Bioscópio

MV5BZjVkYWQ3MDktNzU2MC00N2FmLWExNGQtMDA2OTZkNTVmMmQyXkEyXkFqcGdeQXVyNjY1MTg4Mzc@._V1_SY1000_SX750_AL_Escrevi o texto abaixo no antigo Sombras Elétricas (http://sombras-eletricas.blogspot.com/), em outubro de 2008. Segue republicado com algumas revisões.

Vi o filme Bioscópio na 32ª Mostra de Cinema de São Paulo. E fiquei muito impressionado. Mas, desde então, nunca mais achei essa pepita cinematográfica em lugar algum. Não teve lançamento em mídia física ou digital para download (pelo menos, não no Brasil), nem em streaming. Tampouco o velho e bom torrent a gente encontra, mesmo em fóruns especializados.

Se alguém teve melhor sorte do que eu, please help… Enfim, vai a resenha.

Isto não é um filme. Isto é uma experiência. Pouquíssimas vezes a gente sente de verdade toda a extensão do poder inebriante do cinema, nos recônditos mais profundos do corpo e da alma, alterando mesmo nosso estado de consciência. É difícil descrever o fenômeno, mas é um negócio… epifânico. Bioscópio (Índia, 2008, dir.: K. M. Madhusudhanan) é uma experiência estética, lisérgica e mística – ao mesmo tempo.

O diretor parece dotado de um verdadeiro entusiasmo no sentido etimológico (grego) da palavra, possuído pela divindade que lhe revela e o faz revelar a nós realidades escondidas por trás do véu do nosso próprio mundo. Assim como o poeta-profeta das épocas em que mito não era sinônimo de mentira (ou coisa pior). A bruxaria de Bioscópio tem parentesco com Méliès, Dreyer e Vigo; Pasolini, Tarkovski, Kubrick e David Lynch.

É o cinema de poesia. Estranho, bizarro, surreal, unindo o interior e o exterior, a matéria e a ideia. Cinema-total. Filmes assim têm uma aura de relíquia sagrada, objeto de arte-culto. É um cinema meditativo, de ritmo lento e olhar voluptuoso, curioso: um olhar de libido e fé. Todos os opostos se reforçam e se desfazem em uma transcendência espiritualmente materialista, psicodelicamente sóbria.

fotoA história é mais ou menos o seguinte. Um homem simples assiste a uma apresentação do “bioscópio”, por um francês em viagem pela Índia nos anos de 1920. É, na verdade, um velho projetor de filmes à manivela. O homem fica tão impressionado que compra o aparelho e continua a missão, armando e desarmando a sua tenda itinerante, testemunhando as reações das pessoas que veem pela primeira vez as imagens em movimento.

São exibidos clássicos como Intolerância (1916) e O Gabinete do Dr. Caligari (1919). O bioscópio logo vira assunto (polêmico): o povo o toma como algo sobrenatural – divino ou demoníaco. Enquanto isso, a irmã do protagonista definha em casa lentamente, presa a uma cama por doença que não se consegue descobrir ou curar; apenas se sabe que ela a teria adquirido após ver o cadáver de um europeu na praia, dez anos antes.

O pai passa a acreditar que o mal misterioso vem de maldição causada pelo bioscópio e exige que o filho se livre da máquina diabólica. O jovem cinéfilo se encontrará, então, em um terrível dilema.

Esse enredo se mostra em uma fotografia de rigor pictórico como poucas vezes se vê no cinema de hoje. Fotogenia pura. Cada imagem do filme parece ser pintada à mão: o senso de composição e de equilíbrio, de linhas de força e de tensão, a perspectiva em profundidade de campo, a harmonia das cores, o claro-escuro, a atmosfera. Tudo aqui é um estímulo libidinoso à visão.

Até mesmo o desenho do sânscrito em faixas e cartazes ganha uma aura impressionista, animada. A alma das coisas: poucos pintores a captaram. Decididamente, não é à toa que o filme usa como epígrafe a frase, atribuída a Cezánne: “Olhem para esta montanha, um dia isto foi fogo?”

bioscopeMadhusudhanan filma com a fascinação dos pioneiros da sétima arte. E transmite ao espectador essa fascinação de coração aberto: nada se perde pelo caminho. A reação deste não será muito diferente daquela das plateias do primeiro cinema. Poucos filmes nos fazem olhar para a tela como se fosse a primeira vez (na história pessoal ou coletiva). Bioscópio realiza essa façanha, resgate, redenção.

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