Inferninho

inferninhoAndré Bazin, sacando uma imagem genial (um grande crítico é, antes de mais nada, um grande escritor), dizia que o Cinema é uma força centrífuga, ao passo que o Teatro é uma força centrípeta. Durante muito tempo, dizer que um filme é “teatral” soaria como xingamento. “Teatro filmado” seria o paroxismo da ofensa. Mas evoluímos, graças a Deus, e Inferninho (Brasil, 2018, dir.: Guto Parente e Pedro Diógenes) é um grande filme teatral, podemos afirmá-lo com muita satisfação. A sua força centrípeta é vertiginosa: como um buraco negro, arrasta-nos irreversivelmente para o universo objetivo, e sobretudo o subjetivo, da protagonista. Ao atingirmos o horizonte de eventos que constitui a parte final do filme, esvanecem-se todas as fronteiras entre realidade e imaginação, poder e desejo, o mundo e o ser. Se fosse um conto ou novela, seria escrito por Clarice Lispector. É um filme raro. Não deixe de vê-lo.

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