Pantera Negra

IMG_9665Um dos instrumentos mais perversos e sistematicamente usados nos sistemas socioeconômicos colonialistas / imperialistas, etnocêntricos e, logicamente, racistas, é o vácuo de invisibilidade a que se abandonam as manifestações humanas das culturas, povos e etnias historicamente subjugadas. A lógica do Positivismo não admite matizes que vão além da dicotomia simplista entre o “evoluído” e o “primitivo”. E as narrativas industriais muito contribuíram para repor, reforçar e reproduzir esse preconceito.

Em vista disso, Pantera Negra (“Black Panther”, EUA, 2018, dir.: Ryan Coogler) realiza uma grande conquista no sentido de abrir espaço, dentro do campo das narrativas dominantes (Hollywood), para outras histórias que não sejam as dos “campeões” da história única. Antes de mais nada, não nos esqueçamos de que se trata da indústria cinematográfica norte-americana, e o fruto mais recente da Disney / Marvel não irá cair muito longe da árvore ideológica no jardim desse sistema.

black-panther-watching-videoSixteenByNineJumbo1600-v2A lógica profunda em Pantera Negra não deixa de ser a positivista, em alguns aspectos – Wakanda é uma nação “avançada” por, fundamentalmente, domar a natureza e acumular recursos materiais, com resultados científicos e tecnológicos bastante produtivos, eficientes. Mas esses avanços (superiores aos dos países de “1º mundo”) foram empreendidos por um país africano, que detém o seu monopólio, invertendo com isso a velha lógica do sistema colonial (colônia: matéria prima; metrópole: indústria).

Dessa forma, apesar de não questionar os pressupostos ideológicos mais profundos que estão na base de toda a desigualdade entre os povos (exploração da natureza, crescimento e acúmulo econômicos), o longa de Coogler transfere as posições de poder para aqueles (os negros) que são histórica e continuamente excluídos dessa mesma esfera de poder, ao redor do mundo (como bem nos lembra o “vilão” do filme). Isto já é uma escolha de impacto político importantíssimo nos dias atuais, retrocedentes em racismo (Trump).

marvel-black-panther-nakia-princess-shuriPara além da ciência, tecnologia e economia, o enraizamento cultural de Wakanda também traz signos fortes de ancestralidade, empoderamento (inclusive o feminino), identidade (orgulho) e identificação (catarse). Nestes aspectos, é excepcional o figurino dos personagens, desenhado por Ruth Carter (ela merece um Oscar em 2019) e ancorado em extensa pesquisa de culturas tradicionais africanas. A direção de arte também foi pensada com muita pertinência, em respeito e destaque da cor local.

Béla Balázs, um dos grandes teóricos do cinema, defende que o primeiro plano – maior recurso expressivo da sétima arte – transformou a nossa percepção do mundo, particularmente no que se refere ao rosto humano. “Microdramática”, a expressão facial é a “manifestação mais subjetiva do homem, mais subjetiva até do que a fala (…) A mais subjetiva e individual das manifestações humanas é tornada objetiva no primeiro plano” (Theory of film: Character and growth of a new art).

nullDentre todos os signos de empoderamento da população afrodescendente com que Pantera Negra deseja marcar, a ferro e a fogo, o mundo contemporâneo, o mais importante é justamente o mais cinematográfico: o primeiro plano. A visibilidade inegável dos rostos negros de praticamente todo o elenco desse filme, na tela gigante e imponente do cinema, tem valor simbólico inestimável – para as nossas sociedades e para a história das narrativas ficcionais cinematográficas, particularmente as de Hollywood.

Em algumas cenas, a microdramática de que fala Balázs atinge uma sutileza que faz com que o seu valor estético / expressivo rivalize com o seu valor político. Refiro-me à expressão facial e ao olhar, sarcasticamente condescendentes, que o herói T’Challa (Chadwick Boseman) faz quando algum personagem branco (logicamente) lhe diz algo semi-conscientemente racista – micro-agressão. Aqui, o primeiro plano torna politicamente objetiva a manifestação mais subjetiva do homem. Não poderia ser melhor.

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