Visages, Villages

VisagesÉ muito raro, não sei dizer se feliz ou infelizmente; mas, de tempos em tempos, aparece um filme que nos faz ver o cinema como da primeira vez. Como da primeira vez que se viu cinema. Esses filmes conseguem chegar ao âmago mais profundo e surpreendentemente (ou não) simples de sua arte. O reencantamento não só da arte, como também do mundo. E do ser.

Geralmente, não há segredos: é só filmar; depois, montar as imagens filmadas em uma determinada sequência. Mas aí é que reside o talvez único segredo: saber o que filmar. Expressividade. É neste ponto que Visages, Villages (França, 2017, dir.: Agnès Varda e JR) atinge a sua grande realização. Poucos filmes são tão expressivos, em termos do que mostram, demonstram, revelam. E de maneira tão simples, tão despojada, ainda por cima.

visages-villagesEste aparente documentário é, na verdade e sob certo olhar, um road movie, com uma narrativa muito organizada e fechada, apesar da também aparente espontaneidade do seu planejamento e realização. Não vamos contar o final da história; basta dizer que existe sim um final, muito bem amarrado, sensível e significativo. Um final que vai sendo construído através de acontecimentos, falas, reações, relações – como em toda narrativa.

A história é a da viagem de Agnès Varda – veteraníssima cineasta, precurssora da nouvelle vague – e do artista JR, conhecido pelos retratos de pessoas comuns, impressos em grandes formatos e colados como “lambe-lambes” em espaços abertos. Ambos viajam juntos ao redor da França, com um projeto artístico em comum: contar histórias de diferentes pessoas e diferentes lugares, unindo-as através dos “lambes” de JR.

Visages-Villages-1Mas, por trás da camada mais evidente de “filme de estrada”, Visages, Villages revela-se como um digno representante da tradição clássica do cinema de poesia, no lirismo de seus planos – abertos (villages – vilas) ou fechados (visages – rostos); no lirismo de seus depoimentos – vidas, histórias de vidas. E, acima de tudo, na espontaneidade lírica da narração / depoimentos / falas de Agnès Varda.

A naturalidade e despojamento típicos da cineasta – não há como não lembrar Os Catadores e Eu (2000) e As Praias de Agnès (2008) – também fazem com que o rótulo de “documentário” sirva bem pouco aqui. Visages, Villages é mais um belo filme-ensaio feito pela diretora. Planejando a filmagem com JR, ela chega a afirmar, categoricamente, que “o acaso é o meu melhor assistente”.

visages-villages-normandie-avjr-plage-brume-chaises-profilA forma livre do ensaio, no cinema ou na literatura / filosofia, exige dos seus autores disponibilidade, espontaneidade e entusiasmo (aliás, é contagiante o entusiasmo de Agnès, no alto dos seus 89 anos de idade). Theodor W. Adorno, ensaísta do ensaio (meta-ensaística), destaca a viva carga de subjetividade do gênero; a postura do ensaísta é como a da criança, deslumbrada com o descobrimento do mundo.

O ensaio é montado como um brinquedo, com gosto: “felicidade e jogo lhe são essenciais”, arremata o filósofo. Mas para que falarmos de teoria? A teoria só serve para reforçar no intelecto a experiência sensível: não há nada que se possa explicar ou sistematizar que já não esteja expresso muito claramente, com força sugestiva e simplicidade, dentro de Visages, Villages.

640_366308.jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxxÉ um filme que encanta e conquista, sem qualquer sombra de apelação. É a arte, a vida e o ser humano na tela, naturalmente. É um filme que se vê com atenção contemplativa e alma desarmada. Enfim, esteve presente nas listas dos melhores filmes de 2017, na mídia internacional. Está concorrendo ao Oscar de melhor documentário. Estreou nos cinemas brasileiros na última quinta-feira, 25 de janeiro.

The Square

square-1The Square – A Arte da Discrórdia (“The Square”, Suécia / França / Alemanha / Dinamarca, 2017, dir.: Ruben Östlund) abre com uma entrevista de Christian (Claes Bang), diretor de um prestigiado museu de arte em Estocolmo, à jornalista Anne (Elisabeth Moss). Ela lhe pede para explicar o pré-release de uma exposição, após ler para ele em voz alta um texto tão cheio de preciosismos (linguísticos, conceituais), que o espectador já versado nos golpes publicitários do mercado de arte contemporânea mal consegue segurar o riso. Christian faz um gesto, mal-disfarçado, de que tampouco conseguiu entender o manifesto; e decide inventar uma resposta qualquer, improvisada e igualmente mal-disfarçada, cheia dos lugares-comuns mais gastos das “reflexões” sobre a arte atual.

Esta primeira cena define o tema e o tom do filme ganhador da Palma de Ouro em Cannes, ano passado, e que está na lista dos pré-indicados ao Oscar deste. Trata-se de uma farsa que quer romper o circuito fechado dos grandes acumuladores de capital cultural (e econômico: Christian confessa, em determinado momento, conhecer uma das 6 pessoas que detêm 50% da riqueza mundial). Para tanto, praticamente todas as cenas são pensadas e realizadas com uma marcação muito intensa de tensões / conflitos / desarticulações, provocando um efeito constante de desconforto / constrangimento no espectador: entre o eu e o outro; o indivíduo e o coletivo; o público e o privado; o pensamento e a ação; o adulto e o infantil; o homem e a mulher; o loiro (“arquétipo” sueco, como diz um personagem) e o moreno (arquétipo do estrangeiro); o rico e o pobre.

the-square-20178355Mas, sobretudo (e é este ponto que quero destacar aqui), o contraste tenso entre a imagem e a realidade. O filme se aproveita, ironicamente, de alguns tópicos fundamentais (e já bem manjados) da arte moderna e contemporânea: para ficarmos na “conversa fiada” de Christian na cena inicial, temos as dialéticas entre o lugar e o não-lugar, entre exposição e não-exposição – um objeto cotidiano qualquer, se colocado dentro de um museu-galeria, torna-se “arte”? Ruben Östlund utiliza esses clichês para desconstruir o estatuto de muito da “arte” que se faz hoje, desconstruindo consequentemente a visão de mundo dos grupos muito poderosos que manipulam e controlam essa arte, revelando principalmente a extrema distância entre essa visão de mundo e a ação efetivamente praticada na igualmente distante realidade social.

Porém, acima de tudo, The Square nos faz questionar o estatuto da própria imagem que vemos na tela, dentro do contexto narrativo, o tempo todo. Seguem os dois maiores exemplos. Ainda no começo do filme, vemos Christian caminhar pela rua, no meio da multidão, despreocupadamente. Então, começamos a ouvir repetidos gritos de socorro, à distância. Christian (protagonista) e outros pedestres olham algumas vezes para trás, sem conseguir identificar a autora dos gritos (a voz é de mulher). Não deixará de passar pela mente do espectador, já conquistado pelo tema e tom do longa, a suspeita de que se trata de mais uma performance artística, um happening. Finalmente, vemos uma moça correr para um transeunte, perseguida por um homem bastante exaltado. O figurante pede ajuda para Christian, e ambos tentam segurar o suposto agressor.

thesquare-1366x873O homem apenas responderá com um sorriso irônico, uma fala breve de “desconversa”, e irá embora rapidamente (a moça também desaparece). Pouco depois, Christian dá pela falta de sua carteira, telefone celular e abotoaduras. Eis o pequeno crime que colocará em movimento as principais engrenagens da trama, com consequências muito negativas para o protagonista. Mas a dúvida em que fica o espectador durante alguns bons momentos: perigo real ou “pegadinha artística”, na maneira como a cena foi decupada: os gritos iniciais de socorro estão fora de quadro, vemos apenas as reações de Christian e outras pessoas, é um recurso cinematográfico constante na criação do efeito de desconforto e sátira corrosiva deste filme e suas imagens tão absurdas que duvidamos da verdadeira realidade delas.

O outro principal exemplo em que The Square manipula a percepção e as reações do espectador, tal como faz uma típica instalação / performance artística pós-moderna, é uma longa cena que traz a representação de uma performance artística pós-moderna. Um artista, apresentado como Oleg (Terry Notary), encarna o personagem de um grande símio que invade o jantar de gala beneficente do museu e começa a “interagir” com os convivas, ao ponto da agressão física e sexual – para surpresa e não-surpresa do espectador. Temos aqui uma referência clara ao artista ucraniano Oleg Kulik, que, nos anos 80 e 90, polemizou e se notabilizou por performances nas quais imitava um cão feroz, inclusive atacando, com mordidas, pessoas de quem se aproximava – ou se aproximavam dele (uma dessas ações ocorreu dentro de um museu em Estocolmo, como parte de uma exposição).

The-SquareA cena termina com o linchamento do artista-gorila pelos sofisticados senhores e senhoras do salão. Não será muito diferente do linchamento moral que Christian sofrerá pela estratégia de marketing adotada para o lançamento da obra que dá título ao filme (o quadrado). As intenções desta fazem parte do otimismo ingênuo e da moral egocêntrica que as classes mais altas adoram ostentar – os slogans do tipo “gentileza gera gentileza”. Mas a divulgação trará um vídeo viral em que aparece uma criança abandonada “explodindo” dentro do quadrado em questão. Christian, por sua vez, não deixará de fazer um linchamento, ao acusar – semi-anonimamente – todos os moradores de um edifício humilde, em um bairro pobre de Estocolmo, de roubarem seus pertences (a carteira, o celular e as abotoaduras “do seu avô”), ameaçando-os de represálias.

Todas as coisas, neste filme, atrapalham umas as outras, parecem ser o que apenas talvez não sejam de fato e contribuem para jogar areia na máquina “perfeitamente” funcional da alta sociedade do primeiro-mundo. Um executivo tentando acalmar seu filho bebê que esperneia durante uma reunião (e os outros tentando, muito civilizadamente, ignorar o incômodo), um homem com síndrome de Tourette gritando insultos na plateia de uma entrevista (com a mesma reação por parte das outras pessoas), o barulho desagradável de uma instalação artística atrapalhando uma discussão de relacionamento entre Christian e Anne (mesma reação), um pequeno acidente de carro (Christian) em que não se sabe se foi atingido um obstáculo inanimado ou uma pessoa, etc. The Square é um filme que atrapalha. Mas na tentativa de nos fazer sair de – muitas – zonas de conforto.

Columbus

hero_Columbus-2017Em Meu Tio (“Mon Oncle”, 1958), o grande Jacques Tati edifica uma decupagem de precisão exata, plano a plano. O acabamento é uma sutil, porém aderente, camada de ironia com a qual o cineasta busca erodir a falácia do Modernismo: na arquitetura, na decoração. As gags concentram-se em escancarar a desconfortável e constrangedora incompatibilidade entre o frio design do século XX e o corpo-ser humano.

Em Columbus (idem, EUA, 2017, dir.: Kogonada), o jovem Jin (John Cho) conta para a ainda mais jovem Casey (Haley Lu Richardson) que o seu pai, um renomado arquiteto e professor, acredita em um “modernismo com alma”. E Kogonada, em sua estreia na direção, recorre a uma decupagem precisamente calculada para extrair – como leite de pedra – alguma alma a partir da arquitetura modernista.

columbus-architectural-stills_dezeen_2364_col_2-852x461E consegue. Logicamente, o rigor da fotografia e da montagem aqui não será o de Tati, mas o de Ozu. A câmera na altura de uma pessoa sentada sobre os joelhos à maneira oriental (cinema-reverência); os enquadramentos dentro do plano: um jogo de correspondências entre linhas, ângulos em 90º, molduras, representando o próprio estilo moderno presente nas edificações que igualmente enquadram a história.

História bastante sensível (mais uma vez, Ozu) que é a do não-amor entre Jin e Casey. Ele está passando, a contragosto, uma temporada na pequena cidade de Columbus (Indiana, EUA; considerada “Meca” da arquitetura), para acompanhar a progressão do estado de saúde do pai, com o qual não possui boas relações. Ela trabalha na biblioteca da cidade e cuida da mãe, usuária de crack em recuperação.

columbus-architectural-stills_dezeen_2364_col_0-852x461Ele abandonou a graduação. Ela possui grande talento para a arquitetura, mas se recusa a abandonar a mãe em Columbus para estudar em alguma universidade. O filme acompanha, com rica sensibilidade, os passeios e conversas deste quase-casal, conforme vão se conhecendo e se conectando mais a fundo, emoldurados pelas impressionantes obras arquitetônicas da cidade.

O cinema já foi considerado a maior das artes, por ser entendido como a síntese entre todas elas. E, de fato, há filmes-pinturas, filmes-sinfonias, filmes-poemas. Mas um… filme arquitetônico? Entre o desenho calculado na prancheta e o desenho calculado no set (e na ilha de edição), Kogonada preenche de sensível intencionalidade o estruturalismo e o funcionalismo que inovaram e envenenaram a arte (qualquer que seja) moderna.