O Enigma de Kaspar Hauser

“Em Herzog, assistimos a um extraordinário esforço para apresentar à vista imagens propriamente tácteis que caracterizem a situação dos seres “sem defesa”, e se combinem com a grande visão dos alucinados.” Gilles Deleuze, A Imagem-Tempo

Na nota de rodapé ao trecho acima, o autor cita um estudo da obra de Herzog que afirma que, em O Enigma de Kaspar Hauser, coexistem “as grandes visões oníricas e os pequenos gestos tácteis”. Essa dupla dimensão está presente em praticamente todos os planos do filme. Há, não apenas nesta, mas em todas as obras de Werner Herzog, um misticismo meditativo que se expressa na forma de um olhar demorado sobre a paisagem da Natureza (mostrada em todo o sublime de sua grandeza, o que é bem romântico) e sobre a “paisagem” do Homem: no caso de Kaspar Hauser, a cidadezinha idílica – e os seus arredores – do interior da Alemanha no começo do século XIX e os seus habitantes. O ser humano é colocado como mais um elemento que compõe o quadro da paisagem. Eis o caráter mais próprio do estilo pictórico e “táctil” de Herzog.

O Enigma de Kaspar Hauser, cuja tradução literal do título em alemão seria “Cada um por si e Deus contra todos”, é a história real de um rapaz que tinha vivido sua vida inteira, até aquele momento, trancado em um calabouço, sem contato algum com o mundo exterior ou com outros seres humanos. De repente, ele aparece numa praça pública de Nuremberg, sem saber falar e mal sabendo caminhar, carregando uma carta que seria de seu “pai” (na verdade, o homem que o criou) e que pedia que ele fosse “adotado” e incluído na sociedade civilizada. Um personagem assim, uma história dessas – real, ainda por cima – e a época em que se passa (começo do século XIX) mostram bem as preferências do diretor e o seu caráter Romântico, presentes em mais de uma de suas obras. Temos aqui o indivíduo (foco central da arte e da cultura românticas) tão isolado de tudo e de todos, e por isso mesmo tão único e diferente em sua individualidade, em sua identidade exótica, que ele acaba por chegar, paradoxalmente, aos limites da caracterização como indivíduo humano e criativo (originalidade é tudo para o espírito romântico).

Kaspar Hauser é mesmo um homem? Um animal? Ou algum tipo de vegetal ambulante? O olhar próximo e táctil de Herzog segue à risca a tradição do Romantismo alemão: um mergulho tão grande no Gênio (o indivíduo) e no Sublime (a natureza) que vai além de qualquer expressão emotiva em particular, tocando as esferas do filosófico, do mítico, do místico e do universal. Herzog vai do gesto táctil à grande visão onírica dos alucinados; e volta; e vai de novo, num constante movimento dialético. Mas o alucinado aqui não é o caso do louco patológico; para Herzog, o que interessa é o louco-iluminado, o louco-gênio do Romantismo; o “clown” no dizer do poeta Manuel Bandeira, que, sem querer querendo, tem muito a ensinar sobre nós mesmos e sobre as coisas.

Esse “clown”, enquanto enigma irresolúvel, inevitavelmente cairá no circo. O circo dos enigmas cujas tentativas de compreensão já foram abandonadas. O circo dos párias. Se já havia algo de O Gabinete do Dr. Caligari (obra fundamental do cinema alemão) na relação entre Kaspar Hauser e o seu “pai”, há mais ainda neste circo de “variedades”. Como é que se chega a este circo? Em princípio, as pessoas tentam compreender o jovem Kaspar Hauser e ensiná-lo a civilizar-se, recrutando para isso todo o desajeitado e patético esforço da Ciência e da Razão. Mas os trabalhos são vãos. Kaspar sempre lhes escorrega por entre os dedos – a cena em que ele responde ao desafio lógico do professor de matemática é magnífica. Os esforços são inúteis não porque Kaspar não fosse civilizável, mas porque o pensamento e os conceitos de todos estão por demais compartimentados em categorias muito estreitas. E Kaspar Hauser é uma afronta inconsciente a essas categorias. Nesse sentido, há um humor muito sutil, algo de ridículo e de circense (o circo também aqui se faz presente) nas “sérias” investigações que as autoridades fazem junto a Kaspar, num primeiro momento. Quer figura mais circense e burlesca do que a do escrivão? Inevitavelmente, todas as investigações falharão.

Então, o que restará a se fazer? Entregar o rapaz-enigma ao circo, que é uma forma bem peculiar de inclusão na exclusão. Ficam assim amortecidos ou mesmo anulados quaisquer impactos incômodos que Kaspar Hauser poderia continuar exercendo no consciente da comunidade. Riremos da coisa que não compreendemos, atribuindo-lhe um caráter e uma função de “clown”, para que assim esta não nos amedronte. O “clown” é extremamente ilógico, mas destituído, esvaziado de qualquer poder ameaçador. E também de qualquer sentido intrínseco. É assim que o enigma estará mais para mistério. Ou cada um por si (e Deus contra todos, o que dificilmente se perceberá). Não obstante, Kaspar Hauser se humanizará em muitos aspectos e aprenderá muitas coisas da civilização. Será adotado por um professor carinhoso e a exclusão não será completa – até mesmo diminuirá com o tempo.

Contudo, no fundo da alma, sempre ficará algo que não será processado, compreendido, adaptado e incluído (lembremos novamente que se trata de um filme Romântico). Assim, o mistério – ou a parte mais essencial dele – persistirá. No final, tal mistério se crerá resolvido, mas de um modo que também não deixa de ser espetacular / circense, na autópsia e na análise do cérebro de Kaspar Hauser. E isso apenas tornará ainda mais evidente a estupidez da matéria, cujo parco conhecimento tenta abarcar soberbamente as questões psicológicas / espirituais. É a ciência que tenta compensar nossa incompetência espiritual, e não o contrário. A imagem, bastante “táctil”, dos doutores apalpando, fatiando e virando o cérebro de Kaspar Hauser em cima da mesa é mostra disso.

Asas do Desejo

d7115f2e533cc8bcf91823021f4ba6a2_XL“Algo aconteceu. Ainda está acontecendo. Me prende. Foi verdade à noite e é verdade agora, neste momento. Quem foi quem? Estive dentro dela e ela, em volta de mim. Quem neste mundo pode dizer que já esteve unido a outro ser? Eu estou unido. Nenhuma criança mortal foi concebida, mas sim um quadro imortal compartilhado. Aprendi sobre estupefação esta noite. Ela me levou para casa, e encontrei o meu lar. Aconteceu uma vez. Aconteceu uma vez, portanto vai acontecer. A imagem que criamos me acompanhará quando morrer. Terei vivido em seu interior. Somente a estupefação com nós dois, a estupefação com o homem e a mulher me tornou humano. Eu agora sei o que nenhum anjo sabe.”

Essa é a última anotação que o ex-anjo Damiel (Bruno Ganz) faz em seu diário. E resume bem o caráter excepcional deste grande clássico de Wim Wenders (que já havia realizado a obra-prima Paris, Texas – 1984). Asas do Desejo (“Wings of Desire”, 1987) é o manifesto de uma fenomenologia da carne e de um transcendentalismo às avessas: do ideal ao material. Um manifesto prenhe de poesia, de lirismo. Mas, ei! Grandes poetas (Whitman, Drummond) já reconheceram o potencial epifânico da sexualidade e do erotismo. Sem contar a grande poesia do cotidiano, do banal, da vida e do mundo os mais simples e toda a gama de sensações que podem proporcionar aos mortais (o que vemos em Baudelaire, em Pessoa, em Bandeira… e no Manoel de Barros).

19187316Serão todos ex-anjos? Anjos caídos por sua própria escolha e decisão? Anjos-fantasmas em um universo sem Deus, condenados a testemunhar e lembrar pela eternidade a nossa história mortal, sem que possam tomar parte nela, tampouco construir sua própria história? Ah, anjos assim tornam-se os melhores dentre os humanos: os visionários, os profetas, e sobretudo, artistas. Seria essa a filiação sobrenatural (no dizer de outro poeta-anjo, Murilo Mendes) de Wim Wenders? O certo é que ele dedica seu filme a todos os “ex-anjos”, especialmente a “Yasujiro, François e Andrei”… Troquemos em miúdos: trata-se de Ozu, Truffaut e Tarkovski. Todos os três, poetas das imagens em movimento, escultores do tempo (nas palavras do mestre russo).

Apaixonados pela vida, pelo mundo e pelo ser… sim, apaixonados pelo mero existir de tudo e de si mesmos, mesmo reconhecendo – ou porque reconhecendo – todas as suas vicissitudes. É preferível sentir e morrer, o que já caracteriza uma história, do que não-viver por toda a eternidade, não? Os anjos Cassiel (Otto Sander) e Damiel são curiosos pela história. Este busca a sua própria; aquele a dos homens: por isso, ele acompanha os passos e os pensamentos do velho “Homero”, o qual lamenta que a humanidade perdeu os ouvidos da história; o poeta / aedo hoje é uma figura patética e solitária. É irônico que o servo da deusa Mnemosine (a Memória) termine sua história relegado ao esquecimento – o olvido… É o famoso “fim da história”, já se fazendo ver nos últimos dias de uma Berlim dividida?

desire-falk-1400x788Ou trata-se, na verdade, da impossibilidade da história, de uma história totalizante, nos tempos pós-modernos, pós-barbárie? Lembrar fragmentos, eis o que resta a “Homero” e a Cassiel: fragmentos do nazismo – o maior atentado já perpetrado contra a memória / história. Eis o drama do anjo loiro. Agora, vamos ao anjo moreno. Damiel não é um fantasma. Damiel é um corpo, uma presença concreta nos termos que são os que realmente interessam aqui: os diegéticos. Em todo o filme, Wim Wenders nos ensina uma grande lição de estética cinematográfica: é importantíssima a presença física em cena de Bruno Ganz. Para o espectador, que vê a tela do cinema como janela para o real – janela precisamente desenhada pelos óculos que vestem o olhar do diretor alemão.

Ele mesmo afirma a imagem dos óculos-lentes-olhar no documentário Janela da Alma (Brasil, 2002, dir.: João Jardim) –, é curioso imaginar os outros atores representando seus papéis como se o anjo Damiel / Ganz não estivesse ali. A sua presença, “visível” apenas para nós, torna-se gritante. Qualquer diretor menor de hoje em dia, daqueles com muita técnica e pouca estética, colocaria logo a figura de Ganz em sobreimpressão. Victor Sjöström utiliza tal expediente em A Carruagem Fantasma (“Körkarlen”, Suécia, 1921), mas nesse caso está tudo bem, pois os efeitos especiais mais elementares do cinematógrafo ainda precisavam ser explorados. Hoje, uma solução dessas soaria para lá de banal.

wings-of-desire-1987-004-bruno-ganz-angel-statue-headWim Wenders é sábio em usar a sobreimpressão apenas no plano que mostra rapidamente as asas do anjo Damiel de pé no alto de um prédio, logo no começo do filme, para que não surjam quaisquer dúvidas a respeito da natureza do personagem. Estas asas são o único elemento efetivamente fantasmagórico do filme, uma vez que não fazem parte do universo humano. Por sua vez, todo o resto do corpo de Damiel – ou melhor, a imagem do seu corpo – é devidamente humano, familiar na forma e também no conteúdo (que é o desejo, coisa que define a trajetória de nossas vidas). Uma tal identidade justifica à perfeição a presença física do ator no espaço diegético em que se move o personagem. Vemos ali um corpo como o nosso, não-materializado, mas um corpo de desejo tanto quanto o nosso.

Desejoso da sensação de tomar banho, beber um café, unir-se ao corpo de uma mulher… É um corpo que assiste ao nosso plano de existência, mas não tem contato direto com ele, não é sensorial para nós; por isso fica-lhe e resta a ele a vontade da sensação, do tato, do olfato. Trata-se do mesmo quinhão reservado ao espectador de cinema: dentro da sala escura – mesmo nas mais modernas com imagens em 3D – somos todos anjos de Wim Wenders… Vem daí o efeito, a comoção tão sutil e ao mesmo tempo tão impactante que esta película provoca em nós? “Quando a criança era criança, não sabia que…”, diria Damiel. Jamais saberemos. Mas eu gostaria de voltar à filiação que o diretor se propõe aos “former angels” Yasujiro Ozu, François Truffaut e Andrei Tarkovski, respectivamente.

HUB08cWWS-1Asas do Desejo dialoga com a alegre condescendência de Bom Dia (Japão, 1959): a preferência pelas coisas e pessoas simples; com a alegria de filmar de Jules et Jim (França, 1961): a busca da vida brincalhona de amor e prazer; e com a meditação serena de Stalker (URSS, 1979): o ritmo vagaroso, apegado aos “tempos mortos” da narrativa – a imagem-tempo segundo Giles Deleuze, ou aquele esculpir o tempo, segundo o próprio cineasta russo. Especialmente relação a este último, Wenders também vai buscar no Tarkovski a alternância entre imagens em preto-e-branco e em cores, assim como os longos monólogos de ares filosóficos. Mas justamente por toda essa emulação, Asas do Desejo talvez não tenha o potencial para clássico de Paris, Texas. Mesmo assim, vale muitíssimo a pena ver, rever e guardar no coração.

Aguirre, A Cólera dos Deuses

Aguirre-Wrath-of-God-Blu-Ray-coverExistem filmes que causam efeitos quase psicotrópicos no espectador. Ninguém é imune a eles. Mexem conosco de uma maneira quase física, ficamos hipnotizados, catatônicos até o último momento. Minto. Até depois que o filme termina e nós nos encontramos – voltamos a nós – paralisados na poltrona, sem saber o que pensar. A razão implodida, restam-nos apenas as sensações de significação vaga mas com grande e irreversível impacto, quase à flor da pele.

Certos filmes são drogas pesadas. Filmes como os de Werner Herzog. Filmes como Aguirre, A Cólera dos Deuses (1972). Lembro o filósofo Gilles Deleuze, ao afirmar que o cinema de Herzog é o das imagens tácteis. Não há maneira mais precisa e poética que descreva a fenomenologia de se assistir a algum longa deste fantástico (quase literalmente) realizador. Herzog é uma daquelas verdades tão profundas, que o único modo no qual conseguimos pensá-lo e processá-lo em nossas limitadas inteligências é o modo dos poetas: o modo da metáfora, da alegoria, do símbolo.

herzhog-aguirre-the-wrath-of-godPermitam-me agora um rasgo maior do exagero, fruto exclusivo da impressão, do deslumbramento (ou alumbramento, como disse o poeta): Herzog não deveria ser exibido em cinemas, mas em templos, monastérios ou catacumbas de sociedades secretas místico-filosóficas. Isso mesmo. O cinema de Herzog é para ser tocado e ingerido como uma relíquia ou corpo-santo. Herzog filma como um sacerdote-xamã ministrando seu ritual: a solenidade e a paixão com que sua câmera toca milagrosamente a pele do mundo são próprias daquelas de um louco-iluminado no momento da epifania, no momento da transfiguração.

Dizer que se trata de um cinema poético, contemplativo ou meditativo é pouco. Um filme como Aguirre é místico. Mas de um misticismo materialista. Não porque desconfie de quaisquer supra-realidades, mas porque mergulha fundo no desvendamento das sendas mais secretas desta própria realidade – até mais desconhecida, para nós, do que certas outras. O diretor emprega a força de alma do crédulo na adoração curiosa (portanto, filosófica) do mundo que o cerca – e do que há nele, principalmente nas trevas mais profundas de seu coração. É uma fé sem crença, uma filosofia sem razão. Contraditório, barroco? Em uma palavra: Romântico.

aquirrewrathofgod_390Werner Herzog pertence àquela “família sobrenatural” (no dizer de um grande artista da palavra) dos poetas-profetas. Aguirre  é uma narrativa digna da memória (a deusa Mnemosine) dos antigos aedos gregos, dos tempos (pré-) homéricos. Do relato incompleto de um padre missionário, relativo a um evento particular no início da colonização espanhola da América, Herzog extrai, reconstitui e presentifica o mais essencial (de acordo com a vidência que a deusa lhe concede) do fenômeno humano.

Ele também fez isso em O Sobrevivente (2006), outra reconstituição fictício-documental de situações-limite vividas por um indivíduo. Fico especialmente curioso agora para ver O Homem-Urso (2005), documentário mesmo. Incluindo junto destes – e também junto de Aguirre – filmes como Kaspar Hauser (data) e Woyzeck (1979), teremos em mãos a figura típica do (anti-) herói herzoguiano: um sujeito maldito, “sem defesa”, dotado da “grande visão dos alucinados” (Deleuze).

aguirre-wrath-of-god-2Vejo (e ainda espero) o cineasta filmando algum romance de Herman Hesse, seu compatriota e furacão expressionista, particularmente Demian . Nunca vi o Deserto dos Tártaros de Valério Zurlini, baseado na obra de Dino Buzzati; mas também tenho visões deste romance transfigurado em cinema por Werner Herzog. Não obstante, depois de testemunhar Aguirre, meu maior sonho passa a ser assistir à uma possível versão de O Coração das Trevas.

Definitivamente não consigo pensar em nenhum nome de cineasta que seria mais perfeito para reger a filmagem de qualquer obra literária do que o de Herzog em relação à criação de Joseph Conrad. Orson Welles iria se entregar à tarefa, mas… enfim, é mais um daqueles filmes lendários que nunca existiram – e talvez nunca existirão. Tal qual ao mítico Dom Quixote de Terry Gilliam (este sim, filmado – em pedaços – pelo diretor de Cidadão Kane). Mas vamos voltar.

aguirrewrathofgod_1130_430_90_s_c1Um possível “Coração das Trevas” de Herzog seria complemento e contraponto perfeito ao Apocalipse Now (1979, de Coppola – adaptação livre da novela em questão) –, outra das grandes fitas malditas do cinema, daquele desencanto místico que deveria ser censurado a espectadores noviços em questões espirituais / filosóficas. Brincadeirinha. Ainda não vi Vício Frenético, a fita mais recente do diretor alemão. Gostaria de assistir antes ao filme original de Abel Ferrara, do qual este é uma refilmagem que recebeu algumas fortes críticas.

Mas… voltando mais uma vez a Aguirre, é engraçado comparar a primeiríssima imagem deste filme com muitas das do Avatar (2009) de James Cameron: vemos lá uma expedição de colonos e índios descendo por uma trilha-escadaria estreitíssima, nas encostas da cordilheira dos Andes, filmados à grande distância; um fio colorido escorrendo lentamente pelo dorso da montanha, entre nuvens e névoas. Sem computação gráfica, sem I-MAX e sem 3D, Herzog consegue produzir efeitos no espectador tão vertiginosos e sublimes quanto aqueles da fábula de Cameron. Tão ou mais.

600full-aguirre-the-wrath-of-god-screenshotEssa cena pode fazer os mais jovens também se lembrarem de O Senhor dos Anéis (2001). Porém, algo precisa ser dito: Herzog não é para crianças – talvez, e apenas talvez, para alguns (pós-) adolescentes. Um filme como Aguirre, a despeito de toda a discussão muito adulta suscitada pelo colonialismo, é no final das contas uma grande afirmação do espírito humano. Mas uma afirmação romântica, ou ultrarromântica, diga-se de passagem. Professores de história adorariam exibi-lo aos seus alunos, aposto.

Mas é melhor não, acreditem. Se não pelo que já dissemos, é preciso reconhecer ainda que o fato histórico não passa de pretexto, em Herzog, para transcender ao fato mítico. Kino-Mythos. Ou seja, o buraco é (bem) mais embaixo. Eis, mais uma vez, a dimensão do símbolo. Um louco ensandecido que vem além do oceano e desce do céu da montanha para procurar a lendária Eldorado no meio do coração das trevas amazônico, eis uma proposta de sinopse para Aguirre, A Cólera dos Deuses. Não é preciso dizer mais. Testemunhe.

Messiah of Evil

messiah_evil_1973_image-25Quais são as fronteiras entre os filmes “B” e os filmes “Cult”? Uma sub-produção do tipo de Messiah of Evil (EUA, 1973) poderia tanto ser exibida – pensando no circuito da cidade de São Paulo – em grindhouses como os velhos Cines Paris e Dom José (hoje cinemas-pornôs do centro dito “decadente”), quanto nas sofisticadas salas do cinema “de autor” na região da Av. Paulista: Belas Artes, Reserva Cultural, etc.

O fato é que dificilmente se imaginaria que pudesse existir na face deste planeta uma película norte-americana de zumbis inspirada pelo cinema art house europeu dos anos 50 e 60, com seus personagens de expressões blasé, languidamente sonambulando em inconsequente sonilóquio por paisagens etéreas, tudo numa irresolúvel (e altamente sensual) crise de existência. As vítimas, aqui, são mais “mortos-vivos” do que os seus algozes.

Em essência, nada do que já não se tenha visto em Antonioni, Bergman, Godard… De fato, inimaginável. Tanto é que Messiah of Evil é um filme bastante raro de ser encontrado, apesar da recente e primorosa edição em DVD lançada nos EUA. No Brasil, houve um obscuro lançamento em VHS, intitulado “Zumbís do Mal” (sic). Mas vamos à história.

bathroom-pervs-messiahO filme é uma produção de baixo orçamento rodada em 1971 e que foi carregando, ao longo dos anos, a cruz de diversas mutilações em seu formato e péssimas distribuições (incluindo mudanças absurdas de título, como “The Second Coming” e “Dead People”), não logrando escapar de uma relativa obscuridade. A sorte dos filmes e dos livros é algo que nunca cessa de nos fascinar – ou fazer lamentar.

De qualquer maneira, Messiah of Evil foi escrito e dirigido pelo casal Willard Huyck e Gloria Katz, que mais tarde também assinariam o roteiro de Loucuras de Verão (“American Graffiti”, 1973), de George Lucas; e Indiana Jones e O Templo da Perdição (“Indiana Jones and The Temple of Doom”, 1984), de Steven Spielberg. Ah, aquelas empreitadas audaciosas – e (ou) vergonhosas da nossa juventude…

Na equipe, também seriam futuramente ilustres o “production designer” Jack Fisk (que viria a colaborar com David Lynch e Terrence Malick) e Walter Hill, este em breve mas impagável ponta. A história acompanha a jovem Arletty (referência a Marcel Carné?), que parte para uma cidadezinha na costa da Califórnia em busca do pai artista plástico, que deixara de dar notícias.

Messiah-Of-Evil1-690x388Chegando lá, ela descobre que o progenitor desaparecera. Na investigação, junta-se a um trio de amantes jovens e vagabundos (coisa de filme da nouvelle vague, não?). O ménage é composto por Thom (Michael Greer), um dândi de ares pretensamente sérios; Laura (Anitra Ford), com jeitão de femme fatale; e Toni (Joy Bang), a “lolita” do grupo. Descobre-se, então, uma espécie de culto satânico que está tomando conta da região.

E os “zumbís” fabricados estão mais para os mutantes fanáticos de A Última Esperança da Terra (“The Omega Man”, 1971, com Charlton Heston) do que para os sonâmbulos acéfalos de George A. Romero. Agora, o toque especial que abre e fecha o filme, compondo um ciclo. Todos os acontecimentos são narrados por Arletty em flashback, trancafiada que se encontra num manicômio – e irremediavelmente desacreditada.

Quaisquer semelhanças com o seminal Gabinete do Dr. Caligari (1919) seriam só meras coincidências? O tom confessional da narrativa também não deixa de lembrar A Hora do Lobo (1968), de Bergman. Expressionismo alemão, diretores suecos… Não são referências muito “cabeça” para uma fita típica do exploitation dos anos 70? Mas ainda tem mais, pois estamos falando aqui de um filme de cunho subjetivista, afinal de contas.

59c8f28ca1163fbc8b1232924ecf0f82Em matéria publicada na Film Comment em 2011, revela-se que a influência de Antonioni é admitida pelos próprios diretores / roteiristas de Messiah of Evil. Em comparação, o articulista cita a cena de A Aventura (1960), do cineasta italiano, em que a personagem de Monica Vitti se vê assediada e perseguida por um grupo de maliciosas figuras masculinas.

Com isso, vemos que o “terror” de Messiah of Evil assusta mais pela atmosfera de estranhamento e sugestões surrealistas de algumas cenas do que pelo gore propriamente dito. Está mais para David Lynch do que para George Romero. A frase final da protagonista, quase um balbucio, resume o filme como um todo: “each of us dying slowly in the prison of our minds” (cada um de nós morrendo lentamente na prisão de nossas mentes). Horror. Com classe.

Eu, Tonya

i-tonya-1518803140O diabo mora nos detalhes. E o cinema também. Um único gesto, mostrado em primeiro plano, pode resumir um filme inteiro, seus personagens, suas histórias, os temas e ideias que o diretor / roteirista pretende “representar” através desses mesmos personagens e histórias. Tudo isso cabe dentro de uma única imagem, que passa rapidamente.

Vamos pontuar bem as coisas aqui, antes de chegarmos ao “x” da questão: personagens, histórias, temas e ideias são – em princípio – elementos de uma narrativa… literária, não? Pois bem. Um filme pode ser uma narrativa, mas será – excetuando-se os experimentalismos radicais – uma narrativa audiovisual.

e8eff92a0d74cd8b4e3054bb3b770c34Isto quer dizer que, preferencialmente (talvez), os seus elementos geneticamente romanescos serão transfigurados em formas de áudio e vídeo – com uma expressividade que lhes esteja de acordo. Não há dúvida alguma de que os melhores filmes (narrativos), dos melhores cineastas, escolhem meios expressivos audiovisuais, primordialmente.

Infelizmente, no entanto, tais filmes e tais cineastas são uma minoria. Mas dá um gosto tremendo quando um deles dá o ar de sua graça, para quem realmente aprecia Cinema. Este é o caso de Eu, Tonya (“I, Tonya”, EUA, 2017), dirigido por Craig Gillespie – autor da pequena obra-prima intitulada A Garota Ideal (“Lars and The Real Girl”, 2007).

film_I-Tonya_1200x800-1024x683Toda a disfuncionalidade (para dizer o mínimo), ou as deficiências cognitivas e de caráter (para dizer o máximo) de Tonya Harding, personagem lastimavelmente real, aparecem resumidas e simbolizadas em um único gesto / plano que não dura mais do que alguns poucos segundos, em determinado momento do meio da sua tragicômica história.

Tonya, olímpica patinadora no gelo, está esperando a sua vez de entrar no rinque. No corredor de acesso, preguiçosamente encostada em uma parede, fuma o seu cigarro, já calçada com os patins e lâminas. Ao ouvir o sinal, ela, da maneira mais cotidiana do mundo, joga a bituca no chão e a espreme pelo meio, com a lâmina em seu pé.

tmp_SYVusN_873b544e784a3a9f_i-tonya-1508426635Vemos essa imagem em primeiríssimo plano, e o diretor faz questão de fazê-la durar o tempo suficiente (ainda que bastante breve) para percebermos que o cigarro não foi apagado, que aquele gesto foi de uma inutilidade, preguiça, ou sei-lá-o-quê ridiculamente inconcebíveis para qualquer pessoa minimamente desperta.

O filme todo não é ruim, está concorrendo ao Oscar de melhor atriz (Margot Robbie), melhor atriz coadjuvante (Allison Janney, que já ganhou o Globo de Ouro) e melhor edição, mas esse curtíssimo plano é de uma simplicidade, singeleza e expressividade geniais. Vale pelo longa inteiro.

Pantera Negra

IMG_9665Um dos instrumentos mais perversos e sistematicamente usados nos sistemas socioeconômicos colonialistas / imperialistas, etnocêntricos e, logicamente, racistas, é o vácuo de invisibilidade a que se abandonam as manifestações humanas das culturas, povos e etnias historicamente subjugadas. A lógica do Positivismo não admite matizes que vão além da dicotomia simplista entre o “evoluído” e o “primitivo”. E as narrativas industriais muito contribuíram para repor, reforçar e reproduzir esse preconceito.

Em vista disso, Pantera Negra (“Black Panther”, EUA, 2018, dir.: Ryan Coogler) realiza uma grande conquista no sentido de abrir espaço, dentro do campo das narrativas dominantes (Hollywood), para outras histórias que não sejam as dos “campeões” da história única. Antes de mais nada, não nos esqueçamos de que se trata da indústria cinematográfica norte-americana, e o fruto mais recente da Disney / Marvel não irá cair muito longe da árvore ideológica no jardim desse sistema.

black-panther-watching-videoSixteenByNineJumbo1600-v2A lógica profunda em Pantera Negra não deixa de ser a positivista, em alguns aspectos – Wakanda é uma nação “avançada” por, fundamentalmente, domar a natureza e acumular recursos materiais, com resultados científicos e tecnológicos bastante produtivos, eficientes. Mas esses avanços (superiores aos dos países de “1º mundo”) foram empreendidos por um país africano, que detém o seu monopólio, invertendo com isso a velha lógica do sistema colonial (colônia: matéria prima; metrópole: indústria).

Dessa forma, apesar de não questionar os pressupostos ideológicos mais profundos que estão na base de toda a desigualdade entre os povos (exploração da natureza, crescimento e acúmulo econômicos), o longa de Coogler transfere as posições de poder para aqueles (os negros) que são histórica e continuamente excluídos dessa mesma esfera de poder, ao redor do mundo (como bem nos lembra o “vilão” do filme). Isto já é uma escolha de impacto político importantíssimo nos dias atuais, retrocedentes em racismo (Trump).

marvel-black-panther-nakia-princess-shuriPara além da ciência, tecnologia e economia, o enraizamento cultural de Wakanda também traz signos fortes de ancestralidade, empoderamento (inclusive o feminino), identidade (orgulho) e identificação (catarse). Nestes aspectos, é excepcional o figurino dos personagens, desenhado por Ruth Carter (ela merece um Oscar em 2019) e ancorado em extensa pesquisa de culturas tradicionais africanas. A direção de arte também foi pensada com muita pertinência, em respeito e destaque da cor local.

Béla Balázs, um dos grandes teóricos do cinema, defende que o primeiro plano – maior recurso expressivo da sétima arte – transformou a nossa percepção do mundo, particularmente no que se refere ao rosto humano. “Microdramática”, a expressão facial é a “manifestação mais subjetiva do homem, mais subjetiva até do que a fala (…) A mais subjetiva e individual das manifestações humanas é tornada objetiva no primeiro plano” (Theory of film: Character and growth of a new art).

nullDentre todos os signos de empoderamento da população afrodescendente com que Pantera Negra deseja marcar, a ferro e a fogo, o mundo contemporâneo, o mais importante é justamente o mais cinematográfico: o primeiro plano. A visibilidade inegável dos rostos negros de praticamente todo o elenco desse filme, na tela gigante e imponente do cinema, tem valor simbólico inestimável – para as nossas sociedades e para a história das narrativas ficcionais cinematográficas, particularmente as de Hollywood.

Em algumas cenas, a microdramática de que fala Balázs atinge uma sutileza que faz com que o seu valor estético / expressivo rivalize com o seu valor político. Refiro-me à expressão facial e ao olhar, sarcasticamente condescendentes, que o herói T’Challa (Chadwick Boseman) faz quando algum personagem branco (logicamente) lhe diz algo semi-conscientemente racista – micro-agressão. Aqui, o primeiro plano torna politicamente objetiva a manifestação mais subjetiva do homem. Não poderia ser melhor.

Três Anúncios para Um Crime

IMG_1427O alcance da visão de mundo e das relações sociais na pequena cidade de Ebbing, Missouri (EUA) possui aquela extensão tipicamente limitada dos grotões rurais / patriarcais / arcaicos dos interiores profundos de muitos países; ou dos sistemas hermeticamente fechados das sociedades distópicas de narrativas especulativas (cujos ecos ouvimos em “O Conto da Aia”, de Margareth Atwood).

E uma das qualidades de Três Anúncios para um Crime (“Three Bilboards Outside Ebbing, Missouri”, EUA, 2017, dir.: Martin McDonagh) é permitir que o chorume de tais visões e relações escorra por entre os desvãos de tais comunidades que, não obstante, se creem puras, preservadas, impermeáveis, higienizadas (o velho higienismo social). Sutil, esse chorume segue escorrendo até alcançar os pés descalços do espectador distraído.

IMG_1429Exemplo: na sala de cinema, alguns espectadores riem das falas e ações preconceituosas dos personagens do filme, especialmente as do policial Jason Dixon (Sam Rockwell); outros riem COM elas. O roteiro de McDonagh é pontuado com diversas pequenas tiradas de humor negro / politicamente incorreto, principalmente em relação a minorias: mulheres, negros, homossexuais, até mesmo pessoas com nanismo (o personagem interpretado por Peter Dinklage).

Isso provoca um desconforto no espectador consciente e alguma sensação de claustrofobia moral – comum em narrativas distópicas. Mas é importante lembrar que o filme não adere, irrestritamente, ao ponto de vista de personagem algum. É natural que que se reforce a mãe interpretada por Frances McDormand; no entanto, mesmo ela não deixará de fazer parte de uma zona ética cinzenta que, afinal, definirá toda a cidade.

IMG_1428Essa escolha já fez com que “Três Anúncios…” fosse criticado por setores mais progressistas, que exigiam que o longa tomasse postura mais, digamos, contundente em relação a personagens como o de Rockwell. Mas o filme de McDonagh não é, de maneira alguma, reacionário; tampouco adota o conservadorismo de um Clint Eastwood. É um bom western contemporâneo.

Está indicado a 7 Oscars: melhor filme, melhor atriz para Frances McDormand, melhor ator coadjuvante para Sam Rockwell e Woody Harrelson, melhor roteiro original, melhor edição e melhor trilha sonora original. Ganhou os Globos de Ouro de melhor filme dramático, melhor roteiro, melhor atriz (McDormand) e melhor ator coadjuvante (Rockwell). Estreou no Brasil esta quinta-feira, 15 de fevereiro.