Abe

abe 1Abe (Brasil / EUA, 2019) é um saboroso feel good movie: aqueles filmes feitos para a gente se sentir bem, apesar de todos os problemas individuais e coletivos. Forte candidato a clássico da Sessão da Tarde daqui a alguns anos. O seu franco otimismo e pragmatismo em relação a temas graves (preconceitos étnicos / culturais / religiosos, a partir dos conflitos entre Israel e Palestina) pode carregar algo de Frank Capra.

Mas o imenso e acidentado terreno em que se move guarda características muito peculiares ao século XXI, e o diretor e co-roteirista Fernando Grostein Andrade (do seminal documentário, para o bem e para o mal, Quebrando O Tabu – 2011) poderia facilmente ser acusado de, mais do que ingenuidade, certa leviandade no tom e no trato. A história é a do jovem herói americano à lá Karatê Kid.

abe 2Abe (Noah Schnapp, o Will de Stranger Things) é um pré-adolescente de ascendência judaico-israelense e muçulmano-palestina que nutre uma paixão obsessiva pela culinária. Como todo bom millenial, mantém um diário constante nas redes sociais e cultiva com grande facilidade um autodidatismo via web. Mas é terrivelmente pressionado pelos avós, maternos e paternos, a “escolher” uma identidade étnico-religiosa.

O pai, por sua vez, tenta coagir o menino a manter-se “laico” (american brooklyn, como o próprio Abe se define), enquanto a mãe tenta equilibrar todas as forças em jogo. O jovem aspirante a chef, então, começa a bater asas para um pouco mais longe de casa e conhece o chef brasileiro Chico (Seu Jorge), radicado em Nova York e fazendo sucesso, a quem perseguirá para tentar fazê-lo seu mentor.

abe 3Naturalmente, complicações e conflitos surgirão, mas sempre mantendo o tom do drama leve misturado à comédia sensível. E com o indefectível final feliz, conciliador. Pode ser interessante pensar em Abe como uma versão infantil ou feel good de Sinônimos (ambos exibidos nesta última Mostra de cinema de SP): nos dois longas temos jovens que se debatem para livrar-se das amarras da identidade e da ascendência.

Mas aqui, o que realmente pode incomodar é o tom um tanto quanto forçosamente conciliatório. Para além da necessária defesa da tolerância e da integração pacifista, sentimos aqui aquela postura tipicamente “isentona” da teoria dos “dois demônios”: os dois lados cometeriam exageros, toda radicalização é perigosa, toda “polarização” é execrável e deve ser exemplarmente higienizada.

Abe - PosterPosicionamento esse que parece ser oficial da organização que se tornou o “Quebrando O Tabu” (basta pensar na desconcertante conversa “amiga” entre os deputados Marcelo Freixo e Janaína Paschoal). E é dentro desse fator de negligência dos elementos históricos, políticos e efetivamente sociológicos que Abe acaba reproduzindo – ainda que sem perceber, ou segundo a “melhor” das intenções – o velho mito racista do magical negro.

Também está presente o arquétipo do velho sábio, que podemos identificar na relação entre Abe e Chico. A figura deste é investida de algum empoderamento (não vemos aqui a autoabnegação e auto-sacrifício do “magical negro” tradicional; pelo contrário até: Chico age como um professor / mestre implacável, promovendo com dureza um choque de realidade ao menino branco e de classe média).

Mesmo assim, não conseguimos sacudir das franjas do nosso pensamento certa impressão de que se conta, mais uma vez, aquela mesma história de um personagem negro que está lá tão somente para servir de escada para a escalada e o irreprimível brilho do homem branco. Pessoalmente, não me agradam leituras fílmicas “armadas” até os dentes; por outro lado, não tem mais cabimento (simples assim) aquela ingenuidade e “pureza” à lá Frank Capra.

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