Mr. Robot

Mr-RobotMr. Robot arrasta para o meio do pátio e ateia fogo à dependência de “sistemas” na qual nós, a sociedade “globalizada”, viemos nos afundando como junkies desde que se decretou o “fim da história”. A série faz isso com toda a carga provocativa que muito bem nutriu a geração criada à base de Matrix e Clube da Luta. E o que é melhor: sem a fantasia nem a pretensão dessas duas auto-proclamadas pièces de résistance de fin de siècle. E também sem aquele tom de “crítica social foda” a partir do qual se compõe o canto de sereia pós-tudo conhecido como Black Mirror.

O melhor de Mr. Robot é isso: o ar low-profile que a série vem mantendo, até o final desta 3a temporada; mesmo com todo o pedigree temático e ideológico do seu discurso, mesmo com o domínio preciso e aplicação pertinente de uma estilística cinematográfica avançada; mesmo com os Globos de Ouro e Emmys ganhos. Não deixa de corresponder, poeticamente, à personalidade de seu personagem principal, o hacker Elliot Alderson – pelo menos, em alguns aspectos daquela. O espectador não espere, aqui, a gourmetização das séries da HBO. Mr. Robot é papo reto.

mr-robot-agambiarra-1170x480Mr. Robot vem mantendo, desde o início, um tom esquivo de autoironia – e um tanto de desbunde – típico de produções B, arejando muito agradavelmente a experiência de acompanhar a série. Neste ponto, a mise en scène corresponde exatamente aos monólogos (pseudo-diálogos) de Elliot, quando este se dirige ao seu amigo imaginário – no fundo, sabemos que somos nós, os espectadores: para o esquizofrênico protagonista, a sua realidade é tão “real” quanto a construção narrativa de uma série de TV ficcional.

De maneira mais adulta e cinematográfica do que Matrix, Mr. Robot se aproveita da filosofia pós-estruturalista (“Simulacro e Simulação”, Jean Baudrillard) não só nos conteúdos críticos da série, como também na organização de sua própria forma: a sua narrativa vai se estruturando a partir de questionamentos da própria instância narrativa e do(s) narrador(es). Os conflitos entre os personagens são, na verdade, disputas por narrativas (dominantes), fato social atualíssimo neste começo de século.

rami-malek-and-christian-slater-in-mr-robot-season-2Eis os agentes: o heroísmo anarquista dos hackers (contracultura, cibercultura), os planos de manutenção do poder pelas grandes corporações; a disputa desse mesmo poder por grupos igualmente poderosos, mas de ascensão recente (principalmente não-americanos), a simulação da democracia, o papel (narrativo) da mídia, etc. O sequestro e deformação de narrativas de uns agentes por outros é fato sistemático aqui e vai organizando as reviravoltas que trazem gosto e suspense para uma boa série.

Não é à toa que Whiterose, um dos agentes mais poderosos aqui, é um personagem tão preocupado com o (controle do) tempo: a boa administração e condução das temporalidades é fundamental para a progressão de uma narrativa. Mas é claro que sempre haverá areia nessa engrenagem, e a maneira como a série brinca – em um episódio desta 3a temporada – com a montagem paralela de Griffith (recurso fundador da construção narrativo-temporal no cinema) simboliza, na própria encenação, o discurso pós-estruturalista adotado como norte ideológico de Mr. Robot.

Mr-ROBOT-1Outro elemento bastante pós-moderno é a fluidez – e eventual choque – de identidades: praticamente todos os personagens apresentam uma construção identitária complexa, contraditória e cambiante, sabotando no espectador o conforto clássico das catarses e dos valores (éticos, morais), reforçando os efeitos de simulacros e simulações. A série chega mesmo a aproveitar alguns elementos manjados do melodrama folhetinesco, mas jogando-os no maelström das desconstruções que arrasta tudo em Mr. Robot.

Mr. Robot não é um programa facilmente impressionável, porque não procura sê-lo. Sam Esmail, seu criador, principal roteirista e diretor, não quer saber de efeitos fáceis, pelo bem (The Hamdmaid’s Tale) ou pelo mal (Black Mirror). Por isso, esta série não é e nem virará hit (apesar da premiação já conquistada). Sua complexidade temática e estilística apresenta-se de modo introvertido como seu protagonista. Mas é dessas correspondências mais veladas, que exigem um olhar mais atento, que o grande cinema se faz.

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