adaptando The Handmaid’s Tale

O texto abaixo contém spoilers.

the-handmaids-tale-600x300Não vou aqui discutir teorias gerais de adaptação da literatura para o cinema (no caso, TV); também não vou fazer uma resenha completa da série em questão a partir do livro que a originou. Quero apenas lançar uma proposta para reflexão, a partir de um problema bastante específico que me incomodou muito, ao ler o romance depois de ter assistido à 1a temporada da série.

Em The Handmaid’s Tale (TV), a catástrofe “natural” que serve de incentivo à instauração da implacável teocracia que transformará os EUA em Gilead afeta a população humana em uma escala aparentemente global e multiétnica. É só lembrar o episódio em que a delegação “comercial” do México revela o seu real interesse no grande “produto” de exportação de Gilead: as cabisbaixas “aias”.

the-handmaids-tale-s01e10_00001Em O Conto da Aia (romance), a diminuição epidêmica da taxa de natalidade afeta exclusivamente as populações caucasianas, predominantes nos países – desenvolvidos – do hemisfério norte (a hipótese é de que tenha sido provocada precisamente por fatores de industrialização e consumo: alimentos refinados, poluição, radiação, etc.). Isso dá uma outra dimensão para a alegoria política desta ficção especulativa (como prefere a sua autora, Margareth Atwood, em detrimento do rótulo de “ficção científica”).

E faz com que o golpe de estado e a consequente ditadura de Gilead adquiram motivações claramente racistas e econômicas, para além das generofóbicas, homofóbicas e de fundamentalismo / intolerância religiosa. Em tempos de recrudescimento da “White Supremacy” nos EUA (apoiada, inclusive, pelo próprio presidente do país) e do isolacionismo econômico, O Conto da Aia – publicado originalmente em 1985 – continua sendo uma obra inapelavelmente necessária.

maxresdefault (1)Mas nada disso aparece na TV. Por que? Para que acrescentar esse plot da delegação mexicana? Apenas para evitar – tendo em vista o alcance massivo e internacional da TV enquanto mídia – interpretações “anti-americanas” e “anti-capitalistas”; ou seja, os países ricos e sua etnia dominante não são, fundamentalmente, os “vilões”? Homens cis e héteros podem ser maus; mas não homens brancos, homens ricos?

A crítica já elogiou muito esta adaptação de O Conto da Aia em seu diálogo crítico com os EUA atuais. Mas, em um aspecto, a série deixou a desejar. E, infelizmente, trata-se de um fator dos mais essenciais, que não se pode simplesmente deixar de lado dessa maneira. Robert Stam, importante pensador contemporâneo das relações entre literatura e cinema, em um estudo sobre os processos de adaptação, aponta para os casos de “desenvolvimentos desiguais”.

33239Há filmes que puxariam o romance original mais para a “esquerda”, em alguns elementos (por exemplo, classes sociais); porém, em outras questões discursivo-ideológicas, um mesmo filme poderia arrastar a obra literária na qual se baseou para a “direita” (por exemplo, gênero e etnia). No caso de The Handmaid’s Tale, a série e o livro apresentam, no geral, discursos bastante afinados um com o outro.

Mas, quanto aos elementos de racismo e de classe (pensando na relação econômica entre países) presentes na história original, estes foram cirurgicamente extirpados na adaptação. Seria esta uma puxada à “direita”? O próprio Robert Stam, falando do modus operandi industrial de Hollywood, descreve alguns procedimentos que ficamos tentados a aplicar nesta interpretação de The Handmaid’s Tale, com o prejuízo da força subversiva presente em O Conto da Aia:

O objetivo parece ser “desliteralizar” o texto, uma vez que o romance passa por uma máquina de adaptação que remove todas as excentricidades autorais ou os “excessos”. A adaptação é vista como uma espécie de purgação (grifo meu).

Mas enfim, não fecho (ainda) com teoria alguma. Apenas fica lançada a hipótese.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s