Jojo Rabbit

Educação e Emancipação

“A exigência que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação. De tal modo ela precede quaisquer outras que creio não ser possível nem necessário justificá-la. (…) Qualquer debate acerca de metas educacionais carece de significado e importância frente a essa meta: que Auschwitz não se repita. Ela foi a barbárie contra a qual se dirige toda a educação. Fala-se da ameaça de uma regressão à barbárie. Mas não se trata de uma ameaça, pois Auschwitz foi a regressão; a barbárie continuará existindo enquanto persistirem no que têm de fundamental as condições que geram esta regressão.” Theodor Adorno, Educação após Auschwitz

jojo rabbit 1A divisão maniqueísta entre os bons e os maus é muito tentadora, à esquerda ou à direita, não importa o ponto do espectro ideológico no qual se encaixe o “juiz”. Reparem que eu não estou falando, aqui, da luta entre o bem e o mal. Escolhi propositalmente os adjetivos bons e maus, porque definir os conceitos é mais simples (ainda que muito complicado, em si) do que categorizar as pessoas – ainda mais crianças – segundo esses mesmos conceitos, desprezando fatores históricos e sociais.

É um consenso bom e verdadeiro afirmar que o nazismo é o mal (não correrei o risco de dizer “foi”). Mas o perigo, como já foi apontado por muitos pensadores de prestígio (Adorno, Harendt), é colocarmos a barbárie nazi-fascista dentro daquela confortável caixinha rotulada como surtos sádicos de pessoas naturalmente maldosas ou incuravelmente psicóticas: “Hitler é um louco, quem o segue é louco também etc.”.

Não que esses fatores não possam entrar em jogo, mas o fato é que a barbárie aconteceu – do jeito e na extensão em que aconteceu – com a nefasta contribuição de motivadores histórico-sociais, para além dos psicanálitico-morais. Esses dados e essa dimensão de análise não podem, em absoluto, ser negligenciados, sob pena de corrermos sério risco de que tudo aconteça de novo – ainda que sob nomes e formas ligeiramente diferentes.

jojo rabbit 4Muitos desses elementos históricos e sociais são profundamente particulares, no sentido em que o nazismo e o holocausto não poderiam ter ocorrido em outro tempo ou outro lugar que não fossem a Alemanha da República de Weimar. Mas outros são de ordem mais abrangente (não correrei o risco de dizer “universal”) e poderiam sim se repetir em contextos diversos que compartilhem das mesmas condições favoráveis básicas.

E nunca é demais enfatizar a dimensão “pedagógica” da barbárie, da cultura que leva à barbárie, o “poder cego de todos os coletivos”, no dizer de Adorno. Hoje se fala bastante em uma necropolítica, mas é perfeitamente possível falarmos também, associada a esta, em uma necropedagogia. Todo ódio é ódio ensinado, torna-se ódio aprendido. E tudo o que é possível aprender, será igualmente possível desaprender.

Os determinismos fatalistas do final do século XIX já caíram por terra faz tempo (não sem antes ajudarem a conduzir o mundo à catástrofe). E é aqui que Jojo Rabbit (EUA / Nova Zelândia / República Tcheca, 2019, dir.: Taika Waititi) contribui de modo exemplar para uma atual e necessária reflexão não somente sobre a barbárie, mas principalmente sobre as condições que a geram e nutrem.

jojo rabbit 3O filme de Waititi pode ser muito duramente criticado sob diversos pontos de vista. É indiscutivelmente legítimo nos perguntarmos qual é o limite de tom com que possamos representar a barbárie – especialmente quando este se aproxima da sátira –, ou se não a devemos representar visualmente de forma alguma, pura e simplesmente – escolha feita por Shoah (1985, Claude Lanzmann).

Mas têm circulado, infelizmente, opiniões bastante rasas e defendidas com tosca virulência, resumidas na frase-feita de que “não existe nazista bonzinho”. É difícil imaginar uma nivelação mais pueril e estéril – descartadas as boas intenções – para um debate ainda urgente (veja-se o câncer do neonazismo crescendo novamente a olhos vistos, por todo o planeta, na sociedade civil, no meio político e nas instituições).

É claro que não existe nazista “bonzinho”. Mas acreditar que tenha sido essa a intenção discursiva de Taika Waititi é de uma obtusidade constrangedora, ainda mais quando demonstrada por supostos conhecedores de cinema. Repito: pode-se reclamar do tom, satírico ou edificante, desta quase parábola – apesar de a parte final do filme produzir algum eco de Alemanha, Ano Zero (1948, Roberto Rossellini).

jojo rabbit 6Mas o fato é que Jojo Rabbit promove uma desconstrução impiedosamente sarcástica da ideologia nazista, incinerando os seus menores elementos constitutivos, particularmente aqueles mais ligados à educação para a barbárie, representada no filme pelo “camping” de treinamento da juventude hitlerista. É ali que nos lembramos das verdades já apontadas pelo filósofo frankfurtiano Adorno, no ensaio “Educação após Auschwitz” – indispensável.

É nesta primeira parte corrosiva que o longa de Waititi demonstra a sua maior força política, antes que mude largamente de tom, passando a se orientar pelo drama na linha de O Menino do Pijama Listrado (2008, Mark Herman). E a própria figura imaginária do “führer”, interpretada por um caricato Waititi (que está longe de servir como exemplo de “raça ariana”), contribui enormemente para esse efeito.

A barbárie é um negócio muito sério. Mas o humor sempre foi uma das mais violentamente eficazes armas para se desmascarar e desmoralizar homúnculos com taras autoritárias: basta ver como eles, até hoje, não conseguem suportar serem alvo da menor piada que seja, em todos os lugares. Charles Chaplin foi, talvez, o primeiro a perceber isso, tomando de volta o bigodinho que Hitler lhe roubara (conforme o clássico insight de André Bazin).

jojo rabbit 2Em Jojo, “Adolf” se torna amigo imaginário do jovem protagonista e lhe dá vários “conselhos” do tipo que esperaríamos, muito logicamente, do autor de Mein Kampf. No entanto, o roteirista Taika Waititi não deixa de nos lembrar, muito consciensiosamente, que a figura se trata tão somente do produto da psique de uma criança vivendo em um ambiente de totalitarismo e de guerra.

Assim, é muito significativo para a economia discursiva do filme (a destruição satírica do ideário nacional-socialista) que “Adolf” ofereça para Jojo conselhos muito bonitos de transformação de fraqueza em força, de “covardia” em coragem e de auto-superação, quando o menino é violentamente excluído do seu grupo hitlerista por não conseguir corresponder ao fanatismo e sadismo cegos que se exigem do gado hitlerista.

Vocês acham, sinceramente, que o próprio Adolf cometeria essa terrível incoerência? Ainda mais depois do acidente que Jojo sofre (sabemos muito bem o que o regime fazia com pessoas portadoras de “deficiência” física). Desse modo, o fato de Waititi colocar na boca do próprio “führer” palavras que simbolizam a mais pura moral do escravo que Nietzsche abominava é uma das mais provocativas ridicularizações que se poderia fazer à barbárie. A de ontem e a de hoje.

Joias Brutas

uncut gems 2Um dos elementos definidores da tragédia ou da comédia clássicas é a absoluta inconsciência do protagonista a respeito do sentido completo (total, abrangente) das suas ações. Daí os seus “erros” e a irremediável insistência neles, o que provocará, no espectador, o sentimento propriamente trágico (a compaixão) ou cômico (o riso). O horizonte perceptivo / cognitivo desse tipo de (anti-)herói é sempre vergonhosamente (para nós) mais restrito do que o nosso, enquanto espectadores.

Assim, o sentido real (objetivo) das suas ações, do seu caráter (do “herói” e das suas decisões) e do seu mundo se encontra desbloqueado e acessível somente para o espectador – a partir de uma intencionalidade autoral evidente, explícita ou implícita, por parte do dramaturgo (ou roteirista / cineasta). Para tanto, é claro, precisamos manter algum distanciamento “crítico”: a identificação plena com o personagem e a adesão irrestrita às suas escolhas só fazem por desbaratar a dimensão trágica ou cômica.

A força de Joias Brutas (“Uncut Gems, EUA, 2019, dir.: Benny e Josh Safdie) e do próprio cinema dos irmãos Safdie, conforme igualmente demonstrada no seu longa anterior, Bom Comportamento (“Good Time”, 2017), vem justamente desses elementos estruturantes que dotam de sentido a dramaturgia mais clássica, para cuja expressão aqui concorre o melhor virtuosismo cinematográfico: uma tensão, na montagem e na trilha sonora, que deixa o espectador no limiar da síncope que imaginamos para o protagonista, a todo momento.

uncut gems 3Howard Ratner (Adam Sandler) é um personagem carismaticamente abominável: mais do que o seu verdadeiro caráter (asqueroso, sob quaisquer valores), é particularmente repugnante a imagem que ele faz de si próprio, pois não parece ser daquele típico malandro, cujo cinismo se faz de máscara para conquistar e influenciar; o negociante de joias parece realmente acreditar no sentido “elevado” de suas recorrentes trapalhadas e lamenta desesperadamente, como um Jó burlesco, os invariáveis efeitos negativos delas.

Os irmãos Safdie, logicamente, brincam muito com isso e tensionam ao máximo as possibilidades de identificação e adesão dos espectadores para com esse marmanjo infantiloide, manipulador, mentiroso, mesquinho aos extremos e impecavelmente autoindulgente. Sabemos o destino que esse lowlife merece; mesmo assim, torcemos por ele a cada passo, sempre esperando que seja o “último”, que ele não seja realmente “mau”, que apenas precise agir dessa maneira para conseguir o score final e voltar a ser o bom cidadão e pai de família.

Mas Howard Ratner é de caráter irremissivelmente vicioso. E não demonstra ter a menor consciência disso, em momento algum. Auto-consciência, auto-correção e redenção estão muito, mas muito além do alcance dele, e é daí que vem a sua dimensão, não trágica, mas cômica, no sentido das comédias satíricas greco-romanas, ou das farsas medievais. Mas esse é um sentido a ser dado pelo espectador que, repetimos, não se identificar totalmente com esse idiota (no sentido etimológico do termo).

uncut gems 1Com o distanciamento necessário, o espectador será capaz de dotar até mesmo de sentidos alegóricos a história de Ratner: Uncut Gems poderia ser um cautionary tale, ou uma versão judaica dos autos do teatro católico medieval (o perigo de se cair em adoração pelos “bezerros de ouro”). Em uma chave dramática, o cinema clássico já enveredou por esses caminhos em O Tesouro de Sierra Madre (EUA, 1948, John Huston). De qualquer maneira, a gema bruta do título não é apenas um mcguffin.

A abissal desproporção entre a imensidão da verdade moral (o sentido completo, apreensível apenas pelo espectador) do caráter de Howard e da sua história, e a percepção digamos umbilical que o mesmo protagonista tem de si e de todas as coisas ao redor é o que, no fundo, estrutura e tensiona todas as cenas, mais do que o próprio espectador percebe na superfície: as já referidas montagem e trilha sonora, que, na realidade, operam como reforço sensorial da tensão de ordem alegórica que compõe a alma do filme.

Sem nunca abrir mão do humor sutil, mas cruel e profundamente corrosivo, os irmãos Safdie deixam patente essa oposição já na abertura, que nos faz “viajar” (travelling) adentrando a pedra opal bruta, em sua miríade de cores psicodélicas que se transformam, em seguida, no próprio cosmo (jogando com a expressão popular, segundo a qual se pode ver o universo dentro de uma opal) para, finalmente, metamorfosear-se no canal retal de Howard, por onde a câmera sairá “de marcha ré”. A lição está dada, logo de cara (ou de bunda).