Uma Vida Oculta

a hidden life 2Após A Árvore da Vida (“The Tree of Life”, 2011), verdadeira obra-prima, a delicada poesia de Terrence Malick vinha se deteriorando no contato com o ar insalubre da banalidade. Amor Pleno (“To The Wonder”, 2012) e Cavaleiro de Copas (“Knight of Cups”, 2015) traziam o risco de que o peculiar estilo do diretor, que vinha sendo pacientemente depurado em longas-metragens bastante esparçados desde 1973, acabasse em um molde de cacoetes sem maior pertinência do que a poesia de salão.

Mas eis que Uma Vida Oculta (“A Hidden Life”, 2019) promove uma bem-vinda – e esperamos duradoura – correção de curso. Aqui, a solenidade metafísica da direção de Malick encontra um fundo muito significativo na história real do austríaco Franz Jägerstätter, católico sensível que se recusou a servir no exército do Terceiro Reich, pagando com a própria vida pela objeção de consciência. Beatificado pelo papa Bento XVI em 2007, o seu martírio é contado por Malick no tom edificante da hagiografia.

a hidden life 3Todas as marcas estilísticas do cineasta contribuem para esse efeito: a fotografia em lente grande-angular que destaca a grandeza sublime dos espaços naturais (Jägerstätter era um pequeno agricultor dos Alpes), os movimentos fluidos de câmera que registram em tom memorialista o caráter idílico do cotidiano familiar (antes que a catástrofe se abata sobre todos), a voz em off que narra, descreve e comenta os acontecimentos (extraída de cartas trocadas entre o protagonista e sua esposa, estando este preso à espera de julgamento).

Ademais, é de extrema urgência que essa história seja relembrada em 2020, quando sofremos, uma vez mais, a ameaça de metástase da barbárie (ainda que esta receba, hoje, outros nomes e faça outras vítimas, para além da ascensão do neonazismo propriamente dito, no Brasil e no exterior). Quando muitos usam o nome do cristianismo para defender e praticar as piores ignomínias, é preciso recordar o episcopado austríaco, que, às vésperas da anexação, saudou o nacional-socialismo como libertador da “ameaça bolchevique”.

a hidden lifeO espantalho “vermelho” leva, ontem e hoje, muita gente pia a abraçar o próprio capeta, sem maiores crises de consciência. E é preciso recordar, sobretudo, a objeção de consciência do beato Franz Jägerstätter, ao assistir – compulsoriamente – a filmes de propaganda nazista (jamais esquecer o papel das mídias, especialmente as audiovisuais, na marcha da barbárie) e compreender que os “heróis” não são os invasores, saqueadores e genocidas (sob o discurso de estarem “defendendo” a própria pátria, raça, família).

Heróis são os outros, que de fato defendem suas terras, famílias, vidas, contra o “poder cego de todos os coletivos” (Adorno). A extrema inversão de valores que acusa o fanatismo totalitário é combustível dramático para as grandes histórias de martírio no cinema, desde A Paixão de Joana D’Arc (1928), de Carl Th. Dreyer, até este mais recente Malick. E, como toda grande obra de arte, alcançam verdadeira epifania quando revelam sentidos e grandeza para além de si mesmas, mesmo que jamais mudem “o curso da guerra”.

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