Jallikattu

Um mergulho vertiginoso e psicodélico no coração das trevas onde homens e ruminantes se encontram (e se igualam)

jallikattu 1Estes dias recebi um videozinho bizarro via WhatsApp: em uma academia de musculação, dois brutamontes ajudavam um ao outro nos exercícios, estimulando-se mutuamente com gritos semi-histéricos de ordem e autoafirmação. A compleição muscular de ambos excedia em muito o limite de qualquer noção de belo e tocava perigosamente as fronteiras do saudável. Poucas vezes, vi uma demonstração tão tragicômica da construção social dominante que se edificou em cima da imagem psicológica de um hormônio (testosterona).

Jallikattu (Índia, 2019) são noventa e cinco minutos dessa mesma – insaciável – demonstração; felizmente, de um ponto de vista satírico. O filme teve première internacional no Festival de Toronto deste ano e foi muito bem recebido (mas não esteve na Mostra de SP): o diretor, Lijo Jose Pellissery, vem sendo aclamado pelo experimentalismo e humor negro dos seus longas. O nome do meio, indefectivelmente lusitano, revela a origem do cineasta: sul da Índia (Jallikattu é falado em malaiala, idioma do estado de Kerala).

jallikattu 2O título faz referência a uma festa popular-tradicional da região que lembra a corrida de touros em Pamplona (Espanha), pela extrema violência e pelo espetáculo grotesco de masculinidade tóxica. Mas o roteiro adapta o conto Maoist, do escritor S. Hareesh, sobre um búfalo (e uma vaca, na narrativa original) que escapa do cutelo de um açougueiro e provoca caos, destruição e morte em uma pequena comunidade rural, que se mobiliza inteira para recaptuar o animal. O próprio escritor co-assina a adaptação.

Não tive acesso à obra literária e morro aqui de curiosidade a respeito dos possíveis (e simbólicos) significados desse título, tendo em vista que o sul da Índia é território em que germinou bem a ideologia maoista. Quanto ao filme de Pellissery, as implicações alegóricas possuem a sutileza das estocadas que o ruminante fugidio distribui entre os seus algozes. Jallikattu vai descrevendo, em ritmo alucinante, a descaída da civilização no lamaçal da mais pura selvageria.

jallikattu 4Não que tal civilização já fosse muito “evoluída” em primeiro lugar: as tensões de classe na comunidade pobre retratada têm a fúria latente de um touro prestes a escapulir. O protagonismo é da própria coletividade, como nas melhores narrativas do realismo socialista, mas dois personagens vão se destacar: Kuttachan (Sabumon Abdusamad) e Antony (Antony Varghese), ambos empregados do açougueiro local, Kalan Varkey (Chemban Vinod Jose), rivais na profissão e na disputa pelo amor da mesma mulher, Sophie (Santhy Balachandran).

Os dois homens lutarão um com o outro até a morte nas muitas e frustradas tentativas de laçar o búfalo – e reivindicar para si o “heroísmo” do ato, sob olhar complacente das autoridades – acostumadas a receber fatias bastante generosas de carne por parte do açougueiro. Da sua parte, o ruminante também contribui para a desagregação social ao invadir e destruir uma agência bancária (sob comentário irônico de um local, na esperança de que sua hipoteca seja cancelada), dentre outros logradouros.

jallikattu 3Praticamente todos os homens do vilarejo se engajam cegamente na caçada ao animal, oferecendo ao espectador uma impressionante representação visual do efeito “manada” aplicado às turbas ensandecidas, pela câmera de Pellissery, em planos que evocam – em alguns momentos – a alegoria social dos filmes de zumbis: atenção às imagens em que a abjeção chega ao paroxismo grotesco-ridículo de um Pieter Bruegel ou um Hieronymus Bosch, se estes fossem storyboard artists de Guerra Mundial Z (2013).

Os raros momentos civilizados dessa “missão” – em que todos colaboram na construção de uma roldana para içar o búfalo que caíra em um poço, ou em que os feridos são carregados por várias mãos para fora da zona de combate – descambam logo em gritos, xingamentos e pancadaria generalizada, ou ainda em correria e pânico (na recorrente fuga do animal, que sempre encontra meios de driblar os “heróis”). Um plano bastante enfático resume a ideia: as pegadas de um homem e do ruminante, lado a lado, na lama.

jallikattu 5O filme todo é inequivocamente pedagógico em suas sugestões metafóricas; mesmo o final potencialmente ambíguo apontará para possibilidades de significados claros e precisos, à escolha do espectador. O cineasta e o escritor querem apontar para a fragilidade das relações humanas e sociais (Hareesh declarou que o conto nasceu da sua experiência, na infância, ao testemunhar a festa do Jallikattu); a crítica, por sua vez, tem focalizado bastante na identificação de dados típicos da masculinidade tóxica.

Mas o valor maior deste filme, para além do didatismo com que se expressam suas alegorias, manifesta-se na montagem. Jallikattu gira no ritmo sincopado de uma dança / transe coletivo, ritualístico, sem pausa alguma para que o espectador respire e organize o turbilhão de dados sensoriais, emotivos, racionais dentro do qual é arremessado logo de cara: o abrir de olhos dos moradores do vilarejo ao despertarem com o nascer do sol, na cadência de um tic-tac não-diegético que se ouvirá como “refrão” ao longo de toda a exibição.

jallikattu 6Conforme vai avançando em crescendo o esfacelamento derrisório de personagens, racionalidades e sociabilidades, uma atmosfera alucinógena / psicodélica vem se juntar ao ritmo (sempre no limite da tensão) com que é conduzida a história, ao ponto da overdose – com a qual o filme termina repentinamente, atirando e largando o espectador em uma paisagem audiovisual tão imersiva quanto infernal, da qual ele(a) demorará a voltar por suas próprias forças. Jallikattu ressoa em nossa mente e em nossos sentidos por muito tempo.

Bioscópio

MV5BZjVkYWQ3MDktNzU2MC00N2FmLWExNGQtMDA2OTZkNTVmMmQyXkEyXkFqcGdeQXVyNjY1MTg4Mzc@._V1_SY1000_SX750_AL_Escrevi o texto abaixo no antigo Sombras Elétricas (http://sombras-eletricas.blogspot.com/), em outubro de 2008. Segue republicado com algumas revisões.

Vi o filme Bioscópio na 32ª Mostra de Cinema de São Paulo. E fiquei muito impressionado. Mas, desde então, nunca mais achei essa pepita cinematográfica em lugar algum. Não teve lançamento em mídia física ou digital para download (pelo menos, não no Brasil), nem em streaming. Tampouco o velho e bom torrent a gente encontra, mesmo em fóruns especializados.

Se alguém teve melhor sorte do que eu, please help… Enfim, vai a resenha.

Isto não é um filme. Isto é uma experiência. Pouquíssimas vezes a gente sente de verdade toda a extensão do poder inebriante do cinema, nos recônditos mais profundos do corpo e da alma, alterando mesmo nosso estado de consciência. É difícil descrever o fenômeno, mas é um negócio… epifânico. Bioscópio (Índia, 2008, dir.: K. M. Madhusudhanan) é uma experiência estética, lisérgica e mística – ao mesmo tempo.

O diretor parece dotado de um verdadeiro entusiasmo no sentido etimológico (grego) da palavra, possuído pela divindade que lhe revela e o faz revelar a nós realidades escondidas por trás do véu do nosso próprio mundo. Assim como o poeta-profeta das épocas em que mito não era sinônimo de mentira (ou coisa pior). A bruxaria de Bioscópio tem parentesco com Méliès, Dreyer e Vigo; Pasolini, Tarkovski, Kubrick e David Lynch.

É o cinema de poesia. Estranho, bizarro, surreal, unindo o interior e o exterior, a matéria e a ideia. Cinema-total. Filmes assim têm uma aura de relíquia sagrada, objeto de arte-culto. É um cinema meditativo, de ritmo lento e olhar voluptuoso, curioso: um olhar de libido e fé. Todos os opostos se reforçam e se desfazem em uma transcendência espiritualmente materialista, psicodelicamente sóbria.

fotoA história é mais ou menos o seguinte. Um homem simples assiste a uma apresentação do “bioscópio”, por um francês em viagem pela Índia nos anos de 1920. É, na verdade, um velho projetor de filmes à manivela. O homem fica tão impressionado que compra o aparelho e continua a missão, armando e desarmando a sua tenda itinerante, testemunhando as reações das pessoas que veem pela primeira vez as imagens em movimento.

São exibidos clássicos como Intolerância (1916) e O Gabinete do Dr. Caligari (1919). O bioscópio logo vira assunto (polêmico): o povo o toma como algo sobrenatural – divino ou demoníaco. Enquanto isso, a irmã do protagonista definha em casa lentamente, presa a uma cama por doença que não se consegue descobrir ou curar; apenas se sabe que ela a teria adquirido após ver o cadáver de um europeu na praia, dez anos antes.

O pai passa a acreditar que o mal misterioso vem de maldição causada pelo bioscópio e exige que o filho se livre da máquina diabólica. O jovem cinéfilo se encontrará, então, em um terrível dilema.

Esse enredo se mostra em uma fotografia de rigor pictórico como poucas vezes se vê no cinema de hoje. Fotogenia pura. Cada imagem do filme parece ser pintada à mão: o senso de composição e de equilíbrio, de linhas de força e de tensão, a perspectiva em profundidade de campo, a harmonia das cores, o claro-escuro, a atmosfera. Tudo aqui é um estímulo libidinoso à visão.

Até mesmo o desenho do sânscrito em faixas e cartazes ganha uma aura impressionista, animada. A alma das coisas: poucos pintores a captaram. Decididamente, não é à toa que o filme usa como epígrafe a frase, atribuída a Cezánne: “Olhem para esta montanha, um dia isto foi fogo?”

bioscopeMadhusudhanan filma com a fascinação dos pioneiros da sétima arte. E transmite ao espectador essa fascinação de coração aberto: nada se perde pelo caminho. A reação deste não será muito diferente daquela das plateias do primeiro cinema. Poucos filmes nos fazem olhar para a tela como se fosse a primeira vez (na história pessoal ou coletiva). Bioscópio realiza essa façanha, resgate, redenção.