O Paraíso Deve Ser Aqui

it must be heaven 2O Paraíso Deve Ser Aqui é um título que trai a ironia sutil, mas altamente provocativa, com que o cineasta palestino Elia Suleiman vem erguendo uma bela filmografia. Deve ser “aqui” onde? Em Nazaré? Paris? Nova Iorque? Em todos esses lugares? Em nenhum desses lugares? (Pensando na pátria subjetiva do viajante cosmopolita.)

O título em inglês (It Must Be Heaven) pode sugerir possibilidades mais abrangentes: “isto deve ser o paraíso” pode se referir não a uma localidade geográfico-espacial, mas a, digamos, um estado de espírito, uma situação vivida, um encontro, um relacionamento, uma revelação transfiguradora.

O encontro entre o cineasta-protagonista e a mulher camponesa que carrega cumbucas de água dentro de um idílico bosque na bíblica paisagem da Galileia, encontro esse que se repetirá no final do filme, por efeito de busca do próprio Suleiman, pode ser talvez sinal desse paraíso enquanto epifania, em conformidade ao cristianismo do diretor.

it must be heaven 3O fato é: nenhum dos locais ou encontros vividos pelo cineasta-andarilho em espaço da “civilização” deixa de ser relatado de maneira derrisória – com o fino sarcasmo de que falaremos mais adiante. Exceto a experiência da camponesa no bosque da Galileia – a qual, diga-se de passagem, nem pode ser considerada um encontro; antes, uma observação.

Sim, o vouyerismo é elemento estruturador nas relações entre o eu (Suleiman) e o mundo neste filme. Predomina uma observação distanciada, às vezes não-percebida, mas geralmente dotada de certa malícia: no juízo satírico ou na intencionalidade do observador que faz questão de (se) mostrar a nós que sim, ele está ali presente.

Esse gosto pelo registro de lugares e pessoas poderia fazer com que víssemos no filme algo de documentário. Mas, na verdade, não. Por duas razões. Primeiramente, a presença do próprio cineasta em cena é particularmente significativa: não pelo testemunho observacional em si, mas pelas relações que se revelam ou estabelecem.

it must be heaven 4A própria figura conhecida do eu artista-diretor se coloca no mundo, circula pelo mundo, como que se expondo em uma arena pública. Os “embates” que se seguirão fazem por testar a identidade (ou identidades), configuração ou legitimidade desse mesmo eu, pondo-o em questão enquanto sujeito histórico, social, político e artístico-cultural.

Lembremos a reação histriônica do taxista novaiorquino ao praticamente arrancar de Suleiman a informação de que é palestino de Nazaré, em uma tentativa forçadamente amistosa de puxar conversa. Ou a invisibilidade do autor-personagem para os policiais parisienses que fiscalizam a medida da ocupação das mesas do bistrô na calçada.

Ou ainda a recusa do produtor francês ao seu novo roteiro, por não ser “palestino” o “suficiente”, e o desprezo sumário que outra executiva de estúdio (NY) lhe dispensa, mesmo depois da indicação dada pelo amigo Gael Garcia Bernal – o qual faz questão de reforçar, ao telefone, que Suleiman não é palestino “de Israel”, mas palestino da Palestina.

it must be heaven 1Essas situações vividas dão certo ar ensaístico (próprio dos filmes-ensaios) para O Paraíso Deve Ser Aqui, para além do que nos remeteria ao simples documentário. Eu disse “ensaístico”, como adjetivo, porque a elaboração dos acontecimentos mostrados é ficcional / narrativa, assumidamente encenada.

E aqui temos o segundo ponto em que documentário ou ensaio só podem ser aplicados ao longa de Suleiman enquanto adjetivos, e de maneira bastante cautelosa. A encenação caricatural de pessoas e objetos em pequenas rotinas cotidianas, chegando às raias do estranhamento surrealista, remete à sutil sátira social de Jacques Tati.

Repetições incidentais de padrões geométricos, gestos habituais coreografados e pequenas ações automatizadas dotadas de um humor cartunesco (a fileira de cavalos militares que desfila com o pequeno veículo de limpeza urbana seguindo logo atrás e recolhendo o estrume deixado) lembram bastante as gags visuais do diretor de Playtime (1967).

Assim como Tati, Suleiman demonstra crer que o mundo ultra-civilizado da pós-modernidade acaba paralisado no gesto burlesco da sua segunda natureza – como nos desenhos em que o personagem, após cair em cimento fresco, acaba enrijecendo-se ao se erguer. Então, a velha ideia do retorno a uma natureza idílica (o Éden antes da Queda) volta uma vez mais com seu charme tentador. O paraíso talvez seja lá.

Never, Rarely, Sometimes, Always

NEVER RARELY SOMETIMES ALWAYSEm primeiro plano, vemos mãos (femininas) que levantam a blusa de um ventre (igualmente feminino), passam gentilmente em sua superfície um pouco de gel e encostam o aparelho de ultrassonografia. Esse ventre está cheio de hematomas bastante escuros, provocados por pancadas cuja violência já tínhamos testemunhado explicitamente em cena anterior. Não há qualquer diálogo ou trilha sonora. Somente a intensidade expressiva do gesto.

Esse momento único de cinema puro (palavra sempre perigosa de usar, mas uso-a mesmo assim), em que a realidade nua e bruta assoma aos nossos olhos com o gigantismo avassalador do close-up, sem nos dar qualquer opção de desviar a atenção (apenas fechar os olhos mesmo), é a grande força de Never, Rarely, Sometimes, Always (EUA / Reino Unido, 2020, dir.: Eliza Hittman).

Never, Rarely, Sometimes, Always 2Força classicizante, e não é à toa que o filme venceu, em Sundance este ano, o prêmio de “Neorrealismo” (U.S. Dramatic Special Jury Award). Ganhou também o Urso de Prata em Berlim (Grande Prêmio do Júri). É o terceiro longa-metragem da cineasta Eliza Hittman e o estudo de personagem empreendido aqui tem ressonâncias significativamente potencializadas pelo olhar feminino da diretora e roteirista.

A proximidade do ponto de vista faz com que a história acompanhe a situação de violência contra a mulher, gravidez indesejada na adolescência e aborto antes com o olhar atento do testemunho e a disposição do ouvir com atenção a vivência alheia (a empatia), do que com a rigidez (e intolerância) do julgamento moral sumário ou das teses prontas – estas últimas fazem do inferno o paraíso das “boas” intenções.

Never, Rarely, Sometimes, Always 1A câmera-olho de Hittman apenas acompanha a jovem protagonista na difícil jornada, em demonstração solidária da sua presença reconfortante, assim como a (única) amiga dela quase sempre em cena. E isso já é tudo. Não precisa de mais nada. Apenas o testemunho silencioso – a voz é a da personagem, sempre, a única que interessa (a própria trilha sonora é quase inexistente, e quando aparece, são poucas notas para leve ambiência).

A imagem fixa no rosto de Autumn (Sidney Flanigan), durante a quase totalidade da difícil entrevista na clínica de aborto, é como se disesse, fraternal: “eu estou aqui, com você, tá?” E a panorâmica ao longo do corpo da jovem, deitada na mesa cirúrgica para o procedimento, terminando por revelar que todos na sala – médica, assistentes e enfermeiras – são mulheres, compõe uma cena de um neorrealismo intenso, sensível, significativo.

Enfim, seria fácil desprezar Never, Rarely, Sometimes, Always como um filme-tique da estética indie norte-americana. Ou como um filme “de mulheres” (consequentemente, “para mulheres”). Basta lembrar a condescendência com que Adoráveis Mulheres da Greta Gerwig foi recebido por parte considerável – e prestigiada – do público crítico masculino nos próprios EUA. Mas não faça isso. Apenas. Sejamos melhores.