Três Anúncios para Um Crime

IMG_1427O alcance da visão de mundo e das relações sociais na pequena cidade de Ebbing, Missouri (EUA) possui aquela extensão tipicamente limitada dos grotões rurais / patriarcais / arcaicos dos interiores profundos de muitos países; ou dos sistemas hermeticamente fechados das sociedades distópicas de narrativas especulativas (cujos ecos ouvimos em “O Conto da Aia”, de Margareth Atwood).

E uma das qualidades de Três Anúncios para um Crime (“Three Bilboards Outside Ebbing, Missouri”, EUA, 2017, dir.: Martin McDonagh) é permitir que o chorume de tais visões e relações escorra por entre os desvãos de tais comunidades que, não obstante, se creem puras, preservadas, impermeáveis, higienizadas (o velho higienismo social). Sutil, esse chorume segue escorrendo até alcançar os pés descalços do espectador distraído.

IMG_1429Exemplo: na sala de cinema, alguns espectadores riem das falas e ações preconceituosas dos personagens do filme, especialmente as do policial Jason Dixon (Sam Rockwell); outros riem COM elas. O roteiro de McDonagh é pontuado com diversas pequenas tiradas de humor negro / politicamente incorreto, principalmente em relação a minorias: mulheres, negros, homossexuais, até mesmo pessoas com nanismo (o personagem interpretado por Peter Dinklage).

Isso provoca um desconforto no espectador consciente e alguma sensação de claustrofobia moral – comum em narrativas distópicas. Mas é importante lembrar que o filme não adere, irrestritamente, ao ponto de vista de personagem algum. É natural que que se reforce a mãe interpretada por Frances McDormand; no entanto, mesmo ela não deixará de fazer parte de uma zona ética cinzenta que, afinal, definirá toda a cidade.

IMG_1428Essa escolha já fez com que “Três Anúncios…” fosse criticado por setores mais progressistas, que exigiam que o longa tomasse postura mais, digamos, contundente em relação a personagens como o de Rockwell. Mas o filme de McDonagh não é, de maneira alguma, reacionário; tampouco adota o conservadorismo de um Clint Eastwood. É um bom western contemporâneo.

Está indicado a 7 Oscars: melhor filme, melhor atriz para Frances McDormand, melhor ator coadjuvante para Sam Rockwell e Woody Harrelson, melhor roteiro original, melhor edição e melhor trilha sonora original. Ganhou os Globos de Ouro de melhor filme dramático, melhor roteiro, melhor atriz (McDormand) e melhor ator coadjuvante (Rockwell). Estreou no Brasil esta quinta-feira, 15 de fevereiro.

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