Sem Amor

loveless3Um bom filme tem que valer por si só. Parece óbvia uma coisa dessas, não? Mas quantos filmes – aclamados, inclusive – não ficam só na intenção? Não estamos falando, aqui, daqueles filmes ruins no sentido em que não cumprem o que propõem, aqueles filmes “incompetentes”, cujo diretor dá mostras de não dominar de maneira pragmática e eficaz o instrumental semiótico que tem em mãos – basta pensar no analfabetismo cinematográfico de Tommy Wiseau em The Room (2003).

Estamos falando de filmes que se executam muito bem, tecnicamente, obrigado, de nada. Mas cuja intencionalidade (na verdade, a intencionalidade do seu “autor”) fala mais alto e fala por cima dos elementos que o compõem (que deveriam compô-los, com coesão e coerência internas). Não vamos nos iludir: toda forma e uso de linguagem (no caso, a audiovisual) será, inapelavelmente, subjetiva – em uma dose maior ou menor. Todo filme que se pretende “realista” não fará mais do que um recorte condicionado do “real”.

dsc3765 KEY-2000-2000-1125-1125-crop-fillSe é que podemos falar em algum tipo de “realidade”. Cinema é discurso, cinema é invenção. Mas a pedra de toque aqui é: um bom filme (um bom diretor) saberá identificar e explorar o potencial comunicativo / expressivo dos meios de que dispõe, em termos de suporte, código e gênero, e se esforçará por carregar as suas intenções / visões DENTRO desses mesmos meios, através deles, traduzidos / transfigurados neles, com sutileza, preferencialmente.

Assim, um filme narrativo que pretenda que seus personagens sejam alegóricos deverá cuidar da construção dos personagens ENQUANTO personagens, antes de tratá-los enquanto alegorias. Ou o filme se assume como prioritariamente discursivo / político, etc., e segue a linha mais comum dentro do cinema-pensamento: a metalinguagem, a explicitação dos recursos construtivos (“não é sangue, é vermelho”, dizia Godard), a quebra dos jogos de identificação com o espectador, etc.

001-16-1280x854Mas não é esta a saída escolhida por Sem Amor (“Nelyubov”, Rússia, França, Alemanha, Bélgica, 2017, dir.: Andrey Zvyagintsev), que estreia hoje no Brasil. O diretor de Leviatã (2014) realiza um filme narrativo bastante tradicional em termos de roteiro e decupagem. Mas não convence. Nem um pouco. Não duvidamos do mérito das ideias e mensagens que o cineasta queira veicular. Mas estas gritam mais do que o filme, por fora do filme, digamos assim. A necessária transfiguração de conteúdos em formas não funciona.

Tudo o que se mostra (o que se quer ardentemente mostrar) na tela pode ser muito real: a atual classe média russa / europeia e sua perda de valores. Toda a vaidade, frivolidade, egocentrismo, negligência e, para arrematar, a mais pura e simples crueldade dos cidadãos globais na era da modernidade líquida. Mas essa nobre causa não justifica a imensa inabilidade (ou preguiça mesmo) que tenta nos vender todos esses conteúdos na forma de personagens e situações constrangedora e ridiculamente caricatos.

118566794_oSe se tratasse de uma sátira, farsa ou paródia, poder-se-ia justificar a caricatura sob a capa literária / teatral do tipo. Mas “Loveless” quer ser um drama. Aí não dá. O efeito predominante e final desse filme é mais moralista do que moralizante, mais doutrinário do que crítico, com mais didatismo do que reflexão. Chega a lembrar aqueles “filmes” institucionais / governamentais / educativos de antigamente, exibidos em escolas para alertar as crianças sobre os “perigos” que residem fora do seio da família. Reefer Madness (EUA, 1936), sobre a juventude “desencaminhada” pela maconha é um clássico exemplo.

A crítica, nacional e internacional, vem gostando de Sem Amor: o filme ganhou o Prêmio do Júri em Cannes ano passado e concorre ao Oscar de melhor filme estrangeiro este ano. Minha aposta é que os críticos preferiram “focar” na mise en scène esteticamente bela e rigorosa: predominam planos longos, fixos e bem compostos, criando uma atmosfera (pretensamente) contemplativa e um ritmo de cadência envolvente. Mas as semelhanças com os clássicos (Tarkovski) param por aí.

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