódio na frente de rinks de patinação frequentados por negros (ainda durante a época da segregação).

united skates 1E uma longa sequência, com a câmera escondida, mostrando a principal família que o filme acompanha (da matriarca Phelicia Wright) ao tentar – em vão – entrar em uma pista frequentada por brancos (após o fechamento das pistas administradas por afro-descendentes na região): cartazes afixados na janela da bilheteria proibindo gêneros de música black, assim como patins e acessórios comumente usados por patinadores / dançarinos negros (com rodinhas menores, sem freio no “dedão” etc.).

Mas nem tudo são derrotas, e o documentário procura manter um tom afirmativo, propositivo e esperançoso. Toda forma de repressão cultural costuma se mostrar – inevitavelmente – infrutífera, a História o mostra bem. As identidades e sua expressão não podem permanecer silenciadas e sempre retornam de um jeito ou de outro. United Skates é uma produção do canal de TV por assinatura HBO e está disponível, para o público brasileiro, no serviço de streaming da emissora.

Se A Rua Beale Falasse

Beale Street 1O cineasta Barry Jenkins vem expressando uma sensibilidade bastante apurada desde Medicine for Melancholy (2008), e a consagração oficial veio com o Oscar de melhor filme para Moonlight (2016). Agora, apesar daquela ansiedade geral a respeito do que vem depois de uma obra-prima, Se A Rua Beale Falasse (2018) mantém com firmeza as melhores qualidades do diretor.

Sensibilidade essa que se manifesta de forma muito organicamente ligada a um esmero estético pensado e executado na mesma medida de cuidado, compromisso, dedicação, afeto. A fotografia em grande formato (65 mm) de James Laxton é uma das mais belas, imersivas e rigorosas do cinema contemporâneo. Os contrastes de luz e cor possuem a exatidão para destacar a (beleza) da pele negra e o amor do casal protagonista, em matizes quentes.

IBSCT_09450_R_CROPIsso ganha um significado ainda mais especial quando se pensa que a tecnologia está longe de ser um instrumento “neutro” nas relações entre mídia e sociedade, e a fotografia serviu, durante muito tempo, de reprodução para padrões de normalização racista. Chama a atenção também a recorrência constante das cores vermelha e verde: nos figurinos e nos cenários (lâmpadas, pinturas de paredes, móveis etc.).

Eis um sutil recurso discursivo de Jenkins: vermelho e verde, junto do preto, são os tons da bandeira pan-africana ou bandeira da libertação negra, criada pela Associação Universal para o Progresso Negro (AUPN) em 1920, durante convenção realizada em Nova York. Sim, este é um filme que se posiciona de maneira inequívoca em relação aos seus conteúdos, o que despertará velhos ressentimentos em parte da crítica (falaremos disso mais adiante).

IBSCT_11669_RO lens flare, junto da narração em off da protagonista e de uma trilha que cadencia a emoção, fazem lembrar o lirismo do melhor Malick (A Árvore da Vida, 2011). A alternância entre os tempos da história produz um efeito também especial. Acompanhamos os esforços presentes de Tish (Kiki Layne) e de sua mãe Sharon (Regina King, que ganhou o Oscar de melhor atriz coadjuvante pelo papel)  em tentar provar a inocência do namorado daquela, Fonny (Stephan James), acusado injustamente de estupro.

Em paralelo, seguimos etapas passadas da relação de amor e amizade entre os dois jovens, que vem desde a infância de ambos, principalmente os momentos felizes de elaboração de um plano de vida conjugal. No entanto, já sabemos o desfecho trágico. Se A Rua Beale Falasse é adaptação do romance homônimo de James Baldwin, grande representante da literatura e do ativismo afro-estadudinenses, autor de Eu Não Sou Seu Negro.

200px-Beale_-_PosterHaverá – acredite! – quem diga (críticos “profissionais”) que este filme peca pela “afetação”, “frouxidão”, “dramaticidade convencional”, “direção irregular de atores”. Não passa de um daqueles casos, mais uma vez, em que a acusação revela mais a respeito do acusador do que do acusado. É postura da mesma natureza que a dos resenhistas que choramingaram sobre o suposto extremismo político de Bacurau (2019), de Kléber Mendonça Filho.

Tendo em vista a eterna baixa representatividade – humanamente digna – de filmes negros (para usar a expressão da Dra. Robin R. Means Coleman no ótimo livro intitulado Horror Noire: A Representação Negra no Cinema de Terror: produções feitas por afro-descendentes, para afro-descendentes, sobre suas próprias vivências), vai demorar muito tempo ainda para que dramas negros possuam qualquer coisa de “convencional”.

Eu, Tonya

i-tonya-1518803140O diabo mora nos detalhes. E o cinema também. Um único gesto, mostrado em primeiro plano, pode resumir um filme inteiro, seus personagens, suas histórias, os temas e ideias que o diretor / roteirista pretende “representar” através desses mesmos personagens e histórias. Tudo isso cabe dentro de uma única imagem, que passa rapidamente.

Vamos pontuar bem as coisas aqui, antes de chegarmos ao “x” da questão: personagens, histórias, temas e ideias são – em princípio – elementos de uma narrativa… literária, não? Pois bem. Um filme pode ser uma narrativa, mas será – excetuando-se os experimentalismos radicais – uma narrativa audiovisual.

e8eff92a0d74cd8b4e3054bb3b770c34Isto quer dizer que, preferencialmente (talvez), os seus elementos geneticamente romanescos serão transfigurados em formas de áudio e vídeo – com uma expressividade que lhes esteja de acordo. Não há dúvida alguma de que os melhores filmes (narrativos), dos melhores cineastas, escolhem meios expressivos audiovisuais, primordialmente.

Infelizmente, no entanto, tais filmes e tais cineastas são uma minoria. Mas dá um gosto tremendo quando um deles dá o ar de sua graça, para quem realmente aprecia Cinema. Este é o caso de Eu, Tonya (“I, Tonya”, EUA, 2017), dirigido por Craig Gillespie – autor da pequena obra-prima intitulada A Garota Ideal (“Lars and The Real Girl”, 2007).

film_I-Tonya_1200x800-1024x683Toda a disfuncionalidade (para dizer o mínimo), ou as deficiências cognitivas e de caráter (para dizer o máximo) de Tonya Harding, personagem lastimavelmente real, aparecem resumidas e simbolizadas em um único gesto / plano que não dura mais do que alguns poucos segundos, em determinado momento do meio da sua tragicômica história.

Tonya, olímpica patinadora no gelo, está esperando a sua vez de entrar no rinque. No corredor de acesso, preguiçosamente encostada em uma parede, fuma o seu cigarro, já calçada com os patins e lâminas. Ao ouvir o sinal, ela, da maneira mais cotidiana do mundo, joga a bituca no chão e a espreme pelo meio, com a lâmina em seu pé.

tmp_SYVusN_873b544e784a3a9f_i-tonya-1508426635Vemos essa imagem em primeiríssimo plano, e o diretor faz questão de fazê-la durar o tempo suficiente (ainda que bastante breve) para percebermos que o cigarro não foi apagado, que aquele gesto foi de uma inutilidade, preguiça, ou sei-lá-o-quê ridiculamente inconcebíveis para qualquer pessoa minimamente desperta.

O filme todo não é ruim, está concorrendo ao Oscar de melhor atriz (Margot Robbie), melhor atriz coadjuvante (Allison Janney, que já ganhou o Globo de Ouro) e melhor edição, mas esse curtíssimo plano é de uma simplicidade, singeleza e expressividade geniais. Vale pelo longa inteiro.

Três Anúncios para Um Crime

IMG_1427O alcance da visão de mundo e das relações sociais na pequena cidade de Ebbing, Missouri (EUA) possui aquela extensão tipicamente limitada dos grotões rurais / patriarcais / arcaicos dos interiores profundos de muitos países; ou dos sistemas hermeticamente fechados das sociedades distópicas de narrativas especulativas (cujos ecos ouvimos em “O Conto da Aia”, de Margareth Atwood).

E uma das qualidades de Três Anúncios para um Crime (“Three Bilboards Outside Ebbing, Missouri”, EUA, 2017, dir.: Martin McDonagh) é permitir que o chorume de tais visões e relações escorra por entre os desvãos de tais comunidades que, não obstante, se creem puras, preservadas, impermeáveis, higienizadas (o velho higienismo social). Sutil, esse chorume segue escorrendo até alcançar os pés descalços do espectador distraído.

IMG_1429Exemplo: na sala de cinema, alguns espectadores riem das falas e ações preconceituosas dos personagens do filme, especialmente as do policial Jason Dixon (Sam Rockwell); outros riem COM elas. O roteiro de McDonagh é pontuado com diversas pequenas tiradas de humor negro / politicamente incorreto, principalmente em relação a minorias: mulheres, negros, homossexuais, até mesmo pessoas com nanismo (o personagem interpretado por Peter Dinklage).

Isso provoca um desconforto no espectador consciente e alguma sensação de claustrofobia moral – comum em narrativas distópicas. Mas é importante lembrar que o filme não adere, irrestritamente, ao ponto de vista de personagem algum. É natural que que se reforce a mãe interpretada por Frances McDormand; no entanto, mesmo ela não deixará de fazer parte de uma zona ética cinzenta que, afinal, definirá toda a cidade.

IMG_1428Essa escolha já fez com que “Três Anúncios…” fosse criticado por setores mais progressistas, que exigiam que o longa tomasse postura mais, digamos, contundente em relação a personagens como o de Rockwell. Mas o filme de McDonagh não é, de maneira alguma, reacionário; tampouco adota o conservadorismo de um Clint Eastwood. É um bom western contemporâneo.

Está indicado a 7 Oscars: melhor filme, melhor atriz para Frances McDormand, melhor ator coadjuvante para Sam Rockwell e Woody Harrelson, melhor roteiro original, melhor edição e melhor trilha sonora original. Ganhou os Globos de Ouro de melhor filme dramático, melhor roteiro, melhor atriz (McDormand) e melhor ator coadjuvante (Rockwell). Estreou no Brasil esta quinta-feira, 15 de fevereiro.