Os Sobreviventes

os sobreviventes 2Os Sobreviventes (“Los Sobrevivientes”, Cuba, 1979) mobiliza o realismo de Jean Renoir (A Regra do Jogo, 1939) e o surrealismo de Luis Buñuel (O Anjo Exterminador, 1962) para atacar impiedosamente o ridículo e o absurdo do reacionarismo burguês. Não há elementos propriamente fantásticos neste oitavo longa-metragem ficcional de Tomás Gutiérrez Alea, nome maior do cinema cubano, mas a atmosfera que vai se compondo ao longo da exibição atinge paroxismos de estranhamento que são a alma do surreal buñueliano.

Vemos, aqui, um retorno do cineasta ao modo da sua peculiar comédia de humor macabro, que foi apresentada originalmente em A Morte de Um Burocrata (1966), e é executada pelo diretor com a diligência com que se demonstra uma teoria: por sinal, Alea também se expressa como pensador do cinema no livro Dialética do Espectador (1983), defendendo o despertar de consciências e a produção de engajamentos, a partir de recursos que provoquem incômodo no espectador e levem-no a mudar de postura perante a realidade social.

os sobreviventes 3A história é a de uma família quatrocentona de grandes posses, comandada pelo patriarca Sebastián Orozco, que se recusa a aceitar a revolução de 1959 e decide se encastelar em sua propriedade rural, junto dos criados e agregados, estocando alimentos e esperando o “vendaval” passar – de preferência, com ajuda estadunidense. Os anos vão passando, as velhas gerações vão morrendo, as novas vão nascendo, e os Orozco vão se grudando às paredes e móveis do velho casarão como mofo preto, compartilhando da mesma decrepitude.

Pelo menos, esse é o efeito criado, mantido e intensificado pela mise en scène de Alea, com mão de maestro. Os empregados vão se rebelando e abandonando o latifúndio, não sem levar com eles alguns bens valiosos (automóvel, prataria etc.). O padre agregado, sabiamente, também vai embora em determinado momento, não sem antes passar a batina e a “consagração” para o membro “casto” da família – sem maiores cerimônias, na pressa de quem precisa pular fora do barco antes que afunde de vez.

os sobreviventes 4Aliás, boa parte da cafonice das caricaturas vivas que são as pessoas dessa família se manifesta no fundamentalismo do seu sempiterno discurso religioso de feição tradicionalista, em negação absoluta da realidade mais básica da história, da sociedade, do cotidiano. Mas as preces feitas em tom farisaico não impedirão que a fome, afinal, passe a tomar conta da fazenda e dos seus fantasmáticos habitantes – também podem-se identificar neles as características putrefatas dos mortos-vivos de Romero.

A fome acabará por conduzir os outrora gloriosos Orozco aos baixios da auto / antropofagia, completando o quadro alegórico de uma elite que se pretende sobrevivente à marcha teleológica da História rumo à revolução e à abolição das classes sociais. Nesta paródia de velhos retratos comissionados de família ou pinturas acadêmicas de paisagens bucólicas, chama a atenção o fato de que, em nenhum momento, coloca-se como presente a ameaça – sempre temida pelos Orozco – da chegada dos revolucionários aos portões de seu recanto.

os sobreviventes 5A família é vítima da própria paranoia, da própria alienação, exclusivamente. Uma das cenas mais hilárias toma lugar quando todos estão sentados à mesa de jantar, sem ter coisa alguma para comer, e o membro jovem do clã – com o atrevimento característico da idade – incita todos a começarem a trabalhar, pois sem produção não há alimento etc.; ao que sua mãe retruca que prefere morrer, repreendendo-o rispidamente pela fala “comunista” à mesa, com o rigor da boa educação dedicada às pessoas “decentes” e “de bem”.

Qualquer semelhança com o fundamentalismo, a cafonice e o negacionismo da extrema-direita contemporânea (no Brasil, Chile ou Bolívia) não será mera coincidência. Outro momento antológico dos “sobreviventes” é a caça que decidem empreender ao gato da casa – para terem o mínimo com que se alimentar –, realizada com toda a pompa, circunstância, figurino e ritualística dignos dos eventos de esporte / lazer aristocráticos, ao som (não-diegético) da Cavalgada das Valquírias, de Wagner.

os sobreviventes 1É curioso que, no mesmo ano (1979), Francis Ford Coppola estava lançando o seu Apocalipse Now, com um uso antológico da mesma música, de ironia igualmente macabra. Tudo somado, Os Sobreviventes impressiona pela mistura entre os registros farsesco / burlesco e o gótico / macabro, harmonizados com sugestões de estranhamento surrealista, a serviço de uma alegoria político-social que, a despeito de ser historicamente localizada (a Cuba revolucionária), ainda tem muito a dizer para o nosso tempo e lugar.

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