Atlantique

Uma balada contemporânea

(texto com spoilers)

Atlantics: A Ghost Love StoryA silhueta monolítica do arranha-céu sendo erguido, quebrando com violência a horizontalidade da faixa litorânea, apenas parcamente destacado na luz difusa das primeiras horas de uma manhã ensolarada, é a imagem-símbolo, imagem-totem aos pés da qual se organizarão as relações sociais de exploração e revolta que dão força a Atlantique (Senegal / França / Bélgica, 2019), co-produção da Netflix e longa de estreia da cineasta Mati Diop.

Ainda nas primeiras cenas, vemos o edifício como pano de fundo para as reivindicações dos operários, que estão há meses com o salário atrasado. Acabam deixando o canteiro de obras sem uma resolução. Um desses trabalhadores é o jovem Souleiman (Ibrahima Traoré), que, sem outras esperanças, se juntará a alguns colegas e emigrará ilegalmente rumo à Espanha, em um pequeno (e precário) bote – história comum e trágica.

atlantique 2Todos morrerão, engolidos pelas ondas, para a tristeza principalmente de Ada (a ótima Mame Bineta Sané), namorada secreta de Souleiman, que estava, não obstante, prometida para um playboy da cidade, com quem logo se casará – na tradição patriarcal e violenta dos matrimônios arranjados pelas famílias. Mas a virgem não permanecerá em luto por muito tempo, pois os espíritos de Souleiman e dos seus amigos retornarão.

Primeiramente, aquele possuirá o corpo de um jovem investigador de polícia, ateando fogo à cama do novo casal, durante a festa em que é selada a aliança. Posteriormente, o próprio policial será encarregado de investigar o caso (e descobrir a incômoda verdade). Depois, os jovens trabalhadores mortos possuirão os corpos de um grupo de garotas de programa, amigas de Ada (ela frequentava em segredo, junto de Souleiman, o bar onde trabalham).

atlantique 4Marchando unidas, com as pupilas apagadas (lembrando os zumbis na tradição do vodu haitiano), as figuras fantasmáticas das mulheres irão cobrar – sem muita sutileza ou gentileza – os salários atrasados junto ao escroque que é dono do hotel babélico que está sendo construído. E cobrarão também que o capitalista cave, com as próprias mãos, os igualmente devidos túmulos de todos. Na pele do detetive, Souleiman também tentará contato com Ada.

Planos gerais do oceano funcionam como estribilho visual e moldura plástica (tal qual o arranha-céu) ao longo do filme, sempre destacando a imensidão sublime das águas, revelada na referência verbal à “montanha” (onda) que deu cabo das vidas dos jovens imigrantes, na narração feita por Ada. Essa potência significativa do mar, em uma história de (processamento de) luto, pode remeter ao Solaris (1972), de Tarkovski.

atlantique 1Mas pode se conectar também com histórias populares de tragédias de pescadores: ouça-se o belo e triste clássico O Mar, canção de Dorival Caymmi. Atlantique demonstra pertencer à mesma “família sobrenatural” (no dizer do poeta Murilo Mendes) ao realizar-se em um modo poético-contemplativo com uma atmosfera que procura embalar o espectador na melancolia do luto, das injustiças (de classe e de gênero) e do quebrar das ondas na praia.

A trilha sonora, antológica, contribui muito para esse efeito, além da bela paleta – amena – de cores, do uso extensivo da contraluz (mas sem o flare carregado de um Malick) e de uma iluminação difusa, que suaviza todas as superfícies, mas sem achatá-las. É um filme bonito e sensível. E combativo. Venceu o Grande Prêmio do Júri de Cannes este ano; junto de Parasita (Palma de Ouro) e de Bacurau (Prêmio do Júri), forma uma tríade bem interessante de resistência à marcha da barbárie que vem atropelando o mundo neste quase acabado 2019.

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