Cão Branco

Aviso: o texto abaixo foi escrito com grande amargura.

 

White Dog 2Rever Cão Branco, de Samuel Fuller, em 2020, é mergulhar em uma das questões mais urgentes do nosso tempo: todos sabemos que ninguém nasce odiando; todo ódio é ódio ensinado; mas é possível desaprender a odiar? Essa pergunta, logicamente, não é de hoje. Mas, quando eu digo que é particularmente urgente em 2020, estou pensando nas diversas reencarnações dos velhos fascismos que voltaram a crescer como o câncer que são, em velocidade alarmante.

 

Há cura para esse câncer? Ou devemos simplesmente extirpar o tumor ou mesmo todo o órgão infectado, antes que a doença entre em metástase? Digo isso porque sinto, em muitos momentos, que o tempo do debate e da “reeducação” já passou. E que agora é guerra. Samuel Fuller tira a sua própria conclusão, bastante amarga em termos, digamos, filosóficos. Mas com grande energia e disposição para a luta (cinema é justamente um campo de batalha, como ele diz no Pierrot le Fou de Godard).

 

White Dog 3Escrevo isto na mesma semana em que lemos a notícia de que um adolescente (branco) de 17 anos foi à rua com fuzil nos braços e abriu fogo contra manifestantes (negros) pacíficos que pediam black lives matter, nos EUA. Assassinou duas pessoas e deixou ferida uma terceira. Um comentarista de uma grande rede de TV com linha editorial abertamente reacionária naquele país ainda defendeu publicamente o assassino, tentando justificar sua ação criminosa.

 

Aqui no Brasil, outro comentarista infelizmente famoso por papaguear as ideologias mais miasmáticas que vêm dos EUA, o qual já atuou em diversos órgãos de imprensa (e foi demitido de vários deles), vomita nas redes sociais sua “discordância” dos boicotes que jogadores afrodescendentes da NBA estão fazendo aos jogos, empesteada de expressões racistas.

 

White Dog 4Esse escroque não poupou nem menos as vítimas fatais recentes da violência policial sistemática contra a população negra na “América”, defecando calúnias e difamação em forma de tweets. Poucas horas depois, anuncia que foi demitido do jornal onde trabalhava até então. E, para fechar o giro de notícias pútridas, temos o miliciano que ocupa o Palácio do Planalto usando mais uma vez o termo “arroba” para se referir, sarcasticamente, à massa corporal de um homem negro.

 

A imagem mais forte de Cão Branco, dentre as muitas imagens fortes deste que é um dos maiores filmes de terror de todos os tempos, mostra um homem negro sendo trucidado pelo cão branco dentro de uma igreja católica, aos pés de um vitral com a imagem de São Francisco de Assis, protetor de todos os animais. 

 

White Dog 1Aqui, promoverei uma leitura dessa cena inspirado pelo jansenismo de um Bresson: o ódio é um elemento humano, intrinsecamente mundano. E não há santo que cure, milagrosamente, o que diz respeito somente à nossa própria ação. Ação história, ação política. Ação necessária.

 

Assim, o único santo possível, neste mundo, é o santo desesperançoso, mas teimoso, encarnado no Sr. Keys, homem negro, domador de animais selvagens, que não desiste de tentar curar cães brancos, mesmo após sucessivos fracassos. Porém, ao detectar o revés irreversível, ele não deixará de pôr, ele mesmo, esses cães “para dormir”. Talvez devamos fazer o mesmo neste 2020?

Sertânia

sertânia 1Sertânia é uma epopeia lírica: a travessia da alma, como em Dante. Ou simplesmente travessia, como em Guimarães Rosa, sem maiores complementos. Já disse o autor de Grande Sertão: Veredas: o sertão é do tamanho do mundo; o sertão está em toda parte; e o sertão também é dentro da gente.

A mitopoética de Sertânia costura com perícia e precisão rara, como em uma mandala (imagem simbólica da totalidade do ser: o self), todos os pontos de diversas paisagens: a local (particular) e a estrangeira (universal?); os (des)caminhos da geografia exterior (objetiva) e da geografia interior (subjetiva).

sertânia 2Constrói uma ponte entre o mundo físico e o metafísico: da festa do boi ao limbo das almas esperando a travessia no Rio e a morada dos mortos; os salões dos coronéis e o povo retirante morrendo de fome em praça pública; a caatinga fechada e a metrópole paulistana, não menos fechada.

A tomada de consciência (de classe) por parte do protagonista / eu-lírico e a consciência em fluxo-fuga, enquanto a morte se aproxima: “eu só queria voltar para casa”. Casa não há. Talvez, do outro lado do rio cujas águas é bom beber para “esquecer”, no mundo inferior (Hades).

sertânia 3O herói (herói?) de Sertânia, jagunço Antão “Jararaca”, será tentado no deserto (caatinga), tal qual seu homônimo Santo Antão, o anacoreta. Mas aqui, ele será tentado pelo demônio da sua própria consciência-fluxo, em cadência alucionatório-psicodélica. E Sertânia não é nenhuma hagiografia.

A iluminação “estourada” que domina a fotografia do filme pode ser interpretada como sugestiva desse tom psicotrópico, assim como o excesso de “claridade” no tratamento do fotograma, que deixa escurecidas as pontas dos objetos nas imagens, extremidades “necrosadas”, o que nos leva ao Fogo de Santo Antão.

sertânia 4Fogo de Santo Antão: a aterrorizante doença medieval que causava delírios demoníacos e uma morte lenta, a partir da auto-mumificação e desmembramento dos dedos das mãos e pés, que caíam sozinhos um a um, necrosados. O mal era causado pelo fungo “ergot”, a partir do qual seria posteriormente sintetizado o LSD.

Sertânia é uma epopeia. É uma canção lírica. Um visão mística. E uma bad trip.

(O filme está disponível no 4º Festival Ecrã de Experimentações Audiovisuais, online e gratuito, até 30/08.)

https://www.festivalecra.com.br/

Meu Nome é Bagdá

meu nome é bagdá 1Meu Nome é Bagdá (Brasil, 2020, dir.: Caru Alves de Souza) possui uma das cenas de violência simbólica mais fortes que já vi no cinema. É antológica. Vemos a jovem protagonista, que se apresenta como Bagdá, sofrendo um “enquadro” da polícia militar, junto de seus amigos, na pista pública de skate em que costumam passar boa parte do tempo.

A cena começa assim mesmo, em media res, sem preparação nem aviso: vemos os jovens, menores de idade, colocados contra o muro, todos de cabeça baixa e com um medo – quase pânico – visível. Três deles são negros. Enquanto os policiais militares vomitam suas ofensas e ameaças, com a truculência habitual, armas de fogo em punho.

meu nome é bagdá 2Bagdá é a última a ser revistada. Quando chegam a ela, os PMs começam, imediatamente, os gracejos ofensivos ao ponto de nos sentirmos profundamente enojados (o espectador que tiver, é claro, um mínimo de decência humana, de empatia – o que já é, talvez, pedir demais nos dias de hoje). São piadinhas descaradamente misóginas e homofóbicas.

É um espetáculo grotesco, abjeto, ignóbil. Os atos desses ogros fardados, caricaturas fascistoides que são marca institucional das Polícias Militares no Brasil, lembram o schadenfreude alemão: escarnecer e comprazer-se com o sofrimento do Outro, muitas vezes publicamente e em grupo. A cena é simbólica da classe e da ideologia que, atualmente, dominam este país.

meu nome é bagdá 3Então, um dos patéticos monstros demanda da menina o seu nome. O nome dela é Bagdá. Inconformado, o brutamontes exige que ela apresente o documento de identidade. Demonstrando claro incômodo, ela o faz. Imediatamente, o neandertal berra a todos o nome de registro civil da adolescente (não o reproduzirei aqui, em respeito simbólico à personagem e ao que ela representa).

Esse berro, esse abuso, essa invasão e exposição escarninha da identidade e da intimidade de Badgá são de uma violência brutal, direta, sem disfarces nem contornos. É uma violência equivalente à violência sexual propriamente dita que Bagdá sofrerá em outro momento-chave deste pequeno grande filme. Detalhe: é o único momento da fita em que ficamos sabendo o nome “real” de Bagdá.

meu nome é bagdá 5Mas Caru Alves de Souza não definirá suas personagens (garotas skatistas) pela violência que sofrem. Sua identidade não será negativa, reativa. Mas propositiva. A união delas e a ocupação dos espaços sociais que promovem têm a força inspiradora da ação política, histórica. É bela e significativa a sororidade e a alegria autêntica que sentem em estarem juntas, de skate, nas ruas.

Cenas que registram adolescentes em suas vivências cotidianas na tonalidade poética da câmera lenta (e da música na trilha sonora para completar o mood) já se tornaram clichê em filmes que buscam ostentar o selo de produções independentes (indie). Mas, em Meu Nome é Bagdá, elas têm a força e o sentido de um manifesto. No painel geral da fita e da realidade a que ela remete, realmente nos comovem. Isso é um feito artístico inestimável.

meu nome é bagdá 4A marcha da História da barbárie vitoriosa não será interrompida por nenhuma promessa teleológica de redenção, nem por algum agente ex-machina. Cabe unicamente às pessoas pisoteadas e esquecidas por essa marcha se levantarem e começarem a jogar areia na máquina. E isso as meninas skatistas de Meu Nome é Bagdá fazem muito bem. Aprendamos com elas.

Babysplitters

babysplitters 2A premissa, em termos políticos, é maravilhosa: configurações familiares não-normativas, alternativas, progressistas. Dois jovens casais que querem, mas não conseguem ter filhos e, sobretudo, não querem abdicar 100% da carreira profissional e dos benefícios da vida sem crianças, decidem realizar um swing “clínico” e compartilhar a guarda do rebento que vier.

E o modo cômico como são tratadas as inseguranças e paranoias do personagem interpretado por Dani Puddi é uma gostosa provocação à masculinidade frágil de muitos seguidores de Jordan Peterson e cia.

babysplitters 1Mas é pena que esse tom liberal (nos costumes) não se mantenha até a conclusão, e o filme caia no conforto do desfecho tradicional, conservador, para grande alívio dos protagonistas e do público, como se tudo não tivesse passado de um sonho louco que, ufa!, acabou – não deixando maiores consequências (na verdade, não deixando consequência alguma, exceto a restauração e reforço da via conservadora).

A sensação final que tem o espectador de mente mais aberta é a de ter sido meio que ludibriado: um filme bem careta, disfarçado de transgressor.

-Pelo menos, temos o comic relief de Dani Puddi. Sem querer prendê-lo ao papel que o revelou na série de Dan Harmon, confesso que não consegui ver Dani Puddi interpretando um homem profissionalmente bem-sucedido, casado, prestes a ter filhos. O que eu via era o Abed, de Community, interpretando um homem profissionalmente bem-sucedido, casado, prestes a ter filhos – parecido com o que ele faz no episódio 19 da segunda temporada (Critical Film Studies), parodiando o filme My Dinner With Andre (1981).

Isso manteve a diversão.

Pai e Filha

pai e filha 1Asas do Desejo (1987), de Wim Wenders, conta uma bela história de renúncia da imortalidade pela graça e desgraça de ser, existir e amar no mundo, viver a sua própria história, com todos os inevitáveis altos e baixos. Nos créditos finais, o diretor dedica o seu filme a alguns cineastas que ele se refere como “former angels”, dentre estes Yasujiro (Ozu).

Ozu pertence a uma categoria rara de artistas. E, mesmo dentre estes, não há ninguém que possua a curiosidade franca, a empatia, o gosto e o amor que o autor de Late Spring tem pela vida, pelo ser (humano), pelo mundo.

pai e filha 2A poesia de Ozu é a poesia de um encanto, como o encanto no olhar de uma criança que vai descobrindo a vida, o ser, o mundo. Mas não o subestimemos. Yasujiro não é ingênuo, e, por trás do singelo drama familiar em Late Spring, agita-se um conflito social entre gerações (no qual, curiosamente, a jovem Noriko representa valores tradicionais; e o seu pai, valores progressistas – o mundo “caduco”, já dizia o poeta Drummond).

Além disso, as fissuras abertas pela 2a Guerra Mundial ainda se fazem fortemente presentes na memória (estamos aqui em 1949), e o cineasta faz questão de pontuar seu filme com diversos signos avassaladores da ocupação norte-americana.

pai e filha 3O cinema de Ozu é de uma realização profundamente litúrgica; porém, desprovida de qualquer elemento hierárquico-institucional, ou metafísico (ao contrário do outro “former angel” Andrei Tarkovski). É um cinema de reverência ao ser humano. A posição baixa e fixa da câmera ao contemplar os gestos e as interações das pessoas atesta essa veneração.

A arte de Yasujiro Ozu nos torna melhores. Torna o mundo melhor. Não por alguma idealização reacionário-romântica. Mas porque nos faz querer ser melhores e melhorarmos o mundo ao redor. O potencial transformador está dado. Os filmes de Ozu são testemunho.

2a Mostra de Cinema Egípcio no CCBB

O Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) está com a 2a Mostra de Cinema Egípcio, de 29 de julho a 23 de agosto. São, no total, 24 filmes da produção contemporânea do país, todos com exibição gratuita online (a partir de cadastro no link abaixo):

https://www.orientse.com/

Seguem, abaixo, breves comentários de alguns deles:

Photocopy (2017, Tamer Ashry)

photocopyA belíssima fotografia deste filme-joia rara serve de moldura a uma história sensível (na medida certa, sem melodrama) de amor na terceira idade: amor conjugal e, sobretudo, amor à vida. É um daqueles (poucos) filmes que realmente aquecem nosso coração e renovam em nós o gosto e a esperança pela vida, pelo mundo e pela humanidade – a despeito de toda a barbárie preponderante. Esssa é, talvez, a função maior da arte.

 

 

 

Yomeddine (2018, A. B. Shawky)

yomeddineUm belo e comovente road movie sobre a amizade entre um paciente (curado) de lepra e um garoto órfão que viajam pelo Egito, corajosamente, em busca dos familiares que há muito os abandonaram. Uma cena de grande impacto e significação: os dois protagonistas investigando com estranhamento as inscrições hieroglíficas em ruínas da antiga civilização faraônica (justamente eles, párias, excluídos da vida civil). Os majestosos escombros de uma História cujo patrimônio lhes é negado e que só poderão apreciar como o fazem na cena: com uma curiosidade desapegada e uma instintiva desconfiança.

 

 

Between Two Seas (2019, Anas Tolba)

between two seasEm tons de melodrama e com uma bela fotografia (principalmente em contraluz), Between Two Seas conta ao espectador uma história trágica, carregada de um comentário social contundente: a situação precária de uma comunidade marginalizada que habita uma pequena ilha no meio do rio Nilo, nos arredores do Cairo; e a luta de suas mulheres contra a violência tradicional que sofrem: violência doméstica e mutilação genital (a cena da “circuncisão” de uma adolescente, filmada no modo poético de um sonho vago, é uma das melhores soluções que eu vi no cinema recente para evitar, elipticamente, o explícito banal de um ato de violência indescritível).

Mas, justamente a partir dos dados de resistência e resiliência, o filme transforma a tragédia (já desprovida de qualquer fatalismo subtentendido no termo) em convite para a luta, o que aquece nossos corações e faz predominar, na conclusão, um tom de esperança (não um sentimento de expectativa vago, mas a crença cabal no resultado positivo de ações políticas que nascem a partir de conscientização, esclarecimento, luta e conquista de autonomia e empoderamento). Precisamos de mais filmes assim.

 

The Gate of Departure (2015, Karim Hanafy)

the gate of departureMuito cinéfilo jovem achará “arrastado” este filme-poema de 65 míseros minutos. Mas, graças a Deus, a Arte é esse negócio assim mágico que se esparrama para muito além das débeis balizas de um videozinho do Tik Tok.

 The Gate of Departure, filme integralmente onírico, lírico, evoca as inquietações dos teóricos pioneiros do cinema vanguardista (Germaine Dulac, Louis Delluc, Fernand Léger), em defesa de um cinema puro, como eles o chamavam: não-narrativo, tão somente calcado na expressividade e na fotogenia das imagens.

Por outro lado, este quase curta-metragem é talvez a melhor meditação em forma de filme sobre a figura materna desde O Espelho (1975), de Tarkovski.

House of Hummingbird

“E essas crianças
Em quem vocês cospem
Enquanto elas tentam mudar o mundo delas
São imunes aos seus conselhos.
Elas sabem muito bem
Pelo que estão passando…”
(David Bowie, Changes)

house of hummingbird 1Uma grande estreia em longa-metragem para a diretora Kim Bora. Arrisco-me a dizer até que é um dos melhores filmes de estreia de cineastas dos últimos anos. A citação acima, de David Bowie, está na epígrafe de O Clube dos Cinco (1985), de John Hughes, e serve para todos os grandes filmes que abordam, com genuína empatia e honestidade, o universo adolescente.

House of Hummingbird é um sensível coming-of-age encenado e narrado com grande lirismo, mas sem melodrama excessivo, sem condescendência. Um filme honesto na proposta e na realização.

E, como as melhores obras do gênero, estrutura-se na intersecção dialética (ou choque) entre o vivido individual e o coletivo: pois o ser-estar-no-mundo não pode ser jamais menosprezado, principalmente quando se trata da adolescência, sob pena de estragar a totalidade da narrativa e sua proposta, quaisquer que sejam.

house of hummingbird 3Eppur si muove (“no entanto, ela se move”), já disse Galileu. Os movimentos internos da alma adolescente não podem ser interrompidos, tampouco pode ser evitada a sua autoconsciência (já disseram David Bowie e John Hughes).

E esses movimentos não repetem – necessariamente – os movimentos da alma coletiva, sequer harmonizam com eles. Mas servem de contraponto significativo, ainda que dissonante.

No filme de Kim Bora, funciona como estribilho o contraste expressivo entre os ritmos interiores da jovem protagonista Eunhee, no geral mais lentos e cadenciados, e os ritmos exteriores de uma Coreia que cresce e desaba a um só tempo, freneticamente.

house of hummingbird 4A menina encontrará um ponto raro de conexão com o Outro na professora substituta, mas a força avassaladora do Mundo / dos acontecimentos colocará uma interposição que será mais um dado a ser processado e integrado à personalidade e à memória da jovem em formação (em nada diferente da experiência adolescente arquetípica).

O resultado final, triste e feliz, inquieto e tranquilo a um só tempo, é o que completa a grande beleza humana que é ser, que é existir, da qual a Arte é veículo de comunicação privilegiado.