First Cow

“History isn’t here yet. It’s coming, but maybe this time we can take it on our own terms.” (A História ainda não está aqui. Ela está vindo, mas talvez, desta vez, nós podemos tomá-la em nossos próprios termos.)

first cow 1A frase acima é dita por King-Lu ao seu amigo “Cookie”, em um dos diversos momentos memoráveis deste pequeno grande filme, mais um ótimo acerto da diretora Kelly Reichardt. São ambos pobres-diabos, trotamundos tentando abrir como podem suas trilhas em meio ao denso coração das trevas de uma América semi-colonizada.

First Cow é um filme de latências. Porém, mais incômoda do que a posição do vir-a-ser é a posição do eterno vir-a-ser: o que, no final das contas, nunca será acabado, de fato, definitivo. Exceto a morte. A amizade entre King-Lu e “Cookie” nos encanta pela potência que nela se revela. Esses dois melancólicos pícaros conseguirão vencer no mundo, juntos?

first cow xOu a História lidará com ambos nos termos dela, como de praxe, a despeito dos esforços dos dois jovens? E que termos serão esses? Os termos de um Tesouro de Sierra Madre (1948, John Huston)? Não. Kelly Reichardt ainda crê na verdade do ser: o afeto e a lealdade, aqui, são incorruptíveis, e é essa singeleza que (ainda) comove as audiências. Ainda bem.

Mas a História não os deixará de atropelar, with extreme prejudice. First Cow tem um caráter de parábola, de “história da carochinha para adultos”, no dizer do nosso grande Guimarães Rosa, como as estórias basilares que ele mesmo contava, situadas no sertão que está em toda parte. Realmente.

first cow 3First Cow, como toda narrativa mitopoética, transcorre e transcende em um não-lugar (o coração das trevas da América semi-domada), em um não-tempo (a História que ainda está para chegar por ali). E seus personagens são não-sujeitos; mas aqui reside a modernidade do filme, sua inserção firme e consciente em um diálogo contemporâneo.

King-Lu e “Cookie” são não-indivíduos não porque transcendam, heroicamente, a condição humano-mortal, como heróis clássicos. Não são sobre-humanos, mas sub-humanos, a partir de sua condição social, pois não terão poder algum sobre a História, veículo com que os vencedores conquistam a Terra, atropelando quem não teve e não terá vez nem voz.

first cow 4E, a partir de sua condição mortal, são humanos, nada mais ou nada menos do que humanos, pois, em verdade, não podem ter poder total sobre História alguma (nem mesmo sobre a Revolucionária, como a própria História já tanto nos ensinou); e, neste ponto, sua história é a mesma daquela dos heróis trágicos, já modernos: o único heroísmo – ainda – possível.

Arthur Rimbaud, poeta-profeta da modernidade, tem um soneto que o filme de Kelly Reichardt parece ressoar, na sensibilidade, na força expressiva da imagem e nas suas implicações históricas:

ADORMECIDO NO VALE

É um vão de verdura onde um riacho canta
A espalhar pelas ervas farrapos de prata
Como se delirasse, e o sol da montanha
Num espumar de raios seu clarão desata.

Jovem soldado, boca aberta, a testa nua,
Banhando a nuca em frescas águas azuis,
Dorme estendido e ali sobre a relva flutua,
Frágil, no leito verde onde chove luz.

Com os pés entre os lírios, sorri mansamente
Como sorri no sono um menino doente.
Embala-o, natureza, aquece-o, ele tem frio.

E já não sente o odor das flores, o macio
Da relva. Adormecido, a mão sobre o peito,
Tem dois furos vermelhos do lado direito.

(Tradução: Ferreira Gullar)

LE DORMEUR DU VAL

C’est un trou de verdure où chante une rivière,
Accrochant follement aux herbes des haillons
D’argent; où le soleil, de la montagne fière,
Luit: c’est un petit val qui mousse de rayons.

Un soldat jeune, bouche ouverte, tête nue,
Et la nuque baignant dans le frais cresson bleu,
Dort; il est étendu dans l’herbe, sous la nue,
Pâle dans son lit vert où la lumière pleut.

Les pieds dans les glaïeuls, il dort. Souriant comme
Sourirait un enfant malade, il fait un somme:
Nature, berce-le chaudement: il a froid.

Les parfums ne font pas frissonner sa narine;
Il dort dans le soleil, la main sur sa poitrine,
Tranquille. Il a deux trous rouges au côté droit.