Retrato de Uma Jovem em Chamas

Imagem: ausência, presença

(Texto com spoilers)

portrait 1A palavra “imagem” (do latim imago) carrega em seu código genético as ideias (ideia = projeção mental = imagem) de representação, imitação, cópia; por conseguinte, aparência, semelhança. Assim, toda imagem será testemunho de uma ausência. Na semiótica de Peirce, uma imagem (diga-se pictórica, fotográfica ou cinematográfica) será um ícone: substituto de seu referente, eleito por atributos de semelhança.

No entanto, pode-se advogar (como o faz Ismail Xavier a partir de reflexões propostas por Maya Deren) que as imagens foto-cinematográficas também se poderiam fazer de indícios (novamente Peirce), uma vez que nasceriam de meros “registros” físico-químico-mecânicos dos objetos, atestando a sua existência empírica e a sua presença temporal (no momento em que terá sido “captada” a imagem).

A pintura, por sua vez, não poderia se livrar da intermediação do artista, o qual conseguiria registrar tão somente um “conceito mental” (Deren) da coisa. É claro que, na história das teorias do cinema, muito já se questionou o caráter indexical – e também o icônico – da imagem fílmica. Mesmo assim, a chamada sétima arte ainda é das que mais exercem (ou a que mais exerce) efeitos de realismo na experiência do espectador.

portrait 3Este é, certamente, um dos elementos que mais impactam os sentidos e a sensibilidade ao assistir a Retrato de Uma Jovem em Chamas (“Portrait de la Jeune Fille en Feu”, França, 2019, dir.: Céline Sciamma). Não tanto a simples impressão de realidade causada pela imagem fílmica, mas o tratamento dado à identidade ambígua desta (com peso maior nas suas sugestões de verdade) e da imagem pictórica (com peso maior nas suas sugestões de representação).

Desse modo, a percepção do espectador (e suas reações emotivas aos dados dessa mesma percepção) é arremessada para lá e para cá, ao longo de todo o filme, como uma bolinha em uma partida de tênis, entre os dados de presença aparentemente fornecidos pela imagem – cinema ou pintura – e os dados de ausência fornecidos principalmente pela última. Nisto, somos posicionados a acompanhar de perto o estado vivencial e subjetivo das próprias personagens centrais, que sofrem este mesmo bate-e-volta (quanto à pintura apenas).

Isto vale para o momento em que a Condessa (Valeria Golino), mãe de Héloïse (Adèle Haenel), refere-se à imagem de si mesma, no retrato pictórico oferecido – em sua época – ao pretendente arranjado, como “ela”, sugerindo uma ausência / distanciamento subjetivo-simbólico que pode ser tanto de ordem temporal (retrato da juventude), quanto de ordem identitária-social (ela mesma não teria aceitado, subjetivamente, o destino cruel do casamento forçado; mesmo destino que quer impor agora à sua filha).

portrait 2Temos aqui uma primeira presença-ausência. Ausência total se notará no fato de a irmã de Héloïse, que se suicidara para não se entregar ao casamento forçado, não possuir retrato algum, finalizado ou não, a ser destinado ao pretendente (pelo menos, ninguém no filme faz qualquer referência a esse quadro – costume asqueroso de objetificação da mulher entre famílias de posses no século XVIII).

Uma semi-presença (ou semi-ausência) deixará sua assombrosa marca no primeiro retrato de Hèloïse, feito por um pintor já demitido: recusando-se a posar (e todo o papel social imposto a ela), vemos de Héloïse somente o corpo dentro do magnífico vestido verde, com um aterrorizante borrão no lugar do rosto. Então, a Condessa contratará a jovem pintora Marianne (Noémie Merlant), na esperança de que consiga pintar o retrato da filha, ainda que de memória.

Entre ambas, irá se desenvolver uma relação de amor que será o foco dramático do filme, aos poucos e com alguns percalços: o primeiro retrato é feito por Marianne de memória; quando Héloïse vê o quadro pronto (sem saber que estava sendo produzido), lamenta que o rosto não capte, verdadeiramente, a sua identidade subjetiva. Mais uma vez: presença-ausência. Então, dispõe-se a posar, e o segundo retrato estará a contento dela.

portrait 5Toda imagem é testemunho de uma ausência. Ou é uma presença fantasmática. Marianne será assombrada, recorrentemente, por uma imagem espectral de Héloïse, a qual perceberemos, no final do filme, que será a última imagem que aquela terá desta, no momento da despedida definitiva. Único e sutil elemento de fantástico nesta narrativa, de outro modo, predominantemente realista.

Anos depois, Marianne encontrará um retrato de Héloïse em uma exposição. Levemente envelhecida, ela está posando junto com uma criança que facilmente se deduz ser sua filha e está segurando em seu colo, com uma das mãos, um livro: o dedo médio marca uma abertura de página (imagem de forte conotação erótica feminina) em que se distingue nitidamente a numeração – 28 (página em que a artista tinha desenhado um autorretrato para servir de recordação à sua jovem amada).

Junto da peculiar expressão facial da modelo, fica evidente o quanto este último retrato pictórico-icônico (expressão da ausência) revela-se como uma grande força de presença (a única possível), quase no sentido indicial (Héloïse estava , no mesmo ambiente do pintor cujas marcas de pinceladas são indício da realidade da cena representada), e se comunica quase diretamente com Marianne (na expressão, no gesto e no objeto), constituindo uma das cenas mais comoventes do filme.

portrait 6A força significativa dessa imagem pode alcançar até mesmo a terceira categoria de signos na perspectiva peirceana: os símbolos. Tendo em vista a violência histórica imposta às mulheres e à população LGBT, o “último” retrato de Héloïse tem o valor simbólico da resistência e da verdade da identidade feminina (como a própria mulher a define, elidindo quaisquer papéis de gênero compulsórios) e da identidade homoafetiva. Um grande filme. Precisamos de mais. De muitos mais filmes assim.

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P.S.:

A imagem ícone, expressão de uma ausência (única presença possível), costuma ser alvo do medo quase neurótico da obliteração: ausência final e irreversível. Toda a história da arte, da literatura, da fotografia e do cinema é assombrada pela perspectiva da destruição – muitas vezes pelo fogo – da imagem original, única, aurática (Walter Benjamin). O filme de Céline Sciamma nos traz, de maneira firme e recorrente, esse mesmo assombro.

Já falamos que a irmã (morta) de Héloïse não possui imagem alguma, sequer nome. Quanto a esta, seu primeiro retrato (o do rosto-borrão) será destruído no fogo por Marianne, em uma quase gag visual na qual a cineasta usa um longo primeiro plano, seguido de um plano de conjunto, para construir um engaño-desengaño e nos fazer pensar que a artista incinerava o quadro que ela mesma estava produzindo.

portrait 4Mais adiante, Marianne efetivamente destruirá o próprio quadro (segundo retrato de Héloïse), após o descontentamento expresso por sua modelo, esfregando um pano sobre a tinta fresca do rosto representado na tela – pivô da discórdia. Nenhuma outra pintura será vandalizada no restante do filme, mas tomará lugar a cena que dá título ao longa: sim, estamos falando da jovem em chamas.

Em uma espécie de “luau” na praia, com a presença de várias mulheres, as duas jovens amantes estão vivenciando um momento de descontração, quando Héloïse decide passar muito rente à fogueira, causando um princípio de incêndio na barra do seu vestido longo, que será logo apagado. Aqui temos uma ameaça de apagamento não da imagem representacional, mas do próprio corpo físico e presente da personagem.

Só podemos imaginar o impacto, visual e emocional, causado por essa cena / ocorrência na subjetividade de Marianne, a ponto de ela decidir transformá-la em uma pintura, que vemos logo na introdução do filme, passada anos depois dos acontecimentos narrados. O curioso é que esse quadro é composto em um plano geral (quase que uma paisagem), em cujo centro apenas distinguimos a silhueta de Héloïse com os pés em chamas, sem jamais ver o seu rosto.

Assim, a imagem definitiva que Marianne preservará – fisicamente – de sua amada e que nos é apresentada de antemão será um vago ícone (ausência-presença, sem nem mesmo o rosto) que sugere, dialeticamente, a prevalência e a extinção da própria presença no mundo do corpo de Héloïse, quadro que receberá o mesmo título do filme. Na outra ponta do longa, o retrato de Héloïse com o livro-souvenir e a filha é símbolo maior da sua presença e permanência.

Melhores filmes de 2019

Não foi uma escolha fácil (na verdade, nunca é): tivemos muitas produções de intenso fôlego artístico neste ano, principalmente no cinema nacional, que viu em 2019 um dos melhores anos da sua história (esperamos que não seja o último). Os grandes filmes brasileiros, hoje, não ficam devendo coisa alguma aos grandes filmes estrangeiros.

Uma brevíssima explicação metodológica: incluí apenas filmes lançados oficialmente por aqui, ou que ainda não têm data prevista de estreia em Pindorama: não vou mais deixar passar experiências fundamentais como A Ghost Story (2017), ou Sorry To Bother You (2018), longamente ignorados pela mão “invisível” do mercado distribuidor neste país.

Segue:

  1. The Souvenir (EUA / Reino Unido, 2019, dir.: Joanna Hogg)

the souvenir

Profundamente intimista, lírico. A câmera assume o olhar da protagonista com intensidade raramente vista, cuja história (trágica) de (primeiro) amor se desenvolve em um crescendo repleto de elipses sutis, cujos significados o próprio espectador deverá construir ao viver junto com os personagens uma tragédia anunciada.

  1. A Vida Invisível (Brasil / Alemanha, 2019, dir.: Karim Aïnouz)

a vida invisivel 2

Escrevi sobre ele aqui.

  1. Atlantique (França / Senegal / Bélgica, 2019, dir.: Mati Diop)

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Escrevi sobre ele aqui.

  1. For Sama (Reino Unido / Síria, 2019, dir.: Waad al-Kateab, Edward Watts)

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Filme mais perturbador deste ano, porque é a própria realidade documentada, escancarada, explícita. A barbárie e o horror mais abjetos: crianças mortas, crianças trucidadas. Por isso mesmo, é uma necessária lição de humanidade, de sensibilidade, de luta e de resistência, contra todo o racismo, a xenofobia e a intolerância religiosa dominantes em 2019.

  1. Bacurau (Brasil / França, 2019, dir.: Kleber Mendonça Filho, Juliano Dornelles)

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Escrevi sobre ele aqui.

  1. Honeyland (Macedônia, 2019, dir.: Tamara Kotevska, Ljubomir Stefanov)

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Documentário e ficção umbilicalmente ligados e alimentados, com grande lirismo e poesia (as analogias visuais, algumas evidentes, outras sutis) pela grande mãe nutridora do Cinema: a realidade. Uma aula de fotogenia e do poder encantatório do cinematógrafo como registro da vida, em si mesma.

  1. Divino Amor (Brasil / Uruguai / Dinamarca / Noruega / Chile / Suécia, 2019, dir.: Gabriel Mascaro)

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A ficção especulativo-distópica que merecemos, neste Brasil de 2019 dominado pelas milícias evangelo-fascistas, narrada pelas mãos de um dos maiores cineastas-poetas da atualidade: Gabriel Mascaro (Boi Neon, 2015; Ventos de Agosto, 2014). O grande hype ignorou solenemente, mas é um dos melhores filmes brasileiros desta safra de ouro.

  1. Monos (Colômbia / Argentina / Países Baixos / Alemanha / Suécia / Uruguai / EUA / Suíça / Dinamarca, 2019, dir.: Alejandro Landes)

monos

Um poema visual em que a amplidão das paisagens dos Andes à Floresta Amazônica contrasta com a angústia e o horror dos corações trevosos dos senhores das moscas. São crianças que fazem coisas horríveis, mas são crianças não obstante. Esse difícil contraste foi magistralmente conduzido por esta pérola de Alejandro Landes.

  1. Se A Rua Beale Falasse (If Beale Street Could Talk) (EUA, 2018, dir.: Barry Jenkins)

Beale Street 1

Escrevi sobre ele aqui.

  1. The Last Black Man in San Francisco (EUA, 2019, dir.: Joe Talbot)

the last black man

Este filme-poema profundamente lírico serve de lição a todos os hipócritas (ou maliciosos mesmo) que relincham em defesa da “propriedade privada”. Se esses safados fossem minimamente honestos, gritariam contra o crime da gentrificação tanto quanto urram contra as supostas ameaças “comunistas”.

  1. Temporada (Brasil, 2018, dir.: André Novais Oliveira)

temporada

Um olhar sensível, empático e de modo algum condescendente (coisa raríssima) direcionado às classes proletárias brasileiras. André Novais Oliveira não cai no perigo da História Única, dos determinismos viciados dos filmes de tese supostamente sociológica, verdadeira praga secular do nosso cinema e da nossa literatura.

  1. Longa Jornada Noite Adentro (Long Day’s Journey Into Night) (China / França, 2018, dir.: Bi Gan)

long day

Um caldo de influências: David Lynch, Apichatpong Weerasethakul, Orson Welles, Wong Kar-Wai, trabalhadas com equilíbrio e sabedoria, sem desatentar da autoria experimental (particularmente, o uso do 3D). Um dos melhores exemplos, este ano, de uma das grandes vocações (se não a maior) do Cinema: a experiência sensorial.

  1. Ash is Purest White (China / França / Japão, 2018, dir.: Zhangke Jia)

ash is purest

Um filme bonito, no que diz respeito às grandes verdades humanas: o amor. Um filme cruel, no que diz respeito às grandes verdades desumanas: o desprezo, a ingratidão, a toxicidade de gênero). Um filme de protagonista feminina forte. Precisamos de mais, de muitos mais filmes assim. Ainda é pouco.

  1. Nós (Us) (EUA / China, 2019, dir.: Jordan Peele)

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Jordan Peele, mais uma vez, manejando e remodelando magistralmente os códigos do gênero do horror para trazer à superfície – esbofeteando o espectador – o que os donos do poder se esforçam tanto em esconder: o racismo e as desigualdades sociais (a invisibilidade e o ódio de classe puro e simples).

  1. High Life (Reino Unido / França / Alemanha / Polônia, 2018, dir.: Claire Denis)

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Escrevi sobre ele aqui.

  1. Greta (Brasil, 2019, dir.: Armando Praça)

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Escrevi sobre ele aqui.

  1. The Farewell (EUA / China, 2019, dir.: Lulu Wang)

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Para além da emoção e sensibilidade com que é conduzida a narrativa, o paradoxo da epígrafe: “Based on an actual lie” (baseado em uma mentira real, em livre tradução) instaura um inescapável questionamento dos acontecimentos representados da primeira à última cena (na verdade, depois desta, em uma breve inserção não-diegética durante os créditos finais), forçando o espectador a questionar a pertinência de suas reações emocionais de uma maneira mais sistemática e aprofundada do que faz Parasita (Bong Joon-ho). Particularmente, tais reações se referem à escolha bem difícil entre manter uma esperança sem muitas possibilidades de concretização, ou conformar-se de vez à realidade cruel dos fatos.

  1. Estou Me Guardando Para Quando O Carnaval Chegar (Brasil, 2019, dir.: Marcelo Gomes)

Estou Me Guardando Para Quando O Carnaval Chegar 4

Escrevi sobre ele aqui.

  1. Varda by Agnès (França, 2019, dir.: Agnès Varda)

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Uma aula de cinema por uma das maiores cineastas (independentemente de gênero) de todos os tempos, que nos deixou recentemente. Toda a rara sensibilidade, humanidade, inspiração poética e, sobretudo, curiosidade de uma das inventoras do filme-ensaio, gênero cinematográfico que vem despertando bastante atenção teórica hoje em dia.

  1. Parasita (Parasite) (Coreia do Sul, 2019, dir.: Joon-ho Bong)

parasita 2

Escrevi sobre ele aqui.

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Menções honrosas (sem ranqueamento):

Pássaros de Verão (Pájaros de Verano: Colômbia / Dinamarca / México / Alemanha / Suíça / França, 2018, dir.: Cristina Gallego, Ciro Guerra); Sinônimos (Synonymes: França / Israel / Alemanha, 2019, dir.: Nadav Lapid); Em Trânsito (Transit: Alemanha / França, 2018, dir.: Christian Petzold); As Golpistas (Hustlers: EUA, 2019, dir.: Lorene Scafaria); The Nightingale (EUA / Austrália / Canadá, 2018, dir.: Jennifer Kent); Fora de Série (Booksmart: EUA, 2019, dir.: Olivia Wilde); Luce (EUA, 2019, dir.: Julius Onah); O Irlandês (The Irishman: EUA, 2019, dir.: Martin Scorsese); Um Lindo Dia na Vizinhança (A Beautiful Day in The Neighborhood: China / EUA, 2019, dir.: Marielle Heller); Poderia Me Perdoar? (Can You Ever Forgive Me?: EUA, 2018, dir.: Marielle Heller); Assunto de Família (Shoplifters: Japão, 2018, dir.: Hirozaku Koreeda); Sócrates (Brasil, 2018, dir.: Alexandre Moratto); Peterloo (Reino Unido, 2018, dir.: Mike Leigh); História de Um Casamento (Marriage Story: Reino Unido / EUA, 2019, dir.: Noah Baumbach); Dragged Across Concrete (EUA / Canadá, 2018, dir.: S. Craig Zahler).

Isso aí, galera! Ano que vem tem mais!

A Vida Invisível

Invisibilidade ofuscante

(Texto sem spoilers)

a vida invisivel 1Dizer que A Vida Invisível é um filme de disjunções, de desencontros, de pólos irremediavelmente opostos seria uma banalidade. O que realmente tensiona esta grande realização de Karim Aïnouz e provoca um efeito muito inquietante que se dilata na subjetividade do espectador por longo tempo depois poderia somente ser definido – talvez – no formato de oxímoros: uma proximidade distante, um distanciamento próximo.

A angústia provocada por tais vínculos paradoxais tem o seu epicentro localizado num advérbio: quase, estabelecendo uma relação de intensidade que tensiona os elos de espaço e tempo colocados pelo roteiro e pela mise en scène (o plano-sequência do restaurante é Cinema de primeira grandeza como raramente se vê e merece ser dissecado em todas as escolas de audiovisual).

a vida invisivel 2As produções de arte mais conscientes costumam apresentar múltiplas camadas de significação, que ressoam umas nas outras, amplificando-se mutuamente em uma polifonia que almeja alcançar os recônditos mais entranhados da intimidade do receptor (leitor, espectador, ouvinte), caracterizando o melhor da experiência artística. N’A Vida Invisível (de Eurídice Gusmão – segundo o título original) não será diferente.

A dialética do quase amarra aqui dois termos: o psicológico / intimista (na grande tradição literária moderna de Virgínia Woolf, Clarice Lispector, Helena Morley) e o social / crítico (as narrativas neorrealistas de classe e, mais contemporaneamente, as histórias identitárias de gênero, etnia, nacionalidade etc.). As vidas das irmãs Eurídice e de Guida, se nos revelam algo, é o quanto é difícil pertencer ao gênero feminino neste mundo. Ser mulher.

a vida invisivel 3E o que é particularmente cruel neste filme de Aïnouz (penso, aqui, na linha do cinema da crueldade de Bazin), a partir da construção narrativa e da experiência do espectador, não é tanto que as mulheres estejam absolutamente apartadas de qualquer posição social em que possam existir com liberdade e autonomia (fato histórico-social abjeto, mas banal – com todo o risco, advindo daí, de baixarmos a guarda de nossa empatia e indignação).

O que se expressa com contundência quase sádica são as histórias e vivências particulares dessas duas mulheres que chegam quase a tocar – ou mesmo tocar brevemente – seu próprio ser e existência devidamente autoapropriados, apenas para serem arrancadas de si (e uma da outra) e puxadas de volta à obliteração patriarcal com uma violência e urgência que são as marcas vergonhosas da nossa desumanidade. Sim, nós, homens.

a vida invisivel 5Ainda dentro dessa lógica do quase, que estrutura o filme desde o começo (a cena de introdução: Eurídice e Guida que quase se perdem uma da outra na Floresta da Tijuca), o reconhecimento (anagnórise aristotélica) que se opera no final da história é a chave de ouro trágica que define o conjunto e assenta as camadas sedimentares de sentido. Não sem deixar fortíssimas ressonâncias emocionais a serem processadas pelo público.

Dizer que A Vida Invisível move-se pelas fórmulas consagradas do melodrama familiar e histórico de extrato hollywoodiano – e que, por isso mesmo, vem recebendo premiações internacionais e é alvo de campanha pelo Oscar – seria outra banalidade. A transparência de sua mise en scène apenas reforça o princípio constitutivo paradoxal do tão longe, tão perto, principalmente no que se refere à edição.

a vida invisivel 4Executando a forma mais clássica da montagem invisível, Karim Aïnouz cria o potente e aflitivo efeito de engendrar pontes retesadas entre planos e sequências abismais: veja-se o corte seco que secciona e conecta, tão repentinamente, o segundo e o terceiro ato do filme. Graças a tais dinâmicas entre o quase, a invisibilidade e o desaparecimento (fala de Dircinha no segundo ato), o Cinema – e as mulheres – se revelam com toda a força em A Vida Invisível.

Ad Astra

Ex-nihilo

(Contém spoilers.)

ad astra 1As pretensões intelectuais do cinema de gênero de Hollywood têm alcance rigidamente delimitado, via de regra. Como uma criança cujos pais permitem que brinque e corra na rua somente até a esquina, sem jamais transpô-la. Os desvios de conduta, expressos sob perspectiva crítica, devem ficar sempre circunscritos a ações de indivíduos “corruptos”, nunca chegando a contaminar as instituições. Muito menos as ideologias que as sustentam.

São pouquíssimos os filmes que tentam (e conseguem) escapar a essa lei não-escrita. Um deles é o Apocalipse Now (1979), de Francis Ford Coppola, que foi lembrado aqui e ali, pela crítica, a respeito deste Ad Astra (2019), o mais recente biscoito fino de James Gray. Todavia, o vácuo entre as duas produções não poderia ser maior. “Às Estrelas”, no conjunto, é uma narrativa pouco convincente, ao contrário do que prega o hype. Expliquemos.

O protagonista, Roy McBride (Brad Pitt), desenvolve-se mais como uma função narrativa teleologicamente orientada para a defesa de uma tese do que como (uma representação verossímil de) um ser humano orgânico com o qual nós possamos nos identificar. O seu ethos robotizado está além da motivação proposta – o trauma provocado pelo desaparecimento do pai, H. Clifford McBride (Tommy Lee Jones), trinta anos antes.

ad astra 2Exemplo: o diagnóstico psicanalítico que ele faz de si mesmo, nas sessões avaliativas realizadas perante uma câmera (tão somente), é constrangedoramente inverossímil. Ninguém faz para si mesmo, ex-nihilo e com tanta naturalidade, autonomia e boa vontade, um diagnóstico tão preciso e detalhado. Soa muito falso e cria o incômodo efeito de que não é o personagem quem fala, mas o roteiro – sempre no rumo de sua conclusão.

As questões temáticas trabalhadas são de altíssimo nível, é claro. Mas a mera enunciação delas não garante a representatividade que lhes seria apropriada. O personagem não logra ser mais do que uma casca, muito bem decorada na superfície, mas vazia por dentro. Não basta comunicar um conteúdo, mas representá-lo em sua própria natureza interna e externa. Eis o desafio, que grandes cineastas conseguem cumprir magistralmente.

Outros ficam na intenção. É o mesmo limite que faz a força (intentada) e a fraqueza (realizada) de outra ficção científica “cabeça” de grande hype contemporâneo: Interestelar (2014), do Christopher Nolan. Enfim, a figura de Brad Pitt no filme de Gray possui tanta vitalidade quanto os personagens digitalmente renderizados dos jogos de video-game, com seus olhos de peixe morto em alta resolução gráfica.

ad astra 3O segundo grande problema de Ad Astra também está relacionado com a pouca consistência humana do seu protagonista, entendendo-se esta em uma outra chave e retomando, aqui, a analogia já feita com Apocalipse Now. No anti-épico de Coppola, o militar “padrão” (com histórico invejável de eficiência) questiona a natureza da sua missão e os pressupostos ideológicos por trás desta, conforme vai mergulhando no “coração das trevas”.

No final, o capitão Willard acaba cumprindo as ordens dos seus superiores, mas os sentidos e os motivos mais profundos com que o protagonista executa a ação escolhida transbordam para muito, muito além do chavão da “missão dada é missão cumprida”. Essa riqueza nós não vemos, de maneira alguma, no pretenso ensaio cósmico de James Gray. O personagem de Pitt adere, sem a menor sombra de hesitação, à missão, à agência, aos superiores.

A única individualidade auto-preservada aqui é a do seu pai, não por acaso rebelado. Mas o bom soldadinho vai fazer exatamente o que lhe mandam, com prejuízo evidente (a quem quiser ver) de si mesmo, do progenitor e do que resta – ou poderia ser resgatado – de relação entre os dois. Alguém poderia arguir que o filme adota uma postura irônica, para não cairmos no mesmo erro crítico que se cometeu contra o Tropas Estelares (1997) de Verhoeven.

ad astra 4Mas, se foi essa a intenção, ficou por aí mesmo. Um bom pitch pode convencer produtores, investidores e executivos de estúdio. Mas não o espectador. Nós não queremos pitch lacrador, queremos filme. Verdade seja dita que Ad Astra não parece aderir, por outro lado, tão entusiasticamente ao seu protagonista: James Gray não é um Spielberg, ainda que pareça querer ser, às vezes, um Herzog – veja-se Z, A Cidade Perdida (2016).

O discurso fílmico aqui mantem certa frieza, certo distanciamento. Uma outra possibilidade interpretativa é que a adesão de Roy McBride às ordens seja meramente mecânica, advinda de uma postura niilista provocada pelo longo trauma da missão mal-sucedida do pai; e que o filme adquira a partir disso o seu meio-tom, igualmente negativista. Pode ser. Deixo abertas as possibilidades, ainda mais considerando as paixões que Ad Astra vem despertando.

Mas, mesmo assim, tendo em vista a ascensão – mais uma vez – de uma cultura militarista e autoritária no mundo contemporâneo, não nos parece de bom tom o tratamento dado a essas questões no filme. Parece leviano. Parece isento. Na melhor das hipóteses, é uma emulação diluída do clássico de Coppola (este sim, um dos filmes mais profundamente niilistas de toda a história do cinema).

ad astra 5Algumas (poucas) vozes levantaram que Ad Astra, por baixo da sua capa filosófica, esconde nada mais que um drama banal de grupos sociais historicamente privilegiados: homens heterossexuais, cis, brancos. Para além da acuidade dessa crítica, o fato é que o tratamento dado às poucas personagens afrodescendentes não contribui em coisa alguma para evitar que surjam tais declarações / provocações.

A maioria dos (raros) negros e negras que aparecem no filme morrem depois de pouco tempo de tela, em obediência àquela velha máxima da ficção científica e do horror: é preciso mostrar que a situação é grave. Isso corresponde, infelizmente, a um clichê histórico em Hollywood, que a consciência e a sensibilidade de nossos tempos não aceitam mais de bom grado. Um deslize fácil de ver e simples de evitar.

Enfim, há dois momentos em que James Gray demonstra saber fazer um grande cinema. Infelizmente, não salvam o filme todo, mas são duas cenas a serem recortadas e apreciadas pela arte sublime que, de fato, representam. Na primeira, McBride filho está repassando os registros deixados por McBride pai. Então, começam a se suceder (como slides) fotografias próximas da superfície de diferentes planetas, ocupando todo o quadro.

É quase indescritível a beleza atraente e aterrorizadora dessas imagens. Penso no horror cósmico de H. P. Lovecraft. Em off, ouvimos a voz de Brad Pitt comentando as fotos, o que lembra filmes-ensaios de Chris Marker. O que ele afirma é de cunho desesperadoramente niilista, na constatação da gigante assimetria entre a fé do pai em encontrar qualquer sinal de vida extra-terrestre e a implacável realidade dos registros, irremediavelmente frustrante.

A segunda cena nos mostra, em plano geral e à grande distância, a luta física entre os McBride, em pleno vácuo do cosmo, como dois minúsculos e insignificantes pontos antropomórficos perdidos na vastidão, dirimindo qualquer eco de antropocentrismo que ainda tente se espalhar. Tematicamente, não deixa de ser nenhum lugar-comum, mas um único plano, com tal enquadramento, ainda é belo e significativo.

Atlantique

Uma balada contemporânea

(texto com spoilers)

Atlantics: A Ghost Love StoryA silhueta monolítica do arranha-céu sendo erguido, quebrando com violência a horizontalidade da faixa litorânea, apenas parcamente destacado na luz difusa das primeiras horas de uma manhã ensolarada, é a imagem-símbolo, imagem-totem aos pés da qual se organizarão as relações sociais de exploração e revolta que dão força a Atlantique (Senegal / França / Bélgica, 2019), co-produção da Netflix e longa de estreia da cineasta Mati Diop.

Ainda nas primeiras cenas, vemos o edifício como pano de fundo para as reivindicações dos operários, que estão há meses com o salário atrasado. Acabam deixando o canteiro de obras sem uma resolução. Um desses trabalhadores é o jovem Souleiman (Ibrahima Traoré), que, sem outras esperanças, se juntará a alguns colegas e emigrará ilegalmente rumo à Espanha, em um pequeno (e precário) bote – história comum e trágica.

atlantique 2Todos morrerão, engolidos pelas ondas, para a tristeza principalmente de Ada (a ótima Mame Bineta Sané), namorada secreta de Souleiman, que estava, não obstante, prometida para um playboy da cidade, com quem logo se casará – na tradição patriarcal e violenta dos matrimônios arranjados pelas famílias. Mas a virgem não permanecerá em luto por muito tempo, pois os espíritos de Souleiman e dos seus amigos retornarão.

Primeiramente, aquele possuirá o corpo de um jovem investigador de polícia, ateando fogo à cama do novo casal, durante a festa em que é selada a aliança. Posteriormente, o próprio policial será encarregado de investigar o caso (e descobrir a incômoda verdade). Depois, os jovens trabalhadores mortos possuirão os corpos de um grupo de garotas de programa, amigas de Ada (ela frequentava em segredo, junto de Souleiman, o bar onde trabalham).

atlantique 4Marchando unidas, com as pupilas apagadas (lembrando os zumbis na tradição do vodu haitiano), as figuras fantasmáticas das mulheres irão cobrar – sem muita sutileza ou gentileza – os salários atrasados junto ao escroque que é dono do hotel babélico que está sendo construído. E cobrarão também que o capitalista cave, com as próprias mãos, os igualmente devidos túmulos de todos. Na pele do detetive, Souleiman também tentará contato com Ada.

Planos gerais do oceano funcionam como estribilho visual e moldura plástica (tal qual o arranha-céu) ao longo do filme, sempre destacando a imensidão sublime das águas, revelada na referência verbal à “montanha” (onda) que deu cabo das vidas dos jovens imigrantes, na narração feita por Ada. Essa potência significativa do mar, em uma história de (processamento de) luto, pode remeter ao Solaris (1972), de Tarkovski.

atlantique 1Mas pode se conectar também com histórias populares de tragédias de pescadores: ouça-se o belo e triste clássico O Mar, canção de Dorival Caymmi. Atlantique demonstra pertencer à mesma “família sobrenatural” (no dizer do poeta Murilo Mendes) ao realizar-se em um modo poético-contemplativo com uma atmosfera que procura embalar o espectador na melancolia do luto, das injustiças (de classe e de gênero) e do quebrar das ondas na praia.

A trilha sonora, antológica, contribui muito para esse efeito, além da bela paleta – amena – de cores, do uso extensivo da contraluz (mas sem o flare carregado de um Malick) e de uma iluminação difusa, que suaviza todas as superfícies, mas sem achatá-las. É um filme bonito e sensível. E combativo. Venceu o Grande Prêmio do Júri de Cannes este ano; junto de Parasita (Palma de Ouro) e de Bacurau (Prêmio do Júri), forma uma tríade bem interessante de resistência à marcha da barbárie que vem atropelando o mundo neste quase acabado 2019.

O Irlandês

Narrador não-confiável

O Irlandês (“The Irishman”, EUA, 2019, dir.: Martin Scorsese) é a história de um jagunço da máfia chamado Frank Sheeran (Robert de Niro), que atravessa toda a segunda metade do século XX e se relaciona muito de perto com personagens e acontecimentos históricos fundamentais para os EUA: a invasão da Baía dos Porcos em Cuba, o assassinato de JFK, o desaparecimento do líder sindicalista Jimmy Hoffa (Al Pacino). Essa, talvez, seja a sinopse mais oficiosa que se pode dar a este filme.

the irishman 1bParte da crítica discorda e vem defendendo que este longa monumental de Scorsese organiza-se totalmente em torno de Hoffa e do que teria acontecido, realmente, com ele. Mas acredito que o fulcro aqui seja ainda outro, que passa despercebido pelas camadas narrativas mais próximas da superfície. O Irlandês estrutura-se a partir de uma suposta interação / diálogo na qual, não obstante, nunca vemos ou ouvimos o interlocutor, tampouco é possível depreender sua identidade.

Por isso, o que acaba trazendo coesão, efetivamente, para o filme é a performance narrativa de Frank Sheeran, que é buscado pela câmera de Scorsese – em um travelling magistral, como sempre – dentro de uma casa de repouso para idosos. Imediatamente, ele começa a contar a história de sua vida, que as três horas e meia de filme mostrarão em flashbacks de saltos alternantes e fluidos entre diferentes temporalidades (incluindo o presente em que se dá a narração).

Saber quem é o interlocutor de Sheeran não é tão pertinente quanto saber POR QUE o velho gângster está repassando a sua biografia no crime organizado. Pois é esse o motivo que articulará os diferentes episódios e lhes emprestará profundo significado – ainda que à revelia das nossas expectativas (e as de Frank). Neste aspecto, O Irlandês se encontra em oposição ao velho tópos que narra a jornada de algum anti-herói que abandona os maus caminhos (geralmente, em nome do amor a alguém com quem constituirá família).

the irishman 2Não obstante, o passado lhe apresentará cobrança, mais cedo ou mais tarde, que será paga com grande sofrimento, na busca pela redenção final. Só para lembrar rapidamente dois conhecidos exemplos, vejam-se Os Imperdoáveis (“The Unforgiven”, 1992, Clint Eastwood) e Kill Bill (1999, Quentin Tarantino). O filme de Scorsese, por sua vez, opera em outro registro: o anti-herói (ou vilão propriamente dito) que nunca tomou a decisão penitente e mesmo auto-sacrificial de afastar-se da via smarrita (Dante).

E que, na hora derradeira (ou próximo dela), vê-se relegado a uma solidão que ele mesmo entende (ainda que não admita propriamente) como sendo consequência de suas próprias ações. Então, passará a ser assombrado pelos gritos cada vez mais próximos do banshee da consciência e seus dados de culpa e remorso. A autobiografia que se seguirá ganha a função de uma tentativa patética de elaboração subjetiva e processamento psíquico da experiência, dos atos e escolhas assumidas, para além da fixação questionável de uma autoindulgência.

Dois exemplos, retirados da Literatura Brasileira, podem ilustrar a composição deste clássico imediato scorsesiano, nos elementos que escolhemos para trabalhar aqui: Dom Casmurro (1899), de Machado de Assis, e Grande Sertão: Veredas (1956), de Guimarães Rosa. No primeiro, acompanhamos o playboy Bento Santiago, já velho e rabugento (adequadamente apelidado de Dom Casmurro), que nos relata sua história com Capitu, amor de sua vida, que ele deserda impiedosamente, baseado em uma mera desconfiança de adultério.

the irishman 3A velha dúvida de que Capitu traiu ou não Bentinho não interessa (não tem que interessar) ao leitor, porque não interessa ao autor Machado de Assis (do contrário, a ambiguidade não seria mantida na obra). Mas interessa sobremaneira ao próprio narrador-protagonista: a confirmação do adultério lhe arrancaria do peito – e da consciência – o peso da sua própria insegurança e ciúme (assim como o efeito desastroso da sentença dada à esposa, como um Otelo moderno com que o próprio Bentinho, aliás, admite se identificar).

Assim, o romance será pensado e escrito por Bentinho como uma tentativa de investigar a “verdadeira” identidade, personalidade e caráter de Capitu (investigação essa, aliás, ridiculamente neurótica e de todo impossível). Bento Santiago = criminoso atormentado pela dúvida, pela culpa, pelo remorso; afinal, seria ele vítima de uma tragédia da qual não poderia ter tido controle algum, ou seria ele mesmo o responsável único pelo próprio destino amargo, por causa de péssimas decisões – desperdiçando, com isso, a própria vida?

Frank Sheeran sofre de uma angústia similar: a crítica tem razão em desconfiar que o foco real do filme está em Jimmy Hoffa; ao menos para Frank, a figura do sindicalista é definidora do que ele sente no momento da narração e da própria narrativa, quanto aos seus propósitos e estrutura. Se fosse possível confirmar que Hoffa representava perigo real e imediato, isso tiraria do peito e da consciência de Frank – assim como do seu suserano, Russell Bufalino (Joe Pesci) – o peso da culpa por ter, de outro modo, traído um dos seus melhores amigos.

the irishman 4Mas, no fundo, ambos sabem que Jimmy Hoffa era um sujeito honrado e leal. A aflição trazida por tal consciência é o que define o ato de fala de Sheeran enquanto narrador (selecionador e organizador dos acontecimentos segundo uma perspectiva determinada), a partir do qual o filme se desenvolve como um todo. Na verdade, a dor do protagonista tem dois pontos focais: além de Jimmy, há também uma de suas filhas, Peggy (Anna Paquin), que sempre desconfiara da verdadeira “profissão” do pai, preferindo manter-se afastada dele.

Para piorar, Peggy possui uma relação afetiva muito próxima com Hoffa, oferecendo este o papel paternal de carinho e atenção que Frank nunca se dispusera a dar à própria filha. Grande Sertão: Veredas é narrado no mesmo formato de mono-diálogo / entrevista com um misterioso interlocutor, por Riobaldo “Tatarana”, ex-jagunço que foi, em seu tempo, um dos maiores soldados a serviço dos grandes “senhores feudais” do sertão mineiro de Rosa, a um só tempo tópos particular e universal.

Lembrete: o soldado Frank Sheeran é veterano da II Guerra Mundial e cumpre, para seus líderes mafiosos, missões tão eficientes quanto as que realizava para o Exército, fonte da sua louvada “competência”. O universo de valores implacavelmente patriarcais, de origem católico-medieval, que ainda estrutura o mundo semi-mítico de Grande Sertão, é o mesmo da moderna máfia, a qual tem origem na destituída aristocracia italiana pós-risorgimento. Os códigos éticos do crime organizado possuem sangue azul.

the irishman 5Grosso modo, em oposição à liberdade, igualdade e fraternidade modernas, temos honra, amor e lealdade. Nessa cosmovisão, todo “pai” é provedor de sua própria “família”, devendo – para tanto – servir a instâncias paterno-provedoras superiores. Frank providencia para sua família, os capos / nobres providenciam para seus territórios e famiglias, e Deus (a providência divina) providencia para toda a criação. Mas essa organização tão rigidamente hierarquizada não livra os seus súditos, infelizmente, da possibilidade de dilemas.

É aí que encontraremos Frank, dividido entre o amor e a lealdade a Bufalino, tanto quanto a Hoffa, com fortes prejuízos à sua honra, dependendo da decisão que tomar. Por sinal, quanto a essa questão do amor, a crítica norte-americana já apontou a pouca presença temática das mulheres nos filmes de Scorsese e como, neste O Irlandês, a violência praticada por suseranos e vassalos funciona como substitutivo do gozo sexual. É quase como se, em correspondência com a Esparta da antiguidade, as mulheres fossem mantidas ajustadas a uma instituição social tão somente (a composição da necessária família), enquanto que a vida subjetiva da libido e dos afetos ficasse reservada aos companheiros de “batalhas”.

A relação entre Frank e Jimmy também pode ser lida como uma relação de amor, e o próprio filme parece querer sugerir isso ao fazer com que ambos dividam os mesmos quartos de hotel e tenham conversas, ao pé da cama, que lembram muito conversas de casal. E é neste ponto que chegaremos, novamente, a Grande Sertão: Veredas: a sua narrativa se constitui, do mesmo modo, como uma tentativa (psicanalítica?) de elaboração da experiência subjetiva passada, não sem altas doses de dúvida, de inquietação.

Neste caso, é como se Riobaldo precisasse “botar para fora” a história da sua longa relação com Diadorim e do inegável amor que existiu entre ambos os jagunços, enquanto lutavam nas guerras dos seus senhores, convivendo lado a lado, cotidianamente, compartilhadamente. Principalmente, após a revelação do verdadeiro sexo biológico deste. A pergunta de “quem é Capitu, na verdade, e o que significa a vida que tive junto dela” também é feita por Riobaldo (sobre Diadorim) e por Frank Sheeran (sobre Jimmy Hoffa), sem que uma resposta satisfatória seja dada. Sequer possível.

Jallikattu

Um mergulho vertiginoso e psicodélico no coração das trevas onde homens e ruminantes se encontram (e se igualam)

jallikattu 1Estes dias recebi um videozinho bizarro via WhatsApp: em uma academia de musculação, dois brutamontes ajudavam um ao outro nos exercícios, estimulando-se mutuamente com gritos semi-histéricos de ordem e autoafirmação. A compleição muscular de ambos excedia em muito o limite de qualquer noção de belo e tocava perigosamente as fronteiras do saudável. Poucas vezes, vi uma demonstração tão tragicômica da construção social dominante que se edificou em cima da imagem psicológica de um hormônio (testosterona).

Jallikattu (Índia, 2019) são noventa e cinco minutos dessa mesma – insaciável – demonstração; felizmente, de um ponto de vista satírico. O filme teve première internacional no Festival de Toronto deste ano e foi muito bem recebido (mas não esteve na Mostra de SP): o diretor, Lijo Jose Pellissery, vem sendo aclamado pelo experimentalismo e humor negro dos seus longas. O nome do meio, indefectivelmente lusitano, revela a origem do cineasta: sul da Índia (Jallikattu é falado em malaiala, idioma do estado de Kerala).

jallikattu 2O título faz referência a uma festa popular-tradicional da região que lembra a corrida de touros em Pamplona (Espanha), pela extrema violência e pelo espetáculo grotesco de masculinidade tóxica. Mas o roteiro adapta o conto Maoist, do escritor S. Hareesh, sobre um búfalo (e uma vaca, na narrativa original) que escapa do cutelo de um açougueiro e provoca caos, destruição e morte em uma pequena comunidade rural, que se mobiliza inteira para recaptuar o animal. O próprio escritor co-assina a adaptação.

Não tive acesso à obra literária e morro aqui de curiosidade a respeito dos possíveis (e simbólicos) significados desse título, tendo em vista que o sul da Índia é território em que germinou bem a ideologia maoista. Quanto ao filme de Pellissery, as implicações alegóricas possuem a sutileza das estocadas que o ruminante fugidio distribui entre os seus algozes. Jallikattu vai descrevendo, em ritmo alucinante, a descaída da civilização no lamaçal da mais pura selvageria.

jallikattu 4Não que tal civilização já fosse muito “evoluída” em primeiro lugar: as tensões de classe na comunidade pobre retratada têm a fúria latente de um touro prestes a escapulir. O protagonismo é da própria coletividade, como nas melhores narrativas do realismo socialista, mas dois personagens vão se destacar: Kuttachan (Sabumon Abdusamad) e Antony (Antony Varghese), ambos empregados do açougueiro local, Kalan Varkey (Chemban Vinod Jose), rivais na profissão e na disputa pelo amor da mesma mulher, Sophie (Santhy Balachandran).

Os dois homens lutarão um com o outro até a morte nas muitas e frustradas tentativas de laçar o búfalo – e reivindicar para si o “heroísmo” do ato, sob olhar complacente das autoridades – acostumadas a receber fatias bastante generosas de carne por parte do açougueiro. Da sua parte, o ruminante também contribui para a desagregação social ao invadir e destruir uma agência bancária (sob comentário irônico de um local, na esperança de que sua hipoteca seja cancelada), dentre outros logradouros.

jallikattu 3Praticamente todos os homens do vilarejo se engajam cegamente na caçada ao animal, oferecendo ao espectador uma impressionante representação visual do efeito “manada” aplicado às turbas ensandecidas, pela câmera de Pellissery, em planos que evocam – em alguns momentos – a alegoria social dos filmes de zumbis: atenção às imagens em que a abjeção chega ao paroxismo grotesco-ridículo de um Pieter Bruegel ou um Hieronymus Bosch, se estes fossem storyboard artists de Guerra Mundial Z (2013).

Os raros momentos civilizados dessa “missão” – em que todos colaboram na construção de uma roldana para içar o búfalo que caíra em um poço, ou em que os feridos são carregados por várias mãos para fora da zona de combate – descambam logo em gritos, xingamentos e pancadaria generalizada, ou ainda em correria e pânico (na recorrente fuga do animal, que sempre encontra meios de driblar os “heróis”). Um plano bastante enfático resume a ideia: as pegadas de um homem e do ruminante, lado a lado, na lama.

jallikattu 5O filme todo é inequivocamente pedagógico em suas sugestões metafóricas; mesmo o final potencialmente ambíguo apontará para possibilidades de significados claros e precisos, à escolha do espectador. O cineasta e o escritor querem apontar para a fragilidade das relações humanas e sociais (Hareesh declarou que o conto nasceu da sua experiência, na infância, ao testemunhar a festa do Jallikattu); a crítica, por sua vez, tem focalizado bastante na identificação de dados típicos da masculinidade tóxica.

Mas o valor maior deste filme, para além do didatismo com que se expressam suas alegorias, manifesta-se na montagem. Jallikattu gira no ritmo sincopado de uma dança / transe coletivo, ritualístico, sem pausa alguma para que o espectador respire e organize o turbilhão de dados sensoriais, emotivos, racionais dentro do qual é arremessado logo de cara: o abrir de olhos dos moradores do vilarejo ao despertarem com o nascer do sol, na cadência de um tic-tac não-diegético que se ouvirá como “refrão” ao longo de toda a exibição.

jallikattu 6Conforme vai avançando em crescendo o esfacelamento derrisório de personagens, racionalidades e sociabilidades, uma atmosfera alucinógena / psicodélica vem se juntar ao ritmo (sempre no limite da tensão) com que é conduzida a história, ao ponto da overdose – com a qual o filme termina repentinamente, atirando e largando o espectador em uma paisagem audiovisual tão imersiva quanto infernal, da qual ele(a) demorará a voltar por suas próprias forças. Jallikattu ressoa em nossa mente e em nossos sentidos por muito tempo.