120 Batimentos por Minuto

IMG_1419O preconceito se alimenta da desinformação. Esta, por sua vez, se alimenta do distanciamento. O clichê já diz: longe dos olhos, longe do coração. Assim, é para romper de vez com a invisibilidade (cinematográfica, social) da população soropositiva, ontem e hoje ainda, que o cineasta Robin Campillo filma o seu 120 Batimentos por Minuto (“120 Battements par Minute”, França, 2017) predominantemente em primeiros planos, com uma câmera na mão que treme e se agita conforme testemunha – conforme seja testemunha – das vidas, das mortes e, sobretudo, das lutas do braço parisiense do movimento ACT UP.

Adeptos da não-violência, mas com ações de grande impacto, os ativistas denunciam o descaso do governo francês – no início dos anos 90 – com a crescente epidemia de AIDS, exigindo maiores e melhores campanhas de prevenção, assim como melhores tratamentos por parte da indústria farmacêutica. O olhar sempre muito próximo de Campillo coloca o espectador lado a lado com os personagens, seja nas acaloradas reuniões do grupo, seja na vida – e na forte afirmação da vida – dos jovens militantes (a maioria soropositivos): principalmente as festas e as relações amorosas – as 120 batidas por minuto da música eletrônica e do coração humano.

IMG_1418Essa mise en scène confere um caráter documental para o filme, mas não no sentido dissertativo (o documentário tradicional); e sim, poético, ensaístico. A montagem é o elemento mais expressivo, dentre todos: o ritmo das imagens em sucessão é pulsante. 120 Batimentos por Minuto embala o espectador na pulsação da vida que existe e resiste dentro da tela, a vida que está na própria tela. A vida que é a tela. As breves e precisamente encaixadas inserções de imagens reais de arquivo, em cenas de forte carga e sentido emocional, político (a autoafirmação da identidade e dos direitos dos portadores do HIV, sejam estes LGBT, usuários de drogas, trabalhadores do sexo, estrangeiros, etc.), adquirem valor mais expressivo do que indicativo.

O filme vai se descortinando em uma cadência firme e equilibrada, orgânica. O individual e o coletivo, o artístico e o político, o psíquico e o social vão se entrelaçando como os corpos apaixonados do casal protagonista: o intenso Sean (soropositivo) e o misterioso Nathan (soronegativo). O drama cresce sem pressa, ocupando todos os tempos, os vivos e os mortos, da narrativa. Até chegar ao clímax e resolução, seremos apresentados a imagens de grande força visual e político-emocional: como exemplo, citemos apenas as águas do Rio Sena tingidas de vermelho-sangue, um sonho de ação-protesto em grandes proporções.

IMG_1420Este é um dos pouquíssimos momentos em que a câmera se afasta da estatura humana dos personagens, mas para melhor alcançar a dimensão “bíblica” da “praga” que se abate sobre aqueles jovens – não sem alguma dose de ironia, é claro: em um dos discursos do ACT UP, desconstrói-se com indignado fervor a ideia homofóbica de que o HIV seria “castigo divino”. 120 Batimentos por Minuto é vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes em 2017. Está presente nas listas dos melhores longas de 2017, pelas revistas Film Comment (EUA) e Sight and Sound (Reino Unido). Estreia nos cinemas brasileiros hoje, 04 de janeiro.

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