Manifesta

O blog Sombras Elétricas começou no dia 01 de setembro de 2006, com um pequeno texto-proposta que, na ingênua ambição da sua juventude, pretendia se fazer de manifesto de crítica cinematográfica. Em 11 anos e 3 meses, muita coisa mudou na cabeça do seu autor, é claro. Porque muita coisa mudou na vida e muita coisa mudou no mundo.

Mas, inspirado pelo poeta Drummond (“fica sempre um pouco de tudo. / Às vezes um botão. Às vezes um rato.”), quero tentar recolher alguns botões – ou ratos – que tenham sobrado do entusiasmo inicial que pariu o blog, costurando-os a peças de roupas que, hoje, quase que não tiro sequer para lavar. Não sou bom com agulha e linha; portanto, não repare se tudo ficar meio pendurado, meio frouxo:

1 – O mais importante, na crítica de cinema, é a impressão, pelo mesmo motivo que o café da manhã é a refeição mais importante do dia.

2 – As imagens em movimento são assombrações: a poesia da expressão “sombras elétricas” (China, início do séc. XX) presta maior serviço à arte do que nomenclaturas racionalizantes com sua etimologia grega (cinematógrafo).

3 – O cinema não é a maior das artes; não existe nenhuma arte que seja a “maior”; mas todas as outras artes encontram alguma síntese no cinema.

4 – O cinema é discurso, todo discurso é historicamente determinado e toda história é múltipla, contraditória, efêmera. A ontologia da imagem ficou obsoleta.

5 – Por outro lado, é insano desprezar o efeito de realidade com que os dados da experiência nos golpeiam o tempo todo, atirando-nos ao chão.

6 – A maria-fumaça dos irmãos Lumière perdeu o trem: o cinema, hoje, está na TV, Youtube, Netflix, smartphones, etc. E também, é lógico, no cinema.

7 – A crítica de cinema também não pode ficar para trás: mídia impressa, contrato de trabalho, “cotação” de filmes (com estrelinhas, notas, etc.), resenhas escritas dentro dos cadernos de caligrafia que são os manuais de redação, cuidado com tudo isso.

8 – Que tal o crítico começar a prestar atenção em: mídia alternativa, independente e colaborativa, veículos virtuais (blogs, naturalmente; mas também redes sociais), escrita mais ensaística, desapego em “avaliar” um filme, etc.?

Enfim, acho que é isso o que vem logo de cara à cabeça. Não quero também ficar pensando muito nisso. Daqui a 11 anos e 3 meses a gente vê o que ficou.

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