Coringa

“Quando nasci, um anjo torto

  desses que vivem na sombra

  disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida.”

Carlos Drummond de Andrade: Poema de Sete Faces (do livro Alguma Poesia, 1930)

joker 1Em Coringa, pipocam os signos de filiação aos motifs do gauche (o pária, desajustado, mesmo desastrado) e da gaucherie (a falta de tato em padrões de comportamento que provocam embaraço, entre o riso incrédulo e o franco constrangimento). No cinema, a expressão mais clássica e bem-acabada do gauche é o “vagabundo” de Chaplin, e não surpreende a referência a Tempos Modernos nesta narrativa de formação do arqui-inimigo do Homem-Morcego.

Outros indícios: o bullying sistemático que Arthur Fleck sofre, nos espaços públicos e nos privados, dentro da inerentemente violenta sociedade norte-americana; e a gritante inabilidade do protagonista em se fazer minimamente funcional nas situações mais prosaicas: quando eventualmente consegue, será mais uma vez “punido” de forma exemplar pelos bastiões da vitória social (o apresentador de talk show interpretado por Robert de Niro) e da normalidade / normatização (a mãe que o repreende por brincar com o filho – dela).

joker 2
Tempos Modernos

Porque a figura do gauche é mais reveladora das contradições de uma sociedade que se diz liberal, do que da falta de supostos méritos individuais: a insensibilidade e falta de empatia quase absoluta que seguem firmes no rumo da mais abjeta desumanização do outro diferencial, a massificação consumidora de sujeitos invariavelmente reificados, o instrumental tecnocrático e legitimado de exclusão social e invisibilidade identitária. A poesia de Drummond e o cinema de Chaplin já trataram bastante desses processos.

Agora, se essa história se passasse em outros tempos, o encaminhamento potencial de Arthur Fleck seria bem outro, a partir da faixa demográfica à qual pertence o personagem: homem cis, branco, heterossexual, pobre. Provavelmente, o “joker” se transformaria em um avatar de algum fórum extremista do esgoto da internet à direita (os chans), planejaria atentados de terror supremacista branco e seria habitué de comícios / manifestações de apoio a políticos da laia de Donald Trump e Jair Bolsonaro.

joker 3
Berlin Alexanderplatz

O referente cinematográfico mais simbólico nessa linha é a minissérie Berlin Alexanderplatz (1980), dirigida por Fassbinder, que, recompondo as origens do nazismo, esmiúça os procedimentos pelos quais underdogs são aliciados como bucha de canhão por ideologias / quadrilhas / movimentos / partidos extremistas. Os criminosos do ódio em 2019 ainda quererão forçar um reconhecimento / legitimação do filme ao seu próprio delírio autocrático-homicida. Sinal inequívoco do seu próprio analfabetismo funcional.

A escala em que o diretor e co-roteirista Todd Philips compõe sua parábola anti-heroica é a do psicopata americano no breakdown mental puro e simples. O maneirismo de Coringa, ao emular de feitio aplicado e obediente a estética e os motivos dos filmes norte-americanos entre o final dos anos 70 e começo dos anos 80, caracteriza o alcance e o limite da sua ambição autoral: não é um filme de arte; é um filme de gênero gourmet (de super-herói – ou vilão). Se é que (ainda) tem alguma validade essa dicotomia.

joker 4
Taxi Driver

O apego a Taxi Driver (1976) e O Rei da Comédia (1982), de Martin Scorsese, é apenas o mais evidente. A volátil desagregação social em Gotham City, beirando uma anomia completa e perigosíssima, lembra também outros filmes igualmente importantes, mas menos conhecidos, como Os Viciados (“Panic in Needle Park”, 1971), de Jerry Schatzberg; ou, sobre o poder (abusivo) da mídia televisiva relacionado à espetacularização de doenças psiquiátricas, veja-se Rede de Intrigas (“Network”, 1976), de Sidney Lumet.

Contudo, é importante pontuar uma vez mais que a dimensão sociológica de Coringa encontrará um limite rigorosamente demarcado: trata-se, afinal, de um filme de “super-heróis” baseado em histórias em quadrinhos. Assim, o que mais sobressai aqui é a construção desse vilão arquetípico que é o Joker. Primeiramente, a partir da tradição do gauche, cujo exemplo mais diretamente relacionado à origem histórica do personagem (nas HQs) é o filme clássico O Homem Que Ri (1928), de Paul Leni, baseado no romance de Victor Hugo.

joker 5
O Homem Que Ri

A imagem iconográfica de Conrad Veidt como o pária de rosto deformado em eterna gargalhada é a fonte dos primeiros desenhos do Coringa por Jerry Robinson e Bob Kane em 1940. Em segundo lugar, Todd Phillips apoia-se no Coringa enquanto manifestação sádico-psicótica do arquétipo do trickster por Alan Moore na graphic novel “A Piada Mortal”. O trickster, na psicologia analítica, representa os princípios da desordem, do acaso, da irracionalidade e da natureza “caprichosa”, enraizados no inconsciente coletivo.

Assim, opõe-se ontologicamente à ordem, à lógica causal, à razão e a todo sentido teleológico alegorizados pelo herói Batman (diga-se, de passagem, que essa dimensão do vilão foi trabalhada magistralmente por Heath Ledger no Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan, em 2008). Aqui, o próprio corpo de Joaquim Phoenix encarna esse contraste de maneira dramática: são (a)berrantes o incômodo da postura, a estranheza dos movimentos e dos gestos, o próprio desequilíbrio quase barroco de sua figura.

rev-1-jok-19666_high_res_jpegO desespero icônico deste Coringa está nos antípodas da serenidade hierática do Homem-Morcego. Cabe lembrar que as múltiplas conotações de gauche em francês, a partir do sentido próprio de “lado esquerdo”, passam por: “errado”, “anormal”, “esquisito”, “torto”… O anjo torto de Drummond, que vive na sombra, talvez mais demônio do que anjo, com sua fala escarninha (própria do trickster). Essa ambiguidade, entre céu e inferno: anjo-gauche humano, demasiado humano, histórico, social. Vítima e algoz ao mesmo tempo.

Enfim, este Coringa de Todd Phillips não é um filme que rompe – sequer chega a forçar – paradigmas cinematográficos. Seu valor reside em cumprir bem as fórmulas de uma cartilha já bem estabelecida, ainda mais que sejam fórmulas difíceis. Quanto ao fundo, estica a sua temática social até as fronteiras do tipicamente aceitável dentro da Hollywood de hoje. Nada que se compare a um Scorsese, um Lumet. Com um pouco mais de caldo, daria em um David Fincher ou Paul Thomas Anderson. Está de bom tamanho para o universo DC no cinema.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s