Me Chame Pelo Seu Nome

call-me-by-your-name-2A vívida beleza que se pode adivinhar por trás das camadas seculares de corrosão que velam as estátuas gregas desenterradas do fundo do mar adriático é um sinal da lição que o adolescente Elio (Timothée Chalamet) terá que aprender, ainda que a muito custo. O tempo cura, pode-se dizer; mas o titã Cronos também destrói. O que fazer? Não reprimir ou renegar a vivência presente, no que ela tenha de melhor ou de pior.

Me Chame Pelo Seu Nome (“Call Me By Your Name”, Itália / EUA / França / Brasil, 2017, dir.: Luca Guadagnino) é um filme pleno de sinais, indícios. Ainda na cena das estátuas recuperadas do fundo das águas (águas fundas = metáfora do inconsciente, suas pulsões, seus arquétipos), vemos um delicado braço de bronze (paradoxo interessante), todo corroído, que será usado em um jocoso cumprimento de mãos (gag clássica) entre Elio e Oliver (Armie Hammer).

Call-Me-By-Your-Name-1-1600x900-c-defaultA proposta é selar uma amizade para além de quaisquer males-entendidos; porém, esse braço-ruína que media o gesto conciliatório dos dois amigos-amantes também selará o inevitável distanciamento entre eles. Distanciamento que tem um nome: tempo. Braço-relíquia, evocado dos abismos do passado (memória) e das águas (inconsciente) para ensinar a Elio, filho de arqueólogo, uma lição de vida a respeito do desejo.

A mesma ambiguidade paradoxal (atração / repulsão) já estava presente no primeiro gesto-sinal de Oliver: um malicioso tapinha / princípio de massagem no ombro de Elio, repelido rigidamente por este. Não nos enganemos: o foco narrativo do filme é Elio; Me Chame Pelo Seu Nome poderia ser um capítulo de romance de formação (bildungsroman): tanto quanto uma descoberta amorosa / sexual, temos aqui um batismo de fogo existencial.

MV5BYjUyMjc4MDQtYmFiZS00MjEzLTkwZmYtMTQ5OGE5YjZlZWUxXkEyXkFqcGdeQXVyMjM4NTM5NDY@._V1_Qual o valor ontológico da experiência arrebatadora do amor-paixão, contraditória por excelência e tão efêmera? Elemento problematizador: a experiência de um amor homossexual em 1983. Mas Elio aprenderá a ser honesto consigo mesmo e com o tempo implacável, recebendo a ajuda da fonte mais improvável, mas que, assim como as esculturas de bronze, é um testemunho vindo do fundo do tempo.

Mais indícios, paradoxos: Oliver comenta as esculturas / estátuas do grego Praxíteles (séc. IV a.C.), maravilhado com a sua sensualidade, força latente, aparente delicadeza; imagens de corpos masculinos que simulam movimentos anatomicamente impossíveis, como se clamassem pelo nosso desejo. O corpo atlético de Oliver chama o desejo aos olhos de Elio e suas duas amigas.

12Chamar (vocare), último sinal: o nome, índice de existência do Eu (fenomenologia) ao reconhecimento / chamado do Outro; o nome, símbolo incorruptível do Outro aos olhos do Eu (as estátuas que resistem aos milênios). Naturalmente, na preservação-apagamento de si na experiência do amor (e na preservação desta), Elio e Oliver se chamarão pelo nome um do outro: “Me chame pelo seu nome, que eu te chamo pelo meu”.

Na Praia à Noite Sozinha

thumbnail_27103Sang-soo Hong vai moldando o seu filme como o experiente artesão vai acariciando, com delicadeza e concentração, a massa de barro que gira no torno, tornando-se lentamente um vaso. Cinema-cerâmica. A sua preferência por planos longos e fixos pode ser vista como uma conscienciosa aplicação da teoria-vida de Tarkovski, o grande oleiro do filme: esculpir o tempo.

On-the-Beach-at-Night-Alone-2-1600x900-c-defaultA poesia de Sang-soo Hong sabe expressar como poucos a pressão do tempo dentro do plano, seja esse plano composto por um diálogo dramático, por um cantarolar despreocupado, por uma soneca na praia. Há dois planos, encadeados de maneira muito simbólica, que (re)velam a estética manual que está por trás de todas as imagens que vemos aqui na tela.

tumblr_oxirnyDuvI1s3puqao1_1280Na cozinha de sua casa, um amigo da protagonista está “escolhendo” o feijão que será preparado por sua esposa: primeiro plano de suas mãos nesse ato delicado e preciso; corte-seco; primeiro plano das mãos da protagonista acariciando uma flor, no jardim da residência desse mesmo amigo. Todo (bom) filme nos dá a ver a sua alma, condensada em um único momento. Momento único.

tumblr_ozddusMpxN1tjl995o1_500A reverência singela que Sang-soo Hong presta aos pequenos atos, dotados por seu olhar de uma grandeza quase moral, possui algo de Ozu. Seu humanismo realista – para não dizer realismo humanista – encanta o espectador com o encanto e o desencanto do ser e do mundo. Do ser-no-mundo. Não é outro o sentido da história de amor e de rejeição contada em Na Praia à Noite Sozinha.

201713061_2-1200x520Não só amor. Antes disso, a possibilidade de amor – e também o seu merecimento; as escolhas e suas consequências, em (suposto) nome do amor. Culpa. Remorso. A moral também está aqui – não se trata de moralismo, apenas moral. Sem respostas fáceis – sequer perguntas fáceis; mas igualmente sem a solução final de qualquer niilismo. Este é um filme sem ismos. O século XXI está carecido.