Parasita

parasite 1Segundo estatísticas do banco Credit Suisse, divulgadas em 2015, 1% da população deste planeta detém metade do valor total de ativos. Ou seja, a parcela de gente que possui, individualmente, um patrimônio de 2,96 milhões de reais (ou 760 mil dólares) é dona de tanta riqueza somada quanto a faixa dos 99% dos homo sapiens restantes. Dados da Oxfam (2019) mostram que as 26 pessoas mais ricas que caminham sobre a superfície da Terra concentram a mesma riqueza somada da metade bípede mais pobre (3,8 bilhões de almas).

Nos últimos anos (especialmente neste 2019), temos visto filmes de sucesso que fantasiam com revoltas populares contra essa desigualdade extrema – pelo menos, têm sido lidos dessa maneira. Coringa (2019, Todd Phillips), Bacurau (2019, Kléber Mendonça Filho), Us (2019, Jordan Peele) e Sorry To Bother You (2018, Boots Riley) são apenas os casos mais notórios. São formas diferentes de revolta, com motivos e objetivos diferentes; mas todas elas parecem expressar um mal-estar intenso e urgente.

parasita 2E as premiações internacionais parecem reconhecer isso: Bacurau venceu o Prêmio do Júri em Cannes, e Coringa levou o Leão de Ouro em Veneza. É nesse cenário que chega Parasita (2019, Bong Joon-Ho), ganhador da Palma de Ouro em Cannes e que está sendo exibido na 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (com promessa de estrear no circuito comercial já no próximo 7 de novembro). O título pode induzir o cinéfilo ao erro de pensar que se trata do mesmo tipo de ficção que O Hospedeiro (2008), do mesmo diretor.

Nada mais distante do ultrarrealismo deste longa – poderíamos mesmo dizer Naturalismo – inspirado por notícias que tocam as raias das lendas urbanas. Por outro lado, somos levados a afirmar que Parasita é, ao seu próprio modo, tão imaginativo e peculiar quanto Expresso do Amanhã (2013), pérola pouco conhecida de Bong Joon-Ho. Na verdade, as aventuras e desventuras da família Ki-taek são narradas em uma (tentativa de) mistura muito particular de registros, cujo resultado final acaba saindo um tanto quanto inconsistente.

parasita 3Vemos um carregado drama social naturalista misturado à sátira picaresca e temperado com um leve toque de conto de fadas (na condescendência dirigida aos sonhos-esperanças dos personagens, apesar dos efeitos sempre trágicos das ações destes). Tamanha salada é mesmo difícil de fazer, e valeu a tentativa. Mas Assunto de Família (“Shoplifters”, 2018, Hirozaku Koreeda, Palma de Ouro ano passado), mantém mais equilibrados muitos desses mesmos elementos.

Essa mistura volátil entre sensibilidade e crueldade no tom do próprio filme, que muda completamente de registro quando menos esperamos, é corolário de produções brasileiras de grande hype nos anos 2000: Durval Discos (2002, Anna Muylaert) e Reflexões de Um Liquidificador (2010, André Klotzel), desconfortavelmente testando os limites da capacidade do espectador em se identificar com os “heróis” protagonistas, dignos de simpatia e repulsa ao mesmo tempo. Uma arraigada desilusão (de causa social) que se transmuta rapidamente no delírio mais acabado.

parasite2-1Por fim, ainda na chave naturalista, um elemento sensorial que ganha significativo destaque em Parasitas é o olfato. Estranhamento: talvez a sensação de sugestionabilidade mais difícil no cinema (a irremediável abstração dos cheiros); mesmo o tato e o paladar podem ser evocados de maneira mais próxima pela imagem visual; mas e os odores?  (Não vamos falar aqui do cinema “4D”). Bong Joon-Ho recorre à palavra, no poder sentencioso do verbo, em um primeiro momento, pois basta a enunciação referente a um cheiro específico.

No segundo (situação-limite que acarretará mais uma mudança drástica de tom no filme), um primeiro plano muito consciente despertará a memória do espectador para o sentido da ação: a decupagem em Bong-Joon-Ho é rigorosamente pensada, tanto em um sentido estético quanto sugestivo / significativo – marca registrada dos grandes diretores. O sentido do olfato, no que possui de visceral, provocativo-instintivo e apelativo, torna-se o mais suscetível a preconceitos de diversas ordens, testando os limites da racionalidade também daquele que é vítima desses mesmos preconceitos.

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