Adoráveis Mulheres

Pontas de presente

(Texto sem spoilers)

little women 3Há muitas adaptações audiovisuais para o clássico da literatura estadunidense chamado, no original anglófono, Little Women, de Louisa May Alcott (as traduções desse título para o português brasileiro são algo controverso, em particular a versão supostamente literal: “Mulherzinhas”). Mesmo assim, Greta Gerwig não deixará de empreender a sua leitura bastante pessoal do romance, respeitando os dados canônicos do clássico e apresentando soluções inovadoras.

Em um aspecto, pelo menos, Adoráveis Mulheres (“Little Women”, EUA, 2019) oferece ao espectador uma experiência cinematográfica de sofisticação formal rara – sem descair, pelo outro lado, naquele velho exibicionismo autoindulgente do método (verdadeira doença entre muitos diretores – homens – que costumam ser pomposamente incensados pelo público mais “cinéfilo”). Em Greta Gerwig, a forma – mesmo sofisticada – está sempre a serviço do conteúdo, das necessidades expressivas.

Estamos nos referindo à estrutura narrativa do filme, que desloca e condensa de maneira bastante peculiar os dois volumes do romance original de Louisa Alcott. Em vez de manter a ordem linear dos acontecimentos, ainda que resumidos, Gerwig irá misturá-los e desenvolvê-los em uma montagem paralela (o espírito fundador da linguagem do cinema) cuja alternância de planos, cenas e sequências não obedecerá, necessariamente, às causalidades lógico-temporais, mas a “gatilhos” afetivos.

MV5BNTI1YjZlMzktOTliNS00OWE3LTgwMmQtZDhkMDAxMTJhMmY3XkEyXkFqcGdeQXVyODk4OTc3MTY@._V1_ (1)Assim, as diferentes temporalidades vão se despertando e amarrando segundo critérios profundamente subjetivos, em uma feição quase proustiana: sensações, experiências, o próprio vivido, vão acordando e encadeando memórias, outras sensações, outras vivências. Os “nós” visuais podem ser uma personagem, objeto, lugar, fundidos sempre com cortes secos, imprevistos, impactantes – alguns deles promovendo rimas visuais. Em suma, a coesão vai se montando de modos mais poéticos (líricos) do que narrativos ou dramáticos.

Gilles Deleuze (A Imagem-Tempo), a partir de Henri Bergson, diz que a memória não se encontra dentro de nossa própria interioridade, como mero dado subjetivo. Pelo contrário, “somos nós que nos movemos numa memória-Ser, numa memória-Mundo”. Essa objetivização da subjetividade, ainda que paradoxal, é o recurso estilístico que mais chama a atenção em Little Women, junto das alternâncias entre os tempos, na forma como Greta Gerwig expressa a grande riqueza subjetiva das personagens femininas da família March.

Na verdade, é a forma como se “salta” entre os diferentes tempos que mais contribui para os efeitos de “memória-Mundo” neste filme. A constante alternância entre cenas, em montagem paralela simples, apresenta as diferentes épocas nas vidas das irmãs March não como diferentes temporalidades em essência: presente, passado ou futuro, cada uma com sua identidade própria e inconfundível, sempre em relação umas com as outras – o passado, por exemplo, descrito como memória ou flashback.

little-women-4Os diferentes momentos na história das quatro irmãs são expressos, por Greta Gerwig (roteiro e direção), como diferentes presentes, todos na urgência fenomenológica do agora, pouco discerníveis temporalmente em termos formais, por causa do encadeamento dinâmico em que são montados. É como se passado e presente constituíssem um só tempo, regido sob a ótica do agora-presente que é a ótica do vivido – o ser-estar no mundo, aqui-e-agora. Deleuze, citando Fellini, diz: “somos construídos como memória [memória-Mundo – nota minha], somos a um só tempo a infância, a adolescência, a velhice e a maturidade”.

Seria forçado dizer que Little Women é exemplo cabal da definição que o filósofo francês pós-estruturalista dá para a imagem-tempo cinematográfica. Apesar disso, o longa-metragem de Gerwig dá alguns passos nessa linha, a partir do fato de que os acontecimentos não são mostrados (mise en scène) segundo o seu caráter de sucessão e encadeamento lógico-temporal – como já dissemos. Todos os acontecimentos no filme, não importa a sua posição na escala dos tempos, são expressados a partir das potências de sensação, emoção e experiência que carregam – daí a lógica lírico-poética da montagem.

Assim, o que a cineasta nos propõe – e consegue realizar plenamente – é um mergulho profundamente subjetivo dentro de um presente (qualquer que seja) apresentado de modo rigorosamente objetivo / formal, e não como simples memória, passado – apesar de, no encadeamento dos tempos, a primeira cena se apresentar no “presente”, e a segunda saltar já para o que o espectador naturalmente leria como um “passado-memória”, voltando-se posteriormente à “atualidade”, mantendo o filme tal estrutura de alternâncias.

Little Women 1Little Women nos leva a “embrenharmo-nos no acontecimento”, substituindo “a vista pragmática longitudinal [a escala temporal / causal] por uma visão puramente ótica, vertical, ou antes, em profundidade” (Deleuze). Para Santo Agostinho, é o presente vivencial do acontecimento; por isso, é o presente do presente, presente do passado e presente do futuro. Todos eles percebidos, pelo espectador de cinema, como presente puro e simples, como o aqui e o agora da experiência única que nos é fornecida pela sétima arte.

Intrínseco ao acontecimento, existe somente um tempo (presente), no qual os outros “presentes” (as pontas de presente) se encontram implicados. É sempre bom repetir: Greta Gerwig, em Adoráveis Mulheres, não pretende pôr em prática essa modalidade de imagem-tempo no formato radical escolhido por Alain Resnais (diretor) e Alain Robbe-Grillet (roteirista) para O Ano Passado em Marienbad (1961), um dos clássicos nos quais se baseia a teoria de cinema deleuziana.

Mas, no meio do certo lugar-comum em que já se transformou a contação e evolução de uma história em diferentes temporalidades paralelas (principalmente em séries de TV atuais), sempre estruturadas em obediência a uma inquestionável “pragmática longitudinal”, o fato de uma diretora montar esse paralelismo a partir de dados afetivos e vivenciais (o forte lirismo do filme) é um diferencial que nos faz rememorar sim os extremos experimentais e criativos a que já chegou a linguagem do cinema (ainda mais tendo-se em vista o estúpido desprezo com que uma parte do público masculino vem negligenciando esse filme).