Descobrindo William Wegman

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Blue Monday

William Wegman é um artista norte-americano que vem trabalhando em diversos suportes desde os anos 70, com pinturas, fotografias e vídeos. São famosas as séries fotográficas com os cães enormes da raça weimaraner carinhosamente chamados de Man Ray (em homenagem ao fotógrafo homônimo) e Fay Wray (nome retirado da clássica atriz de cinema). Wegman também é considerado um dos pioneiros da videoarte: contribuiu para o maravilhoso videoclipe de “Blue Monday” (1988), do New Order, e para a série infantil de TV “Vila Sésamo” (a partir de 1989); além de diversos “microcurtas” experimentais, dos quais o site oficial do autor oferece uma pequena amostra. São filminhos-brincadeiras poéticas que dificilmente passam muito de 1 minuto de duração, e são exibidos sem qualquer edição, legendas ou créditos (antecipando os youtubers?). Vamos aos melhores deles:

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Stomach Song

Stomach Song (“Canção do Estômago”, 1970-1971, 1:20): o artista aparece sentado numa cadeira e enquadrado fixamente num plano médio que lhe corta a cabeça e os pés. No centro do quadro, os mamilos e a dobra da barriga na altura do umbigo formam um rosto que começa a “conversar” com o espectador e cantar, graças a movimentos musculares bastante inventivos e à voz em off do artista. O efeito, em si, é bastante circense e nem um pouco original. Mas, colocado num vídeo, leva-nos a pensar nas relações entre o recorte de mundo sempre significativo que é operado pela câmera e o fora de campo (hors champ), o qual – no entanto – continua presente no quadro em potência, atuando e construindo sentidos na relação com os elementos visíveis no plano. O efeito especificamente fílmico nos faz lembrar as experiências “mágicas” de Georges Meliès para as primeiras plateias do cinema, que tinham dificuldades em entender que uma parte do corpo “cortada” pelo enquadramento ainda estava lá, no mundo real, organicamente ligada ao todo.

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Dog Duet

Dog Duet (“Dueto de Cães”, 1975-1976, 2:38): dois simpáticos cachorros são enquadrados num plano de conjunto e de frente para a câmera, enquanto acompanham muito curiosamente com o olhar algum objeto que parece se movimentar na frente deles, seguindo a linha retangular do plano – o que já promove uma brincadeira com a bidimensionalidade da tela de vídeo e suas relações com o tridimensional sugerido na imagem referencial que vemos dentro dela. Enquanto isso, vai aumentando a curiosidade e mesmo a ansiedade do espectador; quando o objeto passa perto do chão, os cães chegam a esboçar um gesto para pegá-lo. No final, aparecerá uma mão em primeiro plano segurando uma bolinha de tênis. Mais uma vez, Wegman joga com as relações entre o que está dentro e o que se encontra fora de campo, desta vez chamando a atenção para os olhares e gestos dos dois animais imediatamente transformados em personagens de uma breve narrativa de suspense. Isso é quase o método hitchcockiano de se mostrar primeiramente a reação no rosto da personagem (câmera objetiva) e, logo em seguida, colocar o espectador na perspectiva dela – com uma câmera subjetiva.

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Randy’s Sick

Randy’s Sick (“Randy Está Doente”, 1970-1971, 0:16): duas luminárias, uma grande e outra pequena (mas ambas com o mesmo design), estão colocadas frente a frente. A maior está quase na borda esquerda do quadro, e podemos ver uma mão que movimenta a sua “cabeça”, a qual diz (com voz logicamente em off): “Mãe, acho que o Randy está doente…” Então, a luminária pequena tomba para o lado… Alguém se habilita a dizer que John Lasseter plagiou este vídeo no famosíssimo e antológico Luxo Jr. (1986), animação computadorizada pioneira dos estúdios Pixar – cujo personagem principal ainda aparece na vinheta de abertura dos filmes da companhia? A semelhança é incrível, mas talvez seja melhor acreditar que qualquer olhar mais poético seria capaz de enxergar prosopopeias em certas formas de luminárias de cabeça redonda e corpo esbelto…

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Spelling Lesson

Spelling Lesson (“Lição de Ortografia”, 1973-1974, 0:49): um William Wegman profundamente compenetrado e sisudo está sentado à mesa com um cão, a quem dá lições de ortografia, corrigindo com o melhor ar professoral as palavras “escritas” pelo animal num caderno. O cômico neste vídeo é a seriedade com que o “mestre” se dirige ao seu “aluno”; este, por sua vez, permanece com os olhos fixos no seu interlocutor, como se lhe prestasse a mais bem disposta atenção – o cão chega, até mesmo, a inclinar a cabeça em alguns momentos, como se se esforçasse em compreender a “matéria”. O clímax é quando, no meio das reprimendas do professor, o pobre animal emite um som de choro canino e inclina-se para lamber a face do seu dono, o qual se apressa em dizer – meio sem jeito – que perdoa os erros do “estudante”, mas que ele deverá se lembrar de acertar da próxima vez…

Link para a página oficial do artista:

https://williamwegman.com/

Blog onde podem ser conferidos alguns vídeos, dentre outras obras:

https://wegmanworld.typepad.com/

 

 

The Square

square-1The Square – A Arte da Discrórdia (“The Square”, Suécia / França / Alemanha / Dinamarca, 2017, dir.: Ruben Östlund) abre com uma entrevista de Christian (Claes Bang), diretor de um prestigiado museu de arte em Estocolmo, à jornalista Anne (Elisabeth Moss). Ela lhe pede para explicar o pré-release de uma exposição, após ler para ele em voz alta um texto tão cheio de preciosismos (linguísticos, conceituais), que o espectador já versado nos golpes publicitários do mercado de arte contemporânea mal consegue segurar o riso. Christian faz um gesto, mal-disfarçado, de que tampouco conseguiu entender o manifesto; e decide inventar uma resposta qualquer, improvisada e igualmente mal-disfarçada, cheia dos lugares-comuns mais gastos das “reflexões” sobre a arte atual.

Esta primeira cena define o tema e o tom do filme ganhador da Palma de Ouro em Cannes, ano passado, e que está na lista dos pré-indicados ao Oscar deste. Trata-se de uma farsa que quer romper o circuito fechado dos grandes acumuladores de capital cultural (e econômico: Christian confessa, em determinado momento, conhecer uma das 6 pessoas que detêm 50% da riqueza mundial). Para tanto, praticamente todas as cenas são pensadas e realizadas com uma marcação muito intensa de tensões / conflitos / desarticulações, provocando um efeito constante de desconforto / constrangimento no espectador: entre o eu e o outro; o indivíduo e o coletivo; o público e o privado; o pensamento e a ação; o adulto e o infantil; o homem e a mulher; o loiro (“arquétipo” sueco, como diz um personagem) e o moreno (arquétipo do estrangeiro); o rico e o pobre.

the-square-20178355Mas, sobretudo (e é este ponto que quero destacar aqui), o contraste tenso entre a imagem e a realidade. O filme se aproveita, ironicamente, de alguns tópicos fundamentais (e já bem manjados) da arte moderna e contemporânea: para ficarmos na “conversa fiada” de Christian na cena inicial, temos as dialéticas entre o lugar e o não-lugar, entre exposição e não-exposição – um objeto cotidiano qualquer, se colocado dentro de um museu-galeria, torna-se “arte”? Ruben Östlund utiliza esses clichês para desconstruir o estatuto de muito da “arte” que se faz hoje, desconstruindo consequentemente a visão de mundo dos grupos muito poderosos que manipulam e controlam essa arte, revelando principalmente a extrema distância entre essa visão de mundo e a ação efetivamente praticada na igualmente distante realidade social.

Porém, acima de tudo, The Square nos faz questionar o estatuto da própria imagem que vemos na tela, dentro do contexto narrativo, o tempo todo. Seguem os dois maiores exemplos. Ainda no começo do filme, vemos Christian caminhar pela rua, no meio da multidão, despreocupadamente. Então, começamos a ouvir repetidos gritos de socorro, à distância. Christian (protagonista) e outros pedestres olham algumas vezes para trás, sem conseguir identificar a autora dos gritos (a voz é de mulher). Não deixará de passar pela mente do espectador, já conquistado pelo tema e tom do longa, a suspeita de que se trata de mais uma performance artística, um happening. Finalmente, vemos uma moça correr para um transeunte, perseguida por um homem bastante exaltado. O figurante pede ajuda para Christian, e ambos tentam segurar o suposto agressor.

thesquare-1366x873O homem apenas responderá com um sorriso irônico, uma fala breve de “desconversa”, e irá embora rapidamente (a moça também desaparece). Pouco depois, Christian dá pela falta de sua carteira, telefone celular e abotoaduras. Eis o pequeno crime que colocará em movimento as principais engrenagens da trama, com consequências muito negativas para o protagonista. Mas a dúvida em que fica o espectador durante alguns bons momentos: perigo real ou “pegadinha artística”, na maneira como a cena foi decupada: os gritos iniciais de socorro estão fora de quadro, vemos apenas as reações de Christian e outras pessoas, é um recurso cinematográfico constante na criação do efeito de desconforto e sátira corrosiva deste filme e suas imagens tão absurdas que duvidamos da verdadeira realidade delas.

O outro principal exemplo em que The Square manipula a percepção e as reações do espectador, tal como faz uma típica instalação / performance artística pós-moderna, é uma longa cena que traz a representação de uma performance artística pós-moderna. Um artista, apresentado como Oleg (Terry Notary), encarna o personagem de um grande símio que invade o jantar de gala beneficente do museu e começa a “interagir” com os convivas, ao ponto da agressão física e sexual – para surpresa e não-surpresa do espectador. Temos aqui uma referência clara ao artista ucraniano Oleg Kulik, que, nos anos 80 e 90, polemizou e se notabilizou por performances nas quais imitava um cão feroz, inclusive atacando, com mordidas, pessoas de quem se aproximava – ou se aproximavam dele (uma dessas ações ocorreu dentro de um museu em Estocolmo, como parte de uma exposição).

The-SquareA cena termina com o linchamento do artista-gorila pelos sofisticados senhores e senhoras do salão. Não será muito diferente do linchamento moral que Christian sofrerá pela estratégia de marketing adotada para o lançamento da obra que dá título ao filme (o quadrado). As intenções desta fazem parte do otimismo ingênuo e da moral egocêntrica que as classes mais altas adoram ostentar – os slogans do tipo “gentileza gera gentileza”. Mas a divulgação trará um vídeo viral em que aparece uma criança abandonada “explodindo” dentro do quadrado em questão. Christian, por sua vez, não deixará de fazer um linchamento, ao acusar – semi-anonimamente – todos os moradores de um edifício humilde, em um bairro pobre de Estocolmo, de roubarem seus pertences (a carteira, o celular e as abotoaduras “do seu avô”), ameaçando-os de represálias.

Todas as coisas, neste filme, atrapalham umas as outras, parecem ser o que apenas talvez não sejam de fato e contribuem para jogar areia na máquina “perfeitamente” funcional da alta sociedade do primeiro-mundo. Um executivo tentando acalmar seu filho bebê que esperneia durante uma reunião (e os outros tentando, muito civilizadamente, ignorar o incômodo), um homem com síndrome de Tourette gritando insultos na plateia de uma entrevista (com a mesma reação por parte das outras pessoas), o barulho desagradável de uma instalação artística atrapalhando uma discussão de relacionamento entre Christian e Anne (mesma reação), um pequeno acidente de carro (Christian) em que não se sabe se foi atingido um obstáculo inanimado ou uma pessoa, etc. The Square é um filme que atrapalha. Mas na tentativa de nos fazer sair de – muitas – zonas de conforto.