Meu Nome é Bagdá

meu nome é bagdá 1Meu Nome é Bagdá (Brasil, 2020, dir.: Caru Alves de Souza) possui uma das cenas de violência simbólica mais fortes que já vi no cinema. É antológica. Vemos a jovem protagonista, que se apresenta como Bagdá, sofrendo um “enquadro” da polícia militar, junto de seus amigos, na pista pública de skate em que costumam passar boa parte do tempo.

A cena começa assim mesmo, em media res, sem preparação nem aviso: vemos os jovens, menores de idade, colocados contra o muro, todos de cabeça baixa e com um medo – quase pânico – visível. Três deles são negros. Enquanto os policiais militares vomitam suas ofensas e ameaças, com a truculência habitual, armas de fogo em punho.

meu nome é bagdá 2Bagdá é a última a ser revistada. Quando chegam a ela, os PMs começam, imediatamente, os gracejos ofensivos ao ponto de nos sentirmos profundamente enojados (o espectador que tiver, é claro, um mínimo de decência humana, de empatia – o que já é, talvez, pedir demais nos dias de hoje). São piadinhas descaradamente misóginas e homofóbicas.

É um espetáculo grotesco, abjeto, ignóbil. Os atos desses ogros fardados, caricaturas fascistoides que são marca institucional das Polícias Militares no Brasil, lembram o schadenfreude alemão: escarnecer e comprazer-se com o sofrimento do Outro, muitas vezes publicamente e em grupo. A cena é simbólica da classe e da ideologia que, atualmente, dominam este país.

meu nome é bagdá 3Então, um dos patéticos monstros demanda da menina o seu nome. O nome dela é Bagdá. Inconformado, o brutamontes exige que ela apresente o documento de identidade. Demonstrando claro incômodo, ela o faz. Imediatamente, o neandertal berra a todos o nome de registro civil da adolescente (não o reproduzirei aqui, em respeito simbólico à personagem e ao que ela representa).

Esse berro, esse abuso, essa invasão e exposição escarninha da identidade e da intimidade de Badgá são de uma violência brutal, direta, sem disfarces nem contornos. É uma violência equivalente à violência sexual propriamente dita que Bagdá sofrerá em outro momento-chave deste pequeno grande filme. Detalhe: é o único momento da fita em que ficamos sabendo o nome “real” de Bagdá.

meu nome é bagdá 5Mas Caru Alves de Souza não definirá suas personagens (garotas skatistas) pela violência que sofrem. Sua identidade não será negativa, reativa. Mas propositiva. A união delas e a ocupação dos espaços sociais que promovem têm a força inspiradora da ação política, histórica. É bela e significativa a sororidade e a alegria autêntica que sentem em estarem juntas, de skate, nas ruas.

Cenas que registram adolescentes em suas vivências cotidianas na tonalidade poética da câmera lenta (e da música na trilha sonora para completar o mood) já se tornaram clichê em filmes que buscam ostentar o selo de produções independentes (indie). Mas, em Meu Nome é Bagdá, elas têm a força e o sentido de um manifesto. No painel geral da fita e da realidade a que ela remete, realmente nos comovem. Isso é um feito artístico inestimável.

meu nome é bagdá 4A marcha da História da barbárie vitoriosa não será interrompida por nenhuma promessa teleológica de redenção, nem por algum agente ex-machina. Cabe unicamente às pessoas pisoteadas e esquecidas por essa marcha se levantarem e começarem a jogar areia na máquina. E isso as meninas skatistas de Meu Nome é Bagdá fazem muito bem. Aprendamos com elas.

2 comentários em “Meu Nome é Bagdá

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