Ex-Libris: The New York Public Library

Ex_Libris_1O veterano documentarista Frederick Wiseman executa com maestria um cinema que resolve, de maneira muito estoica, a polarização teórica com que foi se pensando e fazendo a sétima arte ao longo dos seus 122 anos: seu mais recente Ex-Libris: The New York Public Library (EUA, 2017) é um filme carregado de posicionamento político e de discurso (como os amantes da semiótica adoram dizer).

Porém, seus conteúdos ideológicos aparecem muito organicamente interligados à suas escolhas formais: o que vemos não é o discurso, enquanto intencionalidade pressuposta, pressionando as imagens a partir do seu exterior – e, consequentemente, arrancando delas suas potencialidades expressivas. Esse, aliás, seria o modus operandi típico dos maus cineastas – dentro da categoria highbrow.

120635Wiseman, pelo contrário, sem se deixar iludir pela aparente ontologia das imagens, sabe que elas exercem um efeito de realidade muito forte sobre o espectador, e essa realidade é carregada (por nós) de valores afetivos. Em outras palavras, a imagem é potencialmente expressiva, e o bom diretor saberá extrair dela tal expressividade, empregando-a em favor da construção discursiva (o filme, como um todo) que deseja.

É por isso que, antes de mais nada, Ex-Libris está assentado sobre uma estrutura que não é, absolutamente, a do documentário tradicional: não há entrevistas, depoimentos, montagem com imagens de arquivo, progressão retórica  – introdução, desenvolvimento (tese, argumentação), conclusão. O filme começa ex-nihilo e termina ex-nihilo, como se fosse nada mais do que um recorte de uma realidade muito mais ampla. E aberta.

Ex_Libris_3A forma aberta, expressando um não-fechamento doutrinário dos conteúdos, é característica essencial de produções que são, apenas por preguiça, classificadas como documentários. Na verdade, o cinema de Wiseman é o do filme-ensaio: o ensaio literário / filosófico como forma poética de reflexão livre, sempre a partir da experiência / vivência, em oposição à tese / dissertação programática.

A ancoragem do pensamento na experiência sensível é ponto nevrálgico em Ex-Libris: a sua montagem cadencia, em cada cena, planos mais abertos (sugerindo a visão sociológica do todo e suas macroestruturas) e planos mais fechados (as expressões faciais e micro-reações dos indivíduos que frenquentam as bibliotecas públicas de NY, usufruem de seus acervos, serviços, estruturas, e participam de suas atividades culturais).

fcbcbff8-a93c-11e7-accd-5ad5c94fa8f5-780x439Frederick Wiseman não tem pressa alguma em deixar a expressividade vivencial escorrer como que naturalmente de cada plano: o filme é longo (mais de três horas de duração), mas não nos sentimos cansados, entediados, aborrecidos. Ex-Libris promove uma verdadeira aprendizagem do humano pelo humano, um mergulho no ser-estar no mundo, uma comunhão com o outro.

É um filme que entende o sujeito, a vida e a sociedade como processos, mais do que como produtos – fechados, consumíveis, descartáveis. A sua grande beleza está no ininterrupto devir. O filme precisa acabar, é claro, em algum momento. E acaba. Mas não termina. Assinatura estilística de Wiseman: as muitas reuniões de trabalho, filmadas em seu decorrer, recortadas de começos e fins.

daily-movies.ch-Ex-Libris-New-York-Public-Library-9E as múltiplas, diversificadas vozes, discursos, ideias e ideologias que nadam nas águas agitadas dessas reuniões: os problemas orçamentários e necessidades de financiamento, as polarizações entre mídias físicas e digitais / online (digitalização do acervo, serviços de wi-fi), o papel das bibliotecas no século XXI, a presença dos usuários sem-teto, as parcerias público-privado na gestão, etc.

Mas, e neste ponto temos o posicionamento do próprio Wiseman, no meio de todos os debates, há uma coisa apenas que não se discute, pois é ponto pacífico para todos (mesmo para os mais liberais, que defendem as PPPs): o caráter inalienavelmente público da biblioteca e sua inquestionável função social. Eis a necessária mensagem política deste filme, lição para todas as sociedades que se dizem democráticas.

004282.jpg-r_640_360-f_jpg-q_x-xxyxxPois é constante a ameaça do desmonte das instituições republicanas, a desresponsabilização do Estado (e da sociedade civil / setor privado) para com as estruturas civilizatórias, o apagamento da própria noção de público e do pensamento coletivo, voltado para o bem-estar comum. Tendo em vista o cenário político atual nos EUA (e também no Brasil), Ex-Libris serve como um sensível alerta.

Ex-Libris circulou pelas listas dos melhores de 2017 na mídia norte-americana, mas ainda não teve lançamento comercial nos EUA (e nem no Brasil); vem sendo exibido tão somente em festivais, mostras e sessões especiais. É de se acreditar que, uma vez que saia no circuito, as indicações para prêmios (incluindo o Oscar) virão em abundância. Frederick Wiseman, no alto dos seus 89 anos, é um dos maiores cineastas em atividade.

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