Ad Astra

Ex-nihilo

(Contém spoilers.)

ad astra 1As pretensões intelectuais do cinema de gênero de Hollywood têm alcance rigidamente delimitado, via de regra. Como uma criança cujos pais permitem que brinque e corra na rua somente até a esquina, sem jamais transpô-la. Os desvios de conduta, expressos sob perspectiva crítica, devem ficar sempre circunscritos a ações de indivíduos “corruptos”, nunca chegando a contaminar as instituições. Muito menos as ideologias que as sustentam.

São pouquíssimos os filmes que tentam (e conseguem) escapar a essa lei não-escrita. Um deles é o Apocalipse Now (1979), de Francis Ford Coppola, que foi lembrado aqui e ali, pela crítica, a respeito deste Ad Astra (2019), o mais recente biscoito fino de James Gray. Todavia, o vácuo entre as duas produções não poderia ser maior. “Às Estrelas”, no conjunto, é uma narrativa pouco convincente, ao contrário do que prega o hype. Expliquemos.

O protagonista, Roy McBride (Brad Pitt), desenvolve-se mais como uma função narrativa teleologicamente orientada para a defesa de uma tese do que como (uma representação verossímil de) um ser humano orgânico com o qual nós possamos nos identificar. O seu ethos robotizado está além da motivação proposta – o trauma provocado pelo desaparecimento do pai, H. Clifford McBride (Tommy Lee Jones), trinta anos antes.

ad astra 2Exemplo: o diagnóstico psicanalítico que ele faz de si mesmo, nas sessões avaliativas realizadas perante uma câmera (tão somente), é constrangedoramente inverossímil. Ninguém faz para si mesmo, ex-nihilo e com tanta naturalidade, autonomia e boa vontade, um diagnóstico tão preciso e detalhado. Soa muito falso e cria o incômodo efeito de que não é o personagem quem fala, mas o roteiro – sempre no rumo de sua conclusão.

As questões temáticas trabalhadas são de altíssimo nível, é claro. Mas a mera enunciação delas não garante a representatividade que lhes seria apropriada. O personagem não logra ser mais do que uma casca, muito bem decorada na superfície, mas vazia por dentro. Não basta comunicar um conteúdo, mas representá-lo em sua própria natureza interna e externa. Eis o desafio, que grandes cineastas conseguem cumprir magistralmente.

Outros ficam na intenção. É o mesmo limite que faz a força (intentada) e a fraqueza (realizada) de outra ficção científica “cabeça” de grande hype contemporâneo: Interestelar (2014), do Christopher Nolan. Enfim, a figura de Brad Pitt no filme de Gray possui tanta vitalidade quanto os personagens digitalmente renderizados dos jogos de video-game, com seus olhos de peixe morto em alta resolução gráfica.

ad astra 3O segundo grande problema de Ad Astra também está relacionado com a pouca consistência humana do seu protagonista, entendendo-se esta em uma outra chave e retomando, aqui, a analogia já feita com Apocalipse Now. No anti-épico de Coppola, o militar “padrão” (com histórico invejável de eficiência) questiona a natureza da sua missão e os pressupostos ideológicos por trás desta, conforme vai mergulhando no “coração das trevas”.

No final, o capitão Willard acaba cumprindo as ordens dos seus superiores, mas os sentidos e os motivos mais profundos com que o protagonista executa a ação escolhida transbordam para muito, muito além do chavão da “missão dada é missão cumprida”. Essa riqueza nós não vemos, de maneira alguma, no pretenso ensaio cósmico de James Gray. O personagem de Pitt adere, sem a menor sombra de hesitação, à missão, à agência, aos superiores.

A única individualidade auto-preservada aqui é a do seu pai, não por acaso rebelado. Mas o bom soldadinho vai fazer exatamente o que lhe mandam, com prejuízo evidente (a quem quiser ver) de si mesmo, do progenitor e do que resta – ou poderia ser resgatado – de relação entre os dois. Alguém poderia arguir que o filme adota uma postura irônica, para não cairmos no mesmo erro crítico que se cometeu contra o Tropas Estelares (1997) de Verhoeven.

ad astra 4Mas, se foi essa a intenção, ficou por aí mesmo. Um bom pitch pode convencer produtores, investidores e executivos de estúdio. Mas não o espectador. Nós não queremos pitch lacrador, queremos filme. Verdade seja dita que Ad Astra não parece aderir, por outro lado, tão entusiasticamente ao seu protagonista: James Gray não é um Spielberg, ainda que pareça querer ser, às vezes, um Herzog – veja-se Z, A Cidade Perdida (2016).

O discurso fílmico aqui mantem certa frieza, certo distanciamento. Uma outra possibilidade interpretativa é que a adesão de Roy McBride às ordens seja meramente mecânica, advinda de uma postura niilista provocada pelo longo trauma da missão mal-sucedida do pai; e que o filme adquira a partir disso o seu meio-tom, igualmente negativista. Pode ser. Deixo abertas as possibilidades, ainda mais considerando as paixões que Ad Astra vem despertando.

Mas, mesmo assim, tendo em vista a ascensão – mais uma vez – de uma cultura militarista e autoritária no mundo contemporâneo, não nos parece de bom tom o tratamento dado a essas questões no filme. Parece leviano. Parece isento. Na melhor das hipóteses, é uma emulação diluída do clássico de Coppola (este sim, um dos filmes mais profundamente niilistas de toda a história do cinema).

ad astra 5Algumas (poucas) vozes levantaram que Ad Astra, por baixo da sua capa filosófica, esconde nada mais que um drama banal de grupos sociais historicamente privilegiados: homens heterossexuais, cis, brancos. Para além da acuidade dessa crítica, o fato é que o tratamento dado às poucas personagens afrodescendentes não contribui em coisa alguma para evitar que surjam tais declarações / provocações.

A maioria dos (raros) negros e negras que aparecem no filme morrem depois de pouco tempo de tela, em obediência àquela velha máxima da ficção científica e do horror: é preciso mostrar que a situação é grave. Isso corresponde, infelizmente, a um clichê histórico em Hollywood, que a consciência e a sensibilidade de nossos tempos não aceitam mais de bom grado. Um deslize fácil de ver e simples de evitar.

Enfim, há dois momentos em que James Gray demonstra saber fazer um grande cinema. Infelizmente, não salvam o filme todo, mas são duas cenas a serem recortadas e apreciadas pela arte sublime que, de fato, representam. Na primeira, McBride filho está repassando os registros deixados por McBride pai. Então, começam a se suceder (como slides) fotografias próximas da superfície de diferentes planetas, ocupando todo o quadro.

É quase indescritível a beleza atraente e aterrorizadora dessas imagens. Penso no horror cósmico de H. P. Lovecraft. Em off, ouvimos a voz de Brad Pitt comentando as fotos, o que lembra filmes-ensaios de Chris Marker. O que ele afirma é de cunho desesperadoramente niilista, na constatação da gigante assimetria entre a fé do pai em encontrar qualquer sinal de vida extra-terrestre e a implacável realidade dos registros, irremediavelmente frustrante.

A segunda cena nos mostra, em plano geral e à grande distância, a luta física entre os McBride, em pleno vácuo do cosmo, como dois minúsculos e insignificantes pontos antropomórficos perdidos na vastidão, dirimindo qualquer eco de antropocentrismo que ainda tente se espalhar. Tematicamente, não deixa de ser nenhum lugar-comum, mas um único plano, com tal enquadramento, ainda é belo e significativo.

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