Parasita

parasite 1Segundo estatísticas do banco Credit Suisse, divulgadas em 2015, 1% da população deste planeta detém metade do valor total de ativos. Ou seja, a parcela de gente que possui, individualmente, um patrimônio de 2,96 milhões de reais (ou 760 mil dólares) é dona de tanta riqueza somada quanto a faixa dos 99% dos homo sapiens restantes. Dados da Oxfam (2019) mostram que as 26 pessoas mais ricas que caminham sobre a superfície da Terra concentram a mesma riqueza somada da metade bípede mais pobre (3,8 bilhões de almas).

Nos últimos anos (especialmente neste 2019), temos visto filmes de sucesso que fantasiam com revoltas populares contra essa desigualdade extrema – pelo menos, têm sido lidos dessa maneira. Coringa (2019, Todd Phillips), Bacurau (2019, Kléber Mendonça Filho), Us (2019, Jordan Peele) e Sorry To Bother You (2018, Boots Riley) são apenas os casos mais notórios. São formas diferentes de revolta, com motivos e objetivos diferentes; mas todas elas parecem expressar um mal-estar intenso e urgente.

parasita 2E as premiações internacionais parecem reconhecer isso: Bacurau venceu o Prêmio do Júri em Cannes, e Coringa levou o Leão de Ouro em Veneza. É nesse cenário que chega Parasita (2019, Bong Joon-Ho), ganhador da Palma de Ouro em Cannes e que está sendo exibido na 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (com promessa de estrear no circuito comercial já no próximo 7 de novembro). O título pode induzir o cinéfilo ao erro de pensar que se trata do mesmo tipo de ficção que O Hospedeiro (2008), do mesmo diretor.

Nada mais distante do ultrarrealismo deste longa – poderíamos mesmo dizer Naturalismo – inspirado por notícias que tocam as raias das lendas urbanas. Por outro lado, somos levados a afirmar que Parasita é, ao seu próprio modo, tão imaginativo e peculiar quanto Expresso do Amanhã (2013), pérola pouco conhecida de Bong Joon-Ho. Na verdade, as aventuras e desventuras da família Ki-taek são narradas em uma (tentativa de) mistura muito particular de registros, cujo resultado final acaba saindo um tanto quanto inconsistente.

parasita 3Vemos um carregado drama social naturalista misturado à sátira picaresca e temperado com um leve toque de conto de fadas (na condescendência dirigida aos sonhos-esperanças dos personagens, apesar dos efeitos sempre trágicos das ações destes). Tamanha salada é mesmo difícil de fazer, e valeu a tentativa. Mas Assunto de Família (“Shoplifters”, 2018, Hirozaku Koreeda, Palma de Ouro ano passado), mantém mais equilibrados muitos desses mesmos elementos.

Essa mistura volátil entre sensibilidade e crueldade no tom do próprio filme, que muda completamente de registro quando menos esperamos, é corolário de produções brasileiras de grande hype nos anos 2000: Durval Discos (2002, Anna Muylaert) e Reflexões de Um Liquidificador (2010, André Klotzel), desconfortavelmente testando os limites da capacidade do espectador em se identificar com os “heróis” protagonistas, dignos de simpatia e repulsa ao mesmo tempo. Uma arraigada desilusão (de causa social) que se transmuta rapidamente no delírio mais acabado.

parasite2-1Por fim, ainda na chave naturalista, um elemento sensorial que ganha significativo destaque em Parasitas é o olfato. Estranhamento: talvez a sensação de sugestionabilidade mais difícil no cinema (a irremediável abstração dos cheiros); mesmo o tato e o paladar podem ser evocados de maneira mais próxima pela imagem visual; mas e os odores?  (Não vamos falar aqui do cinema “4D”). Bong Joon-Ho recorre à palavra, no poder sentencioso do verbo, em um primeiro momento, pois basta a enunciação referente a um cheiro específico.

No segundo (situação-limite que acarretará mais uma mudança drástica de tom no filme), um primeiro plano muito consciente despertará a memória do espectador para o sentido da ação: a decupagem em Bong-Joon-Ho é rigorosamente pensada, tanto em um sentido estético quanto sugestivo / significativo – marca registrada dos grandes diretores. O sentido do olfato, no que possui de visceral, provocativo-instintivo e apelativo, torna-se o mais suscetível a preconceitos de diversas ordens, testando os limites da racionalidade também daquele que é vítima desses mesmos preconceitos.

A Árvore da Vida

the tree of life 1Escrevi e publiquei o texto abaixo na época em que A Árvore da Vida estreou nos cinemas brasileiros (2011). Republico agora, com as inevitáveis revisões após estes quase dez anos já. Repito que é a grande obra-prima de Malick, o ponto de culminância no desenvolvimento de uma estética e de uma filosofia que vinham desde os tempos de Badlands (1973). É pena que o cineasta não escapou à maldição das obras-primas: o que veio depois (To The Wonder, 2012; Knight of Cups, 2015) faz o diretor parecer epígono e paródia involuntária de si mesmo. Mas The Tree of Life sobrevive. É um dos grandes filmes do século XXI, com potencial para entrar para a história universal da sétima arte.

“Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou.” Clarice Lispector, A Hora da Estrela

As palavras da nossa Clarice dão a justa métrica para o lirismo cósmico de Terrence Malick, que atinge o estado máximo de decantação em A Árvore da Vida (“The Tree of Life”, EUA, 2011). Os quatro longas anteriores do diretor, que perfazem uma filmografia bastante enxuta – iniciada com o “anti-Bonnie e Clyde” Terra de Ninguém (“Badlands”), lá nos idos de 1973 –, ainda buscavam aninhar-se entre a narração e a expressão poética. Mas a gestação da Árvore da Vida já se podia entrever na sutil transformação de um recurso incondicionalmente usado pelo cineasta em todos os filmes: a voz em “off” das personagens. Em sua estreia e no filme subsequente – a pequena tragédia de amor proletário Dias de Paraíso (“Days of Heaven”, 1978) –, ouve-se a voz do protagonista narrando a história e, ao mesmo tempo, destilando suas impressões, inquietações e demais sentimentos despertados por ela.

the tree of life 3Já em Além da Linha Vermelha (“The Thin Red Line”, 1998), o melhor filme de guerra norte-americano desde Apocalipse Now (1979, Francis Ford Coppola), e em O Novo Mundo (“The New World”, 2005), onde os velhos mitos nacionalistas da fundação encontram uma reverberação arquetípica, o discurso dos protagonistas abandona o compromisso de explicitar a linearidade dos fatos em complemento às imagens. Sobra a fala lírica, purificada e potencializada ao máximo, numa exclusiva e delirante digressão – o velho daydream que abastece a alma e a pena dos poetas. Desse modo, a sintaxe da construção fílmica (realizada através da montagem) e a sintaxe da construção frasal (nas vozes das personagens) crescem lado a lado, independentes, mas familiarizadas, como duas imponentes árvores cujas raízes se tocam abaixo do solo e cujos galhos, em algum ponto das alturas, hão de se entrelaçar.

Pois o discurso das imagens em Malick, profundamente evocatórias, assim como as palavras do coração das personagens, buscam ambos a inquirição do Verbo: a vontade divina, o sentido da natureza, a possível ação – ou reação – do homem. A Árvore da Vida chega ao ápice dessa modalidade de pensamento e de expressão. Todos os elementos de narratividade encontram-se reduzidos ao mínimo, mas dizer apenas que se trata de narrativa “não-linear” ou “fragmentada” só revelaria uma pobreza de vocabulário crítico. Sabe-se que há uma família, composta por pai (Brad Pitt), mãe e três meninos. Sabe-se que esse pai é carinhoso, preocupado, mas extremamente disciplinador, o que irá marcar gravemente o filho mais velho, que, no futuro (quando ele será encarnado por Sean Penn), ainda irá se debater contra algumas memórias traumáticas da infância.

the tree of life 4E sabe-se também, principalmente, que o filho do meio morrerá aos 19 anos de idade, fato que será duramente assimilado por todos e que há de disparar as memórias e reflexões do menino mais velho já tornado homem, disparando ao mesmo tempo o andamento do próprio filme. Porém, não se depreende tudo isso a partir de um encadeamento lógico-causal de imagens postas em “narração”. Estas vão se sucedendo de acordo com a sua própria significação afetiva (para Jack, o primogênito), assim como obedecem à – busca de – significação cósmica empreendida por Malick. Dessa maneira, cada sequência, cada cena e cada plano deste filme extraem energia apenas de si mesmos. E sua organização se dará menos por uma coesão sintático-racional, do que por analogias poético-afetivas que têm o dom de evocar e provocar, segundo o potencial que essas mesmas imagens carregam. A Árvore da Vida é menos prosa e mais poesia.

O tempo. O tempo da alma e o tempo do universo não são redutíveis ao tempo de Cronos. O filme de Malick é pleno de elipses, algumas inversões e, principalmente, misturas entre tempos. Falar em “flashbacks” seria outra pobreza crítica. A história da família O’Brien (cujos nomes e sobrenome mal aparecem dentro do filme – mas estão nos créditos finais; a construção dramática parece se dar mais pelas grandes categorias míticas de Pai, Mãe, Filho, Irmão: o que também revela a ambição universalizante do diretor) é composta, em sua maior parte, por cenas de um determinado momento da segunda infância dos três meninos. Essas cenas não são situadas, cronologicamente, umas em relação às outras (a mera sucessão delas na tela não é o bastante para nos fazer dizer que uma aconteceu “depois” da outra, ainda mais tendo em vista que todas são rememorações do Jack adulto, e sabemos que o tempo psíquico e o tempo do vivido são de outra categoria).

the tree of life 5E tais cenas são situadas de modo muito solto em relação a outros tempos evocados pelo filme: os nascimentos dos meninos, o momento da morte do irmão do meio, o momento “presente” do Jack que se lembra de tudo e – sobretudo – os incríveis momentos de criação do universo, nascimento do planeta Terra, surgimento e desenvolvimento da vida (incluindo o período dos dinossauros e a queda do asteroide que os dizimou); por fim, passando muito além do momento dos O’Brien, Malick nos mostra a futura e inevitável morte da Terra. São imagens alucinatórias, acompanhadas do mais sublime da música clássica (Mozart, Bach, Brahms, Mahler, que também modulam muitas das cenas da família), na grandiloquência de um cinema sensorial que não se via desde Kubrick (2001, Uma Odisseia no Espaço – 1968). É neste ponto que recorremos ao lirismo de Clarice Lispector.

No final – grande transcendência, grande comunhão – vemos o encontro escatológico de todos os tempos, de todas as idades… Há uma expressão norte-americana, normalmente usada num sentido pejorativo (direcionada àqueles que se refestelam em seu ego inflamado e se esfalfam em ambições desmedidas), que pode ser aplicada ao cineasta: “Terrence Malick is larger than life” (Terrence Malick é maior do que a vida). Mas aqui, o ego e a ambição são da medida dos poetas metafísicos do século XVII. É uma tentação fácil chamar Malick de romântico, principalmente pelo seu encanto em relação à natureza e pelas personagens dotadas de uma subjetividade “larger than life”. Mas o diretor não é romântico, porque não é escapista; e também porque sua natureza e os dramas que ele ativa não são antropocêntricos. Nestes pontos, Herzog seria bem mais romântico.

the tree of life 6Lars Von Trier também seria romântico: sua Melancolia (que perdeu a palma de ouro em Cannes para Malick) apresenta conteúdos metafísicos aparentemente comparáveis aos da Árvore da Vida. Mas só aparentemente. O drama em Melancolia é humano, demasiadamente humano. Na verdade, menos do que humana, a inquietação ali é acima de tudo individualista (sem qualquer conotação negativa no adjetivo). A dimensão cósmica é acionada por Von Trier apenas para potencializar os efeitos da subjetividade. E só. A grandeza das imagens é puramente alegórica. Não acreditamos tanto – ontologicamente falando – na Terra vista do espaço por Von Trier, quanto na mesma Terra vista do espaço por Malick. Daí um cinema de egotismo, praticado pelo primeiro. Tanto quanto os escritos dos poetas ultrarromânticos do XIX. Sob outro ponto de vista, pode-se dizer que Von Trier é produto da era da psicanálise.

Malick, por sua vez, remete-nos à vidência dos primitivos xamãs, verdadeiros poetas-profetas da era da inocência da consciência humana, porta-vozes da natureza e guardiões do seu segredo. Ao invés de transferir ao objeto a sua dor – ato de consciência do poeta moderno, ou de inconsciência do neurótico não menos moderno –, ele assume para si a dor do objeto, transfigurando-se no objeto – ato de (in)consciência do profeta. O drama da Árvore da Vida é o drama de todas as coisas, de todas as criaturas. Isto fica evidente numa das mais belas e significativas cenas do filme – mas que pode passar facilmente despercebida pela maioria dos espectadores: vemos um jovem dinossauro dormindo à beira de um riacho, quando um outro réptil (maior do que ele) chega sorrateiramente, observa-o e pisa violentamente em seu rosto; o animal acorda. Qualquer espectador da era do cinema, acostumado às fábulas da Disney, enxergará na expressão da “presa” o medo e o pedido de misericórdia.

the tree of life 2Do outro lado, aqueles acostumados a um cinema como o de Von Trier, por exemplo, já vão esperar com ansiedade nervosa pelo momento em que o “predador” irá abocanhar e rasgar a garganta do pequeno. Pois bem. Eis que o dinossauro maior, então, após olhar por uns instantes (com expressão logicamente indefinida), simplesmente vai embora, seguindo em seu caminho sem maior ou menor pressa do que quando chegou. Eu diria que esta cena é a mais dramática de todo o filme (mais até do que aquela em que se vê o pai pular ao pescoço do filho do meio, cego de ódio por uma “malcriação” deste). Mas insisto na qualidade ontológica das imagens de Malick (em todos os seus filmes): a tensão entre os dois dinossauros não é mera alegoria – a qual reduziria o valor intrínseco da própria cena e dos seus “personagens” em função de outras cenas e personagens que seriam seus referentes (estes, sim, dignos de reflexão).

Terrence Malick deseja expressar o drama daqueles animais com toda a denotação que estiver ao seu alcance. Alguém poderia dizer que isto é impossível, pois só ao construir o sintagma “drama daqueles animais”, já está pressuposto o olhar antropomórfico. Porém, o diretor não é filósofo; é artista. E como tal, o efeito que busca em suas analogias é aquele que ponha em pé de igualdade semântica ambos os elementos da associação, já que, em sua sensibilidade e intuição propriamente artísticas, ele identifica a vida dos dinossauros com a vida dos homens. E a vida, em si, é um conceito muito mais amplo e indefinível do que pode parecer num primeiro momento. Assim, não é o universo que passa por antropomorfismo no cinema de Malick; mas o homem e as coisas humanas que passam por uma transfiguração, uma transcendência cosmomorfizante (para usar o termo de Edgar Morin). A dimensão das inquietações e investigações aqui afasta qualquer sombra de romantismo e concede à Árvore da Vida um brilho propriamente barroco.

the tree of life 7Um cineasta tipicamente romântico iria se preocupar, por exemplo, com a violência que um determinado indivíduo sofre em um mundo que não o compreende (é o que faz Von Trier em Melancolia). Um cineasta barroco, por sua vez, lamentaria a Violência: a própria ideia / forma (Platão) mais abstrata ao lado de todas (ou quaisquer que sejam) as suas manifestações. Dessa maneira, A Árvore da Vida não mostra um pai, mas a Paternidade; não mostra as relações entre irmãos, mas a Fraternidade; não mostra a perda de um ente querido, mas a Perda. E todas essas grandes categorias são figuradas e distribuídas no espaço da tela com a devida solenidade – mas sem pesar a mão. Os filmes de Malick são profundamente cerimoniais. E sobretudo, poéticos. A Árvore da Vida é um poema que canta a maravilha e a tragédia da existência.

Estou Me Guardando Para Quando O Carnaval Chegar

Estou Me Guardando Para Quando O Carnaval Chegar 1O cinema brasileiro está vivendo o melhor momento de sua história, segundo declaração recente de Kléber Mendonça Filho. Embarquemos no entusiasmo provocado pela sucessão de grandes filmes que têm aparecido no curcuito durante os últimos anos e afirmemos que Marcelo Gomes é um dos maiores cineastas em (prolífica) atividade no Brasil, junto, é claro, do próprio autor de Bacurau (2019) e Aquarius (2016).

Desde Cinema, Aspirinas e Urubus (2005), passando por Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo (2009), Era Uma Vez Eu, Verônica (2012), Joaquim (2017), até este Estou Me Guardando Para Quando O Carnaval Chegar (2019), o diretor pernambucano revela a rara competência em equilibrar a agudeza do comentário social e a sutileza da investigação psicológica. O particular (brasileiro) e o possível universal (humano).

E a forma dos seus filmes revela uma inspiradora consciência da expressividade particularmente audiovisual, dos seus recursos. Entre realizadores que parecem ainda presos à pré-história do “teatro filmado” e aqueles totalmente afogados em esteticismos estéreis (com o perdão do pleonasmo), Gomes nos presenteia, em boa frequência, com longas que são verdadeiras aulas de bom cinema.

Estou Me Guardando Para Quando O Carnaval Chegar 2Estou Me Guardando Para Quando O Carnaval Chegar navega pelas águas dos filmes-ensaios de Agnès Varda (Os Catadores e Eu, 2000; Visages Villages, 2017): o rótulo de “documentário” seria camisa-de-força para o balé de poesia e de brincadeira lúdica que tais filmes nos propõem. Desde a primeira cena, Marcelo Gomes já mostra a que veio, fazendo confluir imagem e som no desenrolar dialético entre exposição e expressividade.

Ainda na abertura, assoma o peculiar contraste entre outdoors com corpos polifêmicos de modelos (homens e mulheres) em meio, primeiramente, à paisagem semi-árida do agreste pernambucano, na beira da estrada; logo depois, à entrada paupérrima da cidadezinha de Toritama, auto-proclamada “capital do jeans”. Todo o restante do filme dançará em torno dos binômios progresso / atraso, natureza / cultura e o principal: trabalho / ócio.

Também desde o começo ouvimos a narração em off do próprio diretor, unindo de maneira sensível e significativa a sua história (e da família) à de Toritama e de seus moradores: uma lição valiosa a documentaristas que sobrevalorizam descabidamente a própria importância em contextos histórico-sociais (falo do infame Democracia em Vertigem, também de 2019, de Petra Costa – infame principalmente pela manipulação questionável de imagem).

Estou Me Guardando Para Quando O Carnaval Chegar 3A presença do cineasta na tela, em corpo e (ou) voz, construindo e desconstruindo suas impressões, seus conceitos e sua própria subjetividade, colocada à disposição do público nesta arena chamada cinema, é aspecto estrutural do gênero do filme-ensaio. E Marcelo Gomes respeita as fronteiras que demarcarão a intransponível distância entre ele mesmo e o Outro – enquanto classe social: os trabalhadores e trabalhadoras simples de Toritama.

A aproximação é feita com o cuidado, a humildade e a singela empatia que faltam ao Fellipe Barbosa de Gabriel e A Montanha (2017). Os depoimentos dos operários e operárias autônomas da antiga cidadezinha rural, hoje transmutada em polo da indústria têxtil, brilham na tela com a força das próprias vivências que expressam, sem que pese o olhar do narrador / documentarista (forçosamente elitista).

A composição das imagens busca recorrências e equivalências que dão ao filme um incomum senso de unidade, com destaque ainda para a força dos contrastes: uma máquina de costura carregada por uma carroça puxada a cavalo; uma criança brincando na máquina de costura (repreendida pela mãe); os costureiros e costureiras comendo e dormindo no próprio espaço (são jornadas exaustivas, ainda que autônomas).

Estou Me Guardando Para Quando O Carnaval Chegar 4Também chama a atenção o rigor dos planos que enquadram em profundidade de campo o espaço de diversas fábricas de “fundo de quintal”, com as máquinas de costura distribuídas à esquerda e à direita, e, ao fundo, a infalível presença de um bebedouro, quase imperceptível, mas que grita à nossa percepção como signo único do descanso, do alívio, dentro de um ambiente de todo inóspito.

O cinema de Marcelo Gomes é todo rico em sugestões. Também no melhor estilo do filme-ensaio, o diretor questiona as possibilidades de representação da imagem e sua ética (cinema-discurso): o melhor momento deste filme, pleno de grandes momentos, é o demorado primeiro plano de duas mãos em movimentos incansavelmente repetitivos à máquina de costura, acompanhados do indefectível som produzido por esta.

A voz do narrador-diretor fala da angústia provocada pelo barulho e da decisão em cortar o áudio do plano (repentinamente, a cena fica muda); inútil, pois a própria imagem das mãos trabalhando mantém o incômodo aos olhos do espectador-cineasta. Decide, então, mudar a posição da câmera e o enquadramento: mais uma vez, sem resultado. O imperativo ontológico-ético da imagem representada nos ataca com uma violência irreprimível.

O segundo instante mais significativo é um ponto de virada: após trabalhar exaustivamente durante o ano todo, a população de Toritama junta as poucas economias, tenta vender os poucos pertences que possui (geladeira, televisão, motocicleta) e viaja em massa para o litoral, durante o feriado de carnaval, esvaziando a “capital do jeans”, que volta a ser – ainda que por alguns dias – o vilarejo ermo do qual Marcelo Gomes se recorda em sua infância.

Estou Me Guardando Para Quando O Carnaval Chegar 5A equipe de filmagem toma uma família que não conseguiu reunir verba suficiente e lhes dá carona em um veículo da produção, com a contrapartida de que filmem a viagem (com uma câmera portátil emprestada). No momento da partida, um contra-plano surpreendente e muito significativo: a visão subjetiva da câmera portátil nas mãos do trabalhador captando a imagem de Marcelo Gomes e equipe (câmera, microfone, assistentes).

Essa breve inversão entre representante e representado configura a troca que é, talvez, a maior realização deste filme; sabendo ser impossível dirigir-se para tão perto assim do Outro (invadir o espaço das vivências de outra classe social), sem ultrapassar ao menos alguns limites éticos, Gomes toma uma decisão simples e até óbvia – mesmo assim, rara: entrega o seu instrumento (que não deixa de ser também um meio de produção) nas mãos do outro.

Para que o outro perceba, registre e exiba as suas próprias experiências, a sua própria subjetividade, sem qualquer filtro de classe – consciente ou inconsciente. Dar a voz aos sem-voz, reforçando assim a autonomia (agora, artística) das pessoas de Toritama (o que não elimina a problemática das péssimas condições de trabalho e remuneração na indústria têxtil). As cenas que se sucederão (imagens de lazer no litoral) são de um lirismo simples e empoderador.

Estou Me Guardando Para Quando O Carnaval Chegar estreou esta semana na Netflix Brasil e é candidato forte aos melhores filmes de 2019, em escala mundial.

High Life

high life 1A cineasta francesa Claire Denis transita com rara desenvoltura entre o abjeto (Bastardos, 2013) e o sublime (35 Doses de Rum, 2008); às vezes, dentro de um mesmo filme (Desejo e Obsessão, 2001). Este último é o caso de High Life (2018, ainda sem previsão de estreia oficial no Brasil). Primeira produção em língua inglesa da diretora, e também seu primeiro longa (nitidamente) de gênero, trata-se de uma ficção científico-especulativa nos moldes do Tarkovski de Solaris (1972), ou de Stalker (1979).

Isto significa, antes de mais nada, que os aspectos mais ligados às ciências exatas (ou naturais) serão reduzidos ao mínimo necessário para efeitos diegéticos, quando muito: a cenografia, por exemplo, seria constrangedoramente tosca se não soubéssemos que o caráter especulativo desse gênero de ficção está mais preocupado em representar e discutir questões de engenharia social, estrutura da psique ou sistemas filosóficos do que engenharia aeroespacial, estrutura da matéria, sistemas de informação etc.

high life 2O desprezo pela verossimilhança física, revelando que o filme opera em outros campos, aparece com um quase atrevimento ao vermos que objetos (e corpos) “caem” para baixo no vácuo do espaço presumivelmente sem gravidade. No entanto, Claire Denis ainda preserva a teoria da relatividade temporal de Einstein, em acelerações próximas à velocidade da luz: provavelmente, por causa das suas implicações psicológico-filosóficas, a levarmos em conta um diálogo que ocorrerá em determinado ponto do filme.

High Life se passa dentro de uma espaçonave-arca “maldita” da espécie humana. Sabemos tão somente que uma “agência” tomou condenados (homens e mulheres) à prisão perpétua ou à morte e os convidou para uma missão – ao que tudo indica – suicida: aproximar-se perigosamente do buraco negro relativamente mais próximo da Terra e coletar dados que permitirão (suposta e futuramente) que se faça aproveitamento da energia massiva que circunda esses corpos celestes.

high life 3O foco narrativo está em Monte (Robert Pattinson), e o filme começa quando toda a tripulação já se encontra morta (por radiação e outras causas que serão esclarecidas ao longo do longa), exceto pelo próprio Monte e por um bebê nascido durante a missão. Duas temporalidades repletas de elipses passarão a se alternar, compondo o restante de High Life: o presente de Monte e da garotinha em crescimento (até que ela atinja a adolescência), e o passado em que o resto da tribulação ainda respirava (mas ia tombando, sistematicamente).

Como um sistema estelar binário, com dois halos brilhantes se confundindo em sugestões quase eróticas, o abjeto e o sublime descreverão movimentos orbitais em torno um do outro, cadenciando o filme. Talvez seja melhor dizer sublimação: a tentativa de prover de sentido (positivo) a experiência-limite do cárcere e da lenta viagem rumo à morte, dentro da nave. Enquanto os outros prisioneiros-astronautas se destroem em disputas mesquinhas, vícios e violência sexual, Monte escolhe um sereno celibato.

high life 5E o corpo-fetiche do galã Robert Pattinson é, aqui, tão despido de estética e de qualquer aspecto que estimule o desejo quanto o design (externo e interno) da espaçonave-caixão; assim como o corpo do igualmente galã André Benjamin (interpretando Tcherny). Por contraste, a personagem de Juliette Binoche (Dibs) esbanja sensualidade e protagonizará uma cena absolutamente delirante de masturbação, evocando a fantasmagoria psicodélica de Sob A Pele (“Under The  Skin”, 2013, de Jonathan Glazer).

Contudo, a abjeção: Dibs também é uma criminosa condenada – matara os filhos e o marido; como médica, ela se dedicará misteriosa e obsessivamente a tentar inseminação artifical das mulheres a bordo (sublimação / compensação?), colhendo a “semente” dos elementos masculinos, que a trocam de bom grado por uma dose do psicotrópico à disposição, ainda que sejam mínimas as chances de uma criança sobreviver à forte radiação que bombardeia a nave que vai se aproximando do buraco negro.

high life 6A fotografia e a trilha sonora completam a atmosfera meditativa ou hipnótica (qual seja a inclinação do espectador), própria desse formato de sci-fi desde Kubrick e Tarkovski. Mas prefiro evitar a aproximação com dramas “cósmicos” atuais e com fama de “inteligentes”, como Interestelar (2014, de Christopher Nolan); pois Claire Denis não se deixa consumir pelas ambições temáticas e por um senso auto-indulgente de importância, o que faz – afinal – a graça de High Life, mesmo que não tenha muito de novo para adicionar ao gênero.

Coringa

“Quando nasci, um anjo torto

  desses que vivem na sombra

  disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida.”

Carlos Drummond de Andrade: Poema de Sete Faces (do livro Alguma Poesia, 1930)

joker 1Em Coringa, pipocam os signos de filiação aos motifs do gauche (o pária, desajustado, mesmo desastrado) e da gaucherie (a falta de tato em padrões de comportamento que provocam embaraço, entre o riso incrédulo e o franco constrangimento). No cinema, a expressão mais clássica e bem-acabada do gauche é o “vagabundo” de Chaplin, e não surpreende a referência a Tempos Modernos nesta narrativa de formação do arqui-inimigo do Homem-Morcego.

Outros indícios: o bullying sistemático que Arthur Fleck sofre, nos espaços públicos e nos privados, dentro da inerentemente violenta sociedade norte-americana; e a gritante inabilidade do protagonista em se fazer minimamente funcional nas situações mais prosaicas: quando eventualmente consegue, será mais uma vez “punido” de forma exemplar pelos bastiões da vitória social (o apresentador de talk show interpretado por Robert de Niro) e da normalidade / normatização (a mãe que o repreende por brincar com o filho – dela).

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Tempos Modernos

Porque a figura do gauche é mais reveladora das contradições de uma sociedade que se diz liberal, do que da falta de supostos méritos individuais: a insensibilidade e falta de empatia quase absoluta que seguem firmes no rumo da mais abjeta desumanização do outro diferencial, a massificação consumidora de sujeitos invariavelmente reificados, o instrumental tecnocrático e legitimado de exclusão social e invisibilidade identitária. A poesia de Drummond e o cinema de Chaplin já trataram bastante desses processos.

Agora, se essa história se passasse em outros tempos, o encaminhamento potencial de Arthur Fleck seria bem outro, a partir da faixa demográfica à qual pertence o personagem: homem cis, branco, heterossexual, pobre. Provavelmente, o “joker” se transformaria em um avatar de algum fórum extremista do esgoto da internet à direita (os chans), planejaria atentados de terror supremacista branco e seria habitué de comícios / manifestações de apoio a políticos da laia de Donald Trump e Jair Bolsonaro.

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Berlin Alexanderplatz

O referente cinematográfico mais simbólico nessa linha é a minissérie Berlin Alexanderplatz (1980), dirigida por Fassbinder, que, recompondo as origens do nazismo, esmiúça os procedimentos pelos quais underdogs são aliciados como bucha de canhão por ideologias / quadrilhas / movimentos / partidos extremistas. Os criminosos do ódio em 2019 ainda quererão forçar um reconhecimento / legitimação do filme ao seu próprio delírio autocrático-homicida. Sinal inequívoco do seu próprio analfabetismo funcional.

A escala em que o diretor e co-roteirista Todd Philips compõe sua parábola anti-heroica é a do psicopata americano no breakdown mental puro e simples. O maneirismo de Coringa, ao emular de feitio aplicado e obediente a estética e os motivos dos filmes norte-americanos entre o final dos anos 70 e começo dos anos 80, caracteriza o alcance e o limite da sua ambição autoral: não é um filme de arte; é um filme de gênero gourmet (de super-herói – ou vilão). Se é que (ainda) tem alguma validade essa dicotomia.

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Taxi Driver

O apego a Taxi Driver (1976) e O Rei da Comédia (1982), de Martin Scorsese, é apenas o mais evidente. A volátil desagregação social em Gotham City, beirando uma anomia completa e perigosíssima, lembra também outros filmes igualmente importantes, mas menos conhecidos, como Os Viciados (“Panic in Needle Park”, 1971), de Jerry Schatzberg; ou, sobre o poder (abusivo) da mídia televisiva relacionado à espetacularização de doenças psiquiátricas, veja-se Rede de Intrigas (“Network”, 1976), de Sidney Lumet.

Contudo, é importante pontuar uma vez mais que a dimensão sociológica de Coringa encontrará um limite rigorosamente demarcado: trata-se, afinal, de um filme de “super-heróis” baseado em histórias em quadrinhos. Assim, o que mais sobressai aqui é a construção desse vilão arquetípico que é o Joker. Primeiramente, a partir da tradição do gauche, cujo exemplo mais diretamente relacionado à origem histórica do personagem (nas HQs) é o filme clássico O Homem Que Ri (1928), de Paul Leni, baseado no romance de Victor Hugo.

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O Homem Que Ri

A imagem iconográfica de Conrad Veidt como o pária de rosto deformado em eterna gargalhada é a fonte dos primeiros desenhos do Coringa por Jerry Robinson e Bob Kane em 1940. Em segundo lugar, Todd Phillips apoia-se no Coringa enquanto manifestação sádico-psicótica do arquétipo do trickster por Alan Moore na graphic novel “A Piada Mortal”. O trickster, na psicologia analítica, representa os princípios da desordem, do acaso, da irracionalidade e da natureza “caprichosa”, enraizados no inconsciente coletivo.

Assim, opõe-se ontologicamente à ordem, à lógica causal, à razão e a todo sentido teleológico alegorizados pelo herói Batman (diga-se, de passagem, que essa dimensão do vilão foi trabalhada magistralmente por Heath Ledger no Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan, em 2008). Aqui, o próprio corpo de Joaquim Phoenix encarna esse contraste de maneira dramática: são (a)berrantes o incômodo da postura, a estranheza dos movimentos e dos gestos, o próprio desequilíbrio quase barroco de sua figura.

rev-1-jok-19666_high_res_jpegO desespero icônico deste Coringa está nos antípodas da serenidade hierática do Homem-Morcego. Cabe lembrar que as múltiplas conotações de gauche em francês, a partir do sentido próprio de “lado esquerdo”, passam por: “errado”, “anormal”, “esquisito”, “torto”… O anjo torto de Drummond, que vive na sombra, talvez mais demônio do que anjo, com sua fala escarninha (própria do trickster). Essa ambiguidade, entre céu e inferno: anjo-gauche humano, demasiado humano, histórico, social. Vítima e algoz ao mesmo tempo.

Enfim, este Coringa de Todd Phillips não é um filme que rompe – sequer chega a forçar – paradigmas cinematográficos. Seu valor reside em cumprir bem as fórmulas de uma cartilha já bem estabelecida, ainda mais que sejam fórmulas difíceis. Quanto ao fundo, estica a sua temática social até as fronteiras do tipicamente aceitável dentro da Hollywood de hoje. Nada que se compare a um Scorsese, um Lumet. Com um pouco mais de caldo, daria em um David Fincher ou Paul Thomas Anderson. Está de bom tamanho para o universo DC no cinema.

 

Descobrindo William Wegman

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Blue Monday

William Wegman é um artista norte-americano que vem trabalhando em diversos suportes desde os anos 70, com pinturas, fotografias e vídeos. São famosas as séries fotográficas com os cães enormes da raça weimaraner carinhosamente chamados de Man Ray (em homenagem ao fotógrafo homônimo) e Fay Wray (nome retirado da clássica atriz de cinema). Wegman também é considerado um dos pioneiros da videoarte: contribuiu para o maravilhoso videoclipe de “Blue Monday” (1988), do New Order, e para a série infantil de TV “Vila Sésamo” (a partir de 1989); além de diversos “microcurtas” experimentais, dos quais o site oficial do autor oferece uma pequena amostra. São filminhos-brincadeiras poéticas que dificilmente passam muito de 1 minuto de duração, e são exibidos sem qualquer edição, legendas ou créditos (antecipando os youtubers?). Vamos aos melhores deles:

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Stomach Song

Stomach Song (“Canção do Estômago”, 1970-1971, 1:20): o artista aparece sentado numa cadeira e enquadrado fixamente num plano médio que lhe corta a cabeça e os pés. No centro do quadro, os mamilos e a dobra da barriga na altura do umbigo formam um rosto que começa a “conversar” com o espectador e cantar, graças a movimentos musculares bastante inventivos e à voz em off do artista. O efeito, em si, é bastante circense e nem um pouco original. Mas, colocado num vídeo, leva-nos a pensar nas relações entre o recorte de mundo sempre significativo que é operado pela câmera e o fora de campo (hors champ), o qual – no entanto – continua presente no quadro em potência, atuando e construindo sentidos na relação com os elementos visíveis no plano. O efeito especificamente fílmico nos faz lembrar as experiências “mágicas” de Georges Meliès para as primeiras plateias do cinema, que tinham dificuldades em entender que uma parte do corpo “cortada” pelo enquadramento ainda estava lá, no mundo real, organicamente ligada ao todo.

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Dog Duet

Dog Duet (“Dueto de Cães”, 1975-1976, 2:38): dois simpáticos cachorros são enquadrados num plano de conjunto e de frente para a câmera, enquanto acompanham muito curiosamente com o olhar algum objeto que parece se movimentar na frente deles, seguindo a linha retangular do plano – o que já promove uma brincadeira com a bidimensionalidade da tela de vídeo e suas relações com o tridimensional sugerido na imagem referencial que vemos dentro dela. Enquanto isso, vai aumentando a curiosidade e mesmo a ansiedade do espectador; quando o objeto passa perto do chão, os cães chegam a esboçar um gesto para pegá-lo. No final, aparecerá uma mão em primeiro plano segurando uma bolinha de tênis. Mais uma vez, Wegman joga com as relações entre o que está dentro e o que se encontra fora de campo, desta vez chamando a atenção para os olhares e gestos dos dois animais imediatamente transformados em personagens de uma breve narrativa de suspense. Isso é quase o método hitchcockiano de se mostrar primeiramente a reação no rosto da personagem (câmera objetiva) e, logo em seguida, colocar o espectador na perspectiva dela – com uma câmera subjetiva.

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Randy’s Sick

Randy’s Sick (“Randy Está Doente”, 1970-1971, 0:16): duas luminárias, uma grande e outra pequena (mas ambas com o mesmo design), estão colocadas frente a frente. A maior está quase na borda esquerda do quadro, e podemos ver uma mão que movimenta a sua “cabeça”, a qual diz (com voz logicamente em off): “Mãe, acho que o Randy está doente…” Então, a luminária pequena tomba para o lado… Alguém se habilita a dizer que John Lasseter plagiou este vídeo no famosíssimo e antológico Luxo Jr. (1986), animação computadorizada pioneira dos estúdios Pixar – cujo personagem principal ainda aparece na vinheta de abertura dos filmes da companhia? A semelhança é incrível, mas talvez seja melhor acreditar que qualquer olhar mais poético seria capaz de enxergar prosopopeias em certas formas de luminárias de cabeça redonda e corpo esbelto…

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Spelling Lesson

Spelling Lesson (“Lição de Ortografia”, 1973-1974, 0:49): um William Wegman profundamente compenetrado e sisudo está sentado à mesa com um cão, a quem dá lições de ortografia, corrigindo com o melhor ar professoral as palavras “escritas” pelo animal num caderno. O cômico neste vídeo é a seriedade com que o “mestre” se dirige ao seu “aluno”; este, por sua vez, permanece com os olhos fixos no seu interlocutor, como se lhe prestasse a mais bem disposta atenção – o cão chega, até mesmo, a inclinar a cabeça em alguns momentos, como se se esforçasse em compreender a “matéria”. O clímax é quando, no meio das reprimendas do professor, o pobre animal emite um som de choro canino e inclina-se para lamber a face do seu dono, o qual se apressa em dizer – meio sem jeito – que perdoa os erros do “estudante”, mas que ele deverá se lembrar de acertar da próxima vez…

Link para a página oficial do artista:

https://williamwegman.com/

Blog onde podem ser conferidos alguns vídeos, dentre outras obras:

https://wegmanworld.typepad.com/

 

 

Bacurau

bacurau 1O ponto mais importante de Bacurau é o pequeno museu histórico da comunidade. É como uma usina que produz, armazena, organiza e distribui a energia necessária para o bom funcionamento do povoado. Para o necessário funcionamento do povoado. Assim, quando os invasores cortam a energia elétrica do lugar, na expectativa de desnortear e provocar pânico na população, preparando terreno para o massacre, quebram a cara. A fonte que alimenta Bacurau é bem outra.

Os invasores (seus vira-latas batedores) não têm acesso ao museu, porque não querem ter acesso ao museu. O desprezo deles é um erro tático pelo qual pagarão muito caro. A marcha da história dos “vencedores” quer varrer Bacurau do mapa e da memória. Mas o pequeno museu é a fortificação a partir da qual se conta e se contará uma outra história. Do seu subterrâneo emergirá a insurreição, como de um inconsciente coletivo que nutre a consciência de classe e abastece a luta.

bacurau 3Não adianta apenas esperar que a revolução seja cumprida pela simples marcha “espontânea” dos acontecimentos, como uma profecia de salvação indelevelmente escrita em algum lugar (erro fatal do Cinema Novo). A redenção da História só será alcançada pela ação consciente dos seus agentes. Não que isso seja garantia de sucesso algum; mas, sem essa ação, nada terá qualquer possibilidade – por menor que seja – de acontecer realmente. Jamais. Desse modo, Bacurau é um chamado. Uma vocação.

Daí a força da preservação da memória e da sua transmissão. Uma outra história de fato. Escovada a contrapelo a partir dos testemunhos guardados no pequeno museu histórico de Bacurau, assim como os de seus cidadãos, cada um testemunha do significado verdadeiro de suas vidas e suas mortes, desde a matriarca recém-falecida (Dona Carmelita, cujo corpo se transforma na água que irriga o árido sertão, na visão revelatória de Teresa) até o filho pródigo que retorna (Pacote), o “rei do teco”.

bacurau 2O museu-Bacurau resgata do fluxo da História homogênea um momento significativo, porque heterogêneo: ponto em que a narrativa oficial se rompe, arrebenta-se; em que os derrotados se tornam vitoriosos, em que os bandidos se tornam mocinhos. A memória do cangaço-resistência. Esse ponto-limite do passado iluminará outro ponto-limite, no presente, análogo na essência: alegoria que clama à ação que interromperá (uma vez mais) a marcha bem-sucedida da barbárie.

E trará redenção para uma memória vilipendiada, reposicionando a comunidade na Geografia e na História. Toda real chance de transformação (revolução) só se concretizará a partir de tal resgate. O filme, na sua própria constituição narrativa, está bem ciente disso e promove a mesma ação, com instrumentos audiovisuais: Sérgio Ricardo e Geraldo Vandré na trilha sonora, evocando o engajamento cinemanovista; o encadeamento em “cortina” que evoca a luta dos camponeses em Kurosawa (mas sem a ajuda dos sete samurais).

bacurau 4As citações cinematográficas aqui não são aquele festival enfadonho de virtuosismo e leviandade (praga que assola tantos cineastas medalhões); são moderadas e inseridas organicamente, fecundas – incluindo-se a mistura peculiar de gêneros. Bacurau não quer pura e simplesmente impressionar. Sabe que, no fundo, não carece de tamanho apelo. A forma não grita mais alto do que o conteúdo. Talvez seja por isso mesmo que o filme, efetivamente, impressione.