Melhores filmes de 2019

Não foi uma escolha fácil (na verdade, nunca é): tivemos muitas produções de intenso fôlego artístico neste ano, principalmente no cinema nacional, que viu em 2019 um dos melhores anos da sua história (esperamos que não seja o último). Os grandes filmes brasileiros, hoje, não ficam devendo coisa alguma aos grandes filmes estrangeiros.

Uma brevíssima explicação metodológica: incluí apenas filmes lançados oficialmente por aqui, ou que ainda não têm data prevista de estreia em Pindorama: não vou mais deixar passar experiências fundamentais como A Ghost Story (2017), ou Sorry To Bother You (2018), longamente ignorados pela mão “invisível” do mercado distribuidor neste país.

Segue:

  1. The Souvenir (EUA / Reino Unido, 2019, dir.: Joanna Hogg)

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Profundamente intimista, lírico. A câmera assume o olhar da protagonista com intensidade raramente vista, cuja história (trágica) de (primeiro) amor se desenvolve em um crescendo repleto de elipses sutis, cujos significados o próprio espectador deverá construir ao viver junto com os personagens uma tragédia anunciada.

  1. A Vida Invisível (Brasil / Alemanha, 2019, dir.: Karim Aïnouz)

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Escrevi sobre ele aqui.

  1. Atlantique (França / Senegal / Bélgica, 2019, dir.: Mati Diop)

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Escrevi sobre ele aqui.

  1. For Sama (Reino Unido / Síria, 2019, dir.: Waad al-Kateab, Edward Watts)

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Filme mais perturbador deste ano, porque é a própria realidade documentada, escancarada, explícita. A barbárie e o horror mais abjetos: crianças mortas, crianças trucidadas. Por isso mesmo, é uma necessária lição de humanidade, de sensibilidade, de luta e de resistência, contra todo o racismo, a xenofobia e a intolerância religiosa dominantes em 2019.

  1. Bacurau (Brasil / França, 2019, dir.: Kleber Mendonça Filho, Juliano Dornelles)

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Escrevi sobre ele aqui.

  1. Honeyland (Macedônia, 2019, dir.: Tamara Kotevska, Ljubomir Stefanov)

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Documentário e ficção umbilicalmente ligados e alimentados, com grande lirismo e poesia (as analogias visuais, algumas evidentes, outras sutis) pela grande mãe nutridora do Cinema: a realidade. Uma aula de fotogenia e do poder encantatório do cinematógrafo como registro da vida, em si mesma.

  1. Divino Amor (Brasil / Uruguai / Dinamarca / Noruega / Chile / Suécia, 2019, dir.: Gabriel Mascaro)

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A ficção especulativo-distópica que merecemos, neste Brasil de 2019 dominado pelas milícias evangelo-fascistas, narrada pelas mãos de um dos maiores cineastas-poetas da atualidade: Gabriel Mascaro (Boi Neon, 2015; Ventos de Agosto, 2014). O grande hype ignorou solenemente, mas é um dos melhores filmes brasileiros desta safra de ouro.

  1. Monos (Colômbia / Argentina / Países Baixos / Alemanha / Suécia / Uruguai / EUA / Suíça / Dinamarca, 2019, dir.: Alejandro Landes)

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Um poema visual em que a amplidão das paisagens dos Andes à Floresta Amazônica contrasta com a angústia e o horror dos corações trevosos dos senhores das moscas. São crianças que fazem coisas horríveis, mas são crianças não obstante. Esse difícil contraste foi magistralmente conduzido por esta pérola de Alejandro Landes.

  1. Se A Rua Beale Falasse (If Beale Street Could Talk) (EUA, 2018, dir.: Barry Jenkins)

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Escrevi sobre ele aqui.

  1. The Last Black Man in San Francisco (EUA, 2019, dir.: Joe Talbot)

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Este filme-poema profundamente lírico serve de lição a todos os hipócritas (ou maliciosos mesmo) que relincham em defesa da “propriedade privada”. Se esses safados fossem minimamente honestos, gritariam contra o crime da gentrificação tanto quanto urram contra as supostas ameaças “comunistas”.

  1. Temporada (Brasil, 2018, dir.: André Novais Oliveira)

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Um olhar sensível, empático e de modo algum condescendente (coisa raríssima) direcionado às classes proletárias brasileiras. André Novais Oliveira não cai no perigo da História Única, dos determinismos viciados dos filmes de tese supostamente sociológica, verdadeira praga secular do nosso cinema e da nossa literatura.

  1. Longa Jornada Noite Adentro (Long Day’s Journey Into Night) (China / França, 2018, dir.: Bi Gan)

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Um caldo de influências: David Lynch, Apichatpong Weerasethakul, Orson Welles, Wong Kar-Wai, trabalhadas com equilíbrio e sabedoria, sem desatentar da autoria experimental (particularmente, o uso do 3D). Um dos melhores exemplos, este ano, de uma das grandes vocações (se não a maior) do Cinema: a experiência sensorial.

  1. Ash is Purest White (China / França / Japão, 2018, dir.: Zhangke Jia)

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Um filme bonito, no que diz respeito às grandes verdades humanas: o amor. Um filme cruel, no que diz respeito às grandes verdades desumanas: o desprezo, a ingratidão, a toxicidade de gênero). Um filme de protagonista feminina forte. Precisamos de mais, de muitos mais filmes assim. Ainda é pouco.

  1. Nós (Us) (EUA / China, 2019, dir.: Jordan Peele)

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Jordan Peele, mais uma vez, manejando e remodelando magistralmente os códigos do gênero do horror para trazer à superfície – esbofeteando o espectador – o que os donos do poder se esforçam tanto em esconder: o racismo e as desigualdades sociais (a invisibilidade e o ódio de classe puro e simples).

  1. High Life (Reino Unido / França / Alemanha / Polônia, 2018, dir.: Claire Denis)

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Escrevi sobre ele aqui.

  1. Greta (Brasil, 2019, dir.: Armando Praça)

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Escrevi sobre ele aqui.

  1. The Farewell (EUA / China, 2019, dir.: Lulu Wang)

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Para além da emoção e sensibilidade com que é conduzida a narrativa, o paradoxo da epígrafe: “Based on an actual lie” (baseado em uma mentira real, em livre tradução) instaura um inescapável questionamento dos acontecimentos representados da primeira à última cena (na verdade, depois desta, em uma breve inserção não-diegética durante os créditos finais), forçando o espectador a questionar a pertinência de suas reações emocionais de uma maneira mais sistemática e aprofundada do que faz Parasita (Bong Joon-ho). Particularmente, tais reações se referem à escolha bem difícil entre manter uma esperança sem muitas possibilidades de concretização, ou conformar-se de vez à realidade cruel dos fatos.

  1. Estou Me Guardando Para Quando O Carnaval Chegar (Brasil, 2019, dir.: Marcelo Gomes)

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Escrevi sobre ele aqui.

  1. Varda by Agnès (França, 2019, dir.: Agnès Varda)

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Uma aula de cinema por uma das maiores cineastas (independentemente de gênero) de todos os tempos, que nos deixou recentemente. Toda a rara sensibilidade, humanidade, inspiração poética e, sobretudo, curiosidade de uma das inventoras do filme-ensaio, gênero cinematográfico que vem despertando bastante atenção teórica hoje em dia.

  1. Parasita (Parasite) (Coreia do Sul, 2019, dir.: Joon-ho Bong)

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Escrevi sobre ele aqui.

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Menções honrosas (sem ranqueamento):

Pássaros de Verão (Pájaros de Verano: Colômbia / Dinamarca / México / Alemanha / Suíça / França, 2018, dir.: Cristina Gallego, Ciro Guerra); Sinônimos (Synonymes: França / Israel / Alemanha, 2019, dir.: Nadav Lapid); Em Trânsito (Transit: Alemanha / França, 2018, dir.: Christian Petzold); As Golpistas (Hustlers: EUA, 2019, dir.: Lorene Scafaria); The Nightingale (EUA / Austrália / Canadá, 2018, dir.: Jennifer Kent); Fora de Série (Booksmart: EUA, 2019, dir.: Olivia Wilde); Luce (EUA, 2019, dir.: Julius Onah); O Irlandês (The Irishman: EUA, 2019, dir.: Martin Scorsese); Um Lindo Dia na Vizinhança (A Beautiful Day in The Neighborhood: China / EUA, 2019, dir.: Marielle Heller); Poderia Me Perdoar? (Can You Ever Forgive Me?: EUA, 2018, dir.: Marielle Heller); Assunto de Família (Shoplifters: Japão, 2018, dir.: Hirozaku Koreeda); Sócrates (Brasil, 2018, dir.: Alexandre Moratto); Peterloo (Reino Unido, 2018, dir.: Mike Leigh); História de Um Casamento (Marriage Story: Reino Unido / EUA, 2019, dir.: Noah Baumbach); Dragged Across Concrete (EUA / Canadá, 2018, dir.: S. Craig Zahler).

Isso aí, galera! Ano que vem tem mais!

A Vida Invisível

Invisibilidade ofuscante

(Texto sem spoilers)

a vida invisivel 1Dizer que A Vida Invisível é um filme de disjunções, de desencontros, de pólos irremediavelmente opostos seria uma banalidade. O que realmente tensiona esta grande realização de Karim Aïnouz e provoca um efeito muito inquietante que se dilata na subjetividade do espectador por longo tempo depois poderia somente ser definido – talvez – no formato de oxímoros: uma proximidade distante, um distanciamento próximo.

A angústia provocada por tais vínculos paradoxais tem o seu epicentro localizado num advérbio: quase, estabelecendo uma relação de intensidade que tensiona os elos de espaço e tempo colocados pelo roteiro e pela mise en scène (o plano-sequência do restaurante é Cinema de primeira grandeza como raramente se vê e merece ser dissecado em todas as escolas de audiovisual).

a vida invisivel 2As produções de arte mais conscientes costumam apresentar múltiplas camadas de significação, que ressoam umas nas outras, amplificando-se mutuamente em uma polifonia que almeja alcançar os recônditos mais entranhados da intimidade do receptor (leitor, espectador, ouvinte), caracterizando o melhor da experiência artística. N’A Vida Invisível (de Eurídice Gusmão – segundo o título original) não será diferente.

A dialética do quase amarra aqui dois termos: o psicológico / intimista (na grande tradição literária moderna de Virgínia Woolf, Clarice Lispector, Helena Morley) e o social / crítico (as narrativas neorrealistas de classe e, mais contemporaneamente, as histórias identitárias de gênero, etnia, nacionalidade etc.). As vidas das irmãs Eurídice e de Guida, se nos revelam algo, é o quanto é difícil pertencer ao gênero feminino neste mundo. Ser mulher.

a vida invisivel 3E o que é particularmente cruel neste filme de Aïnouz (penso, aqui, na linha do cinema da crueldade de Bazin), a partir da construção narrativa e da experiência do espectador, não é tanto que as mulheres estejam absolutamente apartadas de qualquer posição social em que possam existir com liberdade e autonomia (fato histórico-social abjeto, mas banal – com todo o risco, advindo daí, de baixarmos a guarda de nossa empatia e indignação).

O que se expressa com contundência quase sádica são as histórias e vivências particulares dessas duas mulheres que chegam quase a tocar – ou mesmo tocar brevemente – seu próprio ser e existência devidamente autoapropriados, apenas para serem arrancadas de si (e uma da outra) e puxadas de volta à obliteração patriarcal com uma violência e urgência que são as marcas vergonhosas da nossa desumanidade. Sim, nós, homens.

a vida invisivel 5Ainda dentro dessa lógica do quase, que estrutura o filme desde o começo (a cena de introdução: Eurídice e Guida que quase se perdem uma da outra na Floresta da Tijuca), o reconhecimento (anagnórise aristotélica) que se opera no final da história é a chave de ouro trágica que define o conjunto e assenta as camadas sedimentares de sentido. Não sem deixar fortíssimas ressonâncias emocionais a serem processadas pelo público.

Dizer que A Vida Invisível move-se pelas fórmulas consagradas do melodrama familiar e histórico de extrato hollywoodiano – e que, por isso mesmo, vem recebendo premiações internacionais e é alvo de campanha pelo Oscar – seria outra banalidade. A transparência de sua mise en scène apenas reforça o princípio constitutivo paradoxal do tão longe, tão perto, principalmente no que se refere à edição.

a vida invisivel 4Executando a forma mais clássica da montagem invisível, Karim Aïnouz cria o potente e aflitivo efeito de engendrar pontes retesadas entre planos e sequências abismais: veja-se o corte seco que secciona e conecta, tão repentinamente, o segundo e o terceiro ato do filme. Graças a tais dinâmicas entre o quase, a invisibilidade e o desaparecimento (fala de Dircinha no segundo ato), o Cinema – e as mulheres – se revelam com toda a força em A Vida Invisível.

Ad Astra

Ex-nihilo

(Contém spoilers.)

ad astra 1As pretensões intelectuais do cinema de gênero de Hollywood têm alcance rigidamente delimitado, via de regra. Como uma criança cujos pais permitem que brinque e corra na rua somente até a esquina, sem jamais transpô-la. Os desvios de conduta, expressos sob perspectiva crítica, devem ficar sempre circunscritos a ações de indivíduos “corruptos”, nunca chegando a contaminar as instituições. Muito menos as ideologias que as sustentam.

São pouquíssimos os filmes que tentam (e conseguem) escapar a essa lei não-escrita. Um deles é o Apocalipse Now (1979), de Francis Ford Coppola, que foi lembrado aqui e ali, pela crítica, a respeito deste Ad Astra (2019), o mais recente biscoito fino de James Gray. Todavia, o vácuo entre as duas produções não poderia ser maior. “Às Estrelas”, no conjunto, é uma narrativa pouco convincente, ao contrário do que prega o hype. Expliquemos.

O protagonista, Roy McBride (Brad Pitt), desenvolve-se mais como uma função narrativa teleologicamente orientada para a defesa de uma tese do que como (uma representação verossímil de) um ser humano orgânico com o qual nós possamos nos identificar. O seu ethos robotizado está além da motivação proposta – o trauma provocado pelo desaparecimento do pai, H. Clifford McBride (Tommy Lee Jones), trinta anos antes.

ad astra 2Exemplo: o diagnóstico psicanalítico que ele faz de si mesmo, nas sessões avaliativas realizadas perante uma câmera (tão somente), é constrangedoramente inverossímil. Ninguém faz para si mesmo, ex-nihilo e com tanta naturalidade, autonomia e boa vontade, um diagnóstico tão preciso e detalhado. Soa muito falso e cria o incômodo efeito de que não é o personagem quem fala, mas o roteiro – sempre no rumo de sua conclusão.

As questões temáticas trabalhadas são de altíssimo nível, é claro. Mas a mera enunciação delas não garante a representatividade que lhes seria apropriada. O personagem não logra ser mais do que uma casca, muito bem decorada na superfície, mas vazia por dentro. Não basta comunicar um conteúdo, mas representá-lo em sua própria natureza interna e externa. Eis o desafio, que grandes cineastas conseguem cumprir magistralmente.

Outros ficam na intenção. É o mesmo limite que faz a força (intentada) e a fraqueza (realizada) de outra ficção científica “cabeça” de grande hype contemporâneo: Interestelar (2014), do Christopher Nolan. Enfim, a figura de Brad Pitt no filme de Gray possui tanta vitalidade quanto os personagens digitalmente renderizados dos jogos de video-game, com seus olhos de peixe morto em alta resolução gráfica.

ad astra 3O segundo grande problema de Ad Astra também está relacionado com a pouca consistência humana do seu protagonista, entendendo-se esta em uma outra chave e retomando, aqui, a analogia já feita com Apocalipse Now. No anti-épico de Coppola, o militar “padrão” (com histórico invejável de eficiência) questiona a natureza da sua missão e os pressupostos ideológicos por trás desta, conforme vai mergulhando no “coração das trevas”.

No final, o capitão Willard acaba cumprindo as ordens dos seus superiores, mas os sentidos e os motivos mais profundos com que o protagonista executa a ação escolhida transbordam para muito, muito além do chavão da “missão dada é missão cumprida”. Essa riqueza nós não vemos, de maneira alguma, no pretenso ensaio cósmico de James Gray. O personagem de Pitt adere, sem a menor sombra de hesitação, à missão, à agência, aos superiores.

A única individualidade auto-preservada aqui é a do seu pai, não por acaso rebelado. Mas o bom soldadinho vai fazer exatamente o que lhe mandam, com prejuízo evidente (a quem quiser ver) de si mesmo, do progenitor e do que resta – ou poderia ser resgatado – de relação entre os dois. Alguém poderia arguir que o filme adota uma postura irônica, para não cairmos no mesmo erro crítico que se cometeu contra o Tropas Estelares (1997) de Verhoeven.

ad astra 4Mas, se foi essa a intenção, ficou por aí mesmo. Um bom pitch pode convencer produtores, investidores e executivos de estúdio. Mas não o espectador. Nós não queremos pitch lacrador, queremos filme. Verdade seja dita que Ad Astra não parece aderir, por outro lado, tão entusiasticamente ao seu protagonista: James Gray não é um Spielberg, ainda que pareça querer ser, às vezes, um Herzog – veja-se Z, A Cidade Perdida (2016).

O discurso fílmico aqui mantem certa frieza, certo distanciamento. Uma outra possibilidade interpretativa é que a adesão de Roy McBride às ordens seja meramente mecânica, advinda de uma postura niilista provocada pelo longo trauma da missão mal-sucedida do pai; e que o filme adquira a partir disso o seu meio-tom, igualmente negativista. Pode ser. Deixo abertas as possibilidades, ainda mais considerando as paixões que Ad Astra vem despertando.

Mas, mesmo assim, tendo em vista a ascensão – mais uma vez – de uma cultura militarista e autoritária no mundo contemporâneo, não nos parece de bom tom o tratamento dado a essas questões no filme. Parece leviano. Parece isento. Na melhor das hipóteses, é uma emulação diluída do clássico de Coppola (este sim, um dos filmes mais profundamente niilistas de toda a história do cinema).

ad astra 5Algumas (poucas) vozes levantaram que Ad Astra, por baixo da sua capa filosófica, esconde nada mais que um drama banal de grupos sociais historicamente privilegiados: homens heterossexuais, cis, brancos. Para além da acuidade dessa crítica, o fato é que o tratamento dado às poucas personagens afrodescendentes não contribui em coisa alguma para evitar que surjam tais declarações / provocações.

A maioria dos (raros) negros e negras que aparecem no filme morrem depois de pouco tempo de tela, em obediência àquela velha máxima da ficção científica e do horror: é preciso mostrar que a situação é grave. Isso corresponde, infelizmente, a um clichê histórico em Hollywood, que a consciência e a sensibilidade de nossos tempos não aceitam mais de bom grado. Um deslize fácil de ver e simples de evitar.

Enfim, há dois momentos em que James Gray demonstra saber fazer um grande cinema. Infelizmente, não salvam o filme todo, mas são duas cenas a serem recortadas e apreciadas pela arte sublime que, de fato, representam. Na primeira, McBride filho está repassando os registros deixados por McBride pai. Então, começam a se suceder (como slides) fotografias próximas da superfície de diferentes planetas, ocupando todo o quadro.

É quase indescritível a beleza atraente e aterrorizadora dessas imagens. Penso no horror cósmico de H. P. Lovecraft. Em off, ouvimos a voz de Brad Pitt comentando as fotos, o que lembra filmes-ensaios de Chris Marker. O que ele afirma é de cunho desesperadoramente niilista, na constatação da gigante assimetria entre a fé do pai em encontrar qualquer sinal de vida extra-terrestre e a implacável realidade dos registros, irremediavelmente frustrante.

A segunda cena nos mostra, em plano geral e à grande distância, a luta física entre os McBride, em pleno vácuo do cosmo, como dois minúsculos e insignificantes pontos antropomórficos perdidos na vastidão, dirimindo qualquer eco de antropocentrismo que ainda tente se espalhar. Tematicamente, não deixa de ser nenhum lugar-comum, mas um único plano, com tal enquadramento, ainda é belo e significativo.

Atlantique

Uma balada contemporânea

(texto com spoilers)

Atlantics: A Ghost Love StoryA silhueta monolítica do arranha-céu sendo erguido, quebrando com violência a horizontalidade da faixa litorânea, apenas parcamente destacado na luz difusa das primeiras horas de uma manhã ensolarada, é a imagem-símbolo, imagem-totem aos pés da qual se organizarão as relações sociais de exploração e revolta que dão força a Atlantique (Senegal / França / Bélgica, 2019), co-produção da Netflix e longa de estreia da cineasta Mati Diop.

Ainda nas primeiras cenas, vemos o edifício como pano de fundo para as reivindicações dos operários, que estão há meses com o salário atrasado. Acabam deixando o canteiro de obras sem uma resolução. Um desses trabalhadores é o jovem Souleiman (Ibrahima Traoré), que, sem outras esperanças, se juntará a alguns colegas e emigrará ilegalmente rumo à Espanha, em um pequeno (e precário) bote – história comum e trágica.

atlantique 2Todos morrerão, engolidos pelas ondas, para a tristeza principalmente de Ada (a ótima Mame Bineta Sané), namorada secreta de Souleiman, que estava, não obstante, prometida para um playboy da cidade, com quem logo se casará – na tradição patriarcal e violenta dos matrimônios arranjados pelas famílias. Mas a virgem não permanecerá em luto por muito tempo, pois os espíritos de Souleiman e dos seus amigos retornarão.

Primeiramente, aquele possuirá o corpo de um jovem investigador de polícia, ateando fogo à cama do novo casal, durante a festa em que é selada a aliança. Posteriormente, o próprio policial será encarregado de investigar o caso (e descobrir a incômoda verdade). Depois, os jovens trabalhadores mortos possuirão os corpos de um grupo de garotas de programa, amigas de Ada (ela frequentava em segredo, junto de Souleiman, o bar onde trabalham).

atlantique 4Marchando unidas, com as pupilas apagadas (lembrando os zumbis na tradição do vodu haitiano), as figuras fantasmáticas das mulheres irão cobrar – sem muita sutileza ou gentileza – os salários atrasados junto ao escroque que é dono do hotel babélico que está sendo construído. E cobrarão também que o capitalista cave, com as próprias mãos, os igualmente devidos túmulos de todos. Na pele do detetive, Souleiman também tentará contato com Ada.

Planos gerais do oceano funcionam como estribilho visual e moldura plástica (tal qual o arranha-céu) ao longo do filme, sempre destacando a imensidão sublime das águas, revelada na referência verbal à “montanha” (onda) que deu cabo das vidas dos jovens imigrantes, na narração feita por Ada. Essa potência significativa do mar, em uma história de (processamento de) luto, pode remeter ao Solaris (1972), de Tarkovski.

atlantique 1Mas pode se conectar também com histórias populares de tragédias de pescadores: ouça-se o belo e triste clássico O Mar, canção de Dorival Caymmi. Atlantique demonstra pertencer à mesma “família sobrenatural” (no dizer do poeta Murilo Mendes) ao realizar-se em um modo poético-contemplativo com uma atmosfera que procura embalar o espectador na melancolia do luto, das injustiças (de classe e de gênero) e do quebrar das ondas na praia.

A trilha sonora, antológica, contribui muito para esse efeito, além da bela paleta – amena – de cores, do uso extensivo da contraluz (mas sem o flare carregado de um Malick) e de uma iluminação difusa, que suaviza todas as superfícies, mas sem achatá-las. É um filme bonito e sensível. E combativo. Venceu o Grande Prêmio do Júri de Cannes este ano; junto de Parasita (Palma de Ouro) e de Bacurau (Prêmio do Júri), forma uma tríade bem interessante de resistência à marcha da barbárie que vem atropelando o mundo neste quase acabado 2019.