O Nó do Diabo

o nó do diabo 2O cinema brasileiro tem uma longa história de expressões alegóricas da nossa realidade social tão particular. Desde o Cinema Novo: alegorias da revolução, veja-se Deus e O Diabo na Terra do Sol, do Glauber (1964); passando pelo Cinema Marginal e o Tropicalista: alegorias da repressão e do subdesenvolvimento, vejam-se O Bandido da Luz Vermelha, do Sganzerla (1968) e Brasil Ano 2000, de Walter Lima Jr. (1969); além, é claro, da  transição entre os dois momentos / movimentos: Terra em Transe, também de Glauber Rocha (1967); até chegar às tensões de classe alegorizadas no cinema da retomada de O Invasor, de Beto Brant (2002).

E esse discurso alegórico de fundo político-social sempre flertou com fórmulas de gênero, posto que com intenções algumas vezes vezes satíricas / paródicas. A nossa “incompetência criativa em copiar”, na epifânica expressão de Paulo Emílio, é o que sempre definiu o alcance e o limite da produção nacional. Mas o desenvolvimento das condições materiais, das políticas públicas e a consequente expansão – de filmes e de público – após a Retomada (1994) permitiram que se começasse a brincar de cinema de gênero mais a sério e sistematicamente no Brasil, atingindo o (talvez) ápice nos dois Tropa de Elite (2007 e 2010), de José Padilha.

o nó do diabo 3Agora, por fatores que ainda precisam ser mais investigados, temos visto um boom de filmes de horror / terror com fortes intencionalidades de comentário social. Talvez inspirados pela marcha tenebrosa dos acontecimentos políticos no país desde o golpe branco de 2016 (Gabriela Amaral Almeida declarou que fez O Animal Cordial, em 2017, sob forte raiva do processo de “impeachment” da presidente Dilma Rousseff), ou pelo despertar internacional do cinema de terror reflexivo e engajado do “elevated horror” (Ari Aster, Robert Eggers, Jordan Peele), o fato é que vêm brotando em território brasileiro longas-metragens cada vez mais assustadores e ambiciosos.

Assim, entusiasmado pelas qualidades de A Noite Amarela e, principalmente, intrigado pelo potencial não-realizado nesse filme, fui atrás da produção anterior – e filme de estreia – do diretor Ramon Porto Mota: O Nó do Diabo (2017). Na verdade, é uma obra colaborativa da produtora / coletivo Vermelho Profundo: dividida em cinco segmentos / episódios escritos por Mota e dirigidos por ele mesmo (1ª e 5ª partes) e por outros cineastas amigos (Gabriel Martins, Ian Abé e Jhésus Tribuzi), a fita traça uma semi-história fantasmagórica da escravidão e do racismo estruturais neste país. Apesar de algumas e compreensíveis inconsistências aqui e ali, o resultado geral é muito bom.

o nó do diabo 6Os segmentos giram em torno de uma casa grande de fazenda e seu decrépito proprietário, Sr. Vieira (Fernando Teixeira), em cinco momentos históricos diferentes. No 1º momento (2018), o casarão – igualmente decrépito – encontra-se vazio e ameaçado de ocupação por uma comunidade suburbana (favela) que já chegou quase aos seus portões. O Sr. Vieira contrata, então, um (ex-?)policial para afugentar os “invasores”, sob um discurso descaradamente racista, mesmo que seja com a força das armas de fogo. Enquanto vigia, o jagunço se refestela em programas de rádio reacionários / sensacionalistas que só fazem por propagar aquele discurso de ódio e incitação à violência que hoje são oficiais neste país.

No 2º momento (1987), vemos um casal de trabalhadores negros pedir (e conseguir) emprego na casa, já bastante decadente, mas cujos entornos ainda são plenamente rurais. Logo perceberão que não são mais trabalhadores espoliados, mas sim escravos propriamente ditos. O 3º momento (1921), apesar da inversão temporal, traz uma intensificação angustiante do trabalho análogo à escravidão exercido por pessoas afrodescendentes. O 4º e o 5º momento (1871 e 1818, respectivamente) se passam, logicamente, durante o período escravocrata e trazem, de maneira bastante enfática (especialmente o último) a ideia de resistência e de luta representada pelos quilombos.

o nó do diabo 4As sugestões alegóricas são montadas sobre dois eixos, principalmente: 1. a permanência temporal da casa e do seu proprietário; 2. o encadeamento dos tempos históricos em sentido inverso. No primeiro, há uma diferenciação interna e significativa: a casa se mantém, mas com estigmas claros de aviltamento, seja proposital (os pichos que o jagunço tenta apagar inutilmente, como um Sísifo pós-moderno), seja natural (envelhecimento causado pelo tempo e pelas intempéries). Já o caquético latifundiário, por sua vez, tem a aparência imutável de uma múmia amaldiçoada, preservada em puro ódio racial. Os seus gestos e discurso ajudam a completar, muito coerentemente, a figura.

Juntos, propriedade e proprietário – devidamente reificados, particularmente este último – podem representar a homogeneidade da História (Walter Benjamin), conforme narrada do ponto de vista dos “vencedores” na teleologia de um “progresso” positivista que, por trás de aparentes ou parciais avanços, esconde a manutenção da barbárie (apesar da nostalgia ressentida do proprietário, nos tempos modernos, ao relembrar a época em que os negros “sabiam se colocar no seu lugar”, o racismo e formas de trabalho análogas à escravidão são tão permanentes quanto a Casa Grande e o seu dono). Tempo homogêneo esse que se esforça, sem descanso, por apagar a existência e a memória do contraditório.

Credito: Vermelho Profundo/Divulgacao. Filme O no do diabo.A História oficial caminha “para a frente”, mas não se livra de causar a impressão de que não caminha, de que se mantém estática, conservada. Por isso, a decisão de Ramon Porto Mota em acorrentar os diversos tempos históricos na direção contrária ao normal ganha a força da expressão (palavra de ordem) benjaminiana: “escovar a História a contrapelo”. Assim, ao longo de dois séculos (2018-1818), rompe-se com a cadeia lógico-causal positivista dos acontecimentos, propondo uma outra relação entre estes, a partir de outras vivências, outros lugares históricos, outros pontos de vista. O que se busca são associações: a empatia do pensamento analógico.

Destacam-se momentos únicos, espalhados na extensão da escala temporal, que compartilhem de uma equivalência significativa – são momentos de resistência, de luta, em que a potência fantasmática de uma outra memória se anuncia, para assombro dos grileiros e latifundiários da História. Esses momentos (re)lembrados operam como gatilhos que despertam e disparam as consciências dos povos espoliados, conclamando-os à ação que interrompe a marcha avassaladora do tempo homogêneo. Essa possibilidade de ação está dormente no 1º episódio, em 2018 (quando os latifúndios do ódio parecem ser inelutavelmente vencedores).

o nó do diabo 7Mas é a partir daí que se orientará o discurso propositivo do filme, concluindo com o anúncio da revolta em 1818 (que vale, neste final, como uma incitação revolucionária para os dias de hoje), como que querendo dizer: no passado, já enfrentamos as mesmas coisas, e resistimos; resgatemos essa memória como inspiração e energia para uma nova luta; joguemos areia na máquina da História. Tal é o teor da estrutura e da proposta alegórica de O Nó do Diabo, que é manifesta aqui em um enredo, personagens e decupagem nitidamente diretivos, sem qualquer ambiguidade para além do estritamente necessário a uma leitura simbólica determinada e unívoca.

O defeito é aquele típico das efabulações alegóricas medievais, que motivou críticos e teóricos a rejeitarem quase em bloco o valor literário da alegoria, até a reabilitação empreendida por Walter Benjamin, em uma época (década de 1930) que sofria uma escalada da barbárie equivalente ao que vemos hoje em dia. Tal defeito é um desequilíbrio: o significado alegórico que acaba tendo maior valor, na estrutura da obra, que o referente imediato desta, mero corpo possuído pela alegoria. Os personagens e histórias contadas nos cinco episódios têm pouco peso dramatúrgico em si, servindo apenas de funções ou veículos para a comunicação de uma ideia por trás.

o nó do diabo 1É a mesma limitação que encontramos em A Noite Amarela; porém, comprometendo menos o conjunto do filme (talvez porque os conteúdos da mensagem, em O Nó do Diabo, sejam menos abstratos e difusos: trata-se de questões sociais e históricas bastante concretas e localizadas). De qualquer maneira, Ramon Porto Mota parece ter muitas e interessantes coisas ainda a dizer, e plenas condições de fazê-lo. No podcast Saco de Ossos, ele disse que seu próximo projeto é uma mistura de Deus e O Diabo na Terra do Sol e Army of Darkness. Ficaremos ansiosos no aguardo.

A Noite Amarela

a noite amarela 1Antes de mais nada, é louvável a atmosfera de horror / estranhamento alcançada em cada plano de A Noite Amarela (Brasil, 2019), misturando elementos do macabro e do surreal, dentre os quais a trilha e efeitos sonoros são dotados de uma propriedade evocativa de gelar a alma. Ainda mais louvável é a aplicação dessa atmosfera dark a um cenário caracteristicamente tropical / paradisíaco: praias, coqueiros, aquela brisa de verão que quase sentimos na pele.

Cor local, terror local. Tropicalismo gótico? O bramido oceânico das ondas quebrando na praia, submergidas na escuridão total ou quase total, traz sugestões de um horror cósmico (Lovecraft) que poderiam ser um pouco mais exploradas neste segundo longa de Ramon Porto Mota (o primeiro é o também terrorífico O Nó do Diabo, de 2018). Mas aqui chegamos, justamente, nas suas frustrantes limitações.

A030_C019_0812P9A premissa do filme é estimulante: a complicada teoria das “fotografias quânticas” (real, a partir de uma cientista brasileira) pode dar muitos frutos a uma imaginação fertilizada por clássicos do horror, da ficção científica ou mesmo do cinema experimental (alguém pensou no David Lynch de Twin Peaks?). Mas também é necessária uma aplicação ao trabalho do roteiro, com bastante paciência e cuidado.

Aplicação essa que A Noite Amarela fica devendo. A atmosfera narrativa é muito bem construída, plano a plano, como já dissemos. Mas fica em falta a própria narrativa. Pelo menos, uma narrativa minimamente consistente. É claro que nem tudo precisa ser explícito e linear. Muitos e importantes efeitos são atingidos através de elipses, sugestões, com embaralhamentos imprevisíveis de tempos, espaços e personagens, tanto por causa da premissa “quântica” da história. Não se trata de defender, por princípio, métodos de representação tradicionais.

a noite amarela 3Mas mesmo a falta de lógica há de ter alguma lógica, critério, coerência dentro da incoerência. Bem ou mal, esperamos que a narrativa (já que é uma narrativa, não é mesmo?) entregue o que prometa, mesmo que a promessa seja pouca e louca, para que o espectador mergulhe efetivamente na “verdade” da representação (supondo que esta seja mais do que um esboço e mesmo que questionadora dos próprios pressupostos: a verdade da mentira) e na verdade dos personagens (supondo que estes devam ser mais do que funções ou papéis: pessoas, ainda que dotadas de atributos distantes da “normalidade” e do previsível, segundo categorias narrativas conservadoras).

Há pontas que, ao ficarem soltas, sem resolução, sequer um progresso suficiente, causam impressão antes de uma carência de coesão (e coerência) do que de um pretenso experimentalismo / vanguardismo parcamente metafórico e iconoclasta de métodos. O que sobra é aquele efeito péssimo de a realização ficar aquém das intenções. A Noite Amarela demora demais a entrar nos eixos e, quando começa a entrar, perde-se um tempo tenebroso em um longo flashback sem muita função narrativa, lírica, dramática ou argumentativa reais, com personagens mais mal-construídos do que desconstruídos.

a noite amarela 4Daí, o filme parece querer “correr” para terminar logo, (mal) resolvendo tudo de modo sumário (não é sugestivo / elíptico; é sumário mesmo). A impressão que fica não está muito distante daquela das temporadas finais de Lost (2004-2010). O conjunto acaba confuso, subdesenvolvido, frustrante, apesar da premissa até ótima. Mas, retomando outro elemento da mecânica quântica, em algum universo possível existirá umA Noite Amarela que tenha conseguido sair uma obra-prima. Valeu.

Abe

abe 1Abe (Brasil / EUA, 2019) é um saboroso feel good movie: aqueles filmes feitos para a gente se sentir bem, apesar de todos os problemas individuais e coletivos. Forte candidato a clássico da Sessão da Tarde daqui a alguns anos. O seu franco otimismo e pragmatismo em relação a temas graves (preconceitos étnicos / culturais / religiosos, a partir dos conflitos entre Israel e Palestina) pode carregar algo de Frank Capra.

Mas o imenso e acidentado terreno em que se move guarda características muito peculiares ao século XXI, e o diretor e co-roteirista Fernando Grostein Andrade (do seminal documentário, para o bem e para o mal, Quebrando O Tabu – 2011) poderia facilmente ser acusado de, mais do que ingenuidade, certa leviandade no tom e no trato. A história é a do jovem herói americano à lá Karatê Kid.

abe 2Abe (Noah Schnapp, o Will de Stranger Things) é um pré-adolescente de ascendência judaico-israelense e muçulmano-palestina que nutre uma paixão obsessiva pela culinária. Como todo bom millenial, mantém um diário constante nas redes sociais e cultiva com grande facilidade um autodidatismo via web. Mas é terrivelmente pressionado pelos avós, maternos e paternos, a “escolher” uma identidade étnico-religiosa.

O pai, por sua vez, tenta coagir o menino a manter-se “laico” (american brooklyn, como o próprio Abe se define), enquanto a mãe tenta equilibrar todas as forças em jogo. O jovem aspirante a chef, então, começa a bater asas para um pouco mais longe de casa e conhece o chef brasileiro Chico (Seu Jorge), radicado em Nova York e fazendo sucesso, a quem perseguirá para tentar fazê-lo seu mentor.

abe 3Naturalmente, complicações e conflitos surgirão, mas sempre mantendo o tom do drama leve misturado à comédia sensível. E com o indefectível final feliz, conciliador. Pode ser interessante pensar em Abe como uma versão infantil ou feel good de Sinônimos (ambos exibidos nesta última Mostra de cinema de SP): nos dois longas temos jovens que se debatem para livrar-se das amarras da identidade e da ascendência.

Mas aqui, o que realmente pode incomodar é o tom um tanto quanto forçosamente conciliatório. Para além da necessária defesa da tolerância e da integração pacifista, sentimos aqui aquela postura tipicamente “isentona” da teoria dos “dois demônios”: os dois lados cometeriam exageros, toda radicalização é perigosa, toda “polarização” é execrável e deve ser exemplarmente higienizada.

Abe - PosterPosicionamento esse que parece ser oficial da organização que se tornou o “Quebrando O Tabu” (basta pensar na desconcertante conversa “amiga” entre os deputados Marcelo Freixo e Janaína Paschoal). E é dentro desse fator de negligência dos elementos históricos, políticos e efetivamente sociológicos que Abe acaba reproduzindo – ainda que sem perceber, ou segundo a “melhor” das intenções – o velho mito racista do magical negro.

Também está presente o arquétipo do velho sábio, que podemos identificar na relação entre Abe e Chico. A figura deste é investida de algum empoderamento (não vemos aqui a autoabnegação e auto-sacrifício do “magical negro” tradicional; pelo contrário até: Chico age como um professor / mestre implacável, promovendo com dureza um choque de realidade ao menino branco e de classe média).

Mesmo assim, não conseguimos sacudir das franjas do nosso pensamento certa impressão de que se conta, mais uma vez, aquela mesma história de um personagem negro que está lá tão somente para servir de escada para a escalada e o irreprimível brilho do homem branco. Pessoalmente, não me agradam leituras fílmicas “armadas” até os dentes; por outro lado, não tem mais cabimento (simples assim) aquela ingenuidade e “pureza” à lá Frank Capra.

Sinônimos

Synonymes-Film-2019Sinônimos (2019, França / Israel / Alemanha) oferece ao espectador a experiência de mastigar um pedaço de carne crua, de algum animal recém-eviscerado. É um filme de digestão difícil, agressiva. No entanto, isso não evidencia uma inquestionável qualidade – apesar do Urso de Ouro recebido no Festival de Berlim este ano. A olhares não facilmente encantados, o filme do diretor israelense Nadav Lapid (realizador de Policeman – 2011; e The Kindergarten Teacher – 2014) poderá incomodar com a mão pesada do seu caráter discursivo: a vontade de impor uma tese, nem que seja pela força do grito.

Mas compreende-se a intencionalidade, tendo em vista que se trata de uma história autobiográfica centrada nas sempre difíceis questões de identidade étnica / nacional / religiosa, tanto mais que estejam relacionadas à imigração. Especificamente: um jovem que deseja livrar-se por completo de sua origem judaico-israelense, arremessando-se violentamente para dentro da sociedade (e identidade) franco-europeia, a qual se mostra receptiva como uma sereia a cantar para a incauta tripulação do Odisseu: com requisitos, limites e interesses inegociáveis, além – é claro – de consequências imprevistas.

sinonimos 3A crueza (crueldade) do roteiro manifesta-se na ausência quase total de dispositivos que permitam qualquer condescendência ou identificação mais aprofundadas com o protagonista. O jovem Yoav (Tom Mercier) está longe de ser apenas vítima da “sociedade”, automaticamente digna de nossa simpatia e apoio. Tampouco é louvável o casal de amigos / amantes franceses que o “acolhem”. Depreende-se, a partir de entrevistas dadas pelo diretor, que o propósito bastante pessoal deste filme foi o de “exorcizar” o próprio passado, junto das escolhas impensadas e extremistas que seriam típicas da juventude.

O formato igualmente “cru” da fotografia (16mm / digital) contribui também para o efeito de soco-na-boca-do-estômago de Sinônimos. De Israel, Lapid esculhamba o militarismo e a masculinidade tóxica: o “clube da luta” organizado por brutamontes do serviço secreto dá o tom. Da França, o cineasta debocha daquele tradicional-modernoso estereótipo do casal jovem e descolado, que leva um “terceiro elemento” para dentro da relação: caricatura impiedosa da jouie de vivre parisiense já bastante explorada, de Truffaut (Jules et Jim – 1962) a Bertolucci (Os Sonhadores – 2003).

sinonimos 1A denúncia social feita em tom naturalista e sem concessões, a partir de protagonistas de ação profundamente contraditória entre o crime e a revolta visceral (mal podem ser chamados de anti-heróis), pareceu matizar as principais premiações cinematográficas europeias este ano: além de Sinônimos (Urso de Ouro em Berlim), tivemos Parasita (Palma de Ouro em Cannes) e Coringa (Leão de Ouro em Veneza). O filme de Nadav Lapid está sendo exibido na 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, com estreia prometida no circuito comercial já para o próximo 21 de novembro.

Greta

greta 1O filme Greta (Brasil, 2019), longa de estreia de Armando França, é uma necessária atualização dramática da comédia teatral intitulada Greta Garbo, quem diria, acabou no Irajá!, escrita por Fernando Mello e sucesso nos palcos dos anos 1970, apesar da mutilação imposta pela censura. Necessária porque o deboche, nesta história de amor, solidão e identidade LGBT, feitio das narrativas transgressoras dos anos de chumbo (marginais ou de exploitation / pornochanchadas), não casa bem com os fatos e as consciências contemporâneas (o Brasil é o país que mais assassina pessoas trans).

A curtição e o desbunde ainda podem ser (e são) posturas iconoclastas de enfrentamento e resistência. Mas o cinema brasileiro dos últimos 20 anos já amadureceu e ultrapassou – graças a Deus! – aquele Naturalismo caricato e misantropo de diretores como Cláudio Assis (Baixio das Bestas, 2006) e Heitor Dhalia (O Cheiro do Ralo, 2006). Naturalismo esse que já contaminava a peça de Mello: o apartamento do protagonista Pedro é descrito como “o barroquismo da cafonice”. A patrulha do politicamente incorreto pode chiar, mas as vidas LGBT não são mais somente objetos de teses positivistas / deterministas.

greta 2No filme de França, não há nada de cafona. E o barroco da fotografia fortemente contrastada de Ivo Lopes Araújo está tão somente a serviço (dos extremos) do drama que se tensiona no claustro de espaços pequenos, fechados e escuros: a existência e o amor LGBT ainda não conquistaram seu lugar ao sol. Na cultura marginal de 70, a curtição sempre encontrava seu limite intransponível na perspectiva do dilaceramento corporal representado pela tortura institucionalizada: o abjeto que sempre azedava a aventura randômica, sem qualquer teleologia, que era o “zanzar” da vida dos personagens subversivos.

Em Greta, a “curtição” é amarga e carregada de dúvidas, inseguranças e questionamentos existenciais: o dilaceramento que se aproxima implacavelmente é o do próprio tempo, cujo grande tributo é a corrupção da carne. Não é à toa que o hospital em que trabalha Pedro mais parece um depósito pútrido de gente moribunda – sua amiga Daniela, que se recusa a desvanecer-se naquele ambiente abjeto. E seu próprio amado, Jean, em condições quase decrépitas, é resgatado por ele do centro cirúrgico como de um necrotério. Na comédia de Fernando Mello, a relação do casal protagonista era de exploração e abuso evidente.

greta 3Aqui, o que impera é a desconfiança e o medo: Pedro talvez não consiga viver sozinho seus últimos anos (ele é septuagenário), é o que lhe arremessa em desafio sua melhor (única) amiga, Daniela, ao pedir-lhe eutanásia. O “rapaz” Jean é um assassino procurado pela polícia, que Pedro acolhe em sua casa e coração, não sem o afinal declarado receio de que aquele se aproveite dele e eventualmente dê cabo de sua vida. Atos de repulsa serão cometidos com base nessa… paranoia? Há algo, aqui, que lembra a semi-história (alegórica) de amor entre um homem e uma pantera em Uma Paixão no Deserto, de Balzac.

Enfim, Greta é um filme claustrofóbico – praticamente todos os planos são fechados – que nos prende, sem muita opção, ao ser-no-mundo desses personagens marginais (marginalizados), inclusive nas visivelmente incômodas (basta olhar ao redor, estando em uma sala de cinema) cenas de sexo homossexual. E esta é a sua melhor e mais necessária qualidade, nos tempos de barbárie proto-fascista escancarada em que vivemos. A peça de Fernando Mello sofreu a censura da ditadura militar. O filme de Armando França faz parte da categoria que está na mira da Ancine aparelhada deste atual governo federal e sua política em não apoiar filmes com temática LGBT.

Serão derrotados. Mais uma vez.   

United Skates

united skates 2United Skates (2018), mais do que um documentário, é um manifesto. Mais do que um documento, é um monumento erigido à cultura da patinação que é elemento intrínseco da identidade afro-estadudinense, sofrendo, como tal, a mesma perseguição histórica. As produtoras e diretoras Tina Brown e Dyana Winkler acompanharam pessoas, famílias e estabelecimentos durante anos, registrando a vivência apaixonada – individual e coletiva – da patinação / dança / arte sobre rodas.

Mas também há o registro do doloroso processo de decadência comercial e inevitável desaparecimento dos históricos (e enormes) salões de patinação espalhados por todos os EUA, causados pela asquerosa mistura entre especulação imobiliária selvagem e segregacionismo racista. O grande capital não se interessa por espaços públicos, espaços estruturadores de uma vida em comunidade; e o poder político não quer tamanha concentração de uma população supostamente perigosa em um espaço não-controlado.

unitedskates-1024x576Até a implementação efetiva dos direitos civis (anos 60), os rinks de patinação eram totalmente segregados. Quando foram forçados, por lei, a promover integração, saíram-se com uma artimanha malandra: festas “temáticas” em noites específicas direcionadas aos frequentadores afro-estadudinenses: as adult nights, soul nights etc. Implicitamente, comunicava-se que os negros não poderiam frequentar a pista nos outros dias e horários. Mas o tiro saiu – mais uma vez – pela culatra.

As adult nights foram grandes responsáveis pelo desenvolvimento de toda uma cultura black: muitos artistas do hip-hop e do r&b se revelaram para a fama apresentando-se para pistas lotadas de dançarinos e dançarinas sobre rodas. Mesmo assim, o ódio não descansará. Duas das mais fortes e incômodas cenas deste filme: uma fotografia de arquivo que mostra manifestantes brancos, com a suástica nazista em braceletes e cartazes, espalhando ódio na frente de rinks de patinação frequentados por negros (ainda durante a época da segregação).

united skates 1E uma longa sequência, com a câmera escondida, mostrando a principal família que o filme acompanha (da matriarca Phelicia Wright) ao tentar – em vão – entrar em uma pista frequentada por brancos (após o fechamento das pistas administradas por afro-descendentes na região): cartazes afixados na janela da bilheteria proibindo gêneros de música black, assim como patins e acessórios comumente usados por patinadores / dançarinos negros (com rodinhas menores, sem freio no “dedão” etc.).

Mas nem tudo são derrotas, e o documentário procura manter um tom afirmativo, propositivo e esperançoso. Toda forma de repressão cultural costuma se mostrar – inevitavelmente – infrutífera, a História o mostra bem. As identidades e sua expressão não podem permanecer silenciadas e sempre retornam de um jeito ou de outro. United Skates é uma produção do canal de TV por assinatura HBO e está disponível, para o público brasileiro, no serviço de streaming da emissora.

Se A Rua Beale Falasse

Beale Street 1O cineasta Barry Jenkins vem expressando uma sensibilidade bastante apurada desde Medicine for Melancholy (2008), e a consagração oficial veio com o Oscar de melhor filme para Moonlight (2016). Agora, apesar daquela ansiedade geral a respeito do que vem depois de uma obra-prima, Se A Rua Beale Falasse (2018) mantém com firmeza as melhores qualidades do diretor.

Sensibilidade essa que se manifesta de forma muito organicamente ligada a um esmero estético pensado e executado na mesma medida de cuidado, compromisso, dedicação, afeto. A fotografia em grande formato (65 mm) de James Laxton é uma das mais belas, imersivas e rigorosas do cinema contemporâneo. Os contrastes de luz e cor possuem a exatidão para destacar a (beleza) da pele negra e o amor do casal protagonista, em matizes quentes.

IBSCT_09450_R_CROPIsso ganha um significado ainda mais especial quando se pensa que a tecnologia está longe de ser um instrumento “neutro” nas relações entre mídia e sociedade, e a fotografia serviu, durante muito tempo, de reprodução para padrões de normalização racista. Chama a atenção também a recorrência constante das cores vermelha e verde: nos figurinos e nos cenários (lâmpadas, pinturas de paredes, móveis etc.).

Eis um sutil recurso discursivo de Jenkins: vermelho e verde, junto do preto, são os tons da bandeira pan-africana ou bandeira da libertação negra, criada pela Associação Universal para o Progresso Negro (AUPN) em 1920, durante convenção realizada em Nova York. Sim, este é um filme que se posiciona de maneira inequívoca em relação aos seus conteúdos, o que despertará velhos ressentimentos em parte da crítica (falaremos disso mais adiante).

IBSCT_11669_RO lens flare, junto da narração em off da protagonista e de uma trilha que cadencia a emoção, fazem lembrar o lirismo do melhor Malick (A Árvore da Vida, 2011). A alternância entre os tempos da história produz um efeito também especial. Acompanhamos os esforços presentes de Tish (Kiki Layne) e de sua mãe Sharon (Regina King, que ganhou o Oscar de melhor atriz coadjuvante pelo papel)  em tentar provar a inocência do namorado daquela, Fonny (Stephan James), acusado injustamente de estupro.

Em paralelo, seguimos etapas passadas da relação de amor e amizade entre os dois jovens, que vem desde a infância de ambos, principalmente os momentos felizes de elaboração de um plano de vida conjugal. No entanto, já sabemos o desfecho trágico. Se A Rua Beale Falasse é adaptação do romance homônimo de James Baldwin, grande representante da literatura e do ativismo afro-estadudinenses, autor de Eu Não Sou Seu Negro.

200px-Beale_-_PosterHaverá – acredite! – quem diga (críticos “profissionais”) que este filme peca pela “afetação”, “frouxidão”, “dramaticidade convencional”, “direção irregular de atores”. Não passa de um daqueles casos, mais uma vez, em que a acusação revela mais a respeito do acusador do que do acusado. É postura da mesma natureza que a dos resenhistas que choramingaram sobre o suposto extremismo político de Bacurau (2019), de Kléber Mendonça Filho.

Tendo em vista a eterna baixa representatividade – humanamente digna – de filmes negros (para usar a expressão da Dra. Robin R. Means Coleman no ótimo livro intitulado Horror Noire: A Representação Negra no Cinema de Terror: produções feitas por afro-descendentes, para afro-descendentes, sobre suas próprias vivências), vai demorar muito tempo ainda para que dramas negros possuam qualquer coisa de “convencional”.