Nocturama

Entronchados no coração de Paris

I whip my hair back and forth
I whip my hair back and forth
I whip my hair back and forth
I whip my hair back and forth
I whip my

Hop up out the bed turn my swag on
Pay no attention to them haters cuz we whip em off
And we ain’t doing nothing wrong
So don’t tell me nothing, I’m just tryna have fun
So keep the party jumping

nocturama-leadAí está um pedaço da letra de “Whip my hair“, cantada por Willow Smith, filha de Will e Jada Pinkett Smith. A música toca no momento-chave de Nocturama (idem, França / Alemanha / Bélgica, 2016, dir.: Bertrand Bonello): os jovens “terroristas” que acabaram de cometer atentados múltiplos e simultâneos ao redor de Paris decidem se entronchar dentro de uma loja de departamentos, onde passam a madrugada acompanhando o desenrolar dos acontecimentos na mídia.

Um deles faz questão de colocar a música acima para tocar bem alto em um aparelho de som, enquanto assiste aos noticiários. A letra condensa de maneira bastante explícita a personalidade e a visão de mundo desses jovens (alguns deles, nitidamente adolescentes), que o filme apresenta como representantes típicos da geração millenial: uma petulância leviana, volúvel, vulgar. A narrativa não se preocupa muito em colocar os motivos da ação supostamente terrorista deles; porque não os há.

nocturama-1Se há algum motivo, este é insignificante – analisado de um ponto de vista exterior a esses personagens. Estamos muito longe aqui da rebeldia aparentemente sem causa dos anti-heróis pós-românticos de um Kubrick (Laranja Mecânica, 1971), apropriando-se sarcasticamente dos símbolos da sociedade de consumo – sabendo-se eles mesmos frutos podres dessa mesma sociedade – e vandalizando-os com uma visceralidade dadaísta, fritando a si próprios e ao “corpo” social em curto-circuito.

Também já passou o tempo do niilismo severo e do sadismo calculado dos “delinquentes” de Violência Gratuita (Michael Haneke, 1997). Os criminosos de Nocturama não passam de uns pobres-diabos, crianças (mal)criadas por pais ocupados demais: a maneira desajeitada como “brincam” com os diversos objetos-fetiche de consumo dentro da loja lembra o aspecto constrangedoramente ridículo de uma criança – digamos, uma menina – que põe o batom, saltos altos e joias da mãe para brincar de “femme fatale”.

nocturamaEm uma palavra, é tudo muito patético: inadequado, inapropriado, ao ponto de provocar tristeza e compaixão pela absoluta falta de consciência, falta de noção, daqueles jovens em relação às suas escolhas, ações e consequências. São uns infelizes, no sentido coloquial de insulto patético que damos ao termo. Apesar da intencionalidade forte nesse retrato social, o filme falha – e falha grandemente: o estetismo “cool” da mise en scène fica bem esquisito junto do pobre-diabismo desses personagens.

Não creio que Bertrand Bonello queira simplesmente aderir – com empatia acrítica – à trupe. Especulação: o cineasta quis manter o necessário distanciamento “sociológico”, ao mesmo tempo que procurou aproximar-se, humanamente, dessas crianças e de sua visão (daí o “cool”). Mas errou um pouco a mão, o tom do filme é desequilibrado: que tal se adotasse um discurso mais irônico, farsesco, de tragicomédias sutis como Bom Comportamento (“Good Time”, 2017, dos irmãos Safdie)?

—–

nocturama_05P.S.: Nocturama está na lista dos melhores filmes de 2017 da revista norte-americana Film Comment: ficou em 5o lugar (colocaram Bom Comportamento em 1o). Nocturama passou reto pelos cinemas brasileiros, indo parar diretamente no Netflix (onde continua presente até o momento da publicação deste texto).

Um comentário em “Nocturama

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