O Jovem Karl Marx

201719017_1_IMG_FIX_700x700O Jovem Karl Marx (“Le Jeune Karl Marx”, Alemanha / França / Bélgica, 2017, dir.: Raoul Peck), que estreia hoje no Brasil, não é daquelas cinebiografias heroicas que conquistam e engajam o espectador através do exemplo – o caráter, os atos – de seu protagonista. Não espere nenhuma hagiografia histórica do tipo – grande clássico – de A Mocidade de Lincoln (1939), de John Ford.

Para além da coragem, persistência, integridade, irreverência (lembremos de “A pobreza da filosofia”, resposta marxista ao “A filosofia da pobreza” de Proudhon) do jovem Karl Marx – em uma palavra, seu gênio, no sentido romântico do termo, com que o filme veste o personagem que muito se esforçou para enfrentar o idealismo hegeliano – o que este filme mais exibe é a força da sua palavra, escrita ou falada.

photo2Poucas cinebiografias mergulham com tanta força – e sucesso – nessa dimensão literal: outra produção recente, Além das Palavras (“A Quiet Passion”, 2016, dir.: Terence Davies, história privada da poeta Emily Dickinson), até tenta, mas não atinge mais do que o efeito de uma elegia cafona. Já o filme de Raoul Peck, cineasta que despertou todas as atenções com o documentário Eu Não Sou o Seu Negro (2016), é de um outro equilíbrio.

Peck parece querer medir, no rigor de um cientista social, a concretude de cada palavra escrita por Karl Marx com a própria realidade que estas procuram descrever e em relação à qual elas procuram tomar posição ativa. Afinal, não é à toa que o jovem filósofo se orgulha de seu hegelianismo materialista, atacando impiedosamente o idealismo de Hegel e o abstracionismo dos anarquistas (Proudhon).

jeune-karl-marxO filme põe em cena as palavras de Marx em escritos, manuscritos, discursos e debates – incluindo também as palavras da figura capital, com o perdão do trocadilho, de Friedrich Engels – sem fazer muitas concessões ao conhecimento eventualmente leigo do espectador na filosofia e incipiente sociologia de meados do século XIX. O Jovem Karl Marx não é uma cartilha, ou um manifesto.

Como um livro de ciências humanas, este é um filme que exige comprometimento (estudo) e honestidade intelectual. Mas isto só revela a seriedade da sua proposta: em tempos de aventureiros de toda sorte, terra-planismos, “alt-right”, (neo)liberais boçais que nunca leram Adam Smith e teóricos das conspirações do “marxismo cultural”, um filme como este ajuda a pôr as coisas (e cada um) em seu devido lugar.

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