Séries de TV são o novo cinema?

Pode não parecer, mas o crítico não escreve só para si mesmo. Também não escreve para um “público”, seja lá o que esse palavrão queira dizer. O tempero – sempre agridoce – com que muitos cronistas de cinema carregam seus textos serve mais para estimular (dizendo o mínimo) as papilas gustativas de outros críticos. De sutis alfinetadas ao combate aberto, fica instaurada a polêmica, já histórica: Cahiers du Cinéma vs. Positif (quiçá as duas maiores revistas cinematográficas de todos os tempos, onde se definiu o que entendemos hoje por crítica); Jean-Luc Godard vs. François Truffaut (cinema de política vs. cinema de poesia); Andrew Sarris vs. Pauline Kael (os dois grandes pesos-pesados do lado de cá do Atlântico), e por aí vai.

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The Sopranos

Segue um interessantíssimo exemplo – mais ou menos recente – desse tipo de debate, que lá fora é comum, executado com grande classe. No site da prestigiada The New Yorker, apareceu um artigo em que Emily Nussbaum (crítica de TV da casa) carrega orgulhosamente a bandeira da segunda “era de ouro” da TV, que teria se iniciado com The Sopranos (que estreou em 1999). Declarando como princípio – óbvio – que o crítico, seja na frente da tela pequena, seja na grande, deve apontar seus instrumentos não só para abstrações como tema, enredo e personagens, mas também para a materialidade muito específica dos recursos não por outro motivo chamados de audiovisuais, ela segue afirmando que TV é uma coisa e o cinema outra, ridicularizando o que todos querem saber: “a TV é o novo cinema?”

É verdade que as séries de TV estão ficando cada vez mais “cinematográficas”, mas ainda são produções majoritariamente coletivas, onde muita gente mete os palpites e outros dedos, por razões pragmáticas (= mercadológicas); assim, fica complicado pensar em séries “de autor” do mesmo modo como adoramos os “filmes de autor” (ainda mais os não-hollywoodianos). Nussbaum não diz que não possa haver apuro de linguagem audiovisual na TV, mas é preciso analisá-la na relação com os elementos de seu meio específico de produção, divulgação e recepção, que a autora descreverá. Sua tese é que o encanto estético puramente cinematográfico pode se sustentar nas duas horas médias de um filme, uma forma altamente concentrada; mas se for diluído nas múltiplas temporadas de uma série de TV, por anos a fio, não será capaz de tomar muito do tempo e da atenção de ninguém.

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Buffy: A Caça-Vampiros

Por isso, a TV não seria uma mídia muito favorável a diretores, mas recebe de braços abertos os roteiristas que estão trazendo consigo a nova era de ouro: daí a profundidade e complexidade de personagens, seus diálogos e suas histórias, que seguimos acompanhando com paixão folhetinesca. A crítica do New Yorker se diverte com o exemplo da série Buffy: A Caça-Vampiros (1997-2003, criada por Joss Whedon); o título do texto é, justamente: “Cahiers du Buffy”, procurando se arvorar na tradição rebelde dos críticos dos Cahiers du Cinéma nos anos 50 (Godard, Truffaut, Rohmer), que revolucionaram a maneira como se vê e se escreve sobre cinema (posteriormente, mudaram também o modo como se fazem filmes), ao enxergar autoria artística em diretores de Hollywood (Hitchcock, Ford, Hawks) até então tidos pela crítica “highbrow” como meros funcionários de estúdio.

Para Emily Nussbaum, há autoria na TV, mesmo em um “teen drama” como Buffy, mas trata-se de uma autoria diferente daquela que vemos no cinema, por ser principalmente centrada na figura do roteirista-idealizador das séries. Ela termina o texto fazendo uma provocação direta a Richard Brody, companheiro crítico na mesma revista, chamando sarcasticamente de “religião” a sua crença incondicional na política dos autores (a famosa teoria que François Truffaut desenvolveu, durante os seus anos escrevendo para a Cahiers). Brody teria dito que as imagens das séries de TV fazem os seus olhos vomitar. Nussbaum responde que ele não aprecia TV porque segue uma estética audiovisual excessivamente formalista, baseada exclusivamente no virtuosismo técnico (“craftsmanship”, palavra de conotações intraduzíveis).

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Era Uma Vez em Tóquio (1953), de Yasujiro Ozu.

Alguns dias depois, Richard Brody publica, em seu blog no portal da New Yorker, um belo texto intitulado: “Um grande filme se revela em cinco minutos”. A proposta é: assista a quaisquer cinco minutos (não necessariamente os iniciais) de qualquer filme de Welles, Kubrick, Ozu, Ford, Dreyer ou Vertov, e você terá revelada e concentrada a essência da sétima arte, em todo o seu poder de despertar encanto e amor. Para não passar a impressão de que ele é um cinéfilo fanático (e, portanto, preconceituoso para com a TV, per se), Brody aplica a mesma teoria para a literatura, música e artes plásticas. A natureza fundamental que anima uma obra de arte (poderíamos bem dizer: sua alma) está presente em todas as suas partes e elementos constitutivos, por igual, sem que haja qualquer divisão, diminuição ou resumo dessa mesma natureza. Isso é quase uma teologia.

A essência da arte é sua beleza estética, a qual não nada tem a ver com formalismo ou perícia técnica, nas palavras do crítico. Essa beleza proporciona um prazer que despertará o desejo de fruir a obra em sua totalidade, assim como outras obras igualmente belas. Mas ele não consegue ver tal beleza em séries de TV, não obstante concorde com a sua colega quando ela busca parâmetros estéticos específicos para a tela pequena. TV e cinema, enquanto formas de expressão, não podem se julgar pelas medidas uma da outra. Linguagem audiovisual, em todas as suas formas, é algo em constante construção e redefinição; o crítico deve ter a mente aberta e vanguardista dos “jovens turcos” da Cahiers du Cinéma. Brody encerra o texto com o compromisso de continuar vendo TV, à espera de algo que lhe desperte prazer estético.

Bem, o que podemos dizer a respeito? Trata-se de um debate para lá de estimulante, em um campo temático vasto e relativamente inexplorado: a fortuna crítica da televisão é ainda paupérrima se comparada à do cinema, mesmo levando em consideração a diferença de idade entre ambos os meios (é preciso lembrar, não obstante, que a TV já vem sendo levada a sério, por críticos e acadêmicos desprovidos de preconceitos, desde o século passado). Conclusões ainda levarão o seu tempo para chegar, mas podemos, enquanto isso, ir apontando caminhos, ainda que pisando em terreno pouco firme.

Parece que a TV, pelo menos no formato das narrativas seriadas, não se presta muito ao encanto do cinema que por algum tempo foi chamado de “puro” por realizadores e teóricos que, próximos à sua origem, buscavam o grande diferencial da “sétima arte” (expressão criada pelo pioneiro Ricciotto Canudo em 1912): no cinema puro, ou cinema total, as imagens (e sons) em movimento valeriam quase que exclusivamente por si sós, com pouco ou nenhum suporte narrativo; cinema-vanguarda, cinema-sinfonia (basta pensar em Dziga Vertov), cinema que é a “música da luz” (Abel Gance). Como ficaria a TV pensada e realizada segundo esses ideais? Bem, tente imaginar o delírio (audio)visual e de pouquíssimos diálogos dos 150 minutos do 2001 de Kubrick esticado pelos cerca de 2600 minutos que durou Breaking Bad: será que alguém teria a paciência, tirando os cinéfilos já iniciados?

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Berlin Alexanderplatz

No entanto, existem precedentes para uma televisão relativamente mais pura, feita por cineastas à sua própria maneira (alguém poderá objetar, com razão, que não se trata de séries, mas de minisséries, coisa que todo mundo já considera como o “filé” da TV, ou seja, investimento de retorno certo): os 910 minutos de Berlin Alexanderplatz (1980) dirigidos por Rainer Werner Fassbinder em 14 episódios para a TV alemã; os 286 minutos de The Kingdom (“Riget”, 1994 e 1997) dirigidos por Lars Von Trier em oito episódios para a TV dinamarquesa; os 550 minutos de Decálogo (“Dekalog”, 1989) dirigidos por Krzysztof Kieslowski em dez episódios para a TV polonesa. Com isso, podemos dizer que há (algum) espaço para diretores na TV, mas o mais comum são cineastas de peso que idealizam ou abraçam uma série e dirigirão – ou escreverão – apenas o primeiro episódio, ou alguns episódios-chave. Em outros casos, serão apenas produtores.

O melhor exemplo é Alfred Hitchcock, que apresentou (à moda de Rod Serling em Twilight Zone) os 268 episódios de Alfred Hitchcock Presents (1955-1962), assumindo as rédeas da direção de 17 deles. O mestre do suspense soube reconhecer, logo cedo, o potencial de expressão e divulgação da TV, além de usar a equipe técnica da série para filmar Psicose (1960). Hitchcock também foi, à sua maneira, um defensor do cinema “puro”, como podemos ler nas famosas entrevistas dadas a Truffaut. No episódio de sua série intitulado Back for Christmas (exibido em 04 de março de 1956), o cineasta dá um grande exemplo da sua arte: um homem planeja assassinar a sua esposa e cava o buraco onde pretende enterrá-la, no porão da casa onde moram. Surpreendido por ela, ele mede com os olhos o tamanho da cova, e Hitchcock nos mostra isso através de uma panorâmica subjetiva que percorre toda a extensão do buraco e vai parar no rosto da pobre mulher, parada de pé em uma de suas pontas.

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Twin Peaks

O segundo melhor exemplo é Twin Peaks (1990-1991; 2017), criada por David Lynch e dividida em 48 episódios. Ele escreveu todos e dirigiu 24. Como é comum na TV dos EUA, nos episódios que não escreve ou dirige, o criador age como revisor / orientador / parâmetro para os trabalhos, o que faz com que a série mantenha uma coerência de identidade temática / de enredo e visual. Isso vale para Hitchcock e para Lynch. De resto, outros casos que valem ser citados – na TV dos EUA: Michael Mann, que foi produtor-executivo de Miami Vice (1984-1990) e dirigiu o filme homônimo em 2006; Martin Scorsese, produtor e diretor do episódio piloto de Boardwalk Empire (2010-2014); Steven Spielberg – esse é prolífico na TV: produziu, dentre várias séries e minisséries, Amazing Stories (1985-1987), Band of Brothers (2001), Terra Nova (2011), Falling Skies (2011-2013); Robert Altman, que produziu Combat! (1962-1967), além de produzir e dirigir Tanner’88 (1988) e Gun (1997, dirigiu apenas um episódio).

Também há séries de alta qualidade que contaram com a direção de grandes cineastas em apenas alguns de seus episódios – não tendo estes qualquer papel no desenvolvimento criativo da série. Alguns exemplos: Columbo (1968-2003), que contou com Steven Spielberg (um episódio), John Cassavetes (um episódio, não-creditado) e Jonathan Demme (um episódio); Amazing Stories (1985-1987): Steven Spielberg (dois episódios), Clint Eastwood, Martin Scorsese, Robert Zemeckis, Joe Dante (um episódio cada); Twilight Zone (a segunda versão, de 1985 a 1989): Wes Craven (cinco episódios), Joe Dante, William Friedkin (um episódio cada). Vale a pena citar o caso único de M*A*S*H (1972-1983), série genial derivada do igualmente genial longa-metragem de Robert Altman (M.A.S.H, 1970), mas na qual ele não tem, aparentemente, nenhuma participação direta.

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Um Corpo Que Cai (1958), de Alfred Hitchcock.

Todos esses diretores se expressam, na TV, de diferentes e desiguais maneiras, se formos comparar com suas obras no cinema. O mesmo encanto que vemos no cinema de Alfred Hitchcock – aquela teoria do grande filme que se revela em cinco minutos – vemos nos episódios que ele dirigiu para a sua série de televisão. Por outro lado, é claro que o encanto do cinema hitchcockiano de Um Corpo Que Cai (“Vertigo”, 1958) é consideravelmente superior ao de Marnie, Confissões de Uma Ladra (“Marnie”, 1964), por exemplo. O consolo é que o pior filme – ou episódio de TV – de Hitchcock vence de goleada o melhor longa-metragem de, digamos, M. Night Shyamalan – visto por alguns críticos como “herdeiro” do mestre do suspense.

Sinceramente, não acho que devamos procurar na TV a mesma epifania que encontramos em um Tarkovski, Bergman, Tati, Bresson, Resnais, Pasolini ou Antonioni. Estaríamos latindo para a árvore errada. E isso não desmerece, de forma alguma, as narrativas seriadas de televisão enquanto meio expressivo, cultural, artístico. O fato é que muitos e diversos diálogos entre a tela pequena e a grande já foram travados, com benefícios para ambas as partes, e outros ainda o serão. Além do mais, como bem disse o crítico da New Yorker, a linguagem audiovisual é algo em constante mudança, em frequente reelaboração prática e teórica. Com raríssimas excessões, esteticamente a TV ainda se encontra na era da narrativa clássica de Hollywood, cujo período de ouro foi dos anos 30 aos 50.

Ou seja, um audiovisual que se pensa e se apresenta como “janela” para determinada realidade, exercitando mecanismos de identificação catártica entre os personagens, suas histórias e os espectadores, com todo o devido cuidado para que permaneçam imperceptíveis os elementos que poderiam quebrar essa ilusão e revelar ao público a artificialidade das séries enquanto discurso elaborado, recorte de mundo e persuasão quanto a pontos de vista historicamente determinados: a montagem é “invisível”, as narrativas são lineares, a “quarta parede” fica sempre de pé, etc.

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Community

Naturalmente, sempre houve e continua havendo gloriosas exceções – cada vez mais, nesta segunda era de ouro da TV: desde as alegorias dos direitos civis em Star Trek (1966-1969), passando pelo anti-belicismo da já citada M*A*S*H e pela luta de classes em Columbo (os criminosos são sempre os ricos e poderosos), até as armadilhas catárticas de Arrested Development (2003-2013), Mad Men (2007-2015) e Breaking Bad (2008-2013), além da virtuosa metalinguagem de Community (2009-2015). Mesmo assim, sentimos que a TV ainda não descobriu a fundo as vanguardas cinematográficas, a nouvelle vague, o neorrealismo italiano, etc.

Mas será que precisa mesmo descobrir? Em que medida? Por outro lado, a TV pode pensar e desenvolver suas próprias vanguardas, através de questionamentos que levem em conta seu próprio meio, questionamentos esses não iguais aos que o cinema já empreendeu, mas equivalentes; algumas séries já realizadas podem apontar caminhos: por exemplo, Lost (2004-2010) e The Office (2005-2013), que incorporam, misturam e reescrevem inversamente a lógica do reality show, da soap-opera e do documentário-reportagem.

Enfim, eu tinha dito que a TV (norte-americana) continua parada na Hollywood dos anos 50; corrijo-me: falo apenas dos melhores e sempre poucos exemplos dentre o grosso do que é televisionado – tirando também os casos ainda mais raros de séries “vanguardistas”. Quando se diz, falando da nova era de ouro, que a criatividade e qualidade do cinema de Hollywood migraram para a TV, eu entendo como: assistir a um bom seriado, hoje em dia, é como assistir a um bom filme hollywoodiano de antigamente. Mas, deixando de lado esses bons seriados, o que sobra não vale mais do que os velhos folhetins, vaudevilles e circos de aberrações do século XIX, ou ainda o “teatro filmado” dos primórdios do cinema, antes de aparecer um Griffith.

A televisão vem se tornando, sim, cada vez mais cinematográfica. Contudo, apesar dos J. J. Abrams, Vince Gilligan, Ricky Gervais, Dan Harmon, Mitchell Hurwitz e outros, a TV ainda não produziu os seus Sergei Eisenstein, Orson Welles, Roberto Rossellini, Jean-Luc Godard, etc. – pensando numa Arte que transcenda o seu próprio contexto e se iguale às grandes produções do pensamento e da sensibilidade humana, de todos os tempos. De qualquer maneira, esses gênios podem estar apenas esperando que alguma emissora leia seus roteiros e decida bancar a produção de um piloto…

Texto originalmente publicado em 2014. Revisado e atualizado para esta republicação.

10 pérolas para conferir na Netflix Brasil

Se você está procurando coisas novas e diferentes para ver na Netflix, pois já viu ou não quer ver aqueles mesmos filmes / séries de que TODO MUNDO fala, aí vão algumas dicas (todas elas estavam presentes no catálogo da Netflix Brasil em janeiro de 2018). A ordem NÃO é de preferência / qualidade:

  1. Nocturama (França / Alemanha / Bélgica, 2016, dir.: Bertrand Bonello)

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Já escrevi sobre este filme no blog, aqui.

  1. I don’t feel at home in this world anymore (EUA, 2017, dir.: Macon Blair)

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Para quem gosta do cinema indie dos EUA, este filme original da Netflix é um prato cheio. Vem com todos os ingredientes, muito bem misturados e temperados: um título longo e curioso; personagens disfuncionais; violência; humor negro; alguma dose de fofura (amizade e bons sentimentos); trilha sonora de rock / pop alternativo. A história é a de uma garota depressiva (Melaney Lynskey) que se alia a um vizinho de comportamento um tanto quanto instável (Elijah Wood) para fazer justiça com as próprias mãos, após ter sua casa invadida e furtada. Ganhou o grande prêmio do júri no Festival de Sundance, ano passado.

  1. Wormwood (EUA, 2017, dir.: Errol Morris)

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Esta minissérie em 6 capítulos, produção original da Netflix, é dirigida pelo engajado e premiado documentarista Errol Morris, de Sob A Névoa da Guerra (2003). O diretor, aqui, promove uma conexão muito orgânica entre documentário (entrevistas, imagens de arquivo) e cinema narrativo – geralmente ficcional (reconstituições dramáticas de cenas, com uma mise en scène impecável) para contar uma história / demonstrar uma tese que é uma mistura de drama shakespeariano (Hamlet) com o julgamento histórico de Martinho Lutero.

Ambas as referências pontuam em vários momentos o andamento dos episódios, reforçando a sua própria pertinência alegórica. Trata-se de um filho que investiga, com a obsessão de uma vida inteira, a morte misteriosa do pai, cientista que trabalhava em projetos ultra-secretos da CIA em plena Guerra Fria.

  1. Black Sails (EUA / África do Sul, 2014-2017, criada por Robert Levine e Jonathan E. Steinberg)

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Produção original do canal Starz, Black Sails é a narrativa audiovisual sobre piratas definitiva no século XXI. É para gente grande, esqueça Piratas do Caribe. Misturando personagens reais, lendários e fictícios, esta série prende o espectador como poucas, com uma dose exata de suspense, reviravoltas e mistérios solucionados. Sem contar o drama: sentimental, histórico, político e social. E a ação épica (é claro!). Mas vamos destacar o político-social: dos 38 episódios de suas 4 temporadas, 27 deles foram escritos ou co-escritos por roteiristas mulheres. A representatividade dentro da história é coisa rara de se ver: alta representatividade (personagens) feminina, LGBT, afrodescendente.

Tudo muito orgânico, integrado à narrativa – sem parecer forçado, didático, militante ou panfletário. A história é um prequel (adulto) para o clássico literário (juvenil) “A Ilha do Tesouro”, de Robert L. Stevenson: acompanha as aventuras do Capitão Flint e sua parceria com o pirata Long John Silver, enquanto tentam construir uma reputação nos mares violentíssiomos do Caribe do começo do século XVII. Por fim, não se assuste com o nome de Michael Bay entre os produtores; Black Sails não tem absolutamente NADA a ver com as coisas nas quais Bay mete a mão.

  1. Bone Tomahawk (“Rastro de Maldade”, EUA Reino Unido, 2015, dir.: S. Craig Zahler)

 

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Esqueça aqueles cineastas hipsters e sua mania de fazer homenagens “vintage”. Aqui, nós temos um honesto, simples e genuinamente inspirado retorno aos viscerais e ultra-violentos filmes da era do exploitation (anos 50-70, principalmente), sob o gênero do western. Filme B, de verdade, sem frescuras ou firulas, com baixíssimo orçamento. Kurt Russell interpreta um xerife que, junto de mais três homens (os quais estão longe de corresponder ao padrão de herói do Velho Oeste), tenta resgatar a esposa de um deles, sequestrada por uma misteriosa tribo de nativos canibais. É o filme de estreia do diretor S. Craig Zahler, que, em 2017, nos presenteou com mais uma pérola digna das velhas grindhouses: “Brawl in Cell Block 99”.

  1. The Bad Batch (“Amores Canibais”, EUA, 2016, dir.: Ana Lily Amirpour)

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Na entrega dos Globos de Ouro deste ano, Natalie Portman denunciou a baixa representatividade das mulheres cineastas: todos os indicados para melhor diretor eram homens. A comprovação da injustiça de que falou a atriz está neste drama / ficção científica inventivo, rico em drama e poderoso em efeitos de humanidade. Em um futuro pós-apocalíptico, o que restou de civilização se esconde por trás de muros, cercas e um governo totalitário. Os cidadãos que “não prestam” (os bad batch = “lotes avariados”) são expulsos para o deserto que domina do lado de fora, habitado aqui e ali por grupos canibais (mais uma vez, presentes nesta lista). Vem, então, uma história de amizade (amor?) entre uma exilada (Suki Waterhouse) e um antropófago (Jason Momoa). Atenção para a participação de Keanu Reeves, como um líder mafioso / religioso.

  1. Chuck Norris vs. Comunism (Reino Unido / Romênia / Alemanha, 2015, dir.: Ilinca Calugareanu)

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Este documentário saborosíssimo, repleto de boas cenas dramáticas de reconstituição (no estilo de Wormwood, já comentado nesta lista), procura demonstrar a influência subversiva dos filmes B de ação norte-americanos dos anos 80 (particularmente aqueles produzidos pelo lendário Canon Group) no enfraquecimento e eventual queda da ditadura comunista na Romênia, no final da década de 80. Pirateados e contrabandeados em VHS, com dublagem precária e divertidíssima (naquela criatividade que só a carência de recursos materiais pode trazer à tona), esses filmes clandestinos chegavam às mãos de todos e eram apreciados por todos – até pelo filho do ditador, praticamente o único que desconhecia a “rede”.

  1. Branco Sai, Preto Fica (Brasil, 2014, dir.: Adirley Queirós)

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Ficção científica brasileira – cinema de gênero feito neste país é coisa raríssima, ainda mais feito com competência e pouco orçamento. Filme independente, que cutuca feridas raciais / sociais abertas. Elementos de documentário. Fotografia belíssima – principalmente em contra-luz. Na década de 80, a polícia invade uma festa na periferia de Brasília (a cidade-satélite de Ceilândia), aos gritos de “branco sai, preto fica”. Dois rapazes negros acabam baleados. Um viajante do tempo (igualmente negro) aparece para investigar o que realmente aconteceu, pois em sua era os documentos sobre o fato são escassos, e comprovar o que todo mundo sabe, mas ninguém quer admitir.

  1. The Meyerowitz Stories (New and Selected) (“Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe”, EUA, 2017, dir.: Noah Baumbach)

The Meyerowitz Stories ainda não estreou nos cinemas

O diretor e roteirista de A Lula e A Baleia (2005) e Frances Ha (2012) molda aqui mais uma pequena joia do cinema independente norte-americano – produção original Netflix. Três meios-irmãos (Adam Sandler, Ben Stiller e Elisabeth Marvel) se reúnem para discutir os rumos da vida e da obra do pai (Dustin Hoffman), um escultor em decadência. Evidentemente, muitas questões neuróticas de família surgirão, todas trabalhadas com fino humor e sensibilidade. Atenção para a curiosíssima briga de mão entre Sandler e Stiller.

  1. Atari: Game Over (EUA, 2014, dir.: Zak Penn)

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Inacreditável documentário que conta a história de como um único jogo (ET: O Extra-terreste, lançado em 1982) quase destruiu não só o fabricante dos consoles (Atari) mas toda a incipiente indústria de videogames. Investigação de uma lenda urbana: a companhia teria sepultado, em um aterro sanitário, cerca de 3 milhões de cartuchos do jogo em questão, encalhados. Este filme e o de número 7 nesta lista levarão às lágrimas quem viveu os anos 80 na idade certa.

Mr. Robot

Mr-RobotMr. Robot arrasta para o meio do pátio e ateia fogo à dependência de “sistemas” na qual nós, a sociedade “globalizada”, viemos nos afundando como junkies desde que se decretou o “fim da história”. A série faz isso com toda a carga provocativa que muito bem nutriu a geração criada à base de Matrix e Clube da Luta. E o que é melhor: sem a fantasia nem a pretensão dessas duas auto-proclamadas pièces de résistance de fin de siècle. E também sem aquele tom de “crítica social foda” a partir do qual se compõe o canto de sereia pós-tudo conhecido como Black Mirror.

O melhor de Mr. Robot é isso: o ar low-profile que a série vem mantendo, até o final desta 3a temporada; mesmo com todo o pedigree temático e ideológico do seu discurso, mesmo com o domínio preciso e aplicação pertinente de uma estilística cinematográfica avançada; mesmo com os Globos de Ouro e Emmys ganhos. Não deixa de corresponder, poeticamente, à personalidade de seu personagem principal, o hacker Elliot Alderson – pelo menos, em alguns aspectos daquela. O espectador não espere, aqui, a gourmetização das séries da HBO. Mr. Robot é papo reto.

mr-robot-agambiarra-1170x480Mr. Robot vem mantendo, desde o início, um tom esquivo de autoironia – e um tanto de desbunde – típico de produções B, arejando muito agradavelmente a experiência de acompanhar a série. Neste ponto, a mise en scène corresponde exatamente aos monólogos (pseudo-diálogos) de Elliot, quando este se dirige ao seu amigo imaginário – no fundo, sabemos que somos nós, os espectadores: para o esquizofrênico protagonista, a sua realidade é tão “real” quanto a construção narrativa de uma série de TV ficcional.

De maneira mais adulta e cinematográfica do que Matrix, Mr. Robot se aproveita da filosofia pós-estruturalista (“Simulacro e Simulação”, Jean Baudrillard) não só nos conteúdos críticos da série, como também na organização de sua própria forma: a sua narrativa vai se estruturando a partir de questionamentos da própria instância narrativa e do(s) narrador(es). Os conflitos entre os personagens são, na verdade, disputas por narrativas (dominantes), fato social atualíssimo neste começo de século.

rami-malek-and-christian-slater-in-mr-robot-season-2Eis os agentes: o heroísmo anarquista dos hackers (contracultura, cibercultura), os planos de manutenção do poder pelas grandes corporações; a disputa desse mesmo poder por grupos igualmente poderosos, mas de ascensão recente (principalmente não-americanos), a simulação da democracia, o papel (narrativo) da mídia, etc. O sequestro e deformação de narrativas de uns agentes por outros é fato sistemático aqui e vai organizando as reviravoltas que trazem gosto e suspense para uma boa série.

Não é à toa que Whiterose, um dos agentes mais poderosos aqui, é um personagem tão preocupado com o (controle do) tempo: a boa administração e condução das temporalidades é fundamental para a progressão de uma narrativa. Mas é claro que sempre haverá areia nessa engrenagem, e a maneira como a série brinca – em um episódio desta 3a temporada – com a montagem paralela de Griffith (recurso fundador da construção narrativo-temporal no cinema) simboliza, na própria encenação, o discurso pós-estruturalista adotado como norte ideológico de Mr. Robot.

Mr-ROBOT-1Outro elemento bastante pós-moderno é a fluidez – e eventual choque – de identidades: praticamente todos os personagens apresentam uma construção identitária complexa, contraditória e cambiante, sabotando no espectador o conforto clássico das catarses e dos valores (éticos, morais), reforçando os efeitos de simulacros e simulações. A série chega mesmo a aproveitar alguns elementos manjados do melodrama folhetinesco, mas jogando-os no maelström das desconstruções que arrasta tudo em Mr. Robot.

Mr. Robot não é um programa facilmente impressionável, porque não procura sê-lo. Sam Esmail, seu criador, principal roteirista e diretor, não quer saber de efeitos fáceis, pelo bem (The Hamdmaid’s Tale) ou pelo mal (Black Mirror). Por isso, esta série não é e nem virará hit (apesar da premiação já conquistada). Sua complexidade temática e estilística apresenta-se de modo introvertido como seu protagonista. Mas é dessas correspondências mais veladas, que exigem um olhar mais atento, que o grande cinema se faz.

adaptando The Handmaid’s Tale

O texto abaixo contém spoilers.

the-handmaids-tale-600x300Não vou aqui discutir teorias gerais de adaptação da literatura para o cinema (no caso, TV); também não vou fazer uma resenha completa da série em questão a partir do livro que a originou. Quero apenas lançar uma proposta para reflexão, a partir de um problema bastante específico que me incomodou muito, ao ler o romance depois de ter assistido à 1a temporada da série.

Em The Handmaid’s Tale (TV), a catástrofe “natural” que serve de incentivo à instauração da implacável teocracia que transformará os EUA em Gilead afeta a população humana em uma escala aparentemente global e multiétnica. É só lembrar o episódio em que a delegação “comercial” do México revela o seu real interesse no grande “produto” de exportação de Gilead: as cabisbaixas “aias”.

the-handmaids-tale-s01e10_00001Em O Conto da Aia (romance), a diminuição epidêmica da taxa de natalidade afeta exclusivamente as populações caucasianas, predominantes nos países – desenvolvidos – do hemisfério norte (a hipótese é de que tenha sido provocada precisamente por fatores de industrialização e consumo: alimentos refinados, poluição, radiação, etc.). Isso dá uma outra dimensão para a alegoria política desta ficção especulativa (como prefere a sua autora, Margareth Atwood, em detrimento do rótulo de “ficção científica”).

E faz com que o golpe de estado e a consequente ditadura de Gilead adquiram motivações claramente racistas e econômicas, para além das generofóbicas, homofóbicas e de fundamentalismo / intolerância religiosa. Em tempos de recrudescimento da “White Supremacy” nos EUA (apoiada, inclusive, pelo próprio presidente do país) e do isolacionismo econômico, O Conto da Aia – publicado originalmente em 1985 – continua sendo uma obra inapelavelmente necessária.

maxresdefault (1)Mas nada disso aparece na TV. Por que? Para que acrescentar esse plot da delegação mexicana? Apenas para evitar – tendo em vista o alcance massivo e internacional da TV enquanto mídia – interpretações “anti-americanas” e “anti-capitalistas”; ou seja, os países ricos e sua etnia dominante não são, fundamentalmente, os “vilões”? Homens cis e héteros podem ser maus; mas não homens brancos, homens ricos?

A crítica já elogiou muito esta adaptação de O Conto da Aia em seu diálogo crítico com os EUA atuais. Mas, em um aspecto, a série deixou a desejar. E, infelizmente, trata-se de um fator dos mais essenciais, que não se pode simplesmente deixar de lado dessa maneira. Robert Stam, importante pensador contemporâneo das relações entre literatura e cinema, em um estudo sobre os processos de adaptação, aponta para os casos de “desenvolvimentos desiguais”.

33239Há filmes que puxariam o romance original mais para a “esquerda”, em alguns elementos (por exemplo, classes sociais); porém, em outras questões discursivo-ideológicas, um mesmo filme poderia arrastar a obra literária na qual se baseou para a “direita” (por exemplo, gênero e etnia). No caso de The Handmaid’s Tale, a série e o livro apresentam, no geral, discursos bastante afinados um com o outro.

Mas, quanto aos elementos de racismo e de classe (pensando na relação econômica entre países) presentes na história original, estes foram cirurgicamente extirpados na adaptação. Seria esta uma puxada à “direita”? O próprio Robert Stam, falando do modus operandi industrial de Hollywood, descreve alguns procedimentos que ficamos tentados a aplicar nesta interpretação de The Handmaid’s Tale, com o prejuízo da força subversiva presente em O Conto da Aia:

O objetivo parece ser “desliteralizar” o texto, uma vez que o romance passa por uma máquina de adaptação que remove todas as excentricidades autorais ou os “excessos”. A adaptação é vista como uma espécie de purgação (grifo meu).

Mas enfim, não fecho (ainda) com teoria alguma. Apenas fica lançada a hipótese.