Visages, Villages

VisagesÉ muito raro, não sei dizer se feliz ou infelizmente; mas, de tempos em tempos, aparece um filme que nos faz ver o cinema como da primeira vez. Como da primeira vez que se viu cinema. Esses filmes conseguem chegar ao âmago mais profundo e surpreendentemente (ou não) simples de sua arte. O reencantamento não só da arte, como também do mundo. E do ser.

Geralmente, não há segredos: é só filmar; depois, montar as imagens filmadas em uma determinada sequência. Mas aí é que reside o talvez único segredo: saber o que filmar. Expressividade. É neste ponto que Visages, Villages (França, 2017, dir.: Agnès Varda e JR) atinge a sua grande realização. Poucos filmes são tão expressivos, em termos do que mostram, demonstram, revelam. E de maneira tão simples, tão despojada, ainda por cima.

visages-villagesEste aparente documentário é, na verdade e sob certo olhar, um road movie, com uma narrativa muito organizada e fechada, apesar da também aparente espontaneidade do seu planejamento e realização. Não vamos contar o final da história; basta dizer que existe sim um final, muito bem amarrado, sensível e significativo. Um final que vai sendo construído através de acontecimentos, falas, reações, relações – como em toda narrativa.

A história é a da viagem de Agnès Varda – veteraníssima cineasta, precurssora da nouvelle vague – e do artista JR, conhecido pelos retratos de pessoas comuns, impressos em grandes formatos e colados como “lambe-lambes” em espaços abertos. Ambos viajam juntos ao redor da França, com um projeto artístico em comum: contar histórias de diferentes pessoas e diferentes lugares, unindo-as através dos “lambes” de JR.

Visages-Villages-1Mas, por trás da camada mais evidente de “filme de estrada”, Visages, Villages revela-se como um digno representante da tradição clássica do cinema de poesia, no lirismo de seus planos – abertos (villages – vilas) ou fechados (visages – rostos); no lirismo de seus depoimentos – vidas, histórias de vidas. E, acima de tudo, na espontaneidade lírica da narração / depoimentos / falas de Agnès Varda.

A naturalidade e despojamento típicos da cineasta – não há como não lembrar Os Catadores e Eu (2000) e As Praias de Agnès (2008) – também fazem com que o rótulo de “documentário” sirva bem pouco aqui. Visages, Villages é mais um belo filme-ensaio feito pela diretora. Planejando a filmagem com JR, ela chega a afirmar, categoricamente, que “o acaso é o meu melhor assistente”.

visages-villages-normandie-avjr-plage-brume-chaises-profilA forma livre do ensaio, no cinema ou na literatura / filosofia, exige dos seus autores disponibilidade, espontaneidade e entusiasmo (aliás, é contagiante o entusiasmo de Agnès, no alto dos seus 89 anos de idade). Theodor W. Adorno, ensaísta do ensaio (meta-ensaística), destaca a viva carga de subjetividade do gênero; a postura do ensaísta é como a da criança, deslumbrada com o descobrimento do mundo.

O ensaio é montado como um brinquedo, com gosto: “felicidade e jogo lhe são essenciais”, arremata o filósofo. Mas para que falarmos de teoria? A teoria só serve para reforçar no intelecto a experiência sensível: não há nada que se possa explicar ou sistematizar que já não esteja expresso muito claramente, com força sugestiva e simplicidade, dentro de Visages, Villages.

640_366308.jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxxÉ um filme que encanta e conquista, sem qualquer sombra de apelação. É a arte, a vida e o ser humano na tela, naturalmente. É um filme que se vê com atenção contemplativa e alma desarmada. Enfim, esteve presente nas listas dos melhores filmes de 2017, na mídia internacional. Está concorrendo ao Oscar de melhor documentário. Estreou nos cinemas brasileiros na última quinta-feira, 25 de janeiro.

Os guerreiros de Sam Peckinpah

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Escultura da deusa grega Areté.

Existe algo da antiga areté dos guerreiros homéricos nos heróis de Sam Peckinpah: as espartanas virtudes varonis que tornam inconcebível a ideia de um soldado abandonar o campo de batalha, mesmo em desvantagem. Acredito que seja nesta chave que se deva pensar a violência que é marca registrada dos filmes do diretor. O ato de violência aqui não é aquele ato pragmático do gângster profissional; tampouco remete ao sadismo luxurioso do psicopata. A violência em Peckinpah não é uma anomia social contemporânea, mas um valor ético e moral, em um sentido que nos faz lembrar da Grécia de Homero.

A brutalidade dos personagens expressa-se em função de conceitos de honra e lealdade mais calcados nas antigas relações sociais nobiliárquicas. Os heróis pekinpanianos deixam-se possuir de corpo e alma pela violência, mergulhando nela como em um transe beatífico. Nisto, a autopreservação pouco importa; não há outra escolha para o guerreiro: ele deve defender o que é seu, ou morrer tentando. Em outros casos, trata-se da velha lógica da vingança. Vejamos. Em Meu Ódio Será A Tua Herança, a caminhada altiva do “wild bunch” rumo à autoimolação é o momento mais poético do filme e um dos grandes momentos do Cinema.

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Tragam-me A Cabeça de Alfredo Garcia

Eles não querem saber se vão vencer as tropas do “general” (já sabem que jamais vencerão); mas aqueles velhos e decadentes pistoleiros simplesmente não podem abraçar a aposentadoria tendo abandonado um dos seus nas garras do inimigo. Desse modo, mesmo tendo todas as razões práticas para irem embora (principalmente o dinheiro em mãos), eles decidem voltar atrás e tirar satisfações com o “general”, pois não podem passar por cima da razão ética que devem ao seu companheiro caído. Algo bem parecido ocorre em Tragam-me A Cabeça de Alfredo Garcia (“Bring Me The Head of Alfredo Garcia”, 1974).

Nesse longa, depois de ter cumprido (com imensas dificuldades) a missão, ter recebido o pagamento combinado e estar pronto para ir embora, o herói decide subitamente se voltar contra o “patrão”, indignado com a quantidade de mortes (inclusive a da própria namorada) que ocorreram para que trouxesse a tal da cabeça. O último ato do herói é “kamikaze”: ele morre, mas leva junto o patrão e boa parte de seus asseclas. Talvez seja o caso de entender esses “gran finales” não como atos abnegados de auto-sacrifício na impossibilidade de se conquistar uma vitória mais prática e concreta; mas sim como escolhas deliberadas, nascidas a partir de imperativos categóricos (no fundo, a única escolha possível: o ato ético).

Acredito que as escolhas de tais heróis constituem elas mesmas o ponto mais alto (ou verdadeiramente único) de seus atos guerreiros: é um outro tipo de vitória, baseada em outros valores. Mais exatamente, não uma vitória de fatos, mas uma vitória de princípios. Os guerreiros gregos almejavam a imortalidade através da memória que deixavam de seus feitos. Assim, morrer ao realizar uma grande e verdadeira façanha é mais sedutor do que viver no erro e na obscuridade.

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A Hora e Vez de Augusto Matraga, dirigido por Roberto Santos (1965).

Os guerreiros de Peckinpah realizam seus grandes atos de violência como um rito, sacerdotes que são da pulsão de morte (a qual, no mesmo sentido psicanalítico, relaciona-se dialeticamente com a pulsão de vida): matar para dar vida; morrer para viver. O tão comentado aspecto gráfico e a câmera lenta nas cenas mais violentas do cineasta podem ser analisados como expressão dessa liturgia homérica. O paradoxo de tais sínteses remete, muito coincidentemente, ao clássico conto do nosso Guimarães Rosa: “A Hora e Vez de Augusto Matraga” (publicado originalmente no livro “Sagarana”, em 1946).

O ato final de Matraga tem o mesmo aspecto, qualidade e significado que os que vemos nos dois filmes acima citados (a fantasia é imaginar Peckinpah filmando uma adaptação de Rosa). O ocaso do Velho Oeste e de seus guerreiros (na verdade, o ocaso de sociedades arcaicas, patriarcais) não se consumará sem uma despedida à altura. Algo assim já se via, dentre os filmes do diretor, em Pistoleiros do Entardecer (“Ride The High Country”, 1962), ainda que de maneira menos elaborada que nas obras posteriores.

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Sob O Domínio do Medo

Mas o melhor e mais acabado exemplo da areté em Sam Peckinpah encontra-se em Sob O Domínio do Medo (“Straw Dogs”, 1971). Seria uma imprecisão dizer que o pacato matemático vivido pela figura pouco intimidante de Dustin Hoffman teria simplesmente “perdido a razão” frente ao cerco de sua casa e partido para cima do bando de escoceses bêbados e sedentos de sangue. O fato é que: depois de se fazer diversas vezes submisso ao bullying dos seus vizinhos, o personagem de Hoffman, vendo que a agressividade primitiva daqueles atingiu o paroxismo, reconhece que instrumentos racionais e discursivos não lograrão dissuadi-los.

Sendo assim, ele decide (o filme coloca como um ato de escolha deliberada mesmo, e não como mera explosão nervosa) abandonar a justiça civilizada (republicana, democrática, institucional) e partir para a mais primitiva (arcaica, patriarcal, nobiliárquica): segundo tais valores, um homem jamais poderá permitir (de qualquer maneira) que sua casa seja invadida (não importa com quais razões). De pouco adiantam os apelos da mulher (que representa, aqui, a voz civilizada da razão), tentando colocar panos quentes na briga e forçar o marido a uma atitude mais “lógica”. Hoffman mergulhará com gosto na violência, entrando como que num transe quase orgásmico, lembrando, novamente, o Augusto Matraga de Rosa.

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Sob O Domínio do Medo

Ambos são personagens que resistem ao máximo às pulsões violentas; mas, quando estas lhes são requeridas em favor de uma moral e uma ética mais primitivas, eis que o guerreiro adormecido desperta. Ébrio de brutalidade, Hoffman chega a ecoar o gesto do homem que estuprara sua mulher (e que é um dos que empreendem o cerco à casa, apesar de o protagonista desconhecer o atentado), tomando-a pelo pescoço e prometendo quebrá-lo se ela não colaborar com os seus planos de defesa, abafando, assim, a voz feminina da civilização moderna.

No final do filme, após ter massacrado todos os invasores, Hoffman deixa a esposa em casa e leva de carro, até a cidade, o homem que escondia em sua residência e que o bando ensandecido queria capturar a todo custo e promover um linchamento (suposto estuprador). A última imagem, mostrando de frente, dentro do veículo, os rostos do homem e de Hoffman, este com um leve mas firme e soberbo sorriso de contentamento e de “missão cumprida”, ecoa muito ironicamente o final do popular A Primeira Noite de Um Homem (“The Graduate”, 1967, Mike Nichols), com o mesmo Hoffman contente com o ato corajoso e viril de “roubar” a noiva do altar, ambos indo embora num ônibus coletivo.

Ex-Libris: The New York Public Library

Ex_Libris_1O veterano documentarista Frederick Wiseman executa com maestria um cinema que resolve, de maneira muito estoica, a polarização teórica com que foi se pensando e fazendo a sétima arte ao longo dos seus 122 anos: seu mais recente Ex-Libris: The New York Public Library (EUA, 2017) é um filme carregado de posicionamento político e de discurso (como os amantes da semiótica adoram dizer).

Porém, seus conteúdos ideológicos aparecem muito organicamente interligados à suas escolhas formais: o que vemos não é o discurso, enquanto intencionalidade pressuposta, pressionando as imagens a partir do seu exterior – e, consequentemente, arrancando delas suas potencialidades expressivas. Esse, aliás, seria o modus operandi típico dos maus cineastas – dentro da categoria highbrow.

120635Wiseman, pelo contrário, sem se deixar iludir pela aparente ontologia das imagens, sabe que elas exercem um efeito de realidade muito forte sobre o espectador, e essa realidade é carregada (por nós) de valores afetivos. Em outras palavras, a imagem é potencialmente expressiva, e o bom diretor saberá extrair dela tal expressividade, empregando-a em favor da construção discursiva (o filme, como um todo) que deseja.

É por isso que, antes de mais nada, Ex-Libris está assentado sobre uma estrutura que não é, absolutamente, a do documentário tradicional: não há entrevistas, depoimentos, montagem com imagens de arquivo, progressão retórica  – introdução, desenvolvimento (tese, argumentação), conclusão. O filme começa ex-nihilo e termina ex-nihilo, como se fosse nada mais do que um recorte de uma realidade muito mais ampla. E aberta.

Ex_Libris_3A forma aberta, expressando um não-fechamento doutrinário dos conteúdos, é característica essencial de produções que são, apenas por preguiça, classificadas como documentários. Na verdade, o cinema de Wiseman é o do filme-ensaio: o ensaio literário / filosófico como forma poética de reflexão livre, sempre a partir da experiência / vivência, em oposição à tese / dissertação programática.

A ancoragem do pensamento na experiência sensível é ponto nevrálgico em Ex-Libris: a sua montagem cadencia, em cada cena, planos mais abertos (sugerindo a visão sociológica do todo e suas macroestruturas) e planos mais fechados (as expressões faciais e micro-reações dos indivíduos que frenquentam as bibliotecas públicas de NY, usufruem de seus acervos, serviços, estruturas, e participam de suas atividades culturais).

fcbcbff8-a93c-11e7-accd-5ad5c94fa8f5-780x439Frederick Wiseman não tem pressa alguma em deixar a expressividade vivencial escorrer como que naturalmente de cada plano: o filme é longo (mais de três horas de duração), mas não nos sentimos cansados, entediados, aborrecidos. Ex-Libris promove uma verdadeira aprendizagem do humano pelo humano, um mergulho no ser-estar no mundo, uma comunhão com o outro.

É um filme que entende o sujeito, a vida e a sociedade como processos, mais do que como produtos – fechados, consumíveis, descartáveis. A sua grande beleza está no ininterrupto devir. O filme precisa acabar, é claro, em algum momento. E acaba. Mas não termina. Assinatura estilística de Wiseman: as muitas reuniões de trabalho, filmadas em seu decorrer, recortadas de começos e fins.

daily-movies.ch-Ex-Libris-New-York-Public-Library-9E as múltiplas, diversificadas vozes, discursos, ideias e ideologias que nadam nas águas agitadas dessas reuniões: os problemas orçamentários e necessidades de financiamento, as polarizações entre mídias físicas e digitais / online (digitalização do acervo, serviços de wi-fi), o papel das bibliotecas no século XXI, a presença dos usuários sem-teto, as parcerias público-privado na gestão, etc.

Mas, e neste ponto temos o posicionamento do próprio Wiseman, no meio de todos os debates, há uma coisa apenas que não se discute, pois é ponto pacífico para todos (mesmo para os mais liberais, que defendem as PPPs): o caráter inalienavelmente público da biblioteca e sua inquestionável função social. Eis a necessária mensagem política deste filme, lição para todas as sociedades que se dizem democráticas.

004282.jpg-r_640_360-f_jpg-q_x-xxyxxPois é constante a ameaça do desmonte das instituições republicanas, a desresponsabilização do Estado (e da sociedade civil / setor privado) para com as estruturas civilizatórias, o apagamento da própria noção de público e do pensamento coletivo, voltado para o bem-estar comum. Tendo em vista o cenário político atual nos EUA (e também no Brasil), Ex-Libris serve como um sensível alerta.

Ex-Libris circulou pelas listas dos melhores de 2017 na mídia norte-americana, mas ainda não teve lançamento comercial nos EUA (e nem no Brasil); vem sendo exibido tão somente em festivais, mostras e sessões especiais. É de se acreditar que, uma vez que saia no circuito, as indicações para prêmios (incluindo o Oscar) virão em abundância. Frederick Wiseman, no alto dos seus 89 anos, é um dos maiores cineastas em atividade.

O Artista do Desastre

O que é o gênio? Força de vontade, vontade de potência? Inspiração, iluminação? Perícia, virtuosismo? Desde a geração romântica, o mundo ocidental vem se debatendo em volta dessa figura, a um só tempo ídolo e pária, mas sobretudo carregada e recarregada de idiossincrasias desconcertantes.

IMG_1423Mas vamos ficar aqui no campo do cinema: Alfred Hitchcock e Stanley Kubrick, só para trazer os dois exemplos citados por Tommy Wiseau (James Franco) para defender sua “visão” e seus métodos de trabalho pouco ortodoxos (para dizer o mínimo), neste O Artista do Desastre (“The Disaster Artist”, EUA, 2017, dir.: James Franco).

Qualquer cinéfilo diria que ambos são gênios, não? Ambos têm visão (e uma visão muito pessoal, mantendo o espírito romântico), ambos têm perícia técnica. Mas qual o elemento que Wiseau toma para si? A maneira como ambos tratavam seus atores como “gado”: a disfuncionalidade nas relações, idiossincrasia maior dos “gênios”.

Tommy Wiseau não tem perícia técnica (sequer qualquer noção da coisa) e também não tem “visão” (ele acha que tem, mas não tem). Mesmo assim, o “gênio incompreendido” se arvora orgulhosamente ao lado de Hitchcock, Kubrick, James Dean… O espectador começa a rir, com aquela típica vergonha alheia, a palavra ridículo vem à mente.

IMG_1424O ridículo é sempre ridículo aos olhos do outro. O ridículo não sabe que é ridículo. Se soubesse, não o seria; ou o seria com cinismo, autoironia – primeiro sinal, talvez, de uma intrínseca genialidade. Eu disse “intrínseca”, porque a indústria cultural – seus submundos, subprodutos – produz uma outra categoria de gênio.

Um gênio que, tal qual o ridículo, nasce exclusivamente da percepção alheia; e que, também como o ridículo, será assumido pelo próprio “gênio” após muita resistência – ou não se assumirá jamais. É o gênio ingênuo, naïf. Constrangedoramente incompetente, nas formas e(ou) conteúdos. O gênio cuja vontade de potência é inversamente proporcional às suas realizações.

A distância intransponível (em termos de: talento? perícia?) entre suas pretensões e realizações nos faz rir, às vezes muito. Mas também nos faz admirar, não sem certa condescendência piedosa, a sua vontade de potência (a essência ainda romântica de nossa cultura). O cinema de exploitation, os “midnight movies”, desde os anos 50 consagram essa genialidade.

the-disaster-artist-tda-01994_rgb_previewAqui, é claro, cabe uma diferenciação: uma coisa são os filmes B, de baixíssimo orçamento, que “fazem das tripas coração”: o talento nato, espontâneo e intuitivo de seus cineastas mais do que compensa a carência (às vezes extrema) de recursos materiais ou de formação (escolarização, experiência profissional).

Este primeiro é o caso do nosso Zé do Caixão (o internacional “Coffin Joe”): seus filmes são materialmente “ruins”, rimos da sua afetação caricata que, no entanto, se pretende séria (o ridículo); mas identificamos facilmente, nos filmes de José Mojica Marins, uma visão de cinema: inspirada, elaborada, apoiada em profundo repertório.

O segundo caso seria o de Tommy Wiseau: sua “obra-prima”, The Room (2003), é simplesmente ruim, em todos os sentidos. Mesmo assim, adoramos. Porque reconhecemos ali uma pessoa, uma “alma”, que se expõe a nu, sem medo, sem pudor: “Meu Coração Desnudado”, de Charles Baudelaire, poeta fundador da modernidade, enraizada no Romantismo.

IMG_1426Uma subjetividade quase completamente divorciada da realidade objetiva, inclusive nos aspectos mais problemáticos: o respeito, a empatia, a ética. Mas tamanho egocentrismo (egolatria), mesmo em seus elementos abusivos, não deixa de cair dentro da ideologia romântica que ainda encanta nossa sociedade e nossa arte.

A prova disso é o interesse de James Franco em contar a hostória de Wiseau e seu filme-fetiche; e a recepção positiva desta “biopic”: indicações para o Globo de Ouro (nas categorias de melhor filme de comédia e melhor ator para James Franco, vencendo nesta última), indicação para o Oscar (melhor roteiro adaptado).

Agora, a prova de resistência do artista-gênio-disfuncional-incompreendido será a sorte futura de O Artista do Desastre e do seu diretor / ator principal, após as recentes acusações de assédio e abuso sexual, que vieram à tona logo depois da entrega dos Globos de Ouro. No fundo, será a prova de resistência da ideologia romântica em face de questionamentos éticos cada vez mais preponderantes.

 

Me Chame Pelo Seu Nome

call-me-by-your-name-2A vívida beleza que se pode adivinhar por trás das camadas seculares de corrosão que velam as estátuas gregas desenterradas do fundo do mar adriático é um sinal da lição que o adolescente Elio (Timothée Chalamet) terá que aprender, ainda que a muito custo. O tempo cura, pode-se dizer; mas o titã Cronos também destrói. O que fazer? Não reprimir ou renegar a vivência presente, no que ela tenha de melhor ou de pior.

Me Chame Pelo Seu Nome (“Call Me By Your Name”, Itália / EUA / França / Brasil, 2017, dir.: Luca Guadagnino) é um filme pleno de sinais, indícios. Ainda na cena das estátuas recuperadas do fundo das águas (águas fundas = metáfora do inconsciente, suas pulsões, seus arquétipos), vemos um delicado braço de bronze (paradoxo interessante), todo corroído, que será usado em um jocoso cumprimento de mãos (gag clássica) entre Elio e Oliver (Armie Hammer).

Call-Me-By-Your-Name-1-1600x900-c-defaultA proposta é selar uma amizade para além de quaisquer males-entendidos; porém, esse braço-ruína que media o gesto conciliatório dos dois amigos-amantes também selará o inevitável distanciamento entre eles. Distanciamento que tem um nome: tempo. Braço-relíquia, evocado dos abismos do passado (memória) e das águas (inconsciente) para ensinar a Elio, filho de arqueólogo, uma lição de vida a respeito do desejo.

A mesma ambiguidade paradoxal (atração / repulsão) já estava presente no primeiro gesto-sinal de Oliver: um malicioso tapinha / princípio de massagem no ombro de Elio, repelido rigidamente por este. Não nos enganemos: o foco narrativo do filme é Elio; Me Chame Pelo Seu Nome poderia ser um capítulo de romance de formação (bildungsroman): tanto quanto uma descoberta amorosa / sexual, temos aqui um batismo de fogo existencial.

MV5BYjUyMjc4MDQtYmFiZS00MjEzLTkwZmYtMTQ5OGE5YjZlZWUxXkEyXkFqcGdeQXVyMjM4NTM5NDY@._V1_Qual o valor ontológico da experiência arrebatadora do amor-paixão, contraditória por excelência e tão efêmera? Elemento problematizador: a experiência de um amor homossexual em 1983. Mas Elio aprenderá a ser honesto consigo mesmo e com o tempo implacável, recebendo a ajuda da fonte mais improvável, mas que, assim como as esculturas de bronze, é um testemunho vindo do fundo do tempo.

Mais indícios, paradoxos: Oliver comenta as esculturas / estátuas do grego Praxíteles (séc. IV a.C.), maravilhado com a sua sensualidade, força latente, aparente delicadeza; imagens de corpos masculinos que simulam movimentos anatomicamente impossíveis, como se clamassem pelo nosso desejo. O corpo atlético de Oliver chama o desejo aos olhos de Elio e suas duas amigas.

12Chamar (vocare), último sinal: o nome, índice de existência do Eu (fenomenologia) ao reconhecimento / chamado do Outro; o nome, símbolo incorruptível do Outro aos olhos do Eu (as estátuas que resistem aos milênios). Naturalmente, na preservação-apagamento de si na experiência do amor (e na preservação desta), Elio e Oliver se chamarão pelo nome um do outro: “Me chame pelo seu nome, que eu te chamo pelo meu”.

Séries de TV são o novo cinema?

Pode não parecer, mas o crítico não escreve só para si mesmo. Também não escreve para um “público”, seja lá o que esse palavrão queira dizer. O tempero – sempre agridoce – com que muitos cronistas de cinema carregam seus textos serve mais para estimular (dizendo o mínimo) as papilas gustativas de outros críticos. De sutis alfinetadas ao combate aberto, fica instaurada a polêmica, já histórica: Cahiers du Cinéma vs. Positif (quiçá as duas maiores revistas cinematográficas de todos os tempos, onde se definiu o que entendemos hoje por crítica); Jean-Luc Godard vs. François Truffaut (cinema de política vs. cinema de poesia); Andrew Sarris vs. Pauline Kael (os dois grandes pesos-pesados do lado de cá do Atlântico), e por aí vai.

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The Sopranos

Segue um interessantíssimo exemplo – mais ou menos recente – desse tipo de debate, que lá fora é comum, executado com grande classe. No site da prestigiada The New Yorker, apareceu um artigo em que Emily Nussbaum (crítica de TV da casa) carrega orgulhosamente a bandeira da segunda “era de ouro” da TV, que teria se iniciado com The Sopranos (que estreou em 1999). Declarando como princípio – óbvio – que o crítico, seja na frente da tela pequena, seja na grande, deve apontar seus instrumentos não só para abstrações como tema, enredo e personagens, mas também para a materialidade muito específica dos recursos não por outro motivo chamados de audiovisuais, ela segue afirmando que TV é uma coisa e o cinema outra, ridicularizando o que todos querem saber: “a TV é o novo cinema?”

É verdade que as séries de TV estão ficando cada vez mais “cinematográficas”, mas ainda são produções majoritariamente coletivas, onde muita gente mete os palpites e outros dedos, por razões pragmáticas (= mercadológicas); assim, fica complicado pensar em séries “de autor” do mesmo modo como adoramos os “filmes de autor” (ainda mais os não-hollywoodianos). Nussbaum não diz que não possa haver apuro de linguagem audiovisual na TV, mas é preciso analisá-la na relação com os elementos de seu meio específico de produção, divulgação e recepção, que a autora descreverá. Sua tese é que o encanto estético puramente cinematográfico pode se sustentar nas duas horas médias de um filme, uma forma altamente concentrada; mas se for diluído nas múltiplas temporadas de uma série de TV, por anos a fio, não será capaz de tomar muito do tempo e da atenção de ninguém.

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Buffy: A Caça-Vampiros

Por isso, a TV não seria uma mídia muito favorável a diretores, mas recebe de braços abertos os roteiristas que estão trazendo consigo a nova era de ouro: daí a profundidade e complexidade de personagens, seus diálogos e suas histórias, que seguimos acompanhando com paixão folhetinesca. A crítica do New Yorker se diverte com o exemplo da série Buffy: A Caça-Vampiros (1997-2003, criada por Joss Whedon); o título do texto é, justamente: “Cahiers du Buffy”, procurando se arvorar na tradição rebelde dos críticos dos Cahiers du Cinéma nos anos 50 (Godard, Truffaut, Rohmer), que revolucionaram a maneira como se vê e se escreve sobre cinema (posteriormente, mudaram também o modo como se fazem filmes), ao enxergar autoria artística em diretores de Hollywood (Hitchcock, Ford, Hawks) até então tidos pela crítica “highbrow” como meros funcionários de estúdio.

Para Emily Nussbaum, há autoria na TV, mesmo em um “teen drama” como Buffy, mas trata-se de uma autoria diferente daquela que vemos no cinema, por ser principalmente centrada na figura do roteirista-idealizador das séries. Ela termina o texto fazendo uma provocação direta a Richard Brody, companheiro crítico na mesma revista, chamando sarcasticamente de “religião” a sua crença incondicional na política dos autores (a famosa teoria que François Truffaut desenvolveu, durante os seus anos escrevendo para a Cahiers). Brody teria dito que as imagens das séries de TV fazem os seus olhos vomitar. Nussbaum responde que ele não aprecia TV porque segue uma estética audiovisual excessivamente formalista, baseada exclusivamente no virtuosismo técnico (“craftsmanship”, palavra de conotações intraduzíveis).

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Era Uma Vez em Tóquio (1953), de Yasujiro Ozu.

Alguns dias depois, Richard Brody publica, em seu blog no portal da New Yorker, um belo texto intitulado: “Um grande filme se revela em cinco minutos”. A proposta é: assista a quaisquer cinco minutos (não necessariamente os iniciais) de qualquer filme de Welles, Kubrick, Ozu, Ford, Dreyer ou Vertov, e você terá revelada e concentrada a essência da sétima arte, em todo o seu poder de despertar encanto e amor. Para não passar a impressão de que ele é um cinéfilo fanático (e, portanto, preconceituoso para com a TV, per se), Brody aplica a mesma teoria para a literatura, música e artes plásticas. A natureza fundamental que anima uma obra de arte (poderíamos bem dizer: sua alma) está presente em todas as suas partes e elementos constitutivos, por igual, sem que haja qualquer divisão, diminuição ou resumo dessa mesma natureza. Isso é quase uma teologia.

A essência da arte é sua beleza estética, a qual não nada tem a ver com formalismo ou perícia técnica, nas palavras do crítico. Essa beleza proporciona um prazer que despertará o desejo de fruir a obra em sua totalidade, assim como outras obras igualmente belas. Mas ele não consegue ver tal beleza em séries de TV, não obstante concorde com a sua colega quando ela busca parâmetros estéticos específicos para a tela pequena. TV e cinema, enquanto formas de expressão, não podem se julgar pelas medidas uma da outra. Linguagem audiovisual, em todas as suas formas, é algo em constante construção e redefinição; o crítico deve ter a mente aberta e vanguardista dos “jovens turcos” da Cahiers du Cinéma. Brody encerra o texto com o compromisso de continuar vendo TV, à espera de algo que lhe desperte prazer estético.

Bem, o que podemos dizer a respeito? Trata-se de um debate para lá de estimulante, em um campo temático vasto e relativamente inexplorado: a fortuna crítica da televisão é ainda paupérrima se comparada à do cinema, mesmo levando em consideração a diferença de idade entre ambos os meios (é preciso lembrar, não obstante, que a TV já vem sendo levada a sério, por críticos e acadêmicos desprovidos de preconceitos, desde o século passado). Conclusões ainda levarão o seu tempo para chegar, mas podemos, enquanto isso, ir apontando caminhos, ainda que pisando em terreno pouco firme.

Parece que a TV, pelo menos no formato das narrativas seriadas, não se presta muito ao encanto do cinema que por algum tempo foi chamado de “puro” por realizadores e teóricos que, próximos à sua origem, buscavam o grande diferencial da “sétima arte” (expressão criada pelo pioneiro Ricciotto Canudo em 1912): no cinema puro, ou cinema total, as imagens (e sons) em movimento valeriam quase que exclusivamente por si sós, com pouco ou nenhum suporte narrativo; cinema-vanguarda, cinema-sinfonia (basta pensar em Dziga Vertov), cinema que é a “música da luz” (Abel Gance). Como ficaria a TV pensada e realizada segundo esses ideais? Bem, tente imaginar o delírio (audio)visual e de pouquíssimos diálogos dos 150 minutos do 2001 de Kubrick esticado pelos cerca de 2600 minutos que durou Breaking Bad: será que alguém teria a paciência, tirando os cinéfilos já iniciados?

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Berlin Alexanderplatz

No entanto, existem precedentes para uma televisão relativamente mais pura, feita por cineastas à sua própria maneira (alguém poderá objetar, com razão, que não se trata de séries, mas de minisséries, coisa que todo mundo já considera como o “filé” da TV, ou seja, investimento de retorno certo): os 910 minutos de Berlin Alexanderplatz (1980) dirigidos por Rainer Werner Fassbinder em 14 episódios para a TV alemã; os 286 minutos de The Kingdom (“Riget”, 1994 e 1997) dirigidos por Lars Von Trier em oito episódios para a TV dinamarquesa; os 550 minutos de Decálogo (“Dekalog”, 1989) dirigidos por Krzysztof Kieslowski em dez episódios para a TV polonesa. Com isso, podemos dizer que há (algum) espaço para diretores na TV, mas o mais comum são cineastas de peso que idealizam ou abraçam uma série e dirigirão – ou escreverão – apenas o primeiro episódio, ou alguns episódios-chave. Em outros casos, serão apenas produtores.

O melhor exemplo é Alfred Hitchcock, que apresentou (à moda de Rod Serling em Twilight Zone) os 268 episódios de Alfred Hitchcock Presents (1955-1962), assumindo as rédeas da direção de 17 deles. O mestre do suspense soube reconhecer, logo cedo, o potencial de expressão e divulgação da TV, além de usar a equipe técnica da série para filmar Psicose (1960). Hitchcock também foi, à sua maneira, um defensor do cinema “puro”, como podemos ler nas famosas entrevistas dadas a Truffaut. No episódio de sua série intitulado Back for Christmas (exibido em 04 de março de 1956), o cineasta dá um grande exemplo da sua arte: um homem planeja assassinar a sua esposa e cava o buraco onde pretende enterrá-la, no porão da casa onde moram. Surpreendido por ela, ele mede com os olhos o tamanho da cova, e Hitchcock nos mostra isso através de uma panorâmica subjetiva que percorre toda a extensão do buraco e vai parar no rosto da pobre mulher, parada de pé em uma de suas pontas.

Part 17
Twin Peaks

O segundo melhor exemplo é Twin Peaks (1990-1991; 2017), criada por David Lynch e dividida em 48 episódios. Ele escreveu todos e dirigiu 24. Como é comum na TV dos EUA, nos episódios que não escreve ou dirige, o criador age como revisor / orientador / parâmetro para os trabalhos, o que faz com que a série mantenha uma coerência de identidade temática / de enredo e visual. Isso vale para Hitchcock e para Lynch. De resto, outros casos que valem ser citados – na TV dos EUA: Michael Mann, que foi produtor-executivo de Miami Vice (1984-1990) e dirigiu o filme homônimo em 2006; Martin Scorsese, produtor e diretor do episódio piloto de Boardwalk Empire (2010-2014); Steven Spielberg – esse é prolífico na TV: produziu, dentre várias séries e minisséries, Amazing Stories (1985-1987), Band of Brothers (2001), Terra Nova (2011), Falling Skies (2011-2013); Robert Altman, que produziu Combat! (1962-1967), além de produzir e dirigir Tanner’88 (1988) e Gun (1997, dirigiu apenas um episódio).

Também há séries de alta qualidade que contaram com a direção de grandes cineastas em apenas alguns de seus episódios – não tendo estes qualquer papel no desenvolvimento criativo da série. Alguns exemplos: Columbo (1968-2003), que contou com Steven Spielberg (um episódio), John Cassavetes (um episódio, não-creditado) e Jonathan Demme (um episódio); Amazing Stories (1985-1987): Steven Spielberg (dois episódios), Clint Eastwood, Martin Scorsese, Robert Zemeckis, Joe Dante (um episódio cada); Twilight Zone (a segunda versão, de 1985 a 1989): Wes Craven (cinco episódios), Joe Dante, William Friedkin (um episódio cada). Vale a pena citar o caso único de M*A*S*H (1972-1983), série genial derivada do igualmente genial longa-metragem de Robert Altman (M.A.S.H, 1970), mas na qual ele não tem, aparentemente, nenhuma participação direta.

James Stewart - vertigo
Um Corpo Que Cai (1958), de Alfred Hitchcock.

Todos esses diretores se expressam, na TV, de diferentes e desiguais maneiras, se formos comparar com suas obras no cinema. O mesmo encanto que vemos no cinema de Alfred Hitchcock – aquela teoria do grande filme que se revela em cinco minutos – vemos nos episódios que ele dirigiu para a sua série de televisão. Por outro lado, é claro que o encanto do cinema hitchcockiano de Um Corpo Que Cai (“Vertigo”, 1958) é consideravelmente superior ao de Marnie, Confissões de Uma Ladra (“Marnie”, 1964), por exemplo. O consolo é que o pior filme – ou episódio de TV – de Hitchcock vence de goleada o melhor longa-metragem de, digamos, M. Night Shyamalan – visto por alguns críticos como “herdeiro” do mestre do suspense.

Sinceramente, não acho que devamos procurar na TV a mesma epifania que encontramos em um Tarkovski, Bergman, Tati, Bresson, Resnais, Pasolini ou Antonioni. Estaríamos latindo para a árvore errada. E isso não desmerece, de forma alguma, as narrativas seriadas de televisão enquanto meio expressivo, cultural, artístico. O fato é que muitos e diversos diálogos entre a tela pequena e a grande já foram travados, com benefícios para ambas as partes, e outros ainda o serão. Além do mais, como bem disse o crítico da New Yorker, a linguagem audiovisual é algo em constante mudança, em frequente reelaboração prática e teórica. Com raríssimas excessões, esteticamente a TV ainda se encontra na era da narrativa clássica de Hollywood, cujo período de ouro foi dos anos 30 aos 50.

Ou seja, um audiovisual que se pensa e se apresenta como “janela” para determinada realidade, exercitando mecanismos de identificação catártica entre os personagens, suas histórias e os espectadores, com todo o devido cuidado para que permaneçam imperceptíveis os elementos que poderiam quebrar essa ilusão e revelar ao público a artificialidade das séries enquanto discurso elaborado, recorte de mundo e persuasão quanto a pontos de vista historicamente determinados: a montagem é “invisível”, as narrativas são lineares, a “quarta parede” fica sempre de pé, etc.

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Community

Naturalmente, sempre houve e continua havendo gloriosas exceções – cada vez mais, nesta segunda era de ouro da TV: desde as alegorias dos direitos civis em Star Trek (1966-1969), passando pelo anti-belicismo da já citada M*A*S*H e pela luta de classes em Columbo (os criminosos são sempre os ricos e poderosos), até as armadilhas catárticas de Arrested Development (2003-2013), Mad Men (2007-2015) e Breaking Bad (2008-2013), além da virtuosa metalinguagem de Community (2009-2015). Mesmo assim, sentimos que a TV ainda não descobriu a fundo as vanguardas cinematográficas, a nouvelle vague, o neorrealismo italiano, etc.

Mas será que precisa mesmo descobrir? Em que medida? Por outro lado, a TV pode pensar e desenvolver suas próprias vanguardas, através de questionamentos que levem em conta seu próprio meio, questionamentos esses não iguais aos que o cinema já empreendeu, mas equivalentes; algumas séries já realizadas podem apontar caminhos: por exemplo, Lost (2004-2010) e The Office (2005-2013), que incorporam, misturam e reescrevem inversamente a lógica do reality show, da soap-opera e do documentário-reportagem.

Enfim, eu tinha dito que a TV (norte-americana) continua parada na Hollywood dos anos 50; corrijo-me: falo apenas dos melhores e sempre poucos exemplos dentre o grosso do que é televisionado – tirando também os casos ainda mais raros de séries “vanguardistas”. Quando se diz, falando da nova era de ouro, que a criatividade e qualidade do cinema de Hollywood migraram para a TV, eu entendo como: assistir a um bom seriado, hoje em dia, é como assistir a um bom filme hollywoodiano de antigamente. Mas, deixando de lado esses bons seriados, o que sobra não vale mais do que os velhos folhetins, vaudevilles e circos de aberrações do século XIX, ou ainda o “teatro filmado” dos primórdios do cinema, antes de aparecer um Griffith.

A televisão vem se tornando, sim, cada vez mais cinematográfica. Contudo, apesar dos J. J. Abrams, Vince Gilligan, Ricky Gervais, Dan Harmon, Mitchell Hurwitz e outros, a TV ainda não produziu os seus Sergei Eisenstein, Orson Welles, Roberto Rossellini, Jean-Luc Godard, etc. – pensando numa Arte que transcenda o seu próprio contexto e se iguale às grandes produções do pensamento e da sensibilidade humana, de todos os tempos. De qualquer maneira, esses gênios podem estar apenas esperando que alguma emissora leia seus roteiros e decida bancar a produção de um piloto…

Texto originalmente publicado em 2014. Revisado e atualizado para esta republicação.

10 pérolas para conferir na Netflix Brasil

Se você está procurando coisas novas e diferentes para ver na Netflix, pois já viu ou não quer ver aqueles mesmos filmes / séries de que TODO MUNDO fala, aí vão algumas dicas (todas elas estavam presentes no catálogo da Netflix Brasil em janeiro de 2018). A ordem NÃO é de preferência / qualidade:

  1. Nocturama (França / Alemanha / Bélgica, 2016, dir.: Bertrand Bonello)

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Já escrevi sobre este filme no blog, aqui.

  1. I don’t feel at home in this world anymore (EUA, 2017, dir.: Macon Blair)

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Para quem gosta do cinema indie dos EUA, este filme original da Netflix é um prato cheio. Vem com todos os ingredientes, muito bem misturados e temperados: um título longo e curioso; personagens disfuncionais; violência; humor negro; alguma dose de fofura (amizade e bons sentimentos); trilha sonora de rock / pop alternativo. A história é a de uma garota depressiva (Melaney Lynskey) que se alia a um vizinho de comportamento um tanto quanto instável (Elijah Wood) para fazer justiça com as próprias mãos, após ter sua casa invadida e furtada. Ganhou o grande prêmio do júri no Festival de Sundance, ano passado.

  1. Wormwood (EUA, 2017, dir.: Errol Morris)

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Esta minissérie em 6 capítulos, produção original da Netflix, é dirigida pelo engajado e premiado documentarista Errol Morris, de Sob A Névoa da Guerra (2003). O diretor, aqui, promove uma conexão muito orgânica entre documentário (entrevistas, imagens de arquivo) e cinema narrativo – geralmente ficcional (reconstituições dramáticas de cenas, com uma mise en scène impecável) para contar uma história / demonstrar uma tese que é uma mistura de drama shakespeariano (Hamlet) com o julgamento histórico de Martinho Lutero.

Ambas as referências pontuam em vários momentos o andamento dos episódios, reforçando a sua própria pertinência alegórica. Trata-se de um filho que investiga, com a obsessão de uma vida inteira, a morte misteriosa do pai, cientista que trabalhava em projetos ultra-secretos da CIA em plena Guerra Fria.

  1. Black Sails (EUA / África do Sul, 2014-2017, criada por Robert Levine e Jonathan E. Steinberg)

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Produção original do canal Starz, Black Sails é a narrativa audiovisual sobre piratas definitiva no século XXI. É para gente grande, esqueça Piratas do Caribe. Misturando personagens reais, lendários e fictícios, esta série prende o espectador como poucas, com uma dose exata de suspense, reviravoltas e mistérios solucionados. Sem contar o drama: sentimental, histórico, político e social. E a ação épica (é claro!). Mas vamos destacar o político-social: dos 38 episódios de suas 4 temporadas, 27 deles foram escritos ou co-escritos por roteiristas mulheres. A representatividade dentro da história é coisa rara de se ver: alta representatividade (personagens) feminina, LGBT, afrodescendente.

Tudo muito orgânico, integrado à narrativa – sem parecer forçado, didático, militante ou panfletário. A história é um prequel (adulto) para o clássico literário (juvenil) “A Ilha do Tesouro”, de Robert L. Stevenson: acompanha as aventuras do Capitão Flint e sua parceria com o pirata Long John Silver, enquanto tentam construir uma reputação nos mares violentíssiomos do Caribe do começo do século XVII. Por fim, não se assuste com o nome de Michael Bay entre os produtores; Black Sails não tem absolutamente NADA a ver com as coisas nas quais Bay mete a mão.

  1. Bone Tomahawk (“Rastro de Maldade”, EUA Reino Unido, 2015, dir.: S. Craig Zahler)

 

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Esqueça aqueles cineastas hipsters e sua mania de fazer homenagens “vintage”. Aqui, nós temos um honesto, simples e genuinamente inspirado retorno aos viscerais e ultra-violentos filmes da era do exploitation (anos 50-70, principalmente), sob o gênero do western. Filme B, de verdade, sem frescuras ou firulas, com baixíssimo orçamento. Kurt Russell interpreta um xerife que, junto de mais três homens (os quais estão longe de corresponder ao padrão de herói do Velho Oeste), tenta resgatar a esposa de um deles, sequestrada por uma misteriosa tribo de nativos canibais. É o filme de estreia do diretor S. Craig Zahler, que, em 2017, nos presenteou com mais uma pérola digna das velhas grindhouses: “Brawl in Cell Block 99”.

  1. The Bad Batch (“Amores Canibais”, EUA, 2016, dir.: Ana Lily Amirpour)

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Na entrega dos Globos de Ouro deste ano, Natalie Portman denunciou a baixa representatividade das mulheres cineastas: todos os indicados para melhor diretor eram homens. A comprovação da injustiça de que falou a atriz está neste drama / ficção científica inventivo, rico em drama e poderoso em efeitos de humanidade. Em um futuro pós-apocalíptico, o que restou de civilização se esconde por trás de muros, cercas e um governo totalitário. Os cidadãos que “não prestam” (os bad batch = “lotes avariados”) são expulsos para o deserto que domina do lado de fora, habitado aqui e ali por grupos canibais (mais uma vez, presentes nesta lista). Vem, então, uma história de amizade (amor?) entre uma exilada (Suki Waterhouse) e um antropófago (Jason Momoa). Atenção para a participação de Keanu Reeves, como um líder mafioso / religioso.

  1. Chuck Norris vs. Comunism (Reino Unido / Romênia / Alemanha, 2015, dir.: Ilinca Calugareanu)

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Este documentário saborosíssimo, repleto de boas cenas dramáticas de reconstituição (no estilo de Wormwood, já comentado nesta lista), procura demonstrar a influência subversiva dos filmes B de ação norte-americanos dos anos 80 (particularmente aqueles produzidos pelo lendário Canon Group) no enfraquecimento e eventual queda da ditadura comunista na Romênia, no final da década de 80. Pirateados e contrabandeados em VHS, com dublagem precária e divertidíssima (naquela criatividade que só a carência de recursos materiais pode trazer à tona), esses filmes clandestinos chegavam às mãos de todos e eram apreciados por todos – até pelo filho do ditador, praticamente o único que desconhecia a “rede”.

  1. Branco Sai, Preto Fica (Brasil, 2014, dir.: Adirley Queirós)

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Ficção científica brasileira – cinema de gênero feito neste país é coisa raríssima, ainda mais feito com competência e pouco orçamento. Filme independente, que cutuca feridas raciais / sociais abertas. Elementos de documentário. Fotografia belíssima – principalmente em contra-luz. Na década de 80, a polícia invade uma festa na periferia de Brasília (a cidade-satélite de Ceilândia), aos gritos de “branco sai, preto fica”. Dois rapazes negros acabam baleados. Um viajante do tempo (igualmente negro) aparece para investigar o que realmente aconteceu, pois em sua era os documentos sobre o fato são escassos, e comprovar o que todo mundo sabe, mas ninguém quer admitir.

  1. The Meyerowitz Stories (New and Selected) (“Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe”, EUA, 2017, dir.: Noah Baumbach)

The Meyerowitz Stories ainda não estreou nos cinemas

O diretor e roteirista de A Lula e A Baleia (2005) e Frances Ha (2012) molda aqui mais uma pequena joia do cinema independente norte-americano – produção original Netflix. Três meios-irmãos (Adam Sandler, Ben Stiller e Elisabeth Marvel) se reúnem para discutir os rumos da vida e da obra do pai (Dustin Hoffman), um escultor em decadência. Evidentemente, muitas questões neuróticas de família surgirão, todas trabalhadas com fino humor e sensibilidade. Atenção para a curiosíssima briga de mão entre Sandler e Stiller.

  1. Atari: Game Over (EUA, 2014, dir.: Zak Penn)

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Inacreditável documentário que conta a história de como um único jogo (ET: O Extra-terreste, lançado em 1982) quase destruiu não só o fabricante dos consoles (Atari) mas toda a incipiente indústria de videogames. Investigação de uma lenda urbana: a companhia teria sepultado, em um aterro sanitário, cerca de 3 milhões de cartuchos do jogo em questão, encalhados. Este filme e o de número 7 nesta lista levarão às lágrimas quem viveu os anos 80 na idade certa.